Transições precipitadas

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O problema da maioria dos pensadores ‘da moda’ é que eles pretendem transcender aquilo que nunca atravessaram, ultrapassar aquilo pelo que nunca passaram, e deixar para trás aquilo que nunca tiveram diante de si. Todo ‘pós-isto’ e ‘pós-aquilo’ é agarrado como se fosse uma novidade absoluta, ainda que as energias convergentes do passado continuem informando cada novo pensamento e desejo. Uma suposta originalidade, separada de suas próprias origens, gera capricho e presunção adolescente. A pessoa verdadeiramente original trabalhou voluntariamente dentro da sua tradição e hauriu seiva de suas raízes para os seus – ainda não previstos– ramos e frutos. Virgílio imita Homero, mas não se torna outro Homero; torna-se Virgílio. Dante, por sua vez, imita Virgílio, e daí vem a Comédia – tão plena de novidades em relação à Eneida, quanto a epopeia de Virgílio o é em relação à de Homero. Shakespeare reconhecidamente plagia as melhores histórias de seu tempo, e em suas mãos elas adquirem magicamente o brilho de novas galáxias. Até mesmo o atonal Schoenberg curvou-se diante do altar de Bach. Não me refiro apenas a um ideal antiquário ou conservador, mas à única revolução que importa – aquela que ‘volta de novo’ (re-volta) às verdades que perduram, e que encontra a autêntica novidade nutrida apenas pela tradição perene, ponderada e desenvolvida por novas gerações. Confúcio, como sempre, acerta na mosca: “Só pode ser mestre quem aprendeu a gerar o novo, conservando aquecido o velho”.

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To my anglophone readers…

As should be obvious, I am still very much an amateur in managing a website and blog. Some of my young students have helped me bring some structure and order to the matter, but much remains to be done. I am trying to separate the English from the Portuguese posts in a way that will not burden you with posts in a language you cannot read. Those who receive e-mail notifications are probably getting some posts in Portuguese. Sorry. I hope to iron this out soon.

Velha Luz

Sempre fui fascinado por coisas antigas. Desde garoto, sempre achei mais fácil relacionar-me com pessoas mais velhas. E quando já estava na faculdade, fiz amizade com uma senhora de 80 e poucos anos e com um homem de 92, que se tornaram possivelmente meus melhores amigos antes de eu deixar os Estados Unidos para sempre em 1974. O futuro sempre me pareceu pequeno – o passado, grandioso e fervilhante de vida. Coisas velhas costumam a ter caráter, aquele charme especial da rachadura na superfície dos objetos em cerâmica, ou as bem merecidas rugas em uma face humana velha e viajada. É esse desgaste mesmo que as realça e as torna preciosas. Contudo, sempre me questionei sobre uma velhice não associada ao desgaste, nem mesmo ao charme que ele carrega. Deus é obviamente o Ancião de Dias, nunca aposentado, nem antiquado nem atualizado, eternamente novo–simplesmente sempre. Mas aqui neste universo material parece haver também algo que é sempre novo, não obstante velho. É a luz. A luz do sol tem apenas a idade de alguns minutos, e o seu brilho e calor condicionam nossa vida diária mormente pela utilidade. Todavia, a luz das estrelas – fora para os navegadores marítimos, astrônomos e astrólogos – é inútil em grande medida. Porém, a luz estelar conta-nos uma história mais larga e nos revela um significado mais profundo. A luz das estrelas é luz velha. Platão chamou as estrelas de “as mais amáveis e perfeitas das coisas materiais”, mas a luz delas é velha, de uma idade de centenas, às vezes milhares, de anos. Telescópios olham mais longe e registram fenômenos surrealisticamente antigos, com idades de milhões ou até bilhões de anos. Logo, o passado não apenas se estende, maciçamente, ‘atrás de nós’, no tempo; ele também nos circunda, por todos os lados, no espaço. Isto contém certamente uma lição simbólica: deveríamos buscar a sabedoria no útero permanentemente prenhe do passado, e suspeitar das promessas vigaristas do futuro.

