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SETE ILHAS (versão inicial)

[ English version here: https://drive.google.com/file/d/0B2wUdZO0hJP9Q3g1VlVRQ2NYQ28/view ]

Scott Randall Paine

Introdução

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Kansas, uma ilha na pradaria

Ao se pensar em ilhas, o estado americano do Kansas não nos vem logo à mente. Contudo, há algo de insular no interior dos continentes, e o meio-oeste dos Estados Unidos, com toda a sua cordialidade e encanto, pode tornar-se um local de isolamento, especialmente para aqueles que cresceram lá – como eu – nos anos cinquenta e sessenta. Não duvido, sequer por um momento, que pessoas provenientes da Califórnia ou de Nova York também possam ser insulares, a despeito da ampla oferta de contato cosmopolita naqueles lugares. Talvez, até por causa disso. Às vezes, a própria densidade daquele contato pode levar as pessoas aos recantos provinciais de suas mentes, tanto quanto aconteceria com um caipira de Nebraska ou do Missouri. Os imponentes pórticos globais que se erguem nos litorais continentais podem permanecer tão fechados quanto as porteiras mais acanhadas do interior. Desse modo, os anos que passei sendo criado no Estado dos Girassóis fariam qualquer aventura internacional parecer uma improvável onda no meu destino.

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Sete ilhas, contudo, aparentemente acenaram-me já em meados dos anos setenta, e transformaram o meu solo natal em um trampolim que iria me lançar – após longas estadias na Europa e Ásia – para as regiões sul-americanas do Brasil. Essas sete ilhas (ou grupos de ilhas) servem como destaques entre minhas viagens mais longas e, de forma significativa e simbólica, conectam-se como uma guirlanda em volta do globo, começando no Pacífico-leste e seguindo rumo oeste até as Índias Orientais. São elas: as Ilhas Galápagos, Ilha de Páscoa, Terra do Fogo, Iona (na Escócia), Zanzibar (próxima à costa da Tanzânia), Sri Lanka (no Sul Asiático) e Bali (na Indonésia). Todas são pequenas, mas elas nos lembram que, de fato, toda extensão de terra em nosso planeta é pequena quando comparada aos oceanos. Mais de 70% da face da Terra cobre-se de águas; portanto, na verdade, até a Eurásia e África não passam de ilhas gigantes. Até mesmo o controverso ‘destino manifesto’ norte-americano – interpretando que seu território estaria destinado a ir ‘do Mar (Atlântico) ao Mar (Pacífico)’ –, em certo sentido envolve uma visão de sua privilegiada localização na terra como sendo uma grande e triunfante ilha.

Eu viajei quase demasiado para uma pessoa que de fato é muito caseira, e vi tanto do mundo quanto a maioria dos grandes aventureiros, e mais até do que alguns. É claro, eu ‘trapaceei’ ao voar sobre oceanos e continentes a 11.000 metros de altura – bem acima de onde a maioria dos exploradores enfrentou regularmente as perigosas ondas dos oceanos, ou desbravou montanhas e terras desertas. Tiro o meu chapéu a todos os viajantes dos séculos anteriores. Admiro especialmente aqueles que arriscaram tudo naqueles grandes navios de antigamente, que são uma beleza para os olhos, mas certamente uma tortura para os passageiros.

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Eu também saúdo os avós dos meus avós, que, nos dois lados de nossa família, viajaram em caravanas de carroças das regiões do Leste americano até o Kansas.

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Semelhante aos navios antigos, aquelas caravanas procediam como num desfile, mas também como os navios, afligiram os corpos das pessoas que conduziam. O povo de Kansas pode ser encarado facilmente como insular em sua atitude, porém os seus ancestrais eram todos peregrinos pelo simples fato de terem chegado lá. Eu me orgulho disso. Contudo, jamais sonhei, quando garoto, que as circunstâncias me levariam do Kansas até quase todos os cantos do mundo, o que de fato aconteceu. Reivindico pouco crédito por isso, pois as circunstâncias propícias simplesmente apareceram e me cercaram desde aproximadamente os meus vinte anos. Se há alguma coisa de que posso me orgulhar, é que eu era sempre rápido em aproveitar oportunidades quando elas se me apresentavam. Todavia, não posso atribuir-me o mérito das próprias oportunidades. Até porque um homem mais corajoso e nobre poderia ter feito delas um uso melhor do que eu.

Apesar de não ter visitado aquelas sete ilhas em qualquer tipo de ordem cronológica – tendo nelas pisado durante diferentes viagens nos últimos vinte e tantos anos – elas surgem agora em minha memória como marcos não apenas de importância geográfica, mas também de significância religiosa e filosófica. Cada ilha extraiu de minha mente um distinto leque de mensagens, e semeou uma discreta – porém, duradoura – meditação em meu coração. Ocorreu-me então que seria interessante – tanto para mim quanto para os outros – revisitar essas sete ilhas, rememorar os dias em que meus pés caminharam sobre elas, e refletir sobre as sete meditações geradas.

As sete ilhas são: 1. As Ilhas Galápagos, visitadas por Charles Darwin nos anos 1830s e por um padre-professor brasileiro-americano no ano de 2009. O que significa ser uma criatura viva e consciente? Para boa parte da resposta a esta pergunta, a contribuição de Darwin é apenas secundária. 2. Ilha de Páscoa, ‘descoberta’ por europeus em 1722, mas que encobre para todos nós o fato de que aqueles que (‘ainda’) não leram nem escreveram podiam ter sabido mais sobre a realidade do que jamais podemos imaginar. 3. Terra do Fogo, uma ilha na ponta sul das Américas, encarando as ondas dos dois maiores oceanos da Terra, e nos lembrando do milagre dos mares que nos circundam e sustentam, dando uma face azul à Terra, e fazendo dela incomparavelmente mais do que um ‘planeta’. 4. Iona, nas Hébridas, uma improvável rampa de lançamento para os primeiros missionários cristãos, intento de transformar todo aquele grupo que chamamos de Ilhas Britânicas num veículo futuro para o Evangelho e todos os seus loucos desafios, e berço de um idioma que se tornaria a lingua franca, permitindo que o Oriente, um belo dia, falasse com o Ocidente. 5. Zanzibar, uma ilha muçulmana no Oceano Índico, ao largo da costa da vasta e promissora África, e que serve de símbolo da onda comercial e monoteísta gerada pelo Islamismo no mundo medieval; isso continuaria mais tarde (na guerra e na paz) a mover a história mundial em ambos os lados do Oriente Médio. 6. Sri Lanka, a única ilha realmente budista no mundo, onde o dharma simplificado de Shakyamuni cresceria no Sul Asiático, Tibete e Ásia oriental, e finalmente encheria o mundo com um método surpreendentemente simples – mas com uma fecundidade talvez nem prevista pelo próprio Buda – para se obter algo chamado, obliqua e misteriosamente, de nirvana. 7. Bali, onde a tradição mais antiga da Índia – e talvez do mundo –, o Hinduísmo, deixaria um traço quase contra-intuitivo de seu vínculo com a humanidade primordial, e a beleza de uma sabedoria ainda não totalmente esquecida, e tudo isso em uma pequena ilha na Indonésia muçulmana. Minha reflexão conclusiva – à guisa de epílogo – é sobre os judeus e o seu papel catalítico em toda essa estória improvável.

(O texto será revisado, amplificado, corrigido e elaborado durante os meses seguintes, mas eu decidi liberar o material tão logo os textos adquiram algum grau de coerência, para aqueles que se interessem em reflexões ‘ao-ponto-para-mal-passadas’).

***

Sete Ilhas I – As Ilhas Galápagos: evolução e imaginação

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Galápagos Islands

No ano de 2009, bicentenário do nascimento de Charles Darwin, decidi seguir os passos do rapaz que – assim como eu, com uma constituição meio fraquinha – aventurou-se a circunavegar a América do Sul (aqui eu trapaceei; voei direto para Quito), e visitar um dos conjuntos de ilhas mais importantes do mundo, tanto do ponto de vista geológico quanto biológico. Eu queria respirar o ar, ver a paisagem, tocar as tartarugas e observar os tentilhões que semearam a grande ideia da evolução na mente daquele jovem e talentoso cientista. Ele fez sua viagem como naturalista de bordo em uma desconfortável missão de mapeamento, com amenidades mínimas para um inglês de classe privilegiada, provocando enjoos e outros males durante os cinco anos de jornada. Tiro o meu chapéu para a sua determinação, e para seu trabalho meticuloso como geólogo e zoólogo. Como grandes mentes são, com frequência, seguidas por gerações de mentes menos brilhantes, as quais distorcem e borram o trabalho do pensador pioneiro (seja na ciência, filosofia ou religião), vou inocentar Darwin das muitas idiotices que sua modesta teoria da seleção natural provocou, virando uma ideologia gigantesca, mexendo-se indevidamente em tantos aspectos do nosso patrimônio intelectual. É por conta dessas interpretações ideológicas que eu decidi considerar o tema da evolução em seu conjunto, no lugar mesmo em que ele foi gestado. Minhas considerações, para bem ou para mal, são as seguintes.

Jamais me senti, por pouco que seja, desafiado, preocupado, perturbado ou em apuros pelas sugestões darwinianas de que nossa espécie pode ter se desenvolvido ao longo de milhões de anos. Se dezenas de anos ou quatrilhões, nunca me deram razão para ficar nervoso. Teologicamente, tanto faz para mim. Mas, onde os darwinistas me parecem estar totalmente fora do mapa da sanidade é no uso daquela faculdade tão básica e comum, da qual a natureza humana é dotada – a imaginação. Quando os escuto comentando despreocupadamente sobre como todas as diversas espécies de nosso mundo surgiram a partir de pequenas mudanças genéticas por meio de uma série de mutações aleatórias – e que isso é tudo o que precisamos para dar conta do fantástico zoológico terrestre –, tenho impressão que nenhum deles jamais esteve face a face com um elefante indiano, ou um tucano brasileiro, ou uma borboleta mexicana, nem mesmo com um aborrecido mosquito tropical. Gostaria até de saber se eles já leram Esopo. Nenhuma disjunção na moderna mente cientificista a separa mais profunda e fatalmente da verdadeira sabedoria do que a que existe entre, por um lado, a questão ‘como?’, e as questões ‘o quê?’ e ‘por quê?’, por outro.

Isolando (ou estigmatizando como irrelevantes) as duas últimas questões – que tradicionalmente foram abarcadas pelas noções de causalidade formal e final –, a questão ‘como’ pôde ser destacada e, desse modo, emancipar todas as formas de manipulação, soberania técnica e domínio prometéico sobre a natureza (numa palavra, as causas eficientes); a natureza das coisas e seus fins últimos num plano providencial seriam doravante vistos como obstáculos ao nosso desenvolvimento de poder e controle – talvez passatempos líricos para poetas e místicos religiosos, mas dificilmente passíveis de consideração séria pela ciência. Agora, quando mentes habituadas a esse jeito oitocentista de ver a realidade, treinadas já em hábitos bicentenários de técnicas e perícias mecânicas, finalmente voltam suas luzinhas para o mundo da vida, descobrem que ali também há um ‘como’. Envolvidas com os fenômenos das espécies de plantas e animais de nosso mundo, e, claro, também com a nossa própria espécie, jazem processos e cadeias de causalidade que podemos também isolar e descrever. E, como na Física e na Química, a Biologia também apreendeu um monte de fatos sobre como a vida funciona e como ela consegue fazer o que faz. Mas, como também no caso das substâncias químicas e forças físicas, no que se refere aos organismos vivos, persiste-se no hábito de ignorar as naturezas e as finalidades, e de se prestar atenção apenas à mecânica do ‘como’.

Enquanto pisava de leve na rocha vulcânica em uma das Ilhas Galápagos, fiquei provavelmente tão impressionado como aquele grande naturalista inglês – lá pelos idos de 1830 – quando as pedras começaram a se mover. Claro, o que tinha acontecido foi apenas que eu notei a presença de alguns dos milhares de iguanas tão feios que povoam a ilha.

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Contudo, aqueles mini-Godzillas prontamente ofereceram seus serviços como símbolos daquilo que, com frequência, confunde a imaginação do adepto de um cientificismo reducionista. O que parece ser o minúsculo intervalo entre a matéria vivente e não vivente – entre a pedra e o iguana – torna-se realmente desprezível quando testemunhamos esses répteis preguiçosos e líticos baloiçando suas células vivas sobre inertes moléculas minerais. Contudo, somos contidos por nosso darwinista, quando ele timidamente levanta seu dedo e admite que, afinal de contas, a seleção natural não serve muito para explicar o abismo entre os mundos orgânico e inorgânico. Não que não haja esforços sendo feitos, mas quaisquer que sejam as conquistas atribuídas ao esquema evolucionista por estabelecer uma cadeia de espécies vivas num continuum de causalidade genética, uma explicação do salto quântico de uma molécula inorgânica para uma célula viva não está entre essas conquistas. Tampouco se saem melhor as explicações darwinianas acerca das diferenças mais impressionantes entre as espécies. Quando nos damos conta do quão dogmáticos se tornaram os defensores do evolucionismo, não se pode escapar à impressão de que algum sistema de crenças (fisicalismo ou naturalismo, por exemplo) está pesando aí, no lugar de uma ciência desinteressada. Parece que não mais se defende o evolucionismo como algo que simplesmente calhou de ser verdadeiro, mas com algo que tem de ser verdadeiro. Portanto, política do cientificismo pode acabar superando verdade científica, e ideologia ideias.

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Um dogma desse sistema é o seguinte: se podemos dar uma explicação plausível de como algo veio a existir, podemos então desvencilhar nossas mentes da incômoda questão sobre o que essa coisa é (ou seja, qual a sua natureza ou essência) e o seu porquê (ou seja, qual o seu propósito, sua finalidade, dentro de uma perspectiva mais abrangente). Estou sugerindo que, se, por um momento, pusermos de lado a questão sobre o ‘como’– ainda que apenas como um experimento de pensamento – e apenas observarmos, com um olhar aberto e desinteressado, girafas, orictéropos, borboletas, hipopótamos, cachorrinhos, águias, abutres, cascavéis etc., e dermos uma olhada em um homem chinês, um membro da tribo Iorubá, um escocês, um inca peruano, uma mulher nepalesa, uma menina aleuta etc. etc. – e ainda observarmos estes últimos por toda a miríade de culturas, línguas, artefatos, crenças e gestos da história humana –, então veremos um mundo de ‘o quês’ e ‘porquês’ dançando diante de nossos olhos. E aquelas naturezas e finalidades estarão incomensuravelmente mais elevadas e significativas do que a curiosidade pedestre contida na pergunta ‘como’. Não que esta questão seja desimportante, mas é obviamente subordinada e instrumental. Quando contemplamos uma grande pintura, ou ouvimos um primoroso quarteto de cordas, ou andamos por dentro de um grandioso edifício (imaginemos ‘A Criação de Adão’, de Michelangelo; ‘A Morte e a Donzela’, de Schubert,; e a Catedral de Chartres), podemos demonstrar um interesse passageiro no processo de feitura daquele artefato, porém, essa curiosidade sobre o ‘como isso veio parar aqui’ ou ‘como isso foi feito’ é totalmente eclipsada pelo aqui-e-agora da experiência da coisa.

Toda a arca de Noé, repleta de vida (à qual podemos acrescentar os peixes e as plantas), ruge, late, uiva, grita e assobia, como se quisesse nos dizer alguma coisa. E qualquer um que tenha olhado profundamente no pequeno olho de um elefante, ou na órbita larga da coruja mais próxima, saberá o que significam. Esses bichos estão nos exortando, com seus fonemas inquietantes, a usar nossas palavras para os nomear, assim como Adão fez no Gênesis, que “deu nomes a todos os rebanhos domésticos, às aves do céu e a todos os animais selvagens” (2,20).

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Não estou convencido de que a explicação darwiniana da vida é necessariamente errada, mas estou convencido de que ela tenta explicar a coisa errada, ou, pelos menos, de relevância secundária. Em outras palavras, enfocando a mecânica da seleção que, por seus próprios pressupostos, apenas atinge mudanças significativas num contexto de milhões de anos (o que a torna em larga medida irrelevante para o entendimento cotidiano das pessoas, dos gatos e dos pássaros), ela nos leva a perder de vista o grande contexto e uma mensagem tão óbvia que somente as crianças a vê; os adultos esqueceram. Aquela explicação é como alguém que contempla uma pintura de Rembrandt e pensa apenas em onde ele comprou a tinta, ou quem cortou a tela; ou alguém que escuta as ‘Quatro Estações’ de Vivaldi e se preocupa apenas em saber como os intervalos matemáticos entre as notas poderiam ser calculados no computador. Ou então – e mais inquietantemente – é como alguém que se senta diante de você e só o vê como um conjunto de bilhões de células, ou trilhões de moléculas, ou um turbilhão de incontáveis átomos e partículas subatômicas, sem ver a sua face, ouvir sua voz ou pronunciar o nome que seus pais certa vez deram ao pequeno milagre que emergiu das entranhas deles.

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Sete Ilhas II – Ilha da Páscoa

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… sobre os nossos progenitores iletrados e a sabedoria que jamais foi impressa…

Easter Island

Em 2010, percorri as duas ilhas seguintes do meu itinerário sul-americano, as quais passaram a representar em minha mente o mundo das culturas pré-letradas (não ‘analfabetas’!), a Ilha de Páscoa; e o vasto mundo de água que abrange cada lado da ilha argentina da Terra do Fogo. Em primeiro lugar, examinaremos aquele místico pedaço de terra no Pacífico, descoberto pelos europeus no Dia de Páscoa de 1722.

Quando pensamos nos cerca de seis mil idiomas falados na Terra hoje, e nas incontáveis línguas extintas não mais audíveis, deveríamos parar para pensar quando os linguistas nos dizem que a vasta maioria dessas línguas jamais foi escrita ou lida. Quando repetimos como papagaios o mantra progressivista que presume – cœteris paribus – que o mais recente é sempre o melhor, o mais evoluído e o mais sofisticado, será quase instinctual considerar a invenção da escrita (normalmente datada de cerca de 3.000 a.C.) como um grande avanço na civilização. E, em grande medida, estamos certos. McLuhan, Ong, Havelock, Goody e outros mostraram o quão profundo foi o efeito da linguagem escrita no pensamento, memória e imaginação humanas, e na cultura em geral. E muito desse efeito foi benéfico. Contudo, muito antes o grande Platão – que, diga-se en passant, escreveu bem e muito – lançou a sugestão paradoxal de que talvez os deuses tenham nos ensinado a escrita, não para o avanço de nossa cultura, mas para a destruição das nossas memórias. Poderia ter sido a escrita um presente de grego? Como frequente em Platão, trata-se antes de mais nada de um experimento de pensamento, mas, assim como muitos outros em seus diálogos, deve provocar-nos uma genuína experiência em nosso pensar que seja tanto frutífera quanto esclarecedora.

Certa vez encontrei um cristão octogenário na Índia que havia alegadamente memorizado todo o Novo Testamento em Malaiala (língua do estado de Kerala). Disseram-me que toda vez que se publicava uma nova edição do texto, esta era levada ao velhinho, a fim de que o texto escrito fosse checado com a memória oral dele, sendo esta supostamente mais confiável do que o texto. E lemos que antropólogos descobriram habitantes das montanhas do Cáucaso, onde poetas recitam de cor épicos tão longos quanto os de Homero; ou sacerdotes Iorubás que memorizam centenas de estrofes de poesia como parte de sua consagração. Certa vez, eu escutei por acaso uma freira portuguesa, simples e semi-analfabeta, cantando na cozinha, e descobri depois que ela havia cantado mais de trinta versos de uma canção, e podia fazer o mesmo com dezenas de outras. Duvido que eu conseguisse passar da segunda estrofe do ‘Hino de Batalha da República’, ou até de ‘Yesterday’ sem alguma ajuda. Mas, é claro que eu sou letrado! Ou será que me falta alguma coisa?

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A Ilha de Páscoa situa-se a mais de mil quinhentos quilômetros de distância da próxima ilha habitada. Foi o lar de uma das miríades de tribos e clãs que povoaram a Terra durante provavelmente dezenas ou centenas de milhares de anos, e que ou não tinham qualquer escrita, ou – como é o caso a Ilha de Páscoa – podem ter tido uma forma básica de escrita limitada a um restrito círculo de líderes e sacerdotes. Ainda há um incontável número de tais tribos espalhadas pelo globo, inclusive centenas de descendentes da população nativa da Ilha de Páscoa (agora cristianizada). Arqueólogos e antropólogos – às vezes, suplementados por sociólogos, psicólogos, linguistas e historiadores – estudam essas populações e nos fornecem montanhas de dados e mais montanhas de teorias acerca do modo como esses nossos semelhantes vivem e pensam. Dado que esses povos não nos deixaram documentos escritos apreciáveis, devemos inferir grande parte do que se pode conhecer acerca daqueles povos a partir de artefatos e, para aqueles que ainda sobrevivem, da sua cultura oral (na medida em que possamos confiavelmente traduzi-la). E entre as muitas perguntas passíveis de serem respondidas de um modo ou de outro, há uma que todos responderão em uníssono: eles são religiosos? Com toda certeza.

Com pouquíssimas exceções, essas culturas – a despeito da cor de sua pele, estilo de sua roupa, singularidade fonética de sua língua ou localização no globo – não abrigam qualquer dúvida de que existam forças e realidades (frequentemente de caráter pessoal) acima e além da raça humana e, consequentemente, praticam ritos herdados de um passado distante, pelos quais negociam sua relação com essas realidades. Tribos expressamente ateias ou céticas são difíceis de encontrar, seja na história, seja ao redor do mundo. Os ateus e céticos de hoje – para quem dificilmente falta uma expressão de menosprezo aos ‘crentes ignorantes’ – identificam rapidamente essa pan-religiosidade antiga como um forte indício do caráter primitivo e quase pré-humano do pensamento desse homem primordial e, consequentemente, como um sinal de atraso e falta de esclarecimento científico dos antigos.

Quando eu era garoto, a cultura dos desenhos animados levou-me a crer que aquele ‘homem primitivo’ era um homem-das-cavernas bruto e tapado, grunhindo ordens a sua mulher e, que batia na cabeça dela com uma clava antes de arrasta-la para a caverna, a fim de realizar propósitos domésticos que só Deus sabia. Em contraste, os Flintstones eram apresentados como um voo de alta fantasia, engraçado justamente porque impossível.

cavemanfredfOra, isso foi nos anos 1950 e 1960, e a moderna arqueologia e antropologia há muito já tinham derrubado o mito do homem-da-caverna desmiolado; e – o mais importante – quando as cavernas de nossos ancestrais distantes foram realmente examinadas a sério, o que se achou não foram vestígios horripilantes de uma inominável selvageria, mas pinturas e esboços reveladores de um nível de habilidade artística e até insights místicos, que Fred Flintstone teria achado desafiantes, para dizer o mínimo. Até Picasso ficou impressionado!

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Os Rapa Nui originais (como os habitantes da Ilha de Páscoa tornaram-se conhecidos) dedicaram grande quantidade de sua energia e tempo trabalhando as rochas vulcânicas de sua ilha para construir enormes moai (estátuas monumentais). Elas estavam aparentemente alinhadas em pontos estratégicos da ilha, com suas faces gigantescas e estilizadas voltadas todas para o interior da ilha. Uma vez que algum tipo de catástrofe ambiental, adicionada à ação de uma cultura posterior ao período dos moai, interpõe-se entre nós e a população original de mil anos atrás (novamente, sem documentos escritos), não nos resta muito a fazer além de contemplar seus rostos colossais e imaginar o que eles estariam contemplando.

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Os cerca de 900 moai que podemos identificar hoje geram uma série de interpretações – de simples ícones de ancestrais remotos olhando por seus descendentes, até invasores extraterrestres –, mas seus olhares dirigidos simultaneamente para o interior e para cima encaixam-se perfeitamente no entendimento tradicional de um mundo espiritual que está tanto dentro de nós quanto acima de nós. Os Rapa Nui talvez não sejam aqueles primitivos, supersticiosos e incultos, que não evoluíram o suficiente para escrever (tal como sugere a nossa narrativa moderna). Ao contrário, pode ser que foi simplesmente um dos milhares de povos pré-letrados, tão cheios de uma sabedoria antiga, que nada, além daqueles gestos prodigiosamente esculpidos, poderia indicar, sequer remotamente, o tamanho e a profundidade de tudo que conheciam.

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Obviamente, os pré-letrados aparecem – assim como nós também – em todas as variedades, dos mais altamente cultivados aos mais atrasados e brutais. Não pretendo romantiza-los em massa. Mas, há abundantes sinais de uma sapiência primordial e não escrita em sua arte e linguagem, que nos impedem de simplesmente descarta-los como um bando de analfabetos simplórios. E até mesmo os nossos cientistas sociais estão talvez sugerindo mais do que pensam quando criam categorias para descrever aqueles povos. Eles os chamam de ‘animistas’; e de fato, esses povos lançam olhares para além e através do mundo da matéria, em direção a seus arquétipos transcendentais, e pensavam que tudo está – como disse Tales – ‘cheio de deuses’. Chamavam seus sacerdotes de ‘xamãs’; e de fato, esses mediadores serviam realmente para guiar os outros para a dimensão transcendente no interior do seu coração, mas que precisa da administração de uns poucos para ser mantida viva. E eles ressaltam a prática virtualmente universal da veneração aos ancestrais; e, de fato, os mortos estão mortos apenas para o mundo que vemos com os olhos carnais, mas continuam a viver, acima e adentro, pelos tempos que se seguem à sua morte corporal.

Como frequentemente acontece com tribos remotas do mundo, foram os missionários cristãos que não apenas as contataram em primeiro lugar, mas as estudaram e documentaram sua história e cultura. Não foi diferente na Ilha de Páscoa. O capuchinho Sebastian Englert viveu por 30 anos na ilha, aprendeu e ensinou a sua língua tradicional e preservou sua herança cultural, tudo isso enquanto lhe levava o Evangelho. Como qualquer missionário deveria fazer, ele tentou mostrar-lhes que o Cristianismo cumpria e coroava suas crenças nativas, e mesmo quando as corrigia e orientava, não as suprimia. Há de fato deuses em todas as coisas (chamamo-los de anjos); nós precisamos, sim, de mediadores para fortalecer nossas ligações precárias com o Céu; e, finalmente, nossos ancestrais estão mesmo conosco, olhando para cima e olhando para dentro. E, muito em breve, nós mesmos seremos ancestrais, enquanto nos juntarmos àqueles que se morreram antes de nós. Então olharemos não apenas para dentro e para cima, mas também para trás ao nosso tempo passado na Terra, visto, nessa altura, como um ensaio confuso e aproximativo daquilo que nos aguarda na Terra dos Viventes.

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Pe. Sebastian Englert

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Sete Ilhas III : Terra do Fogo

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Nosso lar não é um planeta

…. os oceanos, o que significam, mas jamais podem dizer…

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Em algum momento do século XX os astrônomos nos disseram para parar de chamar a Terra de nosso lar especial, nosso único lugar no espaço, nosso paradeiro central na vastidão do cosmos, e de começar a chama-la de um planeta – o artigo indefinido é obrigatório. Para conhecer cientificamente aquilo em que vivemos, aquilo que nos provê de oxigênio, oceanos, montanhas, continentes e tudo o mais, fomos instruídos desde então a colocar a própria ideia de nosso ‘mundo’ em um novo gênero próximo, jogando assim todo esse globo azul na nova categoria científica de ‘planeta’ – da qual ele é, claro, apenas um entre (mais ou menos) oito. O problema, contudo, é este: a diferença mais do que óbvia entre a Terra e qualquer dos outros corpos que circundam o sol é uma diferença a qual estamos sendo induzidos a entender como uma mera gradação. Referência especial é feita ao Marte, um globo comparável – dizem – ao nosso. De modo semelhante, fomos instruídos por Carl Sagan, décadas atrás, a voltar nossos ouvidos para o vazio escuro do espaço sideral, na certeza de que logo – ele achava que em questão de alguns anos – ouviríamos saudações de habitantes de outros planetas comparáveis – habitantes que, afinal de contas, simplesmente têm de estar lá, esperando ansiosamente por um ‘oi’ nosso.

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É claro, porém, que até hoje (2017), não ouvimos nem um pio! Mas, algo que eu estou ouvindo em tudo isso é o refrão de uma música tipicamente moderna, com os seguintes versículos:  a Terra é apenas um planeta como tantos outros; o ser humano é apenas um animal entre tantos outros; Cristo, apenas um sábio dentre tantos outros; e – mais recentemente –  o homem é apenas uma mulher com testículos, e uma mulher só um homem com útero; etc…. Eu vejo um padrão aqui, um padrão mais forjado pela ideologia do que descoberto pela ciência.

Quando eu fazia meu tour turístico pelo Estreito de Magalhães, no extremo sul da Terra do Fogo – com o frio e agitado Atlântico a Leste e o relativamente calmo Pacífico a Oeste –, senti-me estranhamente atordoado pelos oceanos de nosso mundo; eles me impressionaram ainda mais do que quando voei tantas vezes sobre suas vastidões aparentemente sem fim quando viajei entre os continentes. Oceanos são obviamente estupendos e sem-par. E, apesar disso, analisamos febrilmente amostras de Marte, esperando encontrar gotículas de água ou cristais de gelo, para orgulhosamente humilhar o status cinco-estrelas da Terra e apontar para outros comparáveis sistemas portadores de vida no espaço. Queremos que a diferença seja apenas uma questão de grau, e não de espécie. E claro, somos interminavelmente doutrinados pelos darwinianos sobre o quão pequena é a diferença entre o homem e os animais, e pelos estudiosos das religiões comparadas a respeito do quão ilusória é a diferença entre o Cristianismo e outros sistemas de crenças religiosas. Em nossa ânsia de quantificar tudo, diferenças que costumam a ser qualitativamente momentosas tornaram-se quantitativamente matemáticas; coisas que costumavam a ser bem diferentes tornaram-se mais ou menos a mesma coisa, diferindo apenas em grau. Medidas de quantidade aos poucos substituíram percepções de qualidade, e com o tempo, perdemos a percepção mesmo. William Blake nos advertiu, ainda no século XIX: “Our life’s dim windows of the soul / distort the heavens, pole to pole / and lead us to believe a lie / when we see with, not through the eye.” [As esmorecentes janelas de nossa alma / embaçam o céu de pólo ao pólo / levando-nos a crer numa mentira / quando olhamos com, e não através dos olhos].

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Curiosamente, desde que Galileu detectou a relatividade no movimento local e mecânico, e depois disso, Einstein o fez em termos eletromagnéticos, temos ouvido, quase ao ponto de machucar nossos ouvidos, que um ponto de vista absoluto simplesmente não existe (especialmente nenhum dos tradicionais); mas, na mesma toada, e sem pestanejar, os mesmos cientistas nos empurram uma nova versão de um ponto de vista absoluto. Dizem-nos para treinar nossas mentes para dissociar nossa Terra de qualquer noção de centralidade, e assumir o supostamente desinteressado e abstrato ponto de vista de algum remoto lugar no espaço, de onde podemos enxergar nosso mundo, de cima para baixo, e com ele o sistema solar e até mesmo a nossa galáxia. Isso seria, supostamente, ver as coisas como elas são, ao passo que olhar do meu quintal para o céu e observar o sol, a lua, os planetas e as estrelas seguindo seus cursos pela abóbada celeste seria errôneo, enganoso, ilusório ou – para despejar ácido na ferida – medieval.

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Caipiras como eu poderiam objetar que, mesmo que pudéssemos levar nossas vidas sem um ponto de vista absoluto (algo de antemão problemático), ainda assim teríamos de ter um ponto de vista, ao menos se esperássemos avistar alguma coisa. E a Terra não se apresenta simplesmente como qualquer outra perspectiva na lista das possibilidades, mas vem com uma avalanche de óbvias vantagens, começando com o fato óbvio de que calhamos de viver aqui. E além disso, outro mega-fato é a existência dos oceanos.

Nos últimos anos, tenho tido o privilégio de possuir um pequeno apartamento de frente para o mar no Nordeste brasileiro, e agora frequento o meu mirante no 18º andar do prédio sempre que eu puder. Passo quase nenhum tempo na praia, mas passo horas por fim sentado em minha sacada contemplando a água. Edmund Burke e Immanuel Kant ensinaram-nos a buscar por uma palavra mais potente do que ‘beleza’ quando em presença de tal magnitude imensa e ultra-poderosa. Dizer que o oceano é belo não é falso, mas é um pouco flácido, pois ele é – os modernos sábios no-lo asseguram – invencivelmente, desafiadoramente e imensuravelmente sublime.

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Contudo, ainda há um acorde menor a juntar à minha sinfonia marítima. Certa vez, conversei na praia com um jovem nordestino que havia passado sua vida perto da costa do Atlântico, e eu (do Kansas, lembra-se?) expressei-lhe todo o meu entusiasmo sobre as glórias e belezas do mar. Ele – que conhecia aquelas águas muito melhor do que eu – olhou brevemente por sobre as ondas para o amplo horizonte daquela massa fria e salgada de H2O e, nada comovido com as minhas rapsódias, protestou: “Sabe, o mar me dá medo.”

Não muito depois disso, topei por acaso com os corpos de dois adolescentes que haviam acabado de se afogar (estavam cobertos com panos e cercados de curiosos); eles estavam jogando futebol na areia, como fazem milhares de garotos todos os dias, e a bola foi lançada para as ondas do mar. Um dos rapazes mergulhou para recuperá-la, foi tragado por um forte redemoinho, no que foi seguido por outro garoto que pulou n’água para salvar o seu amigo – e assim o jogo terminou. Realmente, o mar é assustador.

Mas voltemos para a Terra do Fogo. Quando olhei o Estreito de Magalhães, admirando novamente seu charme estético e tentando lembrar um poema que desse voz ao meu arroubo romântico, nosso guia secamente contou que mais ou menos 3.000 embarcações, com suas tripulações e cargas, jazem no fundo daquele estreito – tão intensas são as águas onde o Atlântico e o Pacífico se abraçam apaixonada e violentamente.

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É sublime e maravilhoso; é incompreensível e abriga um mistério mais profundo do que seus abismos lá embaixo. O oceano mundial circunda nossos orgulhosos continentes, humilhando-os e os reduzindo ao status de ilhas, umedece nosso ar, alimenta-nos com suas criaturas, carrega-nos por todo o globo e é um formidável e singular símbolo do Criador que o pôs lá onde está. Ainda assim, até hoje menos de 5% do leito oceânico foi explorado ou mapeado, e os biólogos marinhos nos asseguram que, desde milhões de anos, nadam por lá formas de vida ainda por serem identificadas. E é também perigoso, com seus tufões e tsunamis aparecendo tanto quanto as paisagens marinhas de tirar o fôlego e as praias tranquilas. E toda essa água – sem a qual nem existiríamos – é o grande segredo, o grande mistério de nossa casa, a Terra.

Porém, chama-la de ‘planeta’ é fazer-lhe uma grande injustiça. Claro, é interessante e astrofisicamente revelador saber que nosso mundo circunda o sol junto com todos os planetas, e que podemos aprender muito a partir dessa perspectiva extra-terrestre. Mas, será que é razoável interpretar esse novo ponto de vista (o qual temos pelo menos desde Copérnico, e de fato – como uma possível teoria – aventado já pelos antigos gregos), como significando que nossos olhos nos mentem quando olhamos a maravilha de uma abóbada celeste estrelada, ou que somos enganados pelo horizonte quando pensamos que o sol realmente se levanta ou, na direção contrária, que ele se põe? Não, nossa perspectiva de senso comum é acurada, e tão verdadeira – e eu diria até, mais verdadeira! – do que os cálculos cerebrais sobre como as coisas pareceriam a um imaginado observador interestelar.

A Terra é uma singularidade enorme e irredutível, e aqueles que tentam provar o contrário não fazem mais do que revelar a pobreza de sua imaginação poética e o caráter ideológico de sua suposta ciência. São como aqueles que chamam o diamante de uma pedra qualquer; Dante, um cara que escreveu poemas; o ouro, uma substância a mais na tabela periódica; suas mães, mamíferos; o Monte Everest, um simples promontório; Bach, um tocador de órgão – tudo verdadeiro, e tudo irrelevante. Assim é com a Terra. Ela é um milagre; seus oceanos, uma maravilha estupenda e deslumbrante; suas montanhas, espantosas: seus rios, furiosos. Recorremos aqui à poesia não porque somos muito estúpidos para entender a ciência, mas porque a ciência é muito pedante para a imensidão do prodígio que nos confronta todo santo dia.

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Sete Ilhas IV: Iona, a Última Thule – e Cristo

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Cristianismo, a religião menos conhecida no mundo…

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Eu tinha de pegar ônibus, barcos e barcaças para chegar à pequena ilha de Iona, a leste das terras da Escócia, nas Hébridas Interiores. Pode não parecer o ponto de vista mais óbvia para se considerar o Cristianismo, mas, quando se reflete sobre o seu papel na evangelização das Ilhas Britânicas e no que estas enfim significariam para a história – tanto levando o Evangelho para o mundo como um todo (junto com outros aventureiros e missionários europeus), quanto ligando o Oriente ao Ocidente (especialmente por meio do Raj Britânico na Índia) – talvez não haja qualquer outra pequena ilha que se possa vangloriar de um impacto tão grande na crescente catolicidade do Cristianismo. Seja verdadeiro ou falso, o Cristianismo fala ao mundo todo, e Iona – a despeito de sua pequenez (ou talvez por causa dela)– é uma testemunha capital disso. As reivindicações de Cristo estão globalmente certas ou globalmente erradas. Não há meio termo.

Para começar nossas reflexões – tendo em mente o que aprendemos das outras ilhas – ouçamos a voz africana mais ressonante, reverenciada tanto por protestantes quanto por católicos, naquilo que ela tem a dizer sobre a universalidade dessa ‘notícia bomba’ que chegou do Oriente Médio. Estou falando, é claro, de Santo Agostinho de Hipona.

“O que hoje se chama religião cristã existiu até mesmo entre os antigos e não estava ausente desde o começo da raça humana até ‘Cristo ter-se feito carne’. Desde aquele tempo, a verdadeira religião, que já existia, começou a se chamar cristã”. Esta surpreendente proclamação (no décimo-segundo livro de seu último trabalho, Retractationes) simplesmente salienta o patente fato bíblico de que o Logos, o Verbo, por meio do qual o mundo foi feito (Gênesis 1) é o mesmíssimo Verbo que os cristãos creem ter se tornado homem em Cristo; e dado que os buscadores da sabedoria – e de sua irmã gêmea, a santidade –, desde tempos imemoriais, buscaram a causa e o significado do mundo e de nosso lugar nele, eles já estavam lidando e refletindo profundamente sobre o Verbo pre-encarnado. Os iguana dos Galápagos, o Rapa Nui da Ilha de Páscoa, e os dois grandes oceanos que se encontram na Terra do Fogo vieram a ser por meio do Verbo.

O primeiro capítulo do Gênesis é aprofundado e desenvolvido, não substituído nem rebaixado, pelo primeiro capítulo de João. Criação e re-criação emergem do mesmo Princípio, que é ao mesmo tempo o Verbo eterno para sempre falado pelo Pai no Espírito, e – filosoficamente – o locus idearum do grande Platão. É a fonte da Inteligência que está além e dentro do cosmos físico à nossa volta – cuja inteligibilidade é sua característica mais ‘miraculosa’, segundo Einstein – e simplesmente, para colocar um ponto final nessa história, é o Último Sentido de Tudo.

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A primeira conversão documentada de um filósofo reconhecido foi a do santo do século II, Justino, o Mártir. Após seu batismo, ele optou por usar a toga distintiva dos filósofos – tão reconhecida naquela época quanto hoje em dia é a toga de um juiz ou a farda de um policial – e proclamou o Evangelho como o cumprimento, a realização e a almejada consumação da Filosofia. Em seu Diálogo, ele conta como percorreu toda a gama de explicações filosóficas da realidade. Após descartar os epicuristas, ele passou dos estoicos aos peripatéticos, destes aos pitagóricos e finalmente aos platônicos; apenas com estes, ele pôde discernir uma abordagem plausível aos ecos transcendentes do Logos em todo espanto filosófico. Dos estoicos, contudo, ele toma emprestada a noção-chave de logoi spermatikoi (‘razões seminais’) e costumava a caracteriza-la como a verdade do Logos, por meio do qual todas as coisas foram feitas, que está presente como uma semente na razão humana. O Logos constitui um apelo ascendente de nossa natureza para uma Transcendência não-encarnada – a fonte de toda busca humana por sabedoria e libertação. Mas, então acontece a surpresa abaladora da última descoberta (na ‘plenitude dos tempos’) de uma Transcendência descendente e encarnada; nesse tempo, não somos nós, mas é a própria Transcendência quem faz o apelo.

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Para São Justino, a filosofia de Platão jamais foi para valer um meio convincente de se atingir a verdade. Parecia-lhe para sempre limitada a ascensões dialéticas menores, sem qualquer ajuda perceptível do alto. Então, certo dia, ele encontrou um velho na praia que lhe falou de outra fonte de verdade, chamada de profecia, e lhe narrou a estória dos profetas do Antigo Testamento e a dos Evangelhos do Novo Testamento, como cumprimento das profecias. Aqui estava uma Verdade que nos buscava a nós, ao invés de uma verdade que, aos trancos e barrancos, era perseguida por nós. Ao invés de ouvi-la antes de tudo como uma mensagem ‘religiosa’ associada a templos e oráculos, Justino percebe o tom inconfundível das lições do Logos que já havia estudado como filósofo. “O que hoje se chama a Religião Cristã” era para ele, como seria mais tarde para Santo Agostinho, não apenas uma religião, mas também a filosofia verdadeira.

Tanto foi assim, que os filósofos antigos deveriam a partir de então ser chamados de cristãos avant la lettre (como exemplos, ele chamou tanto Heráclito quanto Sócrates, sem rodeios, de cristãos). Por outro lado, aqueles que estavam de posse de toda a revelação em Cristo – e esta, com efeito, é a sugestão mais revolucionária – deveriam, por isso, ser vistos como filósofos por excelência. Essa ideia seria difícil de engolir tanto para os teólogos da ‘crise’ – ansiosos para defender a originalidade totalmente inédita da mensagem evangélica – quanto para os teólogos mais conservadores, preocupados em traçar uma única linha diretamente do Velho Testamento até Cristo, reconhecendo nas outras tradições apenas vagas e confusas aproximações. Como sempre, a verdade situa-se numa rica e multifacetada região intermediária, jamais nas soluções barulhentas e simplistas que tipicamente vêm dos galopes impacientes dos progressistas, tampouco nas posições engessadas dos ‘tradicionalistas’.

Ora, foi na ilha de Iona que os primeiros monges celtas não apenas pregaram as Boas-Novas; eles também deram transparência visual ao Verbo – tão evidente nas maravilhas do cosmos físico – nas palavras mesmas da mensagem escrita do Verbo, por intermédio da página iluminada. Assim, criaram um dos livros mais sublimes jamais confeccionados. Mais tarde, recebeu o nome de ‘Livro de Kells’, após o monastério irlandês para onde o tesouro foi retirado, após os Vikings terem saqueado a Escócia em fins do século VIII.

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Tudo isso sugere a expressão tradicional do Logos ’em dois volumes’. Refiro-me aqui não aos dois Testamentos – que, apesar de serem uma verdadeira biblioteca de textos e gêneros literários, perfazem uma única grande estória do Gênesis ao Apocalipse –, mas aos dois livros que, de acordo com os primeiros Padres, foram escritos pelo Autor Divino: sim, a própria Bíblia, escrita em palavras, mas também a vasta criação material, escrita em coisas. A Teologia pode ler o primeiro livro, e a Filosofia o outro, mas ambos pertencem juntos, assim como a presença do Verbo no tempo e no espaço (como sua origem e significado) complementa e comenta a descida do Verbo aos mesmos tempo e espaço da narrativa bíblica. Esta é a ‘essência’ do Cristianismo (sem qualquer apologia a Feuerbach).

Quanto mais se aprecia a singularidade de Cristo, menos se é tentado – paradoxalmente – a taxar as outras religiões de falsidades ou confusões, precisamente porque elas também buscam o Logos – ainda não encarnado – mas o abordam de modos diferentes, até incomensuráveis. A diferença é esta: o Cristianismo não oferece apenas um líder a ser seguido, um exemplo a ser emulado ou uma doutrina a ser aprendida (ainda que faça tudo isso também), mas acima de tudo um evento a ser reconhecido. Pede-nos não a apropriação de uma sabedoria perene que vem do alvorecer da história, nem para aprendermos a pacificar nossas mentes em face ao inevitável fluxo do samsara, nem para alinhar nossos pensamentos e ações de acordo com o grande tao que abarca todas as coisas, nem mesmo para obedecer a lei de Deus na Torá, tampouco para submetermo-nos à sua paz no Corão. Todos esses atos religiosos são louváveis e um bom cristão faria bem em se apropriar deles todos. Mas, nenhum deles faz de você um cristão.

