Surprised by the Obvious

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We are accustomed to being surprised by the unobvious, that which no one would ever have expected. Good philosophy, however, begins with a wonder that consists, essentially, in being surprised by what is (or should be) extremely obvious. It was said of Socrates – the granddaddy of Western philosophy – that wherever he was, and however many times he had been there before, he always gave the impression of one who was there for the first time. Like Poe’s purloined letter, the triggers of philosophical astonishment hide from us by lying right before our eyes.

Is Jesus Nice?

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The sanitized, presweetened ‘Jesus’ we see smiling wanly at us from many a pious painting is, in fact, a recent production as modern as the Marlborough Man (although the smoking cowboy would arguably be a more accurate rendering of the Lord). I won’t point to any of the more celebrated depictions, as some are attached to quite legitimate devotions and my intention is not to intimidate low-brow with high-brow, or scoff at popular taste. I do think, though, that the Word Incarnate deserves a true-to-Gospel makeover if we are to remedy some serious Christian image problems.

We have no 1st century photos, nor did anyone bother to offer a detailed physical description of Jesus in the New Testament or elsewhere. Mystics and recipients of private revelations will eagerly offer their input, and though it need not be impugned, I prefer to turn instead to the words of Christ himself, and then to the only plausible candidate for a visual portrait. Whatever you may think of the Shroud of Turin, when I look at that august negative of a dead man’s face traced spectrally on the cloth – which, while not staring at us, forces us to stare at it – I see a face out of which Christ’s words in the Gospel could well have emerged. But trying to put many of those words in the mouth of the saccharine, meek and mild Jesus we often see in contemporary art, would be akin to overdubbing the voice of Arnold Schwarzenegger onto the sweet face of Julie Andrews in The Sound of Music.turin-shroud_2521848b

Christ was a man. And, at the risk of sounding cavalier, he was a man’s man. When I read his words and ponder the Shroud, I get something like this: He was maybe six-foot tall, lean but not lank, swarthy but neither black nor white, possessed of a presence more centripetal than centrifugal, and by that I mean that he didn’t overwhelm a room when he walked into it (like our ‘charismatic’ celebrities like to do); still, if your eyes happened to fall on him, your heart would be compelled to respond, affirmatively or negatively, to an inexplicable otherworldly pull.

“In him all the fullness of the Godhead dwells bodily”, St. Paul reminds us in Colossians (2,9).  “For God who said, ‘Let light shine out of darkness’, has shown in our hearts to give the light of the knowledge of God’s glory in the face of Jesus Christ” (2 Cor. 4,6). St. John may have rested his head on the chest of the Lord at the Last Supper, but the John who viewed the glorified Master at the opening of the Apocalypse would declare: “When I saw him, I fell at his feet as though dead” (1,17).

It is actually near impossible to imagine what it would be like to stand before Jesus. The Apostles document more puzzlement than pleasure at his presence, and must have often considered turning their backs on his strange behavior (which, of course, they finally did, with the exception of John). The Catholic Church canonizes hundreds of saints basically in order to afford us many-faceted glimpses of a holiness that would simply blow us away, or blind us, were all the facets focused on a single point. “No one sees God and lives,” warns the Old Testament. In the prolonged, bureaucratic process of lifting someone into the ranks of the recognized saints – from ‘servant of God’, to ‘venerable’, to ‘blessed’, to ‘saint’ – the poor candidate is vetted in a way that even American election politics would find a bit outré. Every nook and cranny of possible sin is drenched with merciless floodlight. However, on the long roster of disqualifying vices, one that today we might put at the top of our politically correct list is not to be found there at all. No advocatus diaboli (the prosecutor the Church tasks with uncovering all the dirt) will ever ask, “But was he nice?” And certainly no one ever commented about Jesus – after witnessing a miracle or hearing a sermon or puzzling over his oddness – “you know, whatever else people might say about him, he is a really nice guy.” As could also be the case in the presence of many of the saints, you might want to think twice before offering to share a train compartment with him.

