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O que a Filosofia não é – e o que ela é

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Nenhuma outra área do conhecimento, além da Filosofia, sofre tanta controvérsia acerca do que é exatamente. As ciências naturais e (mais ainda) as sociais podem abrigar ambiguidades em seus métodos e nos pormenores de sua análise, mas normalmente há poucas disputas sérias acerca do que se estuda nessas ciências. Com a Filosofia não é assim. Pergunte a três filósofos o que eles investigam como filósofos, e você obterá três respostas tão diferentes – de fato, uma delas pode muito bem afirmar que a Filosofia nem existe mais! –, que o leigo poderá questionar-se por que uma universidade financiaria um departamento onde impera tamanha confusão. Um modo de colocarmos nosso pensamento em ordem neste assunto é abordando-o negativamente. Ou seja, o que não é Filosofia?  Talvez aqui achemos algum consenso.

Eu afirmarei com confiança que existem cinco coisas que a Filosofia não é, de acordo com os seguintes critérios: modo de exposição, amplitude da temática, método de discurso, faculdade humana empregada, e propósito. Usando esses critérios, defenderei que a Filosofia não é sabedoria proverbial, não é uma ciência no sentido moderno, não é mitologia, não é uma das belas artes, e não é religião.

  1. As etimologias não regulam inteiramente o significado dos vocábulos, mas, no caso da Filosofia, alguma semelhança com a ‘adorável e amável’ sabedoria [Φιλοσοφία, literalmente “amor pela sabedoria”] deve ser localizada em seus frutos para que a palavra mantenha o mínimo do seu significado original. Provérbios (aforismos, ditados, máximas, etc.) são tipicamente repletos de uma sabedoria que vem como que embalada num pequeno pacote. Pode ser, porém, que é justamente a brevidade que amemos, enquanto a Filosofia é conhecida por tratar os assuntos de maneira extensa e articulada. Em sua maior parte, raramente é proverbial, mas decidamente – por vezes interminavelmente – discursiva.
  1. Notáveis tentativas para reduzir uma ciência moderna a outra (Química à Física, Biologia à Química, por exemplo) têm sido também notáveis fracassos. A maioria das triunfantes ciências de hoje prende-se admiravelmente ao seu chão, mas o faz apenas erigindo barreiras e destacando os limites entre os objetos de cada uma. Em contraste, as filosofias, independentemente da faixa a que pertençam, sempre aspiraram a uma espécie de visão sinótica, seja pela mediação com outras áreas do conhecimento, seja por transcendê-las completamente. Tal generalidade pode ser cognitivamente ambiciosa (Plotino, Hegel), ou bem modesta (Kant, Wittgenstein), mas há sempre uma busca de abrangência nas empreitadas filosóficas. Sem querer saber tudo sobre algo (como nas ciências), o filósofo deseja saber algo (ainda que modesto) sobre tudo. A Filosofia procura ser, em algum sentido robusto, universal.
  1. Contudo, já existe um discurso que com frequência lida com a sabedoria e com questões de abrangência universal, e que tipicamente – seja em termos históricos ou em termos pedagógicos – antecede à Filosofia. Trata-se da mitologia. Apesar de filosofias e mitologias correrem, muitas vezes, paralelamente, podendo até encontrarem-se inseparáveis em muitos discursos humanos, elas são, típica e famosamente, distintas. A distinção está no método discursivo. Mitos são narrados (ou contados); a Filosofia é raciocinada (ou argumentada).

*** Suplemento: Também por seu caráter argumentativo a Filosofia não é apenas “cosmovisão” (Weltanschauung). Digo “não apenas” porque a Filosofia, como eu a entendo, inclui, necessariamente, também uma visão do cosmos, mas não é redutível a isso. É possível ter uma cosmovisão sem engajar, programaticamente, o ato filosófico. Os mitos, as mais das vezes, incluem ou pressupõem uma cosmovisão, mas sem argumentação racional ficam no campo da narração e imaginação.  ***