Você se torna cristão apenas ao receber o testemunho daqueles homens e mulheres que viveram o maior deslumbramento em toda a história. Foi transmitido por essas pessoas a estória da invasão de Deus em nosso mundo, nas próprias fibras da humanidade que carregamos e por meio das quais sofremos. Contaram-nos que as coisas mais horríveis que nos assombram – violência, desespero, doença e morte – foram recolhidas e transformadas no coração do próprio Deus. Essas coisas ainda nos machucam e assombram, porém, agora há sentido onde antes só havia resignação. Cristo não é apenas mais um mensageiro, um sábio, um exemplo ao qual somos convocados a seguir ou ouvir. Ele é o lugar em nossa humanidade onde o Deus Transcendente mergulhou totalmente em nossas vidas e em nossa dor, mostrando-nos, em troca, o caminho para penetrarmos totalmente no mistério de Deus.

Os missionários também foram até ao fim – até a Ultima Thule (o fim do mundo, como as Ilhas Britânicas às vezes eram chamadas pelos antigos romanos) –, e em Iona, assim como em incontáveis outros lugares pelo mundo afora, contaram a estória, levaram os sacramentos e mudaram o mundo. Para um cristão, algo aconteceu à toda a realidade criada quando Cristo aconteceu ao mundo. Essa ilha está a meio caminho na minha viagem pelas Sete Ilhas, mas o milagre que foi anunciado lá está no centro de minha vida.

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Sete Ilhas V : Zanzibar e o Islã

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O “a.C.” dentro do “d.C”

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Meus ouvidos se entupiram de poeira após a visita, em Tanzânia, ao Serengueti, a cratera de Ngorongoro, e depois uma perseguição selvagem em busca de um remoto lugar com primitivas pinturas rupestres (uma de minhas paixões), o pequeno avião aterrissou no aeroporto de Zanzibar, com minha cabeça estourando de dor. Ao taxiarmos em direção ao minúsculo terminal, a dor de cabeça diminuiu e eu espiei pela janela a fim de dar uma primeira olhada na fabulosa ilha de Zanzibar.

Eu já havia visitado várias regiões muçulmanas antes. Certa vez, viajei de trem do Tânger a Fez, no Marrocos, e me surpreendi quando o garoto que dividia o compartimento comigo bebeu de minha garrafa d’água enquanto eu dormia. A princípio, fiquei irritado, mas depois aprendi que não há motivo para se irritar com isso no mundo do deserto. Eu também fiz longas visitas ao Egito, Líbano, Síria e Jordânia – e, um ano depois, Bósnia-Herzegovina e Indonésia – e comecei a sentir todo o impacto de uma cultura em que chamadas à oração, inspiradas por passagens do Corão (em Árabe, ‘recitação’), são publicamente entoadas de minaretes cinco vezes por dia. Alguém que já tenha ouvido esse som jamais o esquecerá, e aqueles que entendem a língua dirão que a sua beleza poética mesmerizante é pelo menos tão importante quanto a sua mensagem (em parte, talvez porque ela é a sua própria mensagem). Quando desfrutamos da famosa hospitalidade árabe, deixamo-nos absorver pela profunda paz nas onipresentes mesquitas, e estudamos – o que para mim é um requisito profissional – em torno do meio milênio de filosofia e ciência muçulmanas (sendo estas apenas uma parte da herança islâmica), é difícil ver o terrorismo recente como a face principal da religião do Profeta.

Cada uma das grandes religiões sustenta uma certa alegação de ser a definitiva, com uma ou outra versão de singularidade e eleição que deixaria incoerente a ideia de uma pur e simples igualdade entre as tradições. Os hindus podem apontar à sua inédita antiguidade e seu dom de assimilação virtualmente ilimitado; os budistas apelariam à sua convicção de que O Iluminado tenha descoberto o método definitivo para sintonizar a consciência humana à verdade; os taoistas, àquilo que lhes pareceria óbvio em seu método para alinhar os múltiplos caminhos humanos a um único Caminho do Céu; os judeus, ao irrevogável e exclusivo chamado de seu povo ao plano divino ainda em execução; os muçulmanos, a uma finalidade inseparavelmente ligada ao último e consumado dos Profetas reconhecidos; e, finalmente, os cristãos, a um Evento sem qualquer paralelo real no tempo ou no espaço, sendo Cristo, para eles, o verdadeiro dobradiço da história. Denominadores comuns de natureza mítica, metafísica, moral e mística encontram-se em todas as grandes tradições, e sem dúvida nos convidam a comparar as diversas ênfases nos valores e verdades perenes. Contudo, ainda que nos encorajem a um entendimento ecumênico e inter-religioso, as diferenças supramencionadas, conquanto poucas, são inegavelmente cruciais e, para dizer o mínimo, desafiadoras.

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Cada um desses seis símbolos poderia facilmente desviar-se para o centro de um sistema solar, com os outros cinco o orbitando de modo dependente e subserviente. O mais desafiador num entendimento inter-religioso não é identificar e regozijar-se com as abundantes verdades e valores compartilhados. Antes, trata-se de colocar as profundas diferenças num contexto que lhes permita manter suas ênfases, sem acarretar um desprezo pelas outras reivindicações, ou então – pior ainda – uma jihad militar, uma cruzada armada, ou genocídio como implementações decorrentes de sua alegação de exclusividade. Dado que a maioria dos adeptos das religiões mundiais participa de suas tradições herdadas mais por costume e cultura do que por uma convicção ponderada, a incessante confrontação entre as tradições no mundo globalizado exigirá que cada uma ostente os seus maiores santos, seus argumentos mais poderosos e suas belezas mais transcendentes – mesmo se seja só para ganhar a atenção de todos. A única testemunha verdadeiramente convincente de unicidade ou primazia seria dar evidência de um modo de ser, e de um esplendor, unicamente convincentes. Qualquer coisa fora disso se encaixará apenas dentro daquela obsessão ego-cêntrica de que todos nós padecemos: a de sempre querermos estar ‘certos’.

Contrariamente à crença popular de que o fundamentalismo seja um simples retorno aos ‘fundamentos’, uma reversão conservadora às raízes, ele é na verdade um movimento conspícuo e vocal de tempos bem recentes que enfatiza o literalismo na exegese das Escrituras, o exclusivismo doutrinal e, com frequência, a militância na prática; como tal, trata-se de uma maneira bem moderna de se viver uma religião. Encontramos versões hindus e cristãs disso, assim como islâmicas – e até um espécime budista de vez em quando – mas todas são, na verdade, o resultado de religiões muito velhas lidando com ameaças muito modernas (O hindutva, por exemplo, confrontando-se com as modernas incursões coloniais na Índia, ou os cristãos reagindo a um cientismo secularizante, que começou só no século XIX). Certamente, o Islamismo não tem o monopólio desse desvio, mas tem sim circunstâncias mais agressivas e opressoras: a decadência política e cultural decorrente do esfacelamento do Império Otomano após a Grande Guerra e a divisão arbitrária de seu território em ‘Estados-Nações’ concebidos à maneira ocidental (cortando ao meio muitas terras tribais, e juntando à força tribos inimigas), espalhando intriga nas fortunas do mundo antigo da Pérsia (Irã) e suas ligações com a Rússia, e o vício do Ocidente (que se espalhou pelo mundo) pelo transporte de alta velocidade e pelo petróleo que o alimenta (com largos oceanos desse produto descobertos sob os pés muçulmanos).

Tudo isso provocou leituras descontextualizadas dos versos mais militantes do Corão, fatalmente casadas com uma apropriação das mais letais e sinistras tecnologias portáteis da morte do Ocidente. Assim, os extremistas muçulmanos procuram atingir o Golias do Ocidente com suas pedras furtivas, esperando derrubá-lo. Enquanto o Ocidente taxa de ‘terrorismo’ a esses ataques esporádicos que matam dúzias, centenas ou (raramente) milhares de pessoas, o Oriente muçulmano se inflama de indignação num século XX, no qual miríades de seus inocentes foram massacrados pelas bombas aéreas atiradas pelo Ocidente. Quando o Ocidente protesta dizendo que seus ataques jamais visam inocentes, ao passo que assim fazem os terroristas, estes continuam a apontar para o grande número de vítimas inocentes (colaterais) do seu lado, e a declarar que todos aqueles alimentados pela cultura ocidental perderam a sua neutralidade e que, por isso, é justo que sejam alvos de ataques.

Essa desproporção de poder bélico levou-nos a mudar nossos padrões morais da virtude e do vício para o poder e o dinheiro, e  a técnica da morte das pessoas se torna mais decisivo do que o fato de elas morrerem. Aqueles que sejam em condições de comprar armas sofisticadas e dispendiosas parecem até absolvidos dos seus atos, uma vez que não há sangue visível em suas mãos. O homem-bomba é um assassino sim, mas em contraste ao bombardeiro aéreo que lança morte sobre milhares no ar pressionando um botão, estes guerreiros auto-imolantes no meio do combate dificilmente poderiam ser chamados de matadores distantes. E quando muçulmanos consigam armas mais sofisticadas, a dupla moral continua. Assim, um Irã ‘nuclear’ é inaceitável, dizem-nos, ao passo que um Ocidente ‘nuclear’ pode ser abraçado (e os iranianos sabem, claro, que apenas um deles já jogou bombas atômicas sobre uma cidade). Tudo isso fica altamente complicado, e jamais chegaremos a uma solução até que os fundamentos religiosos de ambos os lados sejam honestamente explorados.

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O Islamismo talvez tenha o mais simples dos credos (dois artigos, frente aos doze do Cristianismo), e o monoteísmo mais insistente de todos, mas, por detrás dessa severidade de fachada quanto ao foco, existe uma complexidade criadora de uma das civilizações mais proeminentes, e uma religião que ameaça superar o Cristianismo em números absolutos – em meados deste século, segundo algumas previsões. Apenas uns 15% dos muçulmanos atuais são árabes, e a maioria dos outros vive na Turquia, no Irã, no Sul Asiático e na Indonésia. A simbiose que resultou dessa marcha para o Leste – uma marcha mais comercial do que militar – não traz mais a marca das tribos nômades do deserto, mas sim das antigas e estabelecidas culturas da Pérsia e Índia, trazendo assim uma nova diversidade à mera ‘recitação’ do Profeta. Não menos do que a migração do cristianismo para oeste, o avanço do Islã para leste trouxe novos elementos no seu crescimento, e poderemos entender a religião apenas se entendermos sua história.

Ao contemplar o Oceano Índico de uma praia de águas mornas na costa de Zanzibar, especulei sobre onde as complexidades de nossos legados religiosos nos levariam no século XXI. Bem claro é pelo menos o seguinte: tanto o Islamismo quanto o Cristianismo ainda crescem, e muito, especialmente no hemisfério sul, já englobando cerca de metade da humanidade. Se acrescentarmos os hindus e budistas à mistura, só segundo as estatísticas teríamos a maioria esmagadora da humanidade. Se a paz que o nome ‘Islã’ sugere tiver algo a ver com a “paz de Deus, que excede toda inteligência” (Fil. 4,7), teremos primeiro de corrigir nossos mal-entendidos e substituí-los por aquela medida de entendimento que, então, a paz de Deus pode realmente transcender.

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Sete Ilhas VI – Sri Lanka e o Budismo

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Budismo – a cola da Ásia

“É tão fácil achar que você o entendeu, quando não entendeu, embora isso já o tenha entendido antes mesmo de você perguntar…”

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“Evite o mal, faça o bem e purifique a mente.” Esta é uma versão da última lição de Buda, antes dele passar para um estado que seus seguidores levarão séculos tentando descrever, nomear, ou até remotamente entender – a ‘despiração’ (sic), chamada nirvana. Seus ensinamentos foram igualmente retomados na fórmula enganosamente simples das ‘Quatro Nobres Verdades’, mas estas também germinaram em intermináveis fileiras com folhas e mais folhas escritas de sutras e shastras, termas e tantras, ágamas e coleções canônicas em páli, chinês, tibetano, e mais. A extrema simplicidade e o caráter imediato daquilo que Gautama Siddharta alegou ter descoberto sob a Árvore de Bodhi, ao norte da Índia, paradoxalmente alimentou bibliotecas de textos – começando com o conjunto considerável de seus próprios ditos (algumas coleções chegam a mais de 20 volumes) –, que foram depois multiplicados por comentários e mais comentários posteriores, e até por comentários sobre comentários. Não menos do que as tradições alegadamente mais ‘verbosas’ dos hindus e das religiões abraâmicas, o budismo também encheu o mundo com palavras.

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Foi com esse paradoxo em mente que cheguei a Colombo, vindo de Singapura em 2007 – dessa outra ilha de uma complexidade ar-condicionada e high-tech (que, compreensivelmente, não está incluída na minha lista) – para o que imaginava seria uma ilha de meditação recolhida. E, em boa medida, não me desapontei. No ano anterior, eu havia passado duas semanas no que então era o mundo budista ainda intocado de Burma (Myanmar) – que, em anos recentes (escrevo isto em 2017) abriu-se para as distrações ocidentais – e visitei vários templos e mosteiros teravada entre Yangon e Mandalay. Dado que Sri Lanka também aderiu a esse braço do budismo, que se orgulha de ser a mais original e historicamente enraizada dentre as várias tradições – livre de sucessivas camadas de interpretações e elaborações –, o fato que mesmo aqui se encontra uma panóplia de textos, símbolos, rosários e santuários – todos emergindo dos simples ensinamentos de Buda – apenas reforça o paradoxo.

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Ao visitar os vários locais budistas dessa ilha que cai do subcontinente indiano como uma lágrima – incluindo Kelaniya, Kandy, o templo de rocha de Aluvihara (onde pela primeira vez aqueles ditos de Buda assumiram a forma escrita), Dambulla, Sigiriya, Polonnaruwa, Anarhudapura –, essa única lágrima pareceu-me brilhar como símbolo de uma única ideia que – arrisco-me a dizer –, domina todas as formas da prática budista (e há muitas). A ideia é a seguinte: se nós pudermos apenas ajustar adequadamente a nossa subjetividade – não muito diferente de ajustar os dispositivos e lentes de uma câmera – poderemos, com efeito, simplificar nosso progresso espiritual. Saltando por sobre ensinamentos e templos, bibliotecas e lamaserias, palavrórios e vícios, e subitamente (um advérbio muito usado, e muito disputado, no budismo) atingiríamos aquele ponto de vista correto e definitivo, aquela perspectiva terminantemente suprema e reveladora, de onde nossa mente poderia encarar a realidade – e olhar de volta para si própria – com completa transparência e verdade beatificante.main-qimg-05ab2278729aeb8b342c0f325859a1ec-cQue a simplicidade inovadora desse projeto se tenha transformado rápida e facilmente em ramificações complexas, dificilmente será uma surpresa, uma vez que nossa subjetividade – nossa consciência reflexiva e mais ainda nossa aparente liberdade de vontade – é presumivelmente a realidade mais densa no universo (assim como o cérebro é a matéria mais complexa), de modo que colocar ordem nesse universo de pensamentos, memórias, desejos, esperanças, antecipações, intencionalidades, dúvidas, medos e todo o resto, demandará muito mais do que alguns entusiastas superficiais do budismo pensam ser uma questão de ‘reparo rápido’. Portanto, considerando todo o arco-íris de versões do grande dharma de Buda – do teravada: a abordagem ‘de volta ao básico’ de Sri Lanka e do Sudeste Asiático; depois, formas que as vezes parecem ‘re-bramanizantes’ do mahayana, as quais começaram na Índia mas acabaram achando um terreno mais fértil no Leste Asiático; até as versões atualmente na moda de vajrayana (particularmente a tibetana), que faz certa reconexão com os xamanismos antigos, o tantra bramânico da Índia, e oum quase-védico panteão de semi-deidades –, fica-se com a impressão de que a outrora espessa linha que separava o hinduísmo do budismo tem se tornado quase invisível.

O budismo sempre me lembrou do projeto moderno da filosofia europeia, ou seja, a tentativa de tornar a mente sintonizada consigo mesma antes de voltar-se para a realidade para encará-la. A cosmologia e a metafísica – e muitas vezes até a lógica – são rapidamente marginalizadas por um uso preventivo da psicologia e epistemologia. Assim o sujeito se submete a perquirições sem fim sobre o que são, de fato, conhecimento e consciência, seus limites e causas, suas fontes e métodos, até finalmente jogar todo o resto do mundo, e até a natureza humana, no campo das modernas ciências; e com isso a própria filosofia, com frequência, termina irrevogavelmente atolada num lodaçal de ceticismo.images

Contudo, assim como a filosofia moderna, reconhecidamente, não conseguiu realizar seu sonho de um projeto abrangente – levando muitos a posarem de ‘relativistas pós-modernos’, e outros (como eu) a dar uma nova olhada à filosofia clássica – mesmo assim acabou gerando incontáveis insights acerca de como nossa mente funciona, a natureza da intencionalidade, o enigma da liberdade, e uma variedade de métodos para verificar e medir a certeza. O budismo também – independentemente do que achemos de sua visão totalizante da realidade – forneceu o exame mais profundo e penetrante sobre as variedades da consciência humana à disposição nas tradições religiosas mundiais. Métodos práticos para acalmar a ‘mente macaco’, para unificar uma consciência que se transformou em um tipo de multi-tarefa enlouquecida, e uma série de meditações desafiadoras sobre a natureza fugidia da experiência – tudo isso compõe um legado sólido, o qual ignoramos por nossa conta e risco.

Ninguém negará que o budismo nasceu de uma matriz hindu, mas muitos disputarão sobre a natureza e o grau da alegada quebra com essa tradição. O desacordo dependerá, em boa parte, de como aquela proto-matriz seja definida como ponto de partida. Entretanto, dado que o budismo praticamente desapareceu da Índia, mas espalhou-se a ponto de se tornar o denominador comum religioso mais difundido no resto da Ásia, a Índia surge como praticamente a mãe das religiões e filosofias asiáticas, mesmo que às vezes apenas uma madrasta. O problema de mais difícil tratamento da filosofia budista – qual seja, como reconciliar sua negação radical de qualquer substancialidade com a afirmação igualmente enfatizada da permanência dos efeitos do carma e do renascimento – está longe de ser resolvido de modo consensual entre os estudiosos, tanto entre os praticantes quanto entre os budólogos independentes; isso certamente convida a um alargamento da conversação, incluindo perspectivas do pensamento ocidental. O mundo globalizado, para o bem ou para o mal, é agora um cenário onde as progenituras da Índia e de Israel – não sem ajuda da Pérsia e Grécia – podem desembarcar na mais promissora empreitada intelectual da história. Como predisse Hans Urs von Balthasar, o engajamento da tradição cristã (já em si uma fusão da fé abraâmica com a ciência grega e o direito romano) com o Oriente significará um desafio ainda maior, e portará uma promessa mais poderosa, do que foi o caso nos portentosos esforços intelectuais dos dois primeiros milênios.

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Sete Ilhas VII – Bali e o Hinduísmo

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O universo hindu, localizado predominantemente na Índia, invadiu o mundo, graças ao Império Britânico. Mas, muito antes dos ingleses colonizarem o Sul Asiático, os hindus já colonizaram o Sudeste Asiático, e uma rara relíquia disto encontra-se na encantadora ilha de Bali…

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As palavras ‘Índia’ e ‘hindu’ vêm da mesma raiz, que, em sânscrito, simplesmente designa o rio Indo. Mas, não apenas na etimologia, senão também na realidade, as duas coisas coincidem em grande parte. Tradições religiosas muito distintas – sejam autóctones ou imigrantes – ganhariam um porto seguro no sul da Ásia apenas quando a Mãe Índia encontrasse um modo de toma-las em seus braços hindus. Até mesmo o Islã – talvez o mais improvável dos forasteiros – só foi capaz de fazer incursões não militares na Índia quando permitiu que seus missionários místicos, os sufis, reconhecessem os sadhus hindus, em certo sentido, como confrades monoteístas. E os cristãos talvez estremeçam ao verem Jesus – já anunciado na Índia no século I por São Tomé, o Apóstolo – como um dos avatares de Vishnu, mas esta é, pelo menos, uma forma de um hindu encara-los como família. Os jainistas, e o que sobrou dos budistas, são vistos, mais ou menos, como cristãos das principais denominações veriam os quakers e menonitas: apenas como alguns irmãos que levaram suas convicções a extremos. E os sikhs seguem um guru do século XVI que alega ter encontrado um caminho para uma espécie de casamento de conveniência entre o Hinduísmo o Islã. Assim, da perspectiva hindu, todas as tradições são coreografadas num espaço amplo sob o guarda-chuva védico, embora alguns estejam bem mais perto do seu centro misterioso e acolhedor do que outros.

4d25dcfb64b3641b1dc817a135f13c8fBali está a milhares de quilômetros da Índia, e apesar de ter permanecido hindu (ao passo que as ilhas circundantes da Indonésia foram conquistadas pelo Islã), os séculos seguintes de isolamento em relação à pátria indiana, e aos vizinhos correligionários, criou uma versão idiossincrática da mais antiga religião da Índia. Poder-se-ia comparar a situação de Bali com o que aconteceu ao Cristianismo etíope, após os países circundantes se terem tornado muçulmanos. As religiões requerem suas comunidades. Os judeus são por definição um povo; os muçulmanos, uma ummah; a igreja cristã, uma assembleia (ecclesia); a estratificada população hindu, uma interconexão de castas; os budistas, uma sangha. Todos veem suas crenças e ritos como assumidos tanto coletiva quanto individualmente.

Entretanto, as dimensões religiosas primordiais e tipicamente ágrafas – chamadas pelos cientistas sociais de xamanismo, animismo e culto aos ancestrais – estão quase sempre presentes sob a superfície, e até influentes na formulação das crenças e práticas das religiões escriturais mais organizadas (as quais são, de qualquer forma, tipicamente precedidas por elas). Essas vertentes primordiais tendem, no entanto, a se afirmar mais destacadamente quando uma área geográfica tem suas relações cortadas com a maior parte da população da fé em questão. Assim, podemos ver traços locais de xamanismo e animismo no Hinduísmo balinês, que são talvez menos visíveis na Índia, e – dado que missionários budistas também penetraram na área – a adoção de boddhisatvas em suas devoções também. Acrescente-se a tudo isso a beleza humana e a meiguice dos balineses, teremos uma religião de charme e fascinação incomuns. Ao contrário da antiguidade palpável da maior parte do Hinduísmo indiano, a religião de Bali parece-nos fresca e recente. Mesmo assim, ela não é menos alimentada e sustentada por aquilo que os hindus modernos chamam seu sanatana dharma, ou seja, o ensinamento perene.

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Tudo isso nos leva a perguntar o que era de fato aquela tradição primitiva que parece ter deixado seus traços mais visíveis nas múltiplas e polimórficas manifestações do Hinduísmo. Com raízes em uma tradição oral que mergulha num passado remoto jamais documentável, até hoje ela escarnece de nossas tentativas de lhe por um nome. O termo ‘Hinduísmo’ existe mais por falta de nomenclatura, pois indica um monte de doutrinas, ritos e artefatos que passam por cima de limites conceptuais convencionais. Diferentemente de outras grandes religiões, não há um único fundador normativo, tampouco um único livro, e sim um difuso conjunto de textos chamados ‘Vedas’. Todavia, se ainda insistirmos em usar a língua para falar das tradições nativas da Índia, teremos de usar nomes, ainda que inadequados. E os estudiosos, em sua maioria, nos aconselham a fazer as pazes com o termo e nos debruçar sobre questões mais substantivas.

Estaremos em terreno mais firme se fizermos, simplesmente, a seguinte pergunta: existem indícios – recuando aos nebulosos tempos pré-históricos, num contexto de pelo menos centenas de milhares de anos, talvez até mais – de uma tradição de sabedoria e santidade que preceda (de acordo com essas medidas cronológicas) a primeira aparição documentada da escrita, cerca de 3.000 anos antes de Cristo? Olhemos para os testemunhos ágrafos mais recentes, tais como os moai da Ilha de Páscoa, e depois olhemos para os múltiplos e sofisticados desenhos nas cavernas encontrados em todo o mundo, que datam dezenas de milhares de anos atrás. Então, faz mesmo sentido conceder todo o crédito à narrativa moderna padrão, que diz que nossa raça evoluiu de um começo primitivo para a nossa (suposta) sofisticação atual? Não parece fazer muito mais sentido aceitar o testemunho unânime dos milênios? Virtualmente todas as tradições adotam alguma ideia de uma ‘idade de ouro’ primitiva, uma ou outra versão do ‘paraíso perdido’, mantendo memórias persistentes – e muitas vezes doutrinas explícitas – de um passado primordial e profundamente intuitivo. Essa tradição – preservada mais de forma oral do que escrita – seria algo do qual nós recuamos, quaisquer que sejam as razões propostas para esse recuo pelas várias tradições. E isso, a propósito, não invalida o fato de que algumas populações humanas têm, de tempos em tempos, descido ao barbarismo, tal como encontramos evidências de ocasionais ‘ascensões da selvageria’ em nossa longa história. Mas seria difícil achar selvageria mais brutal nos séculos passados do que presenciamos no século XX no ‘socialismo nacional’ dos Nazis e do ‘socialismo internacional’ dos soviéticos e na ‘China Vermelha’. Pergunto-me o quanto nós temos ascendido, mesmo atualmente, daquela selvageria.

photo-jul-06-8-03-25-am1Para que fique claro: não estou sugerindo uma receita simplista do tipo ‘quanto mais antigo melhor’. Mas, em face de uma presença avassaladora de crenças num glorioso passado de uma antiguidade incalculável – evidente também na apresentação dos projetos de Platão e de Confúcio como recuperação da sabedoria antiga, e não como inovações inéditas –, pareceria que a versão simplista é a da estória do nosso desenvolvimento cultural como um processo ascendente, progressivo e evolutivo. Talvez o fato mais convincente em apoio à tese de uma degeneração cultural (ao invés de evolução) é que nós ainda estamos por encontrar uma única linguagem humana que não seja um sistema completo de significados e expressões (seja extinta, ou entre as aproximadamente 6.000 línguas ainda faladas); em lugar nenhum encontramos um esquema de sons meio-inteligente, ‘a meio caminho’ de se tornar uma linguagem completa (um ‘elo perdido’ linguístico). Se uma língua está presente, é sempre uma linguagem completa, e isso pode ser comprovado até mesmo em escala individual, quando a linguagem ‘irrompe’ pela primeira vez na boca de uma criança. A linguagem, juntamente com a consciência reflexiva (talvez até coincidente com ela?), continua a derrubar todas as tentativas de explicar suas origens baseadas em evolução. Tais tentativas de dar conta da origem de algo tão sublime quanto a linguagem ou a consciência, com base em algo tão baixo quanto os mecanismos de sobrevivência biológicos, se revelam com não apenas desacertadas, mas suspeitamente ideológicas.

A tradição hindu é provavelmente a mais primordialmente enraizada de todas as religiões. Sem preocupar-se em estabelecer uma data histórica para a sua inauguração, ela encosta todo o seu peso multi-milenar sobre uma fonte indefinível de ser e de verdade, de uma radicalidade descomprometida, soberanamente segura num tempo antes do tempo. Os Vedas afirmam que essas verdades imperecíveis foram vistas pelos rishis antediluvianos (‘videntes’ in sânscrito), recitados nos hinos e encantações resultantes (os textos fontais dos Vedas: uma palavra que significa visão e conhecimento), e então ouvidos por uma tradição subsequente sempre empenhada em ingerir seus mantras num ouvido coletivo por meio dos brahmins (uma tradição que se tornou conhecida como shruti, o que significa ‘escutado’). Sempre mudando como um caleidoscópio de um diâmetro imensurável, a tradição tem mantido sua unidade precisamente pela proliferação, em cada giro do tubo, das múltiplas visões possíveis dessa unidade. Ainda hoje está girando.

HistoryAssim como Israel criou um caminho através da história, a Índia pavimentou uma rota para fora da história; e ambas as tradições veem aqueles a quem tentam libertar, ainda que por diferentes razões, como presos na história de alguma forma. Meios incomensuráveis para fins distintos, mas compartilhando o imperativo religioso universal de que o homem precisa ser libertado. Os profetas judeus e posteriormente os apóstolos cristãos mostrarão o caminho pelo tempo e além dele (e claro, é inegável que Cristo se apresentará como a própria transcendência encarnada); os sábios indianos ensaiarão uma dinâmica centrípeta além do tempo (ou talvez melhor: aquém!), e rumo a uma fonte sempre presente, mas habitualmente esquecida. Seja pelo trabalho (karman), devoção (bhakti), intuição (jnana) ou meditação (raja yoga), a Índia preenche sua herança com vários ‘pontos de vista filosóficos’ (darsanas), e uma série de ‘senhor-deuses’ (isvaras) para focalizar nossa desenfreada fragmentação humana e para pacificar e concentrar nossa consciência; e tudo isso reforçado por um sistema articulado de sacrifícios (pujas), a fim de harmonizar os movimentos caóticos de nosso corpo a um único e infindável gesto ao Absoluto. Bali levou este último à perfeição, e por toda a ilha, ofertas de frutas frescas, grãos e flores podem ser vistas nas ruas, muros e mercados. Procissões de oblações podem ser observadas o dia inteiro.

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Se alguém não tiver ouvido nada mais acerca do Hinduísmo, provavelmente já terá ouvido o chavão do ‘panteísmo’ aplicado a ele. Uma andada por qualquer templo hindu, ou pelas verdejantes alamedas de Bali, repletas de ofertas coloridas, deveria ser suficiente para mostrar o quão superficiais são tais rótulos ocidentais. Se o Hinduísmo é panteísta, então o Islamismo e o Cristianismo também o são.

sufi-1Todas as três religiões procuram, de três modos distintos, enfatizar a unicidade de Deus, e destronar qualquer candidato a usurpador. Para os muçulmanos, a unicidade absoluta e sem-par de Deus (wahid)  é destacada pela remoção de todos os mesmo remotamente concebíveis competidores em nosso campo visual e imaginativo (o que se evidencia pela tendência ‘anicônica’, sobretudo na arte árabe), de modo que a unicidade resida em e é atribuída a apenas o Uno, Allah. Para os hindus, essa mesma unicidade é apresentada num esforço oposto de mostrar como cada simples grão de areia, cada flor, cada estrela, cada pessoa e comunidade parecem apontar, como numa dança sincronizada, para Brahman; e encontrando, ultimamente, no fundo do seu ser contingente, uma relação direta e pré-existente com ele – lá em sua raiz metafísica mais profunda, chamada atman. Nessas profundezas, e somente nestas, a minúscula gota do relativo é engolfada pelo mar infinito do Absoluto.

panPara o cristão, a batucada na unidade do muçulmano pode aparecer meio monótona, e a modulação hindu de vozes e sons, uma verdadeira cacofonia; porém, o Evangelho abarca a doutrina inflexível da unicidade absoluta de Deus, assim como faz o muçulmano, e afirma a realidade – dependente, porém sólida – da criação como uma manifestação do Uno, assim como faz o hindu. Todavia, para o seguidor de Cristo, aquela unicidade refrata-se necessariamente na Vida, Verdade e Amor, e portanto no Pai, Filho e Espírito Santo. A ‘novidade’ cristã da Nova Aliança é o novo foco na pessoalidade, em Deus e no homem, na medida em que essa noção resgata tanto a unicidade de Deus no meio da multiplicidade da criação, quanto a realidade do múltiplo como participações precisamente naquela unicidade. O fato que cada pessoa criada é única e irreplicável reflete, na dimensão criada, o fato arquetípico de que Deus, ainda mais, é insubstituível e único.  Porque cada pessoa criada dona de si, autoconsciente, autodeterminante e auto-transcendente, ela é uma participação criada na vida, verdade e amor; ou, numa inflexão vedantina: no ser, consciência e beatitude (satcitananda).

Todas essas coisas passavam por minha cabeça à medida que eu caminhava pelos arrozais de Bali, tentando fugir dos ‘baladeiros’ bêbados da Austrália, dos surfistas de todo o mundo, e dos adeptos da Nova Era ávidos por desvendar os segredos de Bali. De minha parte, apenas tentei aprender as lições desta ilha, a filha mais improvável da Índia, bem como suas implicações para qualquer abordagem da sabedoria que procure “compreender, com todos os santos, qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejamos tomados de toda a plenitude de Deus” (Ef. 3, 18-19).

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Sete Ilhas : Epílogo – ‘judeus errantes’

Se você não tiver uma ideia aproximada de quem foram e quem são os judeus, nunca entenderá nosso mundo, nem religião alguma, nem dor alguma.

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O Tetragrama

Dificilmente se poderia considerar Israel um ilha, talvez apenas num sentido metafórico, como aquele em que eu chamei meu estado americano do Kansas de ilha, no começo destas reflexões. Mas, em outro sentido, os judeus têm sido como uma ‘ilha ambulante’ ao longo da maior parte de sua história, passando apenas uma fração desta na terra de Canaã. Quase metade deles vive hoje naquela terra, um fato bastante significativo – para os sionistas e anti-sionistas, ainda que, obviamente, por razões opostas. Porém, seja em Canaã ou em outro lugar, desde os tempos de Abraão (4.000 anos atrás), os judeus sempre estiveram por aí, como um inevitável e insofismável contraponto a tudo mais o que acontece no mundo. Muitos povos de população maior e poder superior ascenderam e caíram nas páginas da história; outros, por fim, foram absorvidos e mesclados (como os etruscos e os astecas), mas os judeus sempre sobrevivem. Amando-os ou detestando-os (um meio-termo é difícil de encontrar), desde a vinda de Cristo, eles continuam a ser involuntariamente como o engaste de uma gema a qual o mundo mal pode identificar, mas cuja existência tem de ser presumida. Os cristãos alegam entender seu papel na época anterior a Cristo, mas estão menos certos sobre seus projetos depois.

O paradoxo de sua sobrevivência ombreia-se com paradoxos similares. Em primeiro lugar, nenhum outro povo jamais compôs e defendeu assiduamente um texto (o Tanakh, o nosso Antigo Testamento) em que ele é descrito em termos tão negativos. Isto, mais do que qualquer outra coisa, tira-nos toda desculpa para não levar a sério o texto, pois, se queremos provas de que ninguém remendou o conteúdo, não precisamos mais do que notar que todos esses detalhes vexatórios – profetas relutantes, salmistas despudorados, e acima de tudo a repetida infidelidade Àquele que os chamou – não foram retocados.

transferirTalvez esta seja a coleção de textos mais densa e diversa já produzida na Terra; as histórias são inesquecíveis, as canções irresistíveis, as profecias assombrosas, e uma sabedoria dificilmente igualada em seu brilho. Após a destruição do Templo e a cessação dos sacrifícios, as sinagogas pipocaram como campo florido, e o grande livro recebeu a mesma atenção meticulosa, e sua recitação o mesmo cuidado, do que os antigos ritos levíticos. Sabe-se que um livro é grande quando incita, até demanda, os comentários, e exibe uma fecundidade usualmente só vista em animais e plantas; pois aqui são as letras e os parágrafos que desovam uma profusão de progênie literária. Os judeus tornaram-se mestres de leitura, literatos por profissão e vocação, e também mestres comentaristas, à medida que a Tanakh tornava-se coberta de camadas sucessivas de interpretações e aplicações. Dado que os caracteres hebraicos dobram como signos fonéticos e símbolos numéricos, o longo estudo, durante séculos, da Bíblia transformaram os estudiosos do hebraico em ‘clérigos’ par excellence, tão versados na interpretação de textos quanto no fechamento de contas.

Ao contrário dos Vedas, do Corão, do Tao te Ching, ou dos Sutras budistas, a Bíblia é uma estória – uma novela barulhenta, super-dimensionada, com tantas idas e vindas que ficamos tontos, mas que, sequer por um momento, nos deixa em dúvida de que o grande desfile ruma para um destino. Com o anexo do Novo Testamento, ainda é o maior best-seller da história. O mundo parece incapaz de se entender ou se equilibrar sem consultar periodicamente esse roteiro sobrenatural herdado dos judeus.

Mas, até mesmo as Escrituras nos fazem repetir a questão: quem, exatamente, são os judeus? São uma raça, uma religião ou apenas uma cultura?…. ou todas as três coisas, ou alguma quarta? Até hoje, não há resposta simples para qualquer dessas questões, porém, todos concordam que, sejam o que forem, os judeus estão inequivocamente aí, com uma influência e importância assombrosamente desproporcionadas à sua população. A mais infame tentativa de genocídio do último século foi a dos alemães nazistas contra os judeus. Mas, quem pode explicar que antes desse massacre, as cinco figuras tranquilamente mais influentes na formação da cultura mundial contemporânea – em ciência social, física, psicologia, filosofia e música (Marx, Einstein, Freud, Husserl e Schoenberg) – eram todos judeus de língua alemã?

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Essa lista poderia facilmente ser estendida. O que significa isso? E há mais. No que se refere a convulsões geopolíticas, mesmo as regiões tipicamente instáveis da América Latina, África, o Cáucaso, os Bálcãs e as Coreias parecem comparativamente serenas quando confrontados com o conflito árabe-judeu no Oriente Médio. E a presença judaica na superpotência que são os Estados Unidos é inequívoca. Cerca de metade dos judeus do mundo vive nos EUA e são representados nas finanças, academia, medicina, direito – e também no cinema, música, literatura e comédia –, num perfil que vastamente eclipsa sua percentagem populacional. Eles são claramente portadores de algo do qual não conseguem se livrar, mas também algo que todos nós – de quaisquer convicções – não podemos ignorar.

Tentar explicar tudo isso descartando a hipótese de um Deus transcendente que os escolheu, os instruiu e com eles estabeleceu uma aliança é, na melhor das hipóteses, fútil. A maioria dos comentadores assinalará pelo menos a grande e nova ideia que a história e a experiência judaicas testemunham. Mesmo aqueles que acham tudo não passa de uma grande fantasia admitirão que se trata de uma fantasia estupenda. A ideia é o ‘monoteísmo ético’, a primeira fusão real – na história das religiões – da ideia de um ser absoluto com a ideia de um bem absoluto: nada de força arbitrária, de um ser em parte bom em parte mau, mas um Absoluto que é total, eterna e inescrutavelmente bom. Aos previsíveis protestos de todas as vítimas do pecado e do horror, os judeus recusam-se a branquear a história ou passar por inocentes; ao invés disso, eles apontam para a desconcertante provação de Abraão e, finalmente, para augusto livro de Jó. A bondade de Deus não se reduz a um ‘mundo cor-de-rosa’, e o Seu mistério escapa a qualquer fórmula. Assim como Abraão e Jó – e todo o elenco do drama das Escrituras –, os judeus servem como um meticuloso espelho de Deus, refletindo tudo que há de melhor em nós, mas também tudo o que há de pior; mas, acima de tudo, o sofrimento e morte imanente em cada um de nossos destinos, junto com o último significado que está à nossa frente, mas fora da vista.

92825875theodicy-otSe a minha peregrinação interior – começando nas Ilhas Galápagos, passando pela Ilha de Páscoa, Terra do Fogo, Iona, Zanzibar, Sri Lanka e Bali – ensinou-me alguma coisa, é que eu, como qualquer outro buscador do Bem, da Verdade e da Beleza, tenho de olhar fundo naquele espelho. Lá  nos veremos como somos: judeus errantes, cada um de nós. E viajamos melhor quando aceitamos nossa trajetória – com deslumbramento, humildade e coragem – até que ela nos dê a sua última lição.

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O que a Filosofia não é – e o que ela é

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Nenhuma outra área do conhecimento, além da Filosofia, sofre tanta controvérsia acerca do que é exatamente. As ciências naturais e (mais ainda) as sociais podem abrigar ambiguidades em seus métodos e nos pormenores de sua análise, mas normalmente há poucas disputas sérias acerca do que se estuda nessas ciências. Com a Filosofia não é assim. Pergunte a três filósofos o que eles investigam como filósofos, e você obterá três respostas tão diferentes – de fato, uma delas pode muito bem afirmar que a Filosofia nem existe mais! –, que o leigo poderá questionar-se por que uma universidade financiaria um departamento onde impera tamanha confusão. Um modo de colocarmos nosso pensamento em ordem neste assunto é abordando-o negativamente. Ou seja, o que não é Filosofia?  Talvez aqui achemos algum consenso.

Eu afirmarei com confiança que existem cinco coisas que a Filosofia não é, de acordo com os seguintes critérios: modo de exposição, amplitude da temática, método de discurso, faculdade humana empregada, e propósito. Usando esses critérios, defenderei que a Filosofia não é sabedoria proverbial, não é uma ciência no sentido moderno, não é mitologia, não é uma das belas artes, e não é religião.

  1. As etimologias não regulam inteiramente o significado dos vocábulos, mas, no caso da Filosofia, alguma semelhança com a ‘adorável e amável’ sabedoria [Φιλοσοφία, literalmente “amor pela sabedoria”] deve ser localizada em seus frutos para que a palavra mantenha o mínimo do seu significado original. Provérbios (aforismos, ditados, máximas, etc.) são tipicamente repletos de uma sabedoria que vem como que embalada num pequeno pacote. Pode ser, porém, que é justamente a brevidade que amemos, enquanto a Filosofia é conhecida por tratar os assuntos de maneira extensa e articulada. Em sua maior parte, raramente é proverbial, mas decidamente – por vezes interminavelmente – discursiva.
  1. Notáveis tentativas para reduzir uma ciência moderna a outra (Química à Física, Biologia à Química, por exemplo) têm sido também notáveis fracassos. A maioria das triunfantes ciências de hoje prende-se admiravelmente ao seu chão, mas o faz apenas erigindo barreiras e destacando os limites entre os objetos de cada uma. Em contraste, as filosofias, independentemente da faixa a que pertençam, sempre aspiraram a uma espécie de visão sinótica, seja pela mediação com outras áreas do conhecimento, seja por transcendê-las completamente. Tal generalidade pode ser cognitivamente ambiciosa (Plotino, Hegel), ou bem modesta (Kant, Wittgenstein), mas há sempre uma busca de abrangência nas empreitadas filosóficas. Sem querer saber tudo sobre algo (como nas ciências), o filósofo deseja saber algo (ainda que modesto) sobre tudo. A Filosofia procura ser, em algum sentido robusto, universal.
  1. Contudo, já existe um discurso que com frequência lida com a sabedoria e com questões de abrangência universal, e que tipicamente – seja em termos históricos ou em termos pedagógicos – antecede à Filosofia. Trata-se da mitologia. Apesar de filosofias e mitologias correrem, muitas vezes, paralelamente, podendo até encontrarem-se inseparáveis em muitos discursos humanos, elas são, típica e famosamente, distintas. A distinção está no método discursivo. Mitos são narrados (ou contados); a Filosofia é raciocinada (ou argumentada).

*** Suplemento: Também por seu caráter argumentativo a Filosofia não é apenas “cosmovisão” (Weltanschauung). Digo “não apenas” porque a Filosofia, como eu a entendo, inclui, necessariamente, também uma visão do cosmos, mas não é redutível a isso. É possível ter uma cosmovisão sem engajar, programaticamente, o ato filosófico. Os mitos, as mais das vezes, incluem ou pressupõem uma cosmovisão, mas sem argumentação racional ficam no campo da narração e imaginação.  ***

  1. Pode-se suspeitar que a procura da sabedoria e a visão abrangente necessitam mais do que mitos e argumentos, e que por isso é preciso voltar-se aos horizontes abertos das artes. Música, drama, literatura, pintura, arquitetura, dança, e hoje em dia o cinema, parecem prometer mais envergadura temática e mais profundidade metafísica do que os tratados de Aristóteles ou de Heidegger, ou os diálogos de Platão ou de Hume. Mas, também aqui, ainda que muitas vezes inseparável das artes, a Filosofia tem se mantido distinta delas. Isto se dá em virtude daquilo que as artes exercitam em nossa composição humana: acima de tudo, nossos sentidos, emoções e imaginação, e apenas de modo auxiliar o nosso intelecto. A Filosofia é exatamente o contrário. A faculdade humana que está em primeiro plano aqui é a nossa mente ponderante, tanto no modo intuitivo quanto inferencial. A Filosofia não é, em seu sentido primeiro e mais importante, uma atividade sensorial, e sim mental ou, numa terminologia mais tradicional, intelectual.
  1. Mas, para que tudo isso? O fim e o propósito da Filosofia podem parecer bastante exaltados às vezes, e alguns de seus praticantes não escaparam de confundi-la com a religião (os pitagóricos, alguns neoplatônicos, a bizarra religião filosofica de Comte, o DIAMAT soviético, vêm à mente). O Budismo, muitas vezes mencionado como uma religião, é considerado por outros, com boas razões, uma filosofia. Portanto, há ambiguidades aqui. Mas, em geral, a religião coloca o objetivo da transformação pessoal no centro do palco, e sem isso nem existiria. A Filosofia pode de fato fornecer insights que, no final das contas, resultarão numa metamorfose pessoal. Não obstante os recentes apologistas da Filosofia como ‘modo de vida’, ou até de espiritualidade (Hadot e companhia), a maioria dos filósofos identificou o seu objetivo menos como uma transformação existencial, e mais como um tipo de conhecimento, ou como um particular hábito de pensamento. O propósito da Filosofia é considerado, por natureza, cognitivo.