I propose a new wave of selective neo-iconoclasm, with public burnings of effeminate paintings of Jesus, or drawings of plump baby angels with bare bottoms, or just as bad, ‘adult angels’ shown as unctious-looking gringo ladies wearing bathrobes. With all due respect to the better specimens of Western art – from Giotto to Chagall – we Latin Christians would do well to take a long walk through an exhibit of Eastern Orthodox icons (say, in the Tretyakov Gallery in Moscow*, or in St. Catherine’s monastery in the Sinai), and look upon a Christ who is masculine, regal and a bit unsettling – and surrounded by a host of holy attendants that look just a trifle intimidating. We certainly needn’t shy from anthropomorphizing the Son of God, when God himself became man to begin with. But let us pay attention to the sterner brushstrokes of the divine artisan. Christ was everything other than a man of his times, or a careful strategist, weighing every word and act so as not to offend. Art will always fall short, but it should be noble and suggestive of the truly transcendent. As for the rest of the pale, pastel portraits – to the flames with them!  Of course, I’m just joking…..sort of.

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* http://www.tretyakovgallery.ru/en/collection/_show/categories/_id/53

Futuro fictício

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Ernst Bloch, um velho, porém interessante, neo-marxista (mais um ‘neo’ que já se tornou ‘paleo’), certa vez disse que a maior parte do que se passa em nossa mente aponta para o futuro – esperanças, sonhos, expectativas, antecipações, projetos, perspectivas, etc. Nada realmente novo aqui, assim como a maioria das novidades modernas (e pós-modernas) – se calham de ter algo de certo – é na verdade a sabedoria tradicional retocada e, frequentemente, mal compreendida. A teleologia aristotélica, que os inovadores da modernidade pensaram ter enterrado de uma vez por todas no Século XVII, emergiu novamente, de forma bastante inesperada, na biologia contemporânea. Ela simplesmente põe em destaque aquela ‘causa das causas’, que Aristóteles chamou de causalidade final: aquela pelo qual nosso presente está para sempre configurado rumo à sua forma imanente, a qual faz com que o presente seja e se torne aquilo que é. E na Teologia, a virtude da esperança, que é uma tensão antecipatória, simplesmente complementa as raízes históricas do ato da fé e o imperativo presente da virtude da caridade. Bloch teve o mérito (apesar do seu marxismo) de inspirar um olhar renovado à dimensão da esperança na Teologia Cristã do Século XX (Moltmann, Pannenberg, Metz), e até mesmo chamou novamente a atenção para a negligenciada terra de ninguém da escatologia teológica. Contudo, a preocupação messiânica do marxismo com o futuro trai um profundo mal-entendido em relação ao passado.

Desde o Século XVIII algo estranho tem acontecido com o futuro. Como alguém certa vez disse ironicamente, “o futuro não é mais o que era”. Ao invés de seguir os óbvios ditames do senso comum de levar em conta os dinamismos do presente – os objetivos e propósitos que o sábio sempre deve ter em mente diante das distrações do momento – o progressivismo iluminista sugere que o futuro receba mais do que apenas respeito; devia ser venerado. Para os iluministas, o futuro é onde a realidade verdadeiramente acontece, uma utopia bem ao nosso alcance, se nós tão-somente subscrevermos a uma nova ideologia que garanta o seu advento, ou a uma nova tecnologia que finalmente faça o ‘futuro perfeito’ aparecer como num passe de mágica. Todavia, utopias sofrem de uma deficiência congênita: elas sempre se situam no futuro – sempre. Em outras palavras, elas jamais chegam. Mas, o passado, ao contrário, nunca vai embora. Ao invés de passar para trás de nós, ele passa dentro de nós, e, como a psicanálise tem provado, passa para as nossas profundezas. Tanto é assim que, se o ignorarmos, acabamos ignorando a nós mesmos, e viramos presas fáceis de tolos Shangri-lás em um futuro fantasiado.