Espiritual, mas não religioso?

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Um refrão comumente escutado hoje em dia por aqueles que relutam em sucumbir inteiramente ao secularismo e ao ateísmo, e tentam manter uma porta aberta à transcendência, mas avessos a instituições religiosas corruptas e calcificadas, é: “Eu sou uma pessoa espiritual, mas não religiosa.” Quando questionados sobre o conteúdo dessa espiritualidade – dificilmente se pode afirmar isso sem algumas convicções de fundo –, eles responderão mais ou menos o seguinte: 1) eu acredito em uma ‘força superior’ – chame-a de Deus, se quiser; 2) de certa forma, todos somos um, e eu gostaria de me sintonizar com essa unidade – chame isso de ‘amor’, se preferir; 3) encontrei vias de comunhão com a força superior – chame isso de oração ou meditação, se gostar; 4) todas as religiões são basicamente as mesmas, e a espiritualidade que encontrei constitui a sua realidade interna; o resto é só ‘decoração de vitrine’. Em suma, eles concluem muito razoavelmente que, se você já descascou a banana, deveria jogar a casca fora de uma vez. Seria muito insensível negar que isso soa, de cara, muito convincente.

Testemunhamos hoje um amplo espectro de variações desse tipo de atitude, desde a opção mais simples e pessoal de se manter distante da religião organizada, em favor da própria espiritualidade privada, com crenças meio flexíveis, e com alguma relutância em discutir os pormenores delas e em prega-las aos sete ventos (afinal, “são privadas”), até uma atitude de crenças universalistas alardeadas publicamente de se ter chegado a uma verdade perene e a um mínimo místico, com convites a todo mundo – com ou sem convicção religiosa – para participarem de retiros de fim de semana e workshops – ou para ler livros que divulgam a mensagem –, que lhes darão acesso às próprias ‘experiências espirituais’. Tudo isso com frequência é empacotado em técnicas tomadas emprestadas a várias tradições (principalmente orientais), ou feito sob medida por colaborações especiais entre práticas antigas e a moderna neurociência. O bufê oferecido é bastante extenso, mas a mensagem é, no fundo, a mesma: o isolamento do essencial e a marginalização e relativização do secundário. Os gurus desse evangelho podem recomendar – ou apenas tolerar – uma tradição religiosa externa de um tipo ou de outro, mas quase sempre na condição de um adjunto cultural (um ‘meio útil’ entre tantos outros, chamado de upaya na Índia); o que importa é que se apreende a essência subjacente e se reconhecem todas as formas e instituições religiosas, em última análise, como secundárias e dispensáveis.

Em primeiro lugar, eu perguntaria se esse esquema de coisas é operativo em outas áreas da vida e da cultura. Caso negativo, por que na religião deveria ser diferente? Ou seja, essa suposta oposição entre o ‘essencial’ e o ‘adjunto’ funciona em outras dimensões de nossa experiência? Comecemos primeiro com o corpo. De que eu preciso absolutamente para viver? Cabeça e tronco são suficientes em larga medida, e mesmo os olhos e as orelhas não são estritamente obrigatórios para a sobrevivência. Membros e sentidos superiores podem ser dispensados e mesmo assim um organismo continuará vivo e respirando. E, apesar de esses casos existirem, e nós fazermos o melhor para pessoas assim lidarem com sua deficiência e valorizarem a sua dignidade humana, ninguém há de ser hipócrita a ponto de defender que seja desejável, digamos assim, ‘restringir-se ao essencial’ em termos de nossa existência corporal. Aquilo que não pertence necessariamente à essência do corpo pertence certamente à sua integridade. E esta última existe por causa da primeira.

Em seguida, consideremos nossas necessidades corporais por comida, vestuário, moradia, combustível e transporte. O ‘essencial’ aqui seria que os bens materiais simplesmente circulassem entre nós, fornecendo a cada um o que precisa, no momento certo, e numa proporção que permitiria a todos participarem da riqueza de forma equitativa. Sonhos utópicos das mais variadas linhas – fascistas ou comunistas, ou até de um capitalismo desregrado – oferecem vislumbres saudosos desse Shangri-La. Contudo, os adultos entre nós suspirarão e admitirão que a história nos tem mostrado, repetidas vezes, que não se pode manter os bens em circulação no longo prazo sem algum tipo de moeda, sistema de mercado, variedade de lojas, bancos e até mesmo, pesarosamente, algum grau de controle governamental. Na ordem política, igualmente, o ‘essencial’ seria para nós vivermos em harmonia, lado a lado, portas destrancadas, solucionando todas as questões comunitárias por meio de festivos referendos (com aprovação unânime e espontânea) –; em suma, vivendo numa Pleasantville de sorrisos bobos. Novamente, franzimos nossos cenhos e admitimos que, fora muito poucos e curtos experimentos comunitários, apenas chegamos perto da paz e prosperidade por meio da ação de algum tipo de poder soberano, de alguma burocracia, e ainda por cima alguns soldados e policiais. Essas coisas podem não ser necessárias no Paraíso, mas todos os ‘paraísos’, até agora ensaiados nesta terra, têm se transformado rapidamente em infernos.

Acho que o leitor pode ver onde quero chegar. Como nossos membros e sentidos superiores emergem de nosso organismo embrionário, servem-no e o protegem, e o levam às suas mais promissoras aventuras; e como nossas instituições econômicas emergem de nossa necessidade por bens e dessa forma atendem a essa necessidade; e assim como nossas instituições políticas emergem de nossa necessidade de paz e ordem e, por sua vez, atendem a essa necessidade; por que a relação entre espiritualidade e religião seria diferente? Tanto as instituições econômicas quanto as políticas, sendo realidades vivas, crescem; e tudo o que cresce, pode crescer demais, de modo que serão necessárias podas e reformas periódicas, que mantenham as coisas colimadas aos seus propósitos originais. As grandes religiões começam com uma grande espiritualidade, com um encontro especial de alguém com a realidade transcendente (deixo para uma outra postagem falar das diversas possíveis partes da realidade espiritual e das implicações disso para a diferenciação entre as religiões), e isso engendrou uma interação humana complexa com essa realidade, sob a forma de tradições sapienciais e sistemas de crenças para a mente; guias morais para a vontade; e rituais e liturgias para nossos corpos. As instituições geradas por uma espiritualidade original crescerão, e às vezes crescerão excessivamente, e – assim como em suas congêneres econômicas e políticas – também precisarão de podas e reformas.

Em resumo, é na geração e preservação da espiritualidade que consiste a raison d’être da religião; e a religião é, no seu melhor, o rebento natural e o prolongamento da espiritualidade testada, e serve para sua proteção and orientação. As suas instituições podem ser tão enfadonhas e entediantes como as transações financeiras na vida econômica, ou as discussões parlamentares na vida política, mas, sem tudo isso, os bens param de circular, a ordem pública entra em colapso, e a chama da espiritualidade se apaga. Porém, é verdade que a espiritualidade sem a religião pode até funcionar para uns poucos, mas não para todos; e mesmo para aqueles poucos, funcionará apenas por algum tempo, não para sempre. Emfin, espiritualidade sem religião não erguerá uma civilização. E a religião – não obstante todos os seus excessos e corrupções – não apenas tem sido um pré-requisito da civilização, mas tem sido a sua única causa documentável.

O maravilhoso

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Nosso vocábulo ‘maravilhamento’ é uma das traduções possíveis do verbo grego thaumazein (usualmente vertido para o Latim como admirari, apesar da palavra portuguesa ‘admirar’ expressar apenas parte do significado). Tanto Platão (Teeteto, 155d) quanto Aristóteles (Met. I.2, 982b12ss) insistem que a filosofia só tem início quando se experimenta o maravilhoso, o famoso ‘espanto filosófico’. Dado que o meu site leva essa noção em seu nome – e dado que se espera que eu, como professor de Filosofia, semeie o senso do maravilhoso em meus alunos – tentarei deixar claro o que vem a ser esse maravilhoso, assim como alertar sobre os seus impostores.

Para começar, o espanto não é a mera ignorância. Você não pode maravilhar-se com aquilo sobre o que não sabe coisa alguma, muito menos com aquilo que você nem sabe que existe. Também não é conhecimento qua conhecimento: a simples cognição de um objeto; ao contrário, o maravilhamento é um tipo especial, quase subversivo, de conhecimento, que evidencia e referencia o desconhecido; um conhecimento cuja posse aponta para um incognitum na penumbra que nos circonda. É uma parte de conhecimento para muitas partes de ignorância, mas não em uma relação de soma zero. No verdadeiro maravilhoso, quanto mais sabemos genuinamente sobre um objeto, ao mesmo tempo mais adquirimos consciência da extensão de nossa ignorância sobre tudo que ele implica e significa. Aumento em conhecimento não significa redução de desconhecimento, pois ainda que o novo conhecimento possa ser de fato um ganho, esse ganho serve como uma nova plataforma a partir da qual vislumbramos as sombras e as sugestões de uma multidão de verdades ainda não conquistadas.

O maravilhamento tampouco é um estado de perplexidade perante um enigma, na esperança de resolvê-lo; antes, é a condição do ser chamado por dentro de um mistério, e convidado a viver nele. Não pretendo mistificar ou romantizar o assunto. Não se trata aqui de indivíduos andando por aí de bocas abertas e olhos esbugalhados, muito menos dos zumbis chapados da minha geração, quando acabavam os baseados, deitados no chão, com os olhos vidrados no teto, dizendo: “Uau!” Nada disso. O maravilhoso provém de um autêntico aumento no conhecimento, e isso pressupõe um conhecimento adquirido com contexto, perspectiva e foco. Esse tipo de conhecimento foi outrora proporcionado por uma adequada educação liberal, em que tanto as humanidades quanto as ciências abriam as imaginações, mentes e corações aos mundos imensos do real. Tal conhecimento cintila instantaneamente com espelhos de todo o mundo à sua volta (contexto), com todos os valores subordinados e superiores a ele (perspectiva), e é articulado com apenas aquela exatidão apropriada à sua natureza (foco).

O maravilhoso deve ser também distinguida da mera curiosidade. Certamente, o uso comum confunde, inocentemente, as duas coisas, mas perdemos algo importante com isso. A rigor, a curiosidade refere-se a um interesse abelhudo em saber o que normalmente não é da nossa conta, e não ao nosso desejo natural de conhecer, o que, para Aristóteles, é muito da nossa conta. Pois o que acontece quando conhecemos alguma coisa é que nós, num sentido intencional mas efetivo, tornamo-nos um com a coisa que conhecemos; mas a cognição curiosa e desordenada nos fende de modo a dividir-nos e fragmentar-nos interiormente – algo assim como contar às crianças todos os detalhes de nossa sexualidade. O conhecimento ordenado, contudo, abre a alma para uma unidade maior, nidificando suas energias num mistério acolhedor, do qual se pode aproximar para sempre, mas jamais exauri-lo.

De onde vem esse maravilhamento? A sensação, especialmente a visão, já vem carregada com uma excitação que vemos na face de todas as crianças. Elas veem algo, e por este ato, elas também ‘veem’ que há muito mais para se ver, que ainda não está presente. Suas mentes já estão famintas pela carne da realidade. Essa mistura de conhecimento e ignorância – que é a verdadeira química do maravilhoso – mantém nossos sentidos vivos e alertas mesmo depois que o intelecto embarca em suas buscas paralelas. Uma vez que precisamos de ordem e, por um lado, somos ameaçados pelo simples volume de objetos sensoriais e a ameaça do caