First Review of Kelly Anthology (link e tradução portuguesa)

tradução portuguesa (resenha em inglês publicado no The National Catholic Register, 12 de maio de 2018):

Bernard Kelly e o vigor do pensamento leigo

Gerald J. Russello

A CATHOLIC MIND AWAKE – The Writings of Bernard Kelly. Edited by Scott Randall Paine. Angelico Press, 2017.  (UMA MENTE CATÓLICA DESPERTA – Os escritos de Bernard Kelly) – ainda sem tradução para o Português.

Este livro é um bem-vindo e importante ato de recuperação. Bernard Kelly (1907-1958) foi um católico comum, que viveu em Windsor com uma grande família e trabalhou como bancário. Mas, Kelly tinha outra vida.

 Por quase três décadas, Kelly forneceu ensaios filosóficos sofisticados e resenhas, em primeiro lugar para o Blackfriars, o prestigioso periódico dos Dominicanos. Nessa coletânea, os escritos de Kelly são vistos pela primeira vez desde sua publicação original.

Não é claro, a partir da excelente introdução de Scott Randall Paine, um professor de filosofia da Universidade de Brasília, o que levou Kelly à sua estranha vida dupla. Entre as demandas de seu trabalho e de seus seis filhos – sem falar da tuberculose que o abateu por dois anos nos anos 1940 –, claramente alguma força motora o compeliu a escrever de modo a entender os desafios filosóficos e religiosos de seu tempo.

Kelly escrevia na esteira de uma grande série de convertidos católicos, desde John Henry Newman a Christopher Dawson, passando por G. K. Chesterton e Eric Gill, cuja apologética e outros trabalhos definiram o catolicismo inglês por um século. Kelly foi herdeiro e defensor dessa tradição.

Dado o período em que ele escreveu, seus escritos aparentemente mostram a confiança filosófica do tomismo de meados do século, antes das convulsões dos anos 1960 e 1970. Contudo, nesses escritos, veem-se mais do que exposições secas: Kelly tem lampejos intuitivos derivados de sua vivência nas finanças e como homem de família que conecta suas preocupações filosóficas com o mundo como um todo. Há muito mais aqui do que se pode suspeitar à primeira vista.

 O livro é dividido em quatro seções principais, cobrindo tópicos que vão desde Gerard Manley Hopkins (de quem Kelly foi um crítico astuto e sensível), à justiça econômica e àquilo que hoje seria chamado de religião comparada.

 Num ensaio de 1935, “The Bourgeois Position” [algo como ‘a atitude burguesa’], Kelly liga as falhas dessa atitude ao pecado da preguiça, que é como uma lassidão espiritual. Kelly não fala da perspectiva de um monastério ou reitoria, mas desde o mundo dos negócios. Ele sabe o valor do livre mercado e o que é preciso para cuidar da família, mas também conhece a tentação de pensar que o sucesso econômico é tudo o que importa. Mas, a despeito de tudo, ele conclui que um católico não pode ser inteiramente ‘do’ mercado. Desta crença “deriva o modo de sua espiritualidade burlesca… Deixa-o à vontade para ir à igreja. Buscador de conforto em tudo, ele impôs à religião… os limites de seus sentimentos relaxantes, preenchendo o corpo de sua fé com um caloroso brilho sentimental”.

 Kelly escreveu durante as perturbações econômicas dos anos 1930 e rejeitou a solução comunista em virtude do ateísmo e da natureza essencialmente desumanizante dessa solução; ao invés disso, “o impulso da ética cristã não pode bloquear a melhoria da natureza das atividades industriais e dos produtos industriais.”

 Atuando no pensamento distributivista, Kelly defendeu que o trabalho deveria ser belo e humanamente proporcionado; com isso, ele não era um nostálgico, mas procurou explicar os princípios sociais católicos no mundo real.

 O outro assunto que distingue Kelly é sua interação leiga com as religiões não cristãs.

 Kelly, por exemplo, correspondeu-se por anos com o importante filósofo indiano e historiador Ananda Coomaraswamy, que se tornou um interlocutor para Kelly entre as tradições filosóficas ocidental e oriental. Essa coletânea contém os resultados dessa conversação que perdurou por toda a vida de Kelly.

 Essa pode ser uma estrada perigosa; outros católicos que buscaram uma filosofia ‘perene’ sob as especificidades das diferentes tradições, por fim, perderam a sua fé. Mas, a interação com essas tradições não pode ser evitada no mundo moderno.

 Kelly se nos apresenta como um modelo de católico não temeroso de mergulhar profundamente em textos hindus (aprendendo Sânscrito para isso), a fim de entender os conceitos não cristãos acerca do divino, mas tampouco esquecendo-se de levar o Evangelho consigo. O seu discurso de 1956 à Sociedade São Tomás de Aquino de Cambridge, publicado como “A Thomistic Approach to the Vedanta” (Uma abordagem tomista do Vedanta) faz exatamente isso discutindo a metafísica tomista no contexto das escrituras hindus.