Portanto, o presente não é apenas o presente, é também o passado; e o que quer que o futuro possa conter, estará contido aqui e em mais lugar nenhum. ‘Viver no presente’ é muitas vezes idealizado como um objetivo de nossa jornada espiritual, a ser conquistado pela pessoa que desperta completamente para a aparente não existência tanto do passado quanto do futuro, e que se mantém focada na única realidade que existe: aquela que está acontecendo agora. Mas, mesmo aqueles que defendem esse foco no presente têm de admitir que há um predador à espreita naquele momento que é precisamente o oposto do despertar para a riqueza do presente. Afinal de contas, encaramos a pessoa que esquece as lições do passado, e falha em se precaver para o futuro, como particularmente não esclarecida, e os sábios amadores nunca se cansam de nos lembrar que quem esquece o passado está condenado a repeti-lo. Mas, de novo, uma razão para isso é que passado e futuro não são ‘não-presente’ de forma igual; o futuro é literalmente ilusório, e o passado, em última análise, não está nada ausente. O futuro, como futuro, jamais chega na verdade, pois, falando em termos metafísicos, ele nada mais é do que a fruição presente das energias do passado. Se o futuro finge ser mais do que isso, torna-se ficção: futuro fictício.

No entanto, há um modo de viver no presente que o torna transparente ao passado, um passado ponderado e contemplado, que germina e nutre – não pela nostalgia, mas por uma apropriação criteriosa. Devemos nos esforçar muito para não esquecer o passado, e mais ainda para não lembrarmos mal dele; esse esforço constitui a parte do leão daquilo que chamamos de educação. Mas, construir sonhos sobre o futuro é fácil, pois são nossas invenções em todo o caso. São brincadeiras infantis, pois os viciados nisso recusam-se a encarar o presente como adultos, o que significa reconhece-lo em suas múltiplas raízes fincadas em nosso extraordinário passado. O fato de ser tão difícil segurar o passado deve-se precisamente a ele ser real e pesado com fatos, ao passo que o futuro é fácil de ser inventado, pois ele sempre escapole de nossas mãos antes que se inicie o grande esforço de torna-lo real. A verdadeira sabedoria nos chama a olhar para o presente à luz do melhor do passado – para contemplar as múltiplas dimensões presentes da realidade dentro de nós e para além de nós, abrigando assim, em nosso presente, todo o verdadeiro, o bem e o belo que os tempos antigos nos legaram. O futuro – o que quer que seja – cuidará de si mesmo.

Future Fiction

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That old but interesting neo-Marxist Ernst Bloch (one more ‘neo’ who’s already grown ‘paleo’) famously said that most of what goes on in our mind is pointed to the future – hopes, dreams, expectations, anticipations, projects, outlooks, etc. Nothing really new here, as most modern (and post-modern) newness – if they happen to get something right – is but rehashed, and often misunderstood, traditional wisdom. Aristotelian teleology, which modern innovators thought they had buried once and for all in the 17th century, has surfaced again, quite unexpectedly, in contemporary biology. It simply highlights that ’cause of causes’ which Aristotle called final causality: that through which our present is forever configured towards its indwelling form as that which makes it both be and become what it is. And in theology, the virtue of hope, with its anticipatory tension, simply complements the historical roots of the act of faith and the present imperative of the virtue of charity. Bloch, to his credit (and despite his Marxism), inspired a renewed look at the dimension of hope in 20th century Christian theology (Moltmann, Pannenberg, Metz), and even drew new attention to the neglected theological no-man’s land of eschatology. Still, Marxism’s messianic preoccupation with the future betrays a deep misunderstanding of the past.

Since the 18th century, something odd has happened to the future. As someone wryly commented, “the future ain’t what it used to be”. Instead of following the obvious mandates of common sense to take into account the dynamisms of the present – the goals and purposes the wise must always bear in mind among the distractions of the moment – Enlightenment progressivism suggested the future receive more than just respect; it should be worshipped. For them, the future is where reality truly happens, a utopia just around the corner if we will only subscribe to a new ideology which guarantees its advent, or a new technology that will finally make the ‘future perfect’ click into place. Utopias, however, suffer from an inherent handicap: they always lie in the future – always. In other words, they never come. But the past, in contrast, never leaves at all. Rather than passing behind us, it inevitably passes into us, and, as depth psychology has proven, it goes deep. This is so much the case that to the extent that we ignore the past, we ignore ourselves, and are thus easy prey to silly Shangri-La’s about a phantasized future.

So the present isn’t just the present, it is also the past, and whatever the future may hold, it is held here and nowhere else. ‘Living in the present’ is often idealized as a goal of spiritual attainment, won by the person who gains full insight into the apparent non-existence of both past and future and who remains focused on the only reality there is: the one happening right now. But even those who promote such present focus have to admit that there is an animal-like staring at the moment that is the precise opposite of waking up to the richness of the present. After all, we regard the person who forgets the lessons of yesterday and fails to provide for the morrow as singularly unenlightened, and amateur sages never tire of reminding us that he who forgets the past is doomed to repeat it. But again, one reason for this is that past and future are not equally ‘non-present’; the future is quite literally illusory, and the past, in the final analysis, is not really absent at all. The future, as future, never truly comes, for metaphysically speaking, it is nothing but present fruition of the energies of the past. If it pretends to be more than that, it is fiction: future fiction.

But there is a way to live in the present that makes it transparent to the past, a past that is pondered and contemplated, which germinates and nourishes – not through nostalgia but through discerning appropriation. We must work hard not to forget the past, and even more not to misremember it; such effort constitutes the lion’s share of what we call education. But building pipe-dreams about the future is easy, for we’re making it up to begin with. It’s child’s play, for those addicted to it are refusing to face the present as adults, which means to acknowledge its multiple roots in our extraordinary past. The fact that the past is so hard to hold onto is due precisely to its being real and heavy with fact, whereas the future is easy to engineer, for it always slips away just before the hard work of making it real begins. True wisdom calls us to focus on the present in the light of the best of the past – to contemplate the multiple present dimensions of reality within us and beyond us, and so gather into our present moment all the truth, goodness and beauty that earlier ages have bequeathed us. The future – whatever it is – will then take care of itself.

Deste lado da glória

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O nascimento do Cristianismo está, de modo irredutível, inequívoco e – entre as religiões do mundo – de forma exclusiva, centrado em um evento. Trata-se, em primeiro lugar e fundamentalmente, não de um ensinamento a ser aprendido, nem de um exemplo a ser seguido, tampouco de um preceito moral ao qual se deva aderir (várias outras religiões oferecer-lhe-ão essas coisas), mas antes de um acontecimento, tanto estranho quanto maravilhoso. As primeiras gerações de pregadores dessa fé percorreram as imediações do Mediterrâneo como homens estupefatos ou drogados, quase tartamudeando sua mensagem, enquanto apontavam com mãos trêmulas para aquele lugar e para aquele momento em que alguma coisa aconteceu, a qual mudaria o mundo para sempre. Foi a Ressurreição – um evento que, quase por definição, ultrapassa nosso entendimento. A pior coisa que já aconteceu (a Crucificação) havia acabado de se abater sobre o melhor homem que já vivera entre nós; e ele respondeu a ela com a maior surpresa da história. Nem mesmo São Paulo alegou tê-la compreendido, porém ele sabia que podem acontecer coisas que escapam ao nosso modo de pensar costumeiro. A Ressurreição foi uma dessas coisas.

Com o passar dos anos, enquanto aquele evento recuou-se mais e mais no passado, duas coisas aconteceram. Em primeiro lugar, as testemunhas oculares do Cristo Ressuscitado logo morreriam, sendo aquele evento a partir de então testemunhado mais por bocas e ouvidos do que por olhos. Todavia, os olhos que vieram depois queriam ver o mundo redecorado pela nova verdade, e os ouvidos queriam ouvir sons que vibrassem com a nova mensagem; e, acima de tudo, as pessoas queriam ser salvaguardadas da nossa trágica tendência de esquecermos. Portanto, devagar, mas logicamente, as formas litúrgicas evoluíram, surgiram os paramentos clericais, as capelas e igrejas, e uma explosão de arte e música cristãs começou a encher o mundo – tudo isso para nos lembrar que uma glória certa vez refulgiu no Homem cujo nascimento tornou-se a medida do tempo. Das paredes das igrejas cobertas com ícones bizantinos no Oriente, às torres góticas no Ocidente; desde os mantras quase sussurrados do canto gregoriano à música barroca e romântica, com seus exageros e seu gestual insistente; desde a alta e refinada cultura cristã até os mais kitsch souvenirs das romarias, nossos campos visuais se enchem com uma luz diferente e nossos ouvidos são invadidos com uma nova música.

Para os cristãos Católicos e Ortodoxos, a Eucaristia – seja chamada de Missa ou de Liturgia Divina – é o evento no tempo concebido pela Providência para manter o Evento da plenitude do tempo ancorado em nosso mundo de areias movediças. Ela acontece todos os dias, por todo o mundo, e – com a possível exceção do Hadj anual – torna-se o mais espetacular show religioso da Terra quando o Papa celebra uma Missa em público. Até mesmo a media secular não pode resistir à sua magia, apesar de a imprensa muitas vezes meter os pés pelas mãos ao tentar achar o verbo que descreve o que acontece numa Missa. É engraçado ler coisas como: “o Papa fez (ou teve, ou realizou, ou deu) uma Missa” – expressões que se pode ler em jornais internacionais –, denotando a desorientação dos narradores para descrever aquela ‘coisa’ que os Católicos chamam de Missa, e como ela é feita. Obviamente, é mais do que uma comemoração, mais do que um sermão, mais do que um festival de música, mais do que um ‘serviço’ (apesar de ser um serviço); novamente, trata-se de um evento, um acontecimento. E algo acontece a você que ‘vai à Missa’ – mais uma vez, os verbos brigam entre si: vai-se à Missa, assiste-se à Missa, tem-se uma Missa, ouve-se Missa… Por sua vez, tomamos a Comunhão, temos Comunhão, recebemos a Comunhão, comungamos etc. Os verbos têm dificuldade de acompanhar os atos de um Deus que é o Verbo Encarnado. Para fazer justiça aos Protestantes, há que se dizer que os próprios Católicos e Ortodoxos tendem a gaguejar quando perguntados sobre os pormenores de seu famoso ritual. Várias distinções – com respeito a sacramento e sacrifício, tempo e eternidade, e uma porção de outras precisões– teriam de ser levadas a cabo para dar conta da densidade do ritual eucarístico, o qual desafia as palavras e os conceitos. Mas, o único aspecto aqui para o que gostaria de chamar a atenção é que a liturgia, com toda a sua arte e música, produziu uma mudança conspícua e generalizada no tempo e no espaço, e que isso foi decorrência do evento histórico do mistério de Cristo.

Esta foi a primeira coisa acontecida em seguida ao grande Acontecimento: liturgia, arte, música – em resumo, uma remodelação visual e acústica do nosso mundo. A segunda coisa foi tão importante quanto a primeira. Quando a primeira geração de cristãos febrilmente buscava colocar em palavras o que acabara de ocorrer, eles sem querer criaram uma nova categoria literária – o Evangelho –, e, adicionaram-se as Epístolas, os Atos e um Apocalipse à mistura – quatro gêneros praticamente vibrando com urgência. Tudo isso evoluiu para um pequeno texto, dramático e insistente, que hoje chamamos de Novo Testamento (uma expressão que os Evangelhos, não por acaso, reservam para a própria Eucaristia) – muito mais um conjunto de documentos para pregação do que para serem editados em um volume e colocado numa estante. Mas, meditando sobre esses documentos e tomando parte nesse ritual de Mistério – duas coisas insperáveis na tradição! -, o Mestre ordena às gerações subsequentes que os considerem de ponta a ponta – como os discípulos de Emaús, a quem Cristo revelou-se por meio das Escrituras e ao partir o pão. Logo, um novo modo de pensar crescia lenta e gradualmente, e contemporaneamente pela difusão da nova arte e liturgia. Chamamos isso de teologia.