  1. Pode-se suspeitar que a procura da sabedoria e a visão abrangente necessitam mais do que mitos e argumentos, e que por isso é preciso voltar-se aos horizontes abertos das artes. Música, drama, literatura, pintura, arquitetura, dança, e hoje em dia o cinema, parecem prometer mais envergadura temática e mais profundidade metafísica do que os tratados de Aristóteles ou de Heidegger, ou os diálogos de Platão ou de Hume. Mas, também aqui, ainda que muitas vezes inseparável das artes, a Filosofia tem se mantido distinta delas. Isto se dá em virtude daquilo que as artes exercitam em nossa composição humana: acima de tudo, nossos sentidos, emoções e imaginação, e apenas de modo auxiliar o nosso intelecto. A Filosofia é exatamente o contrário. A faculdade humana que está em primeiro plano aqui é a nossa mente ponderante, tanto no modo intuitivo quanto inferencial. A Filosofia não é, em seu sentido primeiro e mais importante, uma atividade sensorial, e sim mental ou, numa terminologia mais tradicional, intelectual.
  1. Mas, para que tudo isso? O fim e o propósito da Filosofia podem parecer bastante exaltados às vezes, e alguns de seus praticantes não escaparam de confundi-la com a religião (os pitagóricos, alguns neoplatônicos, a bizarra religião filosofica de Comte, o DIAMAT soviético, vêm à mente). O Budismo, muitas vezes mencionado como uma religião, é considerado por outros, com boas razões, uma filosofia. Portanto, há ambiguidades aqui. Mas, em geral, a religião coloca o objetivo da transformação pessoal no centro do palco, e sem isso nem existiria. A Filosofia pode de fato fornecer insights que, no final das contas, resultarão numa metamorfose pessoal. Não obstante os recentes apologistas da Filosofia como ‘modo de vida’, ou até de espiritualidade (Hadot e companhia), a maioria dos filósofos identificou o seu objetivo menos como uma transformação existencial, e mais como um tipo de conhecimento, ou como um particular hábito de pensamento. O propósito da Filosofia é considerado, por natureza, cognitivo.

*   *   *

Os limites negativos que delineei em cima já nos levaram a alguns resultados positivos, na medida em que múltiplos contrastes de algo com aquilo que não é,  já lhe traçam um esboço que sugere conteúdo: assim, vimos que a Filosofia é discursiva, tem aspirações universais, é de alguma forma argumentativa no seu método, é distintamente intelectual em sua operação e se propõe a atingir um tipo de conhecimento. Aqui, eu ousarei pôr o meu dedo em sua essência fugidia. Jamais ouvi falar disso antes – conquanto provavelmente já tenha sido dito –, mas, quando me recordo de minhas décadas filosofando e observando o que os filósofos fizeram de melhor, não posso escapar à conclusão: ‘filosofia’ é alguma coisa nos filósofos, uma qualidade que ganhamos e que nos impele a desempenhar o ato filosófico. E esta coisa é:

o hábito intelectual adquirido de olhar para a realidade, e de ponderar sobre ela, com o intuito tenaz de descobrir seus princípios mais abrangentes e fundantes – na medida em que sejam conhecíveis – a respeito do cosmos, do ser humano e da transcendência. 

A ressalva inserida no parágrafo anterior permite-nos acolher, abaixo do guarda-chuva da definição, até mesmo os minimalistas cognitivos – dos céticos aos kantianos, até aos pós-modernistas –, pois estes também reivindicam um tipo de posicionamento abrangente e fundante em princípios, ao delimitarem e radicalmente relativarizarem as possibilidades de todo conhecimento.

Nós não nascemos filósofos (e, felizmente, poucos se o tornarão), mas a boa Filosofia, em minha visão, constrói-se sobre o conhecimento natural que todos possuímos pelo simples fato de sermos humanos. Esse conhecimento natural carrega, como seu segredo sagrado, a experiência de admiração (espanto, assombro, amaravilhamento, etc.). Nosso conhecimento é sempre circundado por desconhecimento. Como crianças, rapidamente descobrimos que viemos de algo (até de alguém); em outras palavras, descobrimos que somos ‘derivados’. Descobrimos também que estamos sempre a caminho, indo para um ou outro destino, seja ele só a próxima fase do nosso crescimento. Além disso, quando ainda em fraldas, verificamos, competente e convincentemente, que existe um mundo à nossa volta, o qual está muito além de nosso conhecimento e controle. Um pouco depois, mas ainda fazendo parte das nossas conquistas cognitivas juvenis, descobrimos que devemos fazer escolhas e que todo tipo de coisas boas ou más resultarão delas.