*   *   *

Os limites negativos que delineei em cima já nos levaram a alguns resultados positivos, na medida em que múltiplos contrastes de algo com aquilo que não é,  já lhe traçam um esboço que sugere conteúdo: assim, vimos que a Filosofia é discursiva, tem aspirações universais, é de alguma forma argumentativa no seu método, é distintamente intelectual em sua operação e se propõe a atingir um tipo de conhecimento. Aqui, eu ousarei pôr o meu dedo em sua essência fugidia. Jamais ouvi falar disso antes – conquanto provavelmente já tenha sido dito –, mas, quando me recordo de minhas décadas filosofando e observando o que os filósofos fizeram de melhor, não posso escapar à conclusão: ‘filosofia’ é alguma coisa nos filósofos, uma qualidade que ganhamos e que nos impele a desempenhar o ato filosófico. E esta coisa é:

o hábito intelectual adquirido de olhar para a realidade, e de ponderar sobre ela, com o intuito tenaz de descobrir seus princípios mais abrangentes e fundantes – na medida em que sejam conhecíveis – a respeito do cosmos, do ser humano e da transcendência. 

A ressalva inserida no parágrafo anterior permite-nos acolher, abaixo do guarda-chuva da definição, até mesmo os minimalistas cognitivos – dos céticos aos kantianos, até aos pós-modernistas –, pois estes também reivindicam um tipo de posicionamento abrangente e fundante em princípios, ao delimitarem e radicalmente relativarizarem as possibilidades de todo conhecimento.

Nós não nascemos filósofos (e, felizmente, poucos se o tornarão), mas a boa Filosofia, em minha visão, constrói-se sobre o conhecimento natural que todos possuímos pelo simples fato de sermos humanos. Esse conhecimento natural carrega, como seu segredo sagrado, a experiência de admiração (espanto, assombro, amaravilhamento, etc.). Nosso conhecimento é sempre circundado por desconhecimento. Como crianças, rapidamente descobrimos que viemos de algo (até de alguém); em outras palavras, descobrimos que somos ‘derivados’. Descobrimos também que estamos sempre a caminho, indo para um ou outro destino, seja ele só a próxima fase do nosso crescimento. Além disso, quando ainda em fraldas, verificamos, competente e convincentemente, que existe um mundo à nossa volta, o qual está muito além de nosso conhecimento e controle. Um pouco depois, mas ainda fazendo parte das nossas conquistas cognitivas juvenis, descobrimos que devemos fazer escolhas e que todo tipo de coisas boas ou más resultarão delas.

Todos nós vamos, em maior ou menor grau, empurrar nossas fronteiras para além desses horizontes imediatos. Por exemplo, além de nossa família nuclear podemos buscar as origens de nossos antepassados e explorar um pouco de genealogia; podemos investigar, além de nossos planos imediatos, sobre os objetivos futuros em relação a onde iremos depois de sair de casa, ou após a faculdade, ou após a aposentadoria (ou após a morte?). Da mesma forma, para além de nossa residência e vizinhança, podemos pensar em escalas mais amplas, localizando nossa cidade no estado, nosso estado em um país, nosso país em um continente, e talvez mesmo imaginar a posição de nosso planeta no sistema solar, e por aí vai. E também, por volta dos 20 anos, devemos ter suficiente comando sobre nossa liberdade para administrar nossas futuras escolhas com responsabilidade e com consciência crescente das consequências. Contudo, a grande maioria de nós vai deixar as pesquisas em escala mais modesta, e seguir em frente com a vida cotidiana, a vocação, o emprego, a família. Os devaneios de domingo à tarde ou os coquetéis que frequentamos podem nos proporcionar ocasiões para ocuparmos com as ‘grandes questões’, mas raramente vamos muito longe com a onerosa tarefa de desvelar os mistérios implicados por elas.

O que torna os filósofos diferentes (diferentes, não melhores) é que, em suas vidas, eles não podem deixar de prolongar seus questionamentos sobre origens, destinos, universos e liberdade, bem como são incuravelmente desafiados pelo verdadeiro, pelo bom e pelo belo. Essas questões amadurecerão na metafísica, cosmologia, antropologia filosófica, ética, filosofia política e estética, entre outras disciplinas (tudo isso monitorado pela lógica – aquela grande serviçal, mas mestre temível). Seus praticantes não descansarão enquanto não conseguirem pelo menos alguns novos raios de luz sobre causas mais primordiais, fins mais derradeiros, e ‘mundos’ mais transcendentes à nossa volta, e, finalmente, as fontes da liberdade que tanto nos assombram quanto nos provocam. Causas, consequências, contextos e consciência (no sentido moral e psicológico) não são apenas parâmetros de vida pragmática para os filósofos; são chamamentos para aventura intelectual. A verdade busca suas fundações; o bem, sua expansão; a beleza, sua perfeição. Meu filósofo ideal ouve a chamada, e se junta a essa busca.

Narciso negado

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Sua vida é sua, sua mesmo, e vai ter que se responsabilizar por ela.  Mas isso não significa que ela é sobre você, ou acerca de você.  Por outras palavras, o tema da sua vida não é Sua Senhoria.  Buscar o sentido dela olhando só dentro da sua individualidade espácio-temporal sempre vai fracassar. É o dilema de Narciso. Mesmo esse garoto devia ter notado, enquanto mirava seu lindo rosto na água, que seus olhos, suas narinas, suas orelhas e até seus lábios e sua língua se orientam–todos!–para fora. Nossa face não tem a capacidade inata de fitar com seus olhos em si mesma, sem ficar vesgo e louco. O espelho pode servir para fazer a barba ou botar a maquiagem, mas além disso, é um gerador incansável de maya (o finito fingindo de ser o infinito, o temporal fingindo de ser o eterno). Nossa vida é sobre algo que transcende a nós mesmos, verdades e valores acima de nós mesmos. Além do rosto, também nosso corpo é uma testemunha inconfundível desse fato.open

O sentido da nossa vida articula-se no tempo e na história como um convite para desvendar um mistério vis-à-vis nossa cara; não é um convite para sentar-nos enquanto alguém pinta nosso retrato. Respondemos a esse convite não apenas caminhando, literalmente, com nossas pernas em busca das coisas que precisamos para sobreviver (idas para o supermercado, a escola, a casa dos amigos, ou até destinos turísticos…). Também peregrinamos com nossos sentidos e imaginação nas artes e nos estudos humanísticos, para juntar à nossa experiência limitada as experiências dos nossos semelhantes na história, amplificando a envergadura do nosso horizonte humano. Peregrinamos, ademais, com nosso inteleto e razão na filosofia e nas ciências (aprofundando o contato da mente com o mundo que a circunda e fecunda).  Finalmente, peregrinamos com nosso coração, na espiritualidade e religião, porque existe um imenso mundo também dentro de nós, o qual nos extravasa infinitamente, mas também nos abraça com a atmosfera animadora da eternidade. A sua descoberta é sempre nova, mas sua experiência é intuitivamente perene.  É “a beleza tão antiga e tão nova,” de que fala Santo Agostinho.  

Este perene não é um “velho” que passa, mas um perpétuo que se perpetua. O perene é o presente, o permanentemente presente, o implacavelmente atual, o fiavelmente circundante–aquilo que, mesmo negado, continua tacitamente pressuposto. Quando uma obra de literatura ou de arte se torna um “clássico,” é porque ganhou a capacidade de se desengajar da sua situação espacial e cronológica e entrar em contato com uma realidade profunda que está sempre acessível àqueles que têm a chave para destrancá-la.  Uma tal obra vira um limiar à vista de outras paisagens que temos que vislumbrar de tempos em tempos. Se não, corremos o risco de cairmos na água em que o coitado Narciso afogou.

19 - Open Door

Spiritual, but not religious? (revised)

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A common refrain heard today from those reluctant to succumb entirely to secularism and atheism, and intent on keeping a door open to transcendence, but who are still wary of corrupt and calcified religious institutions, is: “I am a spiritual person, but not religious”. When queried on the content of their spirituality – one can hardly make the claim without an approximate frame of conviction – they will reply with some version of the following. 1) I believe in ‘some higher force’ – call it God if you like; 2) we are all somehow one, and I wish to stay in tune with this oneness – call it ‘love’ if you like; 3) I have found ways to commune with the higher force – call it prayer or meditation if you like; 4) all religions are basically the same, and the spirituality I have found constitutes their inner reality; the rest is just window-dressing. In short, they quite reasonably conclude that once you’ve bared the banana, you might as well throw away the peel. This sounds very convincing on the face of it.

We witness a wide spectrum of variations on this today, from the simplest, personal option of steering clear of organized religion and fostering one’s own private spirituality, with open-ended tenets of belief, and some reluctance to discuss its details or preach it from the rooftops (“it’s private”, after all), to publicly trumpeted universalist claims. We hear so often of those who say they have isolated the perennial truth and mystical minimum of it all, and who welcome those of any or no faith to participate in week-end retreats and workshops – or to read the books that vehicle the message – and thus gain their own access to some variety of spiritual experience. All this is usually packaged in techniques borrowed from various traditions (usually Eastern), or made to order by unlikely collaborations between ancient practices and modern neuroscience. The buffet on offer is quite extensive, but the usual inner message is the same: the isolation of the essential and the marginalization and relativization of the secondary. Some gurus may recommend adherence to an outer religious tradition of one sort or the other, but almost always as a mere cultural adjunct (one ‘skillful means’ among others, called upaya in the Buddhist tradition); what is important is that the underlying essence be grasped, and that all religious institutions and forms are seen, in the final analysis, to be ancillary and ultimately dispensable.

Again, all this sounds unobjectionable. But there are problems. First, I will ask if this scheme of things is operative in other areas of life and culture. And if not, why should religion be different? I mean, does this scheme of ‘essence’ and ‘adjunct’ function anywhere else in our experience? Let us start first with the body. What do I absolutely need in order to live? Head and trunk pretty much suffice, and even the head’s eyes and ears are not strictly speaking imperative for survival. Limbs and higher senses can be dispensed with and a living, breathing organism will be left behind. Even those in a coma are still alive. And although such cases exist and we do our best to help them cope and continue to value their human dignity, no one will pretend that it is desirable to, so to speak, ‘get down to essentials’ in our corporal existence. We instinctively know that that which does not belong necessarily to the body’s essence, does belong to its integrity. And we also sense that the latter exists for the sake of the former. Our limbs serve the seat of our vital organs (trunk and head) and not vice versa.

Next, in a somewhat different register, let us consider our bodily needs for food, clothing, shelter, fuel and transportation. The ‘essential’ here would be for material goods to simply circulate among us, providing everyone with what they need, when they need it and in a proportion that would allow others to also share equitably in the wealth. Utopian dreams of whatever stripe – fascist or communist, or even unbridled capitalist – offer wistful gazes at such a Shangri-La. However, adults among us will sigh and admit that history has shown, again and again, that we cannot keep those goods circulating over the long haul without some sort of currency, market system, varieties of shops, banks and even, regretfully, a degree of governmental control. In the political order, too, the ‘essential’ would be for us to live in harmony, arm-in-arm, doors unlocked, resolving all community questions through cheery referenda (with unanimous approval effortlessly forthcoming) – in short, a Pleasantville of insipid smiles. Again, we wrinkle our brow and admit that apart from a very few, short-lived communal experiments, we only get close to peace and prosperity through the agency of some variety of sovereign power, some degree of bureaucracy, and at least a few soldiers and policemen into the bargain. They may not be needed in the earthly paradises we dream of, but all the paradises hitherto rehearsed on earth have swiftly turned into nightmares. Our best shot is to minimize inevitable evils through our clumsy, fallible institutions–updating and reforming them as often as needed.

I think the reader can see where I’m going with this. As our limbs and higher senses emerge from our embryonic organism, serve and protect it, and lead it on its more promising adventures; and as economic institutions emerge from our need for goods and then, in turn, serve that need; and as political institutions emerge from our need for peace and order and then, in turn, serve that need; why would the relationship between spirituality and religion be any different? Both economic and political institutions, being living realities, grow; and what grows, can overgrow, and will need periodic pruning and reform to stay true to its original purpose. The great religions all began with great spirituality, someone’s singular encounter with transcendent reality (I am leaving for another post the question of what part of spiritual reality that might be, and why religions are so different), and this engendered a complex human reaction in the form of wisdom traditions and belief systems for the mind; moral guidelines for the will; and ritual and liturgy for our bodies. The institutions generated by an original spirituality will grow, and, like other institutions, at times overgrow, and also need pruning and reform.

In summary, spirituality is precisely what religion is all about, and religion, at its best, is the natural outgrowth and prolongation of tested spirituality, and serves to protect and guide it. Its institutions can be as bland and boring as financial transactions in economics, and congressional debates in political life, but without them, the goods stop flowing, public order breaks down, and the flame of spirituality soon blows out. Spirituality without religion may occasionally work for the few, but never for all; and even for those few, it will work only for a while, and sooner rather than later will lose its form. Alone, it will never build a civilization. And religion – for all of its excesses and corruptions – has not just been a prerequisite of civilization; it has been its only demonstrable cause.

The Tool of Tools and the Form of Forms (2nd revision)

Vintage working tools on wooden background.

The so-called “logical” works of Aristotle have been grouped together under the title “Organon” (tool, organ) since his first major editor assembled them in the 1st century B.C.  It seems Andronicus of Rhodes employed this label to suggest that Aristotle considered the study of logic to be the great propadeutic, the unavoidable preparatory instrument one must first learn to use before embarking upon the real world studied by physics, psychology, metaphysics, ethics and the like. Although a significant measure of truth has been granted to this claim, a couple of questions have always troubled its articulation.

One is that the philosopher dedicates so very much time to this supposedly mere instrument. The “Analytics”, his work treating of logical inference proper, is so extensive it came to be divided into two quite large (and quite difficult) works. If you group the other texts of the Organon (the Categories, On Interpretation, the Topics and the Sophistical Refutations–not to mention the Rhetoric and the Poetics, which Arab Aristotelians included, not without reason) together with the Analytics, you have material for a couple of years study, at the very least. Is all this just about a tool?

The second question is even more perplexing. If the Stagirite considered these logical works to be so intrinsically instrumental to his vast philosophical project, why, when we survey his physical, psychological, metaphysical and ethical/political treatises–and even his incomplete Poetics–do we find nary a reference to them?  If we are busily building the edifice of philosophy with our hammer, saw, screw driver, pliers and all the other tools of a well-stocked toolbox, shouldn’t we catch sight–at least on occasion–of their active and indispensable role in producing the structure? (“Hand me a hammer.”  “Now I need the pliers.” etc.) We don’t, and one wonders why.

Some have suggested – rather lamely, in my opinion – that since we only have a fourth, or even just a fifth of all Aristotle wrote, maybe he did make these cross-references in the works that have been lost. However, the best conjectures about those missing works is that they consisted of numerous early dialogues and piles of notes on his incessant zoological researches. His substantive treatises, as imperfect as they sometimes are, seem to have been preserved because they constitute the lion’s share of his mature thought. I find a better answer in the very book which discusses the nature of the intellect (nous), which is the faculty that employs logical procedure to begin with. I suggest this text explains the inspiration of the title “Organon”, on the one hand, but also tells us why it receives such protracted attention at first and then seems to be almost forgotten in the remaining treatises about the “real world.”

When Aristotle famously defines man as a rational animal, we do well to remember the amplitude of the adjective in Greek:  logikon, meaning that we are animals that produce logoi, i.e. discourses. We don’t bark or squeak like some fellow animals (at least not in our finer moments) but we speak, and when we speak we utter various sorts of discourses. Within the womb of the very first concept we generate: that of being (the most universal, the most fecund but as such the least specific of all concepts), we produce logoi that go on to specify beings (in the plural), and to do so by both signifying ideas and feelings in our souls, but above all things, persons and ideas outside of us in the world. Such discourses are mostly approximate in terms of their inferential power (what Aristotle will call enthymemes, that is, arguments with implicit components), but then come the dialectical, poetical and–for the fortunate few–scientific discourses as well. Since we evidently perform all these acts, we logically must have the power to do so. That power, or faculty, is quite simply what we call the nous (which we can translate as intellect, mind, reason or intelligence).

hands

Now in the De Anima, where Aristotle studies psychology (the science of “souls” in all their forms, powers and acts), he arrives at a curious statement in the third book when discussing nous. He compares it to the hand, for the hand is that by which we “handle” just about everything, as the nous is that by which we think about everything. Like the mouth and the mind, the hand is designed with a constitutional openness – but that openness only exists in order to close. As our mouth opens to speak, but (hopefully!) soon closes to listen; or opens to eat, and then (again, hopefully) closes to chew and swallow, our mind seems to show the same pattern. It opens, but only in order to then bite down, as it were, on knowledge.

Aristotle is particularly intrigued by this analogy between the mind and the hand. The latter is naturally open and in this way remains poised to grasp virtually any tool that is presented to it. It is relevant here that in our European languages the words we typically use to bespeak understanding and intellectual activity are “manual”; that is, we “grasp” something; we “comprehend” something (from prehendere, in Latin, meaning to grasp). In German the analogous words are ergreifenerfassen (both originally meaning to take something into one’s hand). In a sense the hand is the body’s principal tool, but due to its extraordinary versatility, its radical openness and ability to assume a large number of configurations (picking up an apple, turning a screwdriver, wielding a hammer, pushing and pulling a saw, gesticulating, and so on), it would be better, Aristotle suggests, to call it the “tool of tools”.tools-tool-hand-construction-23602042

The intellect seems to do in an immaterial way what the hand does in a material way. It too “grasps” something; it too is in the service, as it were, of the “tools” it wields (concepts, judgments, arguments, hypotheses, etc.). However, the versatility and adaptability of the material hand is limited by its very materiality; it is indicative of our rational nature (along with the face, as Aristotle asserts), but it can’t do everything. It goes quite far, as it can gesticulate eloquently (a talent supremely developed by the Italians), but even in its first “logical” gesture – that of an infant spontaneously pointing – the power of the mind behind it is unmistakably “indicated” by that naturally extended index finger. That mind, the nous, as an immaterial power, is able – unlike the material hand – to be entirely versatile and adaptable in relation to the formalities it grasps. In a sense, it can do everything. The hand still has a fixed form (palm, thumb and four fingers); the nous has not only no material configuration at all, but its immaterial “form” – its natural specification, its function par excellence – is precisely to have no form. It can accept, “become” all forms because by nature it possesses none. Analogous to clay that is formless so that it can be formed into any shape one chooses, the intellect is formless so that it can receive any knowable form with which it is confronted. It is open by nature. As a hand which is open to all tools should be called the “tool of tools”, a “form” that is open to all forms should be called, Aristotle writes, the “form of forms”.

It is this radically open nature of the nous that brings Aristotle to affirm – in one of his more famous and surprising statements – that the intellectual soul is, in a certain sense, all existing things. Anything and everything that is now, or that ever was, or that ever could be is in principle knowable by an intellect whose very object is, quite simply, being (that which, in any way at all, is).  Just as some medieval philosophers called the “spirit” (the intellectual “part”, or center of the soul) the anima animae, the “soul of the soul,” the soul of the rational animal not only besouls the matter of the body, it is itself in turn besouled by its spiritual core. This “animation” means that it is open to, and quite literally alive to all being,  capax universi (“capable of everything”, in the words of Thomas Aquinas). Through it, the soul “becomes all things” in the sense that its immaterial form permits it to be in-formed by any and all reality within its experience. It can become, intentionally (i.e., in an immaterial mode of being that signifies, that thus “tends toward” a reality beyond it) what the things known are in reality (i.e., in the extra-mental world of things).

All this explains why logical studies are considered instrumental, not just in the sense that you need a certain proficiency in them in order to think coherently in the sciences of the real, but also because they study the very intellectual “hand” of the human soul. The Greek word Aristotle uses to say “tool of tools” is the very word the tradition has employed to refer to logic: organon.  The hand is the “organon of organons.”  The mind, in turn, is the “idea of ideas, or the form of forms.” From applying, analogically, the notion of organon (tool) to that of the “form” of the intellect, the eidon (form), the further step of calling logical studies a tool is a short one. That intellectual organ exists only in order to reach out to reality. Its reach is so complex, so rich with articulations (not unlike, and yet so much more than the fingers of a hand), and the discourses it produces so multi-faceted in the ways in which thought can be logikon (“logical”), Aristotle delves deeply and extensively into its world, exploring how it works, and why. He does this by “taking it apart” (the root meaning of the word “analysis”; thus, his name for logic: “analytics”).  This is the reason he spends so much time with this study, because it is so interesting and so revealing of the way in which nous works.

But there is more. The absence of any conspicuous reference back to the logical works in his theoretical or practical scientific treatises is, in fact, evidence of the truly “instrumental” nature of logic in the immaterial world of knowing. The concepts, the judgments, the syllogisms and all the rest of our intentional cognitive software – unlike the wooden and metallic density of a carpenter’s tools – are intentional realities, existing only in and of the mind. The scholastics called them “second intentions,” insofar as they refer not directly to the realities beyond them (as do “first intentions,” with which we cognitively interact with extra-mental being), but rather to the ways in which beings exist in the mind, once they are known, and only insofar as they are known.

Now, to the extent we are thinking coherently, and allowing the realities we encounter in sensation to enter into and temper our cognitive faculties, these “second intentions” have a tendency to function invisibly. They are transparent to the realities to which they provide access, like the lenses in a pair of glasses, or the pane of glass in your living room window. You look through them and not at them. It is only when the lenses crack, or a baseball sails through your window pane, or when things simply get dirty, that you pay any attention to the glass. Likewise, it is only when thinking goes awry, or becomes uncertain of itself, that we need to reach for the logical toolbox. Similarly, we only call the carpenter to come back when the house needs repairs. As it turns out, Aristotle’s substantive treatises about reality need few repairs.

Arist

Cultos de personalidade

É fácil apontar aos cultos de personalidade obviamente fanáticos, como aquele do Mao-tse Tung, Hitler, Stalin, e dos tiranos norte-coreanos; ou, numa chave mais “espiritual”, do Bhagwan Rashneesh (“Osho”), do David Koresh, do Jim Jones, etc., e achar, com grande confiança, que você nunca cairia sob o encanto de um tal charlatão.  Quando, porém, você assiste aos vídeos e documentários sobre esses personagens e seus cultos,  e vê os rostos e ouvir as vozes nas entrevistas de seus seguidores, vai ver e ouvir entre eles algumas pessoas obviamente inteligentes,  presumivelmente equilibradas, até pessoas profissionais (médicos, advogados, professores, etc.)–sem qualquer marca óbvia de fanatismo ou extremismo. Porém, estão cheias de convicção de que seu “guru” é simplesmente maravilhoso, e praticamente isento de falhas sérias.  Chegam até lágrimas nos seus olhos ao falarem dele.

Os católicos têm um exemplo ainda mais preocupante na figura de Marcial Maciel, o célebre fundador dos Legionários de Cristo, uma das congregações masculinas mais bem sucedidas dos fins do século XX, com milhares de membros jovens bem disciplinados e exemplares (e acrescento que estou falando com admiração sincera). Até São João Paulo II achou Maciel um homem exemplar, talvez até um santo. Mas foi revelada aos poucos sua vida secreta e, finalmente, ficou claro que sua pessoa foi equivocada em matéria que qualquer teólogo católico consideraria gravemente pecaminosa (e a justiça civil, criminosa). Mesmo assim e apesar da fiabilidade dessas revelações, ele fez coisas boas–inclusive a própria congregação–e sua comunidade de padres está sobrevivendo apesar das manifestações bem públicas dos seus delitos. Acho isso bom e rico em lições. Sem dúvida, os “sobreviventes” sabem distinguir bem entre os bons frutos e o caráter problemático do fundador, a quem eles, por anos e anos, tinham chamado–com grande afeição de devoção–nuestro padre (“nosso pai”).  O cristão sabe bem que Deus usa instrumentos às vezes altamente imperfeitos para realizar seus planos. Contudo, temos que manter os olhos abertos.

O fato é que mesmo pessoas extremamente dotadas e (especialmente) carismáticas podem sim fazer coisas admiráveis e atrair um séquito significante, mas sem ser realmente admiráveis nos olhos de Deus, ou de qualquer pessoa que tem longa e diferenciada experiência com seres humanos; os seguidores mais comprometidos desses líderes são, amiúde, pessoas jovens–por definição, sem muita experiência de vida. Charme, em si, não é uma virtude. Mesmo um Hitler ou um Stalin podiam ser altamente charmosos em relações sociais.  Para discernir entre os confiáveis e os menos fidedignos precisamos critérios objetivos para identificar os líderes, os mestres  que–mesmo com grandes contribuições à nossa cultura, ou à nossa consciência política–talvez carecem algumas das virtudes mais cruciais para ficarmos minimamente do lado de Deus na grande luta que é a nossa vida.

Estou pensando em vários casos, tanto da esquerda quanto da direita. São líderes na Europa, nos Estados Unidas e na América Latina–tanto líderes políticos como culturais ou até religiosos–que podem atrair milhares de seguidores. Sugiro apenas que as pessoas apliquem esses critérios a qualquer um deles, antes de virar um “seguidor”. Pode até aprender muito com eles, mas para segui-los, busquem no caráter deles, antes de mais nada, três sinais indicadores:

  1. A capacidade de aceitar crítica com graça e humildade. Quem fica tipicamente irritado e resistente a qualquer crítica às suas posições, sua pessoa ou seus atos, e tende a ridicularizar tais críticas e recusar a engajar as pessoas que as falam com tranquilidade e seriedade (ou aceitar debates públicos), não merece discípulos. Platão ficou circundado não apenas por discípulos submissos, mas também por colegas no mesmo nível dele (alguns dos quais discordaram fortemente com teses básicas do platonismo!). Aristóteles deixou um exemplo ainda mais impressionante. Ele ficou 20 anos na Academia de Platão, ouvindo posições das mais díspares, interagindo com elas e depurando suas próprias posições em diálogo com elas. O que hoje em dia chamamos “peer review” (avaliação pelos pares)–mesmo se abusado e exagerado às vezes (como tudo nesta vida)–é uma manifestação sadia e realista daquilo que todo intelectual público precisa na definição e elaboração das suas próprias ideias. Quem trabalha sozinho, ou se gaba em ser “auto-didata,” é especialmente suscetível ao perigo de “endogamia intelectual.”  “He that is taught only by himself has a fool for a master” (Ben Johnson).  Platão teve Sócrates e os desafiantes sofistas;  Aristóteles, Platão e sua turma; Plotino, Amônio Sacco e colegas; Agostinho teve Ambrósio e outros companheiros cultos; Tomás de Aquino, Alberto Magno e os colegas dominicanos, franciscanos e professores do clero secular….e assim por diante.  Tomás, de bom escolástico, aprendeu engajar, ativa e respeitosamente, todas as abordagens plausíveis contra suas posições antes de articulá-las (as famosas objectiones).  Quem não sabe fazer isso, ou algo análogo, não deveria ser seguido.
  2. Uma visão diferenciada (digamos, “colorida”) da realidade, sem a tendência a caracterizar as coisas em termos preto/branco. Especialmente desqualificador é a demonização de alguma corrente de pensamento ou de política e a recusa de identificar os elementos bons e positivos sem os quais, no final das contas,  ninguém poderia aderir a eles to begin with.  A partir do bem nas posições a serem atacadas, o ataque pode prosseguir com acerto e humildade.
  3. Medida e modéstia nas palavras. Alguém que nunca para de falar–que fala e fala e fala (especialmente possível hoje no mundo da média social!), que tem algo a dizer sobre tudo, e que dá a impressão de nutrir um amor exagerado pelo som da sua própria voz, não é um mestre confiável. O Hitler e também os ditadores do comunismo de cunho soviético são famosos pelos seus discursos de horas a fio. Um mestre verdadeiramente sábio será alguém que até prefere o silêncio, e que, pelo menos, costuma calar muito antes de abrir a boca.

Finalmente cabe observar que o apego pessoal a um professor ou mestre, pelo menos nos primeiros meses e anos de aprendizagem, é normal e praticamente inevitável. Começamos nossa vida como crianças com confiança totalmente acrítica em nossos pais, e é bom assim. Mas não é bom uma pessoa de 25 ou 30 anos continuar viver sob a guarda-chuva dos seus pais e recusar a ganhar sua independência tanto econômica quanto intelectual. Igualmente com nossos professores; eles fazem uma contribuição preciosa à nossa formação por um tempo estritamente delimitado, e depois a relação deveria terminar. Teremos que reconhecer que eles são também humanos, que têm fraquezas e que um vínculo permanente de discípulo para com eles só vai prejudicar nosso amadurecimento. Há só uma grande exceção a isso; estou escrevendo este texto na Semana Santa, dedicada aos dias mais silenciosos daquele que é o Verbo em carne.  Sete brevíssimas palavras serão proferidas por ele Sexta Feira Santa à tarde. Ele é a única personalidade que merece um culto.

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