Gostaria de chamar a atenção para só um pormenor de evento litúrgico e reflexão teológica. Cristãos não pertencentes às tradições Católica e Ortodoxa frequentemente se surpreendem com a insistência daquelas tradições na presença real de Cristo – corpo, alma e divindade – sob as espécies eucarísticas na Missa. Há uma enorme quantidade de literatura polêmica sobre essa questão na história da teologia, e de minha parte acho bastante convincente o argumento do lado Católico e Ortodoxo. Mas o que me preocupa aqui é mais simples, capaz, talvez, de transcender às discordâncias confessionais. A maioria dos que creem na Ressurreição de Cristo aceitam que seu corpo exista agora de modo fundamentalmente diferente do de nossos organismos pesados. Lemos sobre isso nos relatos evangélicos que falam da sua aparência inusitada após a Ressurreição: passando através de portas fechadas, aparecendo e desaparecendo quase como um fantasma (sem falar da aparência refulgente de sua glória na Transfiguração). A doutrina cristã em praticamente todas as suas articulações tradicionais concorda que ele ainda tem um corpo real agora, mas que a matéria desse corpo (e não apenas a alma) foi ‘glorificada’. O que isto realmente significa ainda não temos condições de saber ao certo, até que, queira Deus, nós algum dia tomemos parte nisso. Contudo, já podemos depreender uma consequência disso tudo.

Quando os Católicos e Ortodoxos insistem que Jesus está realmente presente na Eucaristia, é àquela realidade misteriosa e gloriosa do seu corpo e sangue transfigurados que eles se referem. Isso não implica, todavia, que aquela presença é meramente espiritual, ou simbólica, ou metafórica, etc., ou sob qualquer outra forma que ‘domestique’ o mistério indevidamente. É um corpo real (com moléculas e células), mas sob uma forma que já antecipa aquele estado ao qual todos nós somos chamados, graça após graça. Para aderir a uma crença tradicional na Presença Real, não se precisa imaginar um corpo masculino adulto, tais como aqueles que estão à nossa volta, de algum modo ‘milagroso’ compactado no espaço de uma pequena hóstia ou de um cálice de vinho. É um mistério da fé, não uma absurdidade da fé. O modo de existência da figura humana glorificada de Cristo já é uma prefiguração gloriosa da transfiguração final do universo material, pressagiando o tipo de ‘espaço’ no qual a Nova Jerusalém descerá dos céus. Não haverá “templo na cidade, pois o Senhor Deus e o Cordeiro são o seu templo” (Ap. 21, 22). Lá, ele conterá toda a criação; mas aqui é a criação que o contém – verdadeira, porém imperfeitamente – em seus templos e liturgias. Em nosso universo propedêutico, ele achou por bem colocar a sua misteriosa e glorificada presença em uma forma de matéria destinada a entrar nos templos precários de nossos corpos humanos: a comida e a bebida. Aí, dentro de nós, o que está contido (Cristo) cresce até paradoxalmente conter o seu próprio recipiente (nós), e, como a grande inversão do centro e da periferia prefigurada no cosmos de Dante – onde o foco da perdição e purificação terrestres subitamente dá lugar ao centro converso da divina essência no Paraíso, e o mundo é virado do avesso e de ponta-cabeça – assim acontece na Comunhão.

A graça é apenas a glória selada, e a sua propagação pela terra por meio da oração e dos Sacramentos é candidamente revolucionária. Onde quer que a graça seja silenciosamente plantada, um dia a glória retumbante florescerá luminosa. Se a maioria dos cristãos do mundo atribui tão grande importância à Eucaristia, é porque eles veem-na como o caminho que o Paraíso está preparando para o seu cerco final contra os planos escravizadores deste mundo. Bombas-relógio sagradas estão sendo implantadas nos corações humanos e nos tabernáculos das igrejas, por todo o nosso planeta conturbado. E há aqui um maravilhoso bônus que alegra o meu coração. Os santos dizem-nos que um dia, em estado de glória, quando olharmos para trás, os enigmas de nossa louca história humana finalmente serão desvendados. “Naquele dia, não me perguntareis mais coisa alguma” (Jo 16, 23).