Todos nós vamos, em maior ou menor grau, empurrar nossas fronteiras para além desses horizontes imediatos. Por exemplo, além de nossa família nuclear podemos buscar as origens de nossos antepassados e explorar um pouco de genealogia; podemos investigar, além de nossos planos imediatos, sobre os objetivos futuros em relação a onde iremos depois de sair de casa, ou após a faculdade, ou após a aposentadoria (ou após a morte?). Da mesma forma, para além de nossa residência e vizinhança, podemos pensar em escalas mais amplas, localizando nossa cidade no estado, nosso estado em um país, nosso país em um continente, e talvez mesmo imaginar a posição de nosso planeta no sistema solar, e por aí vai. E também, por volta dos 20 anos, devemos ter suficiente comando sobre nossa liberdade para administrar nossas futuras escolhas com responsabilidade e com consciência crescente das consequências. Contudo, a grande maioria de nós vai deixar as pesquisas em escala mais modesta, e seguir em frente com a vida cotidiana, a vocação, o emprego, a família. Os devaneios de domingo à tarde ou os coquetéis que frequentamos podem nos proporcionar ocasiões para ocuparmos com as ‘grandes questões’, mas raramente vamos muito longe com a onerosa tarefa de desvelar os mistérios implicados por elas.

O que torna os filósofos diferentes (diferentes, não melhores) é que, em suas vidas, eles não podem deixar de prolongar seus questionamentos sobre origens, destinos, universos e liberdade, bem como são incuravelmente desafiados pelo verdadeiro, pelo bom e pelo belo. Essas questões amadurecerão na metafísica, cosmologia, antropologia filosófica, ética, filosofia política e estética, entre outras disciplinas (tudo isso monitorado pela lógica – aquela grande serviçal, mas mestre temível). Seus praticantes não descansarão enquanto não conseguirem pelo menos alguns novos raios de luz sobre causas mais primordiais, fins mais derradeiros, e ‘mundos’ mais transcendentes à nossa volta, e, finalmente, as fontes da liberdade que tanto nos assombram quanto nos provocam. Causas, consequências, contextos e consciência (no sentido moral e psicológico) não são apenas parâmetros de vida pragmática para os filósofos; são chamamentos para aventura intelectual. A verdade busca suas fundações; o bem, sua expansão; a beleza, sua perfeição. Meu filósofo ideal ouve a chamada, e se junta a essa busca.

Narciso negado

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Sua vida é sua, sua mesmo, e vai ter que se responsabilizar por ela.  Mas isso não significa que ela é sobre você, ou acerca de você.  Por outras palavras, o tema da sua vida não é Sua Senhoria.  Buscar o sentido dela olhando só dentro da sua individualidade espácio-temporal sempre vai fracassar. É o dilema de Narciso. Mesmo esse garoto devia ter notado, enquanto mirava seu lindo rosto na água, que seus olhos, suas narinas, suas orelhas e até seus lábios e sua língua se orientam–todos!–para fora. Nossa face não tem a capacidade inata de fitar com seus olhos em si mesma, sem ficar vesgo e louco. O espelho pode servir para fazer a barba ou botar a maquiagem, mas além disso, é um gerador incansável de maya (o finito fingindo de ser o infinito, o temporal fingindo de ser o eterno). Nossa vida é sobre algo que transcende a nós mesmos, verdades e valores acima de nós mesmos. Além do rosto, também nosso corpo é uma testemunha inconfundível desse fato.open

O sentido da nossa vida articula-se no tempo e na história como um convite para desvendar um mistério vis-à-vis nossa cara; não é um convite para sentar-nos enquanto alguém pinta nosso retrato. Respondemos a esse convite não apenas caminhando, literalmente, com nossas pernas em busca das coisas que precisamos para sobreviver (idas para o supermercado, a escola, a casa dos amigos, ou até destinos turísticos…). Também peregrinamos com nossos sentidos e imaginação nas artes e nos estudos humanísticos, para juntar à nossa experiência limitada as experiências dos nossos semelhantes na história, amplificando a envergadura do nosso horizonte humano. Peregrinamos, ademais, com nosso inteleto e razão na filosofia e nas ciências (aprofundando o contato da mente com o mundo que a circunda e fecunda).  Finalmente, peregrinamos com nosso coração, na espiritualidade e religião, porque existe um imenso mundo também dentro de nós, o qual nos extravasa infinitamente, mas também nos abraça com a atmosfera animadora da eternidade. A sua descoberta é sempre nova, mas sua experiência é intuitivamente perene.  É “a beleza tão antiga e tão nova,” de que fala Santo Agostinho.  