 Todo o conhecimento nos é dado para nos ajudar a chegar à verdade, acreditava Kelly, e outras tradições podem nos auxiliar a vermos Deus de nossa perspectiva. Que ele mantivesse sua fé, e até mesmo a fortalecesse, isto é óbvio, tal como se reflete numa profunda meditação sobre a Via Sacra em 1956.

 Como nota Paine, Kelly morreu antes que o Papa Joao XXIII anunciasse sua intenção de chamar o Concílio Vaticano Segundo. Não sabemos como Kelly teria reagido a esse evento marcante, apesar de que ele certamente teria recebido bem a ênfase renovada do laicato no desenvolvimento do pensamento da Igreja.

 Esse volume lembra-nos do vigor do pensamento laico quando aberto tanto às questões contemporâneas quanto ao pensamento da Igreja.

O enigma dos 99%

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Quantas vezes ouvimos que mais de 90% disto, ou 95% daquilo, ou ainda 99% daquilo outro surpreendentemente torna insignificantes os ‘poucos’ por cento restantes, e que nosso mundo e nossas vidas parecem quase sumir na sua aparentemente ínfima parcela da realidade. Estamos realmente vivendo naquela fina fatia azul da torta mostrada na figura acima? Dê uma olhada em algumas estatísticas:

  • 99% do espaço em todo cosmos é vazio;
  • 99% de cada átomo é também vazio;
  • mais de 95% do leito oceânico não está mapeado e as formas de vida que lá habitam são em grande parte desconhecidas;
  • mais de 90% de todas as células vivas em nossos corpos não são humanas (… para não deixar a pergunta no ar: elas são microorganismos);
  • mais de 95% da matéria existente no cosmos até agora escapa à nossa análise (são as chamadas ‘energia e matéria escuras’). Todo o nosso conhecimento alardeado sobre a realidade material é sobre os 5% que sobram;
  • 99,9% da história do universo já havia transcorrido quando nós, seres humanos, entramos em cena;
  • 99,5% de todas as espécies que já existiram na Terra estão extintas;
  • bem mais de 90% de nosso material genético é compartilhado com outros primatas.

(Há algumas outras, mas acho que essas bastam).

Não parece restar muita coisa após esses avassaladores genocídios estatísticos. Entretanto, com frequência cansativa, essas estatísticas têm sido usadas pelos próceres do cientismo para destituir nossa experiência humana do sentido, do valor e do propósito. Nós somos – repetirão como um mantra – apenas uma fatiazinha na imensa vastidão do espaço; apenas mais um animal, mais um mamífero, entre todos os resultados dos jogos de dados aleatórios da evolução, diferindo entre si apenas por fina fibra de informação genética; e nosso ‘mundo’ tão caro é, na verdade, um espaço vazio, padronizado por átomos e galáxias vazias, esporadicamente salpicados por moléculas passageiras e estrelas solitárias; e o fato de nossa ‘forma de vida’ ainda subsistir é no máximo uma questão de sorte, uma vez que quase todas as outras espécies há muito desapareceram, e aquelas que ainda estão conosco poderão não estar por aí por muito tempo. Os entendidos de hoje da supremacia da ciência apreciam nos deixar boquiabertos com suas fanfarronices quantitativas. Mas eles estão, como de costume, enganados.

Vejamos o seguinte: se eu tivesse cem pedrinhas e apenas uma delas fosse um diamante, nem por isso o valor desta ficaria comprometido por ser apenas 1% daquela pilha de seixos. E uma conclusão filosófica segura daquela declaração de que os átomos e o espaço cósmico são esmagadoramente vazios é que nenhum desses fatos possui grande relevância para se viver uma vida humana. Deixemos os macro- e os micro-cosmos vazios para os astrônomos e físicos nucleares, pois nós vivemos no meso-cosmos (ou seja, o entorno espetacular saudado por nossos cinco sentidos), e lá temos um mundo de fato muito cheio – de coisas, pessoas, montanhas, rios, oceanos, continentes, e maravilhas em abundância. Leia os melhores poetas, e aprenderá mais sobre essa visão sã da realidade, e também aprenderá instintivamente que o nosso mundo é verdadeiramente uma cornucópia cheia e transbordante das mais palpáveis maravilhas.

Nós, habitantes dessa humilde Terra, ansiosamente esperamos ver imagens de criaturas ainda não descobertas das profundezas do mar, da mesma forma que saudamos cada nova borboleta ou sapo descoberto na Amazônia. Alegramo-nos com o oceano de micróbios que nossos tecidos humanos abrigam, agradecidos por sua contribuição ao nosso bem-estar e felizes em fazermos parte de uma minoria celular. Que os cientistas ainda chamem os 95% do cosmos de escuro (ou seja, desconhecido), parece-nos uma saudável humilhação em face às suas bombásticas reivindicações no passado. E achamos intrigante que a maioria das espécies da terra já tenham desaparecido, diante da riqueza e variedade das inúmeras ‘poucas’ com que ainda nos deparamos.

Pouco importa se a maior parte do tempo astronômico e geológico ficou para trás (para onde mais poderia ir?), pois a história de nossa raça continua a ser extraordinária, quer seu tempo sobre a terra tenha durado a metade de um éon eterno ou apenas meia hora. E – pensando novamente no diamante – se tivermos apenas uma pequena porção de material genético exclusivamente humano, esse punhado de genes será tão potente e excepcional quanto aquele diamante entre as pedras, ou quanto um átomo de urânio numa bomba atômica, ou como qualquer Adão solitário contemplando um zoológico sem fim, deslumbrado pela maravilha de uma visão que apenas o Infinito poderia ter formado.

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The 99% Percent Problem

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How often we hear that over 90% of this, or 95% of that, or even 99% of something else surprisingly dwarfs the remaining few percent in the calculation, and that our world and our lives seem to get almost squeezed out of existence in their appointed share of reality.  Are we really living in that little blue slice of the pie in the picture above? Take a look at some of the stats:

99% of the space of the entire cosmos is empty.

99% of every atom is also empty.

More than 95% of the world’s ocean floor is still unmapped and the life forms that inhabit it largely unknown.

Over 90% of all the living cells in our body are not human (…not to leave this one hanging in the air:  they are microorganisms).

Over 95% of the extant matter in the cosmos has hitherto escaped our analysis (so-called ‘dark energy and matter’). All our vaunted knowledge of material reality is about that remaining 5%.

99.9% of the history of the universe had already spent itself by the time we humans came onto the scene.

99,5% of all the species that have ever existed on earth are extinct.

Well over 90% of our genetic material we share with other primates, and most of it even with lower life forms.

(There are some others, but I think that will do.)

There doesn’t seem to be much entity left over after these overwhelming statistical genocides.  However, only too often such statistics have been used by the purveyors of scientism in order to divest our human experience of meaning, value and purpose.  We are, they will repeat mantra-like, just a teeny-weeny speck in the immeasurable vastness of space; just one more animal, one more mammal, among all the other products of random evolutionary throws of the dice, differing by only a slender sliver of genetic information; and our so treasured ‘world’ is actually just so much empty space, patterned upon empty atoms and empty galaxies, sporadically sprinkled with transient molecules and lonely stars; and the fact that our ‘life form’ is still around is at most just good luck, since almost every other species has long since vanished, and the ones that are still with us may not be around for long. Modern mavens of the supremacy of science love to wow us with these quantitative boasts. But they are, as usual, misguided.

Consider the following: If I have a hundred pebbles and only one of them happens to be a diamond, its 1% status in the pile of rock hardly compromises its value. And one sound philosophical conclusion from the declaration that atoms and cosmic space are predominantly empty is to note that neither of those perspectives are actually relevant to living a human life. Leaving the empty macro- and microcosmoses to the astronauts and nuclear physicists, we who dwell in the mesocosmos (that is, the surrounding spectacle greeted by our five senses) have a world very full indeed – of things, people, mountains, rivers, oceans, continents, and marvels in abundance. Read the world’s best poets and you’ll learn more about this saner view of reality, and also know instinctively that our world is truly a full and overflowing cornucopia of very solid wonders.

We dwellers of the humble earth eagerly wait to see pictures of the deep sea creatures yet to be found, as we also greet every new butterfly or lizard discovered in the Amazon. We rejoice in the ocean of microbes that our human tissues swim in, grateful for their contribution to our well-being and happy to be in the cellular minority.  That the scientists still call 95% of the cosmos dark stuff (that is, unknown) seems to us a salubrious humiliation in the face of their often over-preening claims of the past. And that most of the species of earth have already passed into history we find astonishing indeed, so rich and various are the countless few that still parade before us.

It hardly matters that most of astronomical and geological time is behind us (where else could it go?), for the story of our remarkable race continues to be extraordinary, whether its time on earth has lasted half an everlasting aeon or just half an hour. And – thinking again of the diamond – if we have only a small portion of exclusively human genetic material, that handful of DNA is about as potent and momentous as that diamond among the pebbles, or of a uranium atom in an A-bomb, or of any lonely Adam looking out at an endless zoo, awash with wonder at a vision only Infinity could have fashioned.

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