Este perene não é um “velho” que passa, mas um perpétuo que se perpetua. O perene é o presente, o permanentemente presente, o implacavelmente atual, o fiavelmente circundante–aquilo que, mesmo negado, continua tacitamente pressuposto. Quando uma obra de literatura ou de arte se torna um “clássico,” é porque ganhou a capacidade de se desengajar da sua situação espacial e cronológica e entrar em contato com uma realidade profunda que está sempre acessível àqueles que têm a chave para destrancá-la.  Uma tal obra vira um limiar à vista de outras paisagens que temos que vislumbrar de tempos em tempos. Se não, corremos o risco de cairmos na água em que o coitado Narciso afogou.

19 - Open Door

Spiritual, but not religious? (revised)

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A common refrain heard today from those reluctant to succumb entirely to secularism and atheism, and intent on keeping a door open to transcendence, but who are still wary of corrupt and calcified religious institutions, is: “I am a spiritual person, but not religious”. When queried on the content of their spirituality – one can hardly make the claim without an approximate frame of conviction – they will reply with some version of the following. 1) I believe in ‘some higher force’ – call it God if you like; 2) we are all somehow one, and I wish to stay in tune with this oneness – call it ‘love’ if you like; 3) I have found ways to commune with the higher force – call it prayer or meditation if you like; 4) all religions are basically the same, and the spirituality I have found constitutes their inner reality; the rest is just window-dressing. In short, they quite reasonably conclude that once you’ve bared the banana, you might as well throw away the peel. This sounds very convincing on the face of it.

We witness a wide spectrum of variations on this today, from the simplest, personal option of steering clear of organized religion and fostering one’s own private spirituality, with open-ended tenets of belief, and some reluctance to discuss its details or preach it from the rooftops (“it’s private”, after all), to publicly trumpeted universalist claims. We hear so often of those who say they have isolated the perennial truth and mystical minimum of it all, and who welcome those of any or no faith to participate in week-end retreats and workshops – or to read the books that vehicle the message – and thus gain their own access to some variety of spiritual experience. All this is usually packaged in techniques borrowed from various traditions (usually Eastern), or made to order by unlikely collaborations between ancient practices and modern neuroscience. The buffet on offer is quite extensive, but the usual inner message is the same: the isolation of the essential and the marginalization and relativization of the secondary. Some gurus may recommend adherence to an outer religious tradition of one sort or the other, but almost always as a mere cultural adjunct (one ‘skillful means’ among others, called upaya in the Buddhist tradition); what is important is that the underlying essence be grasped, and that all religious institutions and forms are seen, in the final analysis, to be ancillary and ultimately dispensable.

Again, all this sounds unobjectionable. But there are problems. First, I will ask if this scheme of things is operative in other areas of life and culture. And if not, why should religion be different? I mean, does this scheme of ‘essence’ and ‘adjunct’ function anywhere else in our experience? Let us start first with the body. What do I absolutely need in order to live? Head and trunk pretty much suffice, and even the head’s eyes and ears are not strictly speaking imperative for survival. Limbs and higher senses can be dispensed with and a living, breathing organism will be left behind. Even those in a coma are still alive. And although such cases exist and we do our best to help them cope and continue to value their human dignity, no one will pretend that it is desirable to, so to speak, ‘get down to essentials’ in our corporal existence. We instinctively know that that which does not belong necessarily to the body’s essence, does belong to its integrity. And we also sense that the latter exists for the sake of the former. Our limbs serve the seat of our vital organs (trunk and head) and not vice versa.

Next, in a somewhat different register, let us consider our bodily needs for food, clothing, shelter, fuel and transportation. The ‘essential’ here would be for material goods to simply circulate among us, providing everyone with what they need, when they need it and in a proportion that would allow others to also share equitably in the wealth. Utopian dreams of whatever stripe – fascist or communist, or even unbridled capitalist – offer wistful gazes at such a Shangri-La. However, adults among us will sigh and admit that history has shown, again and again, that we cannot keep those goods circulating over the long haul without some sort of currency, market system, varieties of shops, banks and even, regretfully, a degree of governmental control. In the political order, too, the ‘essential’ would be for us to live in harmony, arm-in-arm, doors unlocked, resolving all community questions through cheery referenda (with unanimous approval effortlessly forthcoming) – in short, a Pleasantville of insipid smiles. Again, we wrinkle our brow and admit that apart from a very few, short-lived communal experiments, we only get close to peace and prosperity through the agency of some variety of sovereign power, some degree of bureaucracy, and at least a few soldiers and policemen into the bargain. They may not be needed in the earthly paradises we dream of, but all the paradises hitherto rehearsed on earth have swiftly turned into nightmares. Our best shot is to minimize inevitable evils through our clumsy, fallible institutions–updating and reforming them as often as needed.

I think the reader can see where I’m going with this. As our limbs and higher senses emerge from our embryonic organism, serve and protect it, and lead it on its more promising adventures; and as economic institutions emerge from our need for goods and then, in turn, serve that need; and as political institutions emerge from our need for peace and order and then, in turn, serve that need; why would the relationship between spirituality and religion be any different? Both economic and political institutions, being living realities, grow; and what grows, can overgrow, and will need periodic pruning and reform to stay true to its original purpose. The great religions all began with great spirituality, someone’s singular encounter with transcendent reality (I am leaving for another post the question of what part of spiritual reality that might be, and why religions are so different), and this engendered a complex human reaction in the form of wisdom traditions and belief systems for the mind; moral guidelines for the will; and ritual and liturgy for our bodies. The institutions generated by an original spirituality will grow, and, like other institutions, at times overgrow, and also need pruning and reform.

In summary, spirituality is precisely what religion is all about, and religion, at its best, is the natural outgrowth and prolongation of tested spirituality, and serves to protect and guide it. Its institutions can be as bland and boring as financial transactions in economics, and congressional debates in political life, but without them, the goods stop flowing, public order breaks down, and the flame of spirituality soon blows out. Spirituality without religion may occasionally work for the few, but never for all; and even for those few, it will work only for a while, and sooner rather than later will lose its form. Alone, it will never build a civilization. And religion – for all of its excesses and corruptions – has not just been a prerequisite of civilization; it has been its only demonstrable cause.

The Tool of Tools and the Form of Forms (2nd revision)

Vintage working tools on wooden background.

The so-called “logical” works of Aristotle have been grouped together under the title “Organon” (tool, organ) since his first major editor assembled them in the 1st century B.C.  It seems Andronicus of Rhodes employed this label to suggest that Aristotle considered the study of logic to be the great propadeutic, the unavoidable preparatory instrument one must first learn to use before embarking upon the real world studied by physics, psychology, metaphysics, ethics and the like. Although a significant measure of truth has been granted to this claim, a couple of questions have always troubled its articulation.

One is that the philosopher dedicates so very much time to this supposedly mere instrument. The “Analytics”, his work treating of logical inference proper, is so extensive it came to be divided into two quite large (and quite difficult) works. If you group the other texts of the Organon (the Categories, On Interpretation, the Topics and the Sophistical Refutations–not to mention the Rhetoric and the Poetics, which Arab Aristotelians included, not without reason) together with the Analytics, you have material for a couple of years study, at the very least. Is all this just about a tool?

The second question is even more perplexing. If the Stagirite considered these logical works to be so intrinsically instrumental to his vast philosophical project, why, when we survey his physical, psychological, metaphysical and ethical/political treatises–and even his incomplete Poetics–do we find nary a reference to them?  If we are busily building the edifice of philosophy with our hammer, saw, screw driver, pliers and all the other tools of a well-stocked toolbox, shouldn’t we catch sight–at least on occasion–of their active and indispensable role in producing the structure? (“Hand me a hammer.”  “Now I need the pliers.” etc.) We don’t, and one wonders why.

Some have suggested – rather lamely, in my opinion – that since we only have a fourth, or even just a fifth of all Aristotle wrote, maybe he did make these cross-references in the works that have been lost. However, the best conjectures about those missing works is that they consisted of numerous early dialogues and piles of notes on his incessant zoological researches. His substantive treatises, as imperfect as they sometimes are, seem to have been preserved because they constitute the lion’s share of his mature thought. I find a better answer in the very book which discusses the nature of the intellect (nous), which is the faculty that employs logical procedure to begin with. I suggest this text explains the inspiration of the title “Organon”, on the one hand, but also tells us why it receives such protracted attention at first and then seems to be almost forgotten in the remaining treatises about the “real world.”

When Aristotle famously defines man as a rational animal, we do well to remember the amplitude of the adjective in Greek:  logikon, meaning that we are animals that produce logoi, i.e. discourses. We don’t bark or squeak like some fellow animals (at least not in our finer moments) but we speak, and when we speak we utter various sorts of discourses. Within the womb of the very first concept we generate: that of being (the most universal, the most fecund but as such the least specific of all concepts), we produce logoi that go on to specify beings (in the plural), and to do so by both signifying ideas and feelings in our souls, but above all things, persons and ideas outside of us in the world. Such discourses are mostly approximate in terms of their inferential power (what Aristotle will call enthymemes, that is, arguments with implicit components), but then come the dialectical, poetical and–for the fortunate few–scientific discourses as well. Since we evidently perform all these acts, we logically must have the power to do so. That power, or faculty, is quite simply what we call the nous (which we can translate as intellect, mind, reason or intelligence).

hands

Now in the De Anima, where Aristotle studies psychology (the science of “souls” in all their forms, powers and acts), he arrives at a curious statement in the third book when discussing nous. He compares it to the hand, for the hand is that by which we “handle” just about everything, as the nous is that by which we think about everything. Like the mouth and the mind, the hand is designed with a constitutional openness – but that openness only exists in order to close. As our mouth opens to speak, but (hopefully!) soon closes to listen; or opens to eat, and then (again, hopefully) closes to chew and swallow, our mind seems to show the same pattern. It opens, but only in order to then bite down, as it were, on knowledge.

Aristotle is particularly intrigued by this analogy between the mind and the hand. The latter is naturally open and in this way remains poised to grasp virtually any tool that is presented to it. It is relevant here that in our European languages the words we typically use to bespeak understanding and intellectual activity are “manual”; that is, we “grasp” something; we “comprehend” something (from prehendere, in Latin, meaning to grasp). In German the analogous words are ergreifenerfassen (both originally meaning to take something into one’s hand). In a sense the hand is the body’s principal tool, but due to its extraordinary versatility, its radical openness and ability to assume a large number of configurations (picking up an apple, turning a screwdriver, wielding a hammer, pushing and pulling a saw, gesticulating, and so on), it would be better, Aristotle suggests, to call it the “tool of tools”.tools-tool-hand-construction-23602042

The intellect seems to do in an immaterial way what the hand does in a material way. It too “grasps” something; it too is in the service, as it were, of the “tools” it wields (concepts, judgments, arguments, hypotheses, etc.). However, the versatility and adaptability of the material hand is limited by its very materiality; it is indicative of our rational nature (along with the face, as Aristotle asserts), but it can’t do everything. It goes quite far, as it can gesticulate eloquently (a talent supremely developed by the Italians), but even in its first “logical” gesture – that of an infant spontaneously pointing – the power of the mind behind it is unmistakably “indicated” by that naturally extended index finger. That mind, the nous, as an immaterial power, is able – unlike the material hand – to be entirely versatile and adaptable in relation to the formalities it grasps. In a sense, it can do everything. The hand still has a fixed form (palm, thumb and four fingers); the nous has not only no material configuration at all, but its immaterial “form” – its natural specification, its function par excellence – is precisely to have no form. It can accept, “become” all forms because by nature it possesses none. Analogous to clay that is formless so that it can be formed into any shape one chooses, the intellect is formless so that it can receive any knowable form with which it is confronted. It is open by nature. As a hand which is open to all tools should be called the “tool of tools”, a “form” that is open to all forms should be called, Aristotle writes, the “form of forms”.

It is this radically open nature of the nous that brings Aristotle to affirm – in one of his more famous and surprising statements – that the intellectual soul is, in a certain sense, all existing things. Anything and everything that is now, or that ever was, or that ever could be is in principle knowable by an intellect whose very object is, quite simply, being (that which, in any way at all, is).  Just as some medieval philosophers called the “spirit” (the intellectual “part”, or center of the soul) the anima animae, the “soul of the soul,” the soul of the rational animal not only besouls the matter of the body, it is itself in turn besouled by its spiritual core. This “animation” means that it is open to, and quite literally alive to all being,  capax universi (“capable of everything”, in the words of Thomas Aquinas). Through it, the soul “becomes all things” in the sense that its immaterial form permits it to be in-formed by any and all reality within its experience. It can become, intentionally (i.e., in an immaterial mode of being that signifies, that thus “tends toward” a reality beyond it) what the things known are in reality (i.e., in the extra-mental world of things).

All this explains why logical studies are considered instrumental, not just in the sense that you need a certain proficiency in them in order to think coherently in the sciences of the real, but also because they study the very intellectual “hand” of the human soul. The Greek word Aristotle uses to say “tool of tools” is the very word the tradition has employed to refer to logic: organon.  The hand is the “organon of organons.”  The mind, in turn, is the “idea of ideas, or the form of forms.” From applying, analogically, the notion of organon (tool) to that of the “form” of the intellect, the eidon (form), the further step of calling logical studies a tool is a short one. That intellectual organ exists only in order to reach out to reality. Its reach is so complex, so rich with articulations (not unlike, and yet so much more than the fingers of a hand), and the discourses it produces so multi-faceted in the ways in which thought can be logikon (“logical”), Aristotle delves deeply and extensively into its world, exploring how it works, and why. He does this by “taking it apart” (the root meaning of the word “analysis”; thus, his name for logic: “analytics”).  This is the reason he spends so much time with this study, because it is so interesting and so revealing of the way in which nous works.

But there is more. The absence of any conspicuous reference back to the logical works in his theoretical or practical scientific treatises is, in fact, evidence of the truly “instrumental” nature of logic in the immaterial world of knowing. The concepts, the judgments, the syllogisms and all the rest of our intentional cognitive software – unlike the wooden and metallic density of a carpenter’s tools – are intentional realities, existing only in and of the mind. The scholastics called them “second intentions,” insofar as they refer not directly to the realities beyond them (as do “first intentions,” with which we cognitively interact with extra-mental being), but rather to the ways in which beings exist in the mind, once they are known, and only insofar as they are known.

Now, to the extent we are thinking coherently, and allowing the realities we encounter in sensation to enter into and temper our cognitive faculties, these “second intentions” have a tendency to function invisibly. They are transparent to the realities to which they provide access, like the lenses in a pair of glasses, or the pane of glass in your living room window. You look through them and not at them. It is only when the lenses crack, or a baseball sails through your window pane, or when things simply get dirty, that you pay any attention to the glass. Likewise, it is only when thinking goes awry, or becomes uncertain of itself, that we need to reach for the logical toolbox. Similarly, we only call the carpenter to come back when the house needs repairs. As it turns out, Aristotle’s substantive treatises about reality need few repairs.

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Cultos de personalidade

É fácil apontar aos cultos de personalidade obviamente fanáticos, como aquele do Mao-tse Tung, Hitler, Stalin, e dos tiranos norte-coreanos; ou, numa chave mais “espiritual”, do Bhagwan Rashneesh (“Osho”), do David Koresh, do Jim Jones, etc., e achar, com grande confiança, que você nunca cairia sob o encanto de um tal charlatão.  Quando, porém, você assiste aos vídeos e documentários sobre esses personagens e seus cultos,  e vê os rostos e ouvir as vozes nas entrevistas de seus seguidores, vai ver e ouvir entre eles algumas pessoas obviamente inteligentes,  presumivelmente equilibradas, até pessoas profissionais (médicos, advogados, professores, etc.)–sem qualquer marca óbvia de fanatismo ou extremismo. Porém, estão cheias de convicção de que seu “guru” é simplesmente maravilhoso, e praticamente isento de falhas sérias.  Chegam até lágrimas nos seus olhos ao falarem dele.

Os católicos têm um exemplo ainda mais preocupante na figura de Marcial Maciel, o célebre fundador dos Legionários de Cristo, uma das congregações masculinas mais bem sucedidas dos fins do século XX, com milhares de membros jovens bem disciplinados e exemplares (e acrescento que estou falando com admiração sincera). Até São João Paulo II achou Maciel um homem exemplar, talvez até um santo. Mas foi revelada aos poucos sua vida secreta e, finalmente, ficou claro que sua pessoa foi equivocada em matéria que qualquer teólogo católico consideraria gravemente pecaminosa (e a justiça civil, criminosa). Mesmo assim e apesar da fiabilidade dessas revelações, ele fez coisas boas–inclusive a própria congregação–e sua comunidade de padres está sobrevivendo apesar das manifestações bem públicas dos seus delitos. Acho isso bom e rico em lições. Sem dúvida, os “sobreviventes” sabem distinguir bem entre os bons frutos e o caráter problemático do fundador, a quem eles, por anos e anos, tinham chamado–com grande afeição de devoção–nuestro padre (“nosso pai”).  O cristão sabe bem que Deus usa instrumentos às vezes altamente imperfeitos para realizar seus planos. Contudo, temos que manter os olhos abertos.

O fato é que mesmo pessoas extremamente dotadas e (especialmente) carismáticas podem sim fazer coisas admiráveis e atrair um séquito significante, mas sem ser realmente admiráveis nos olhos de Deus, ou de qualquer pessoa que tem longa e diferenciada experiência com seres humanos; os seguidores mais comprometidos desses líderes são, amiúde, pessoas jovens–por definição, sem muita experiência de vida. Charme, em si, não é uma virtude. Mesmo um Hitler ou um Stalin podiam ser altamente charmosos em relações sociais.  Para discernir entre os confiáveis e os menos fidedignos precisamos critérios objetivos para identificar os líderes, os mestres  que–mesmo com grandes contribuições à nossa cultura, ou à nossa consciência política–talvez carecem algumas das virtudes mais cruciais para ficarmos minimamente do lado de Deus na grande luta que é a nossa vida.

Estou pensando em vários casos, tanto da esquerda quanto da direita. São líderes na Europa, nos Estados Unidas e na América Latina–tanto líderes políticos como culturais ou até religiosos–que podem atrair milhares de seguidores. Sugiro apenas que as pessoas apliquem esses critérios a qualquer um deles, antes de virar um “seguidor”. Pode até aprender muito com eles, mas para segui-los, busquem no caráter deles, antes de mais nada, três sinais indicadores:

  1. A capacidade de aceitar crítica com graça e humildade. Quem fica tipicamente irritado e resistente a qualquer crítica às suas posições, sua pessoa ou seus atos, e tende a ridicularizar tais críticas e recusar a engajar as pessoas que as falam com tranquilidade e seriedade (ou aceitar debates públicos), não merece discípulos. Platão ficou circundado não apenas por discípulos submissos, mas também por colegas no mesmo nível dele (alguns dos quais discordaram fortemente com teses básicas do platonismo!). Aristóteles deixou um exemplo ainda mais impressionante. Ele ficou 20 anos na Academia de Platão, ouvindo posições das mais díspares, interagindo com elas e depurando suas próprias posições em diálogo com elas. O que hoje em dia chamamos “peer review” (avaliação pelos pares)–mesmo se abusado e exagerado às vezes (como tudo nesta vida)–é uma manifestação sadia e realista daquilo que todo intelectual público precisa na definição e elaboração das suas próprias ideias. Quem trabalha sozinho, ou se gaba em ser “auto-didata,” é especialmente suscetível ao perigo de “endogamia intelectual.”  “He that is taught only by himself has a fool for a master” (Ben Johnson).  Platão teve Sócrates e os desafiantes sofistas;  Aristóteles, Platão e sua turma; Plotino, Amônio Sacco e colegas; Agostinho teve Ambrósio e outros companheiros cultos; Tomás de Aquino, Alberto Magno e os colegas dominicanos, franciscanos e professores do clero secular….e assim por diante.  Tomás, de bom escolástico, aprendeu engajar, ativa e respeitosamente, todas as abordagens plausíveis contra suas posições antes de articulá-las (as famosas objectiones).  Quem não sabe fazer isso, ou algo análogo, não deveria ser seguido.
  2. Uma visão diferenciada (digamos, “colorida”) da realidade, sem a tendência a caracterizar as coisas em termos preto/branco. Especialmente desqualificador é a demonização de alguma corrente de pensamento ou de política e a recusa de identificar os elementos bons e positivos sem os quais, no final das contas,  ninguém poderia aderir a eles to begin with.  A partir do bem nas posições a serem atacadas, o ataque pode prosseguir com acerto e humildade.
  3. Medida e modéstia nas palavras. Alguém que nunca para de falar–que fala e fala e fala (especialmente possível hoje no mundo da média social!), que tem algo a dizer sobre tudo, e que dá a impressão de nutrir um amor exagerado pelo som da sua própria voz, não é um mestre confiável. O Hitler e também os ditadores do comunismo de cunho soviético são famosos pelos seus discursos de horas a fio. Um mestre verdadeiramente sábio será alguém que até prefere o silêncio, e que, pelo menos, costuma calar muito antes de abrir a boca.

Finalmente cabe observar que o apego pessoal a um professor ou mestre, pelo menos nos primeiros meses e anos de aprendizagem, é normal e praticamente inevitável. Começamos nossa vida como crianças com confiança totalmente acrítica em nossos pais, e é bom assim. Mas não é bom uma pessoa de 25 ou 30 anos continuar viver sob a guarda-chuva dos seus pais e recusar a ganhar sua independência tanto econômica quanto intelectual. Igualmente com nossos professores; eles fazem uma contribuição preciosa à nossa formação por um tempo estritamente delimitado, e depois a relação deveria terminar. Teremos que reconhecer que eles são também humanos, que têm fraquezas e que um vínculo permanente de discípulo para com eles só vai prejudicar nosso amadurecimento. Há só uma grande exceção a isso; estou escrevendo este texto na Semana Santa, dedicada aos dias mais silenciosos daquele que é o Verbo em carne.  Sete brevíssimas palavras serão proferidas por ele Sexta Feira Santa à tarde. Ele é a única personalidade que merece um culto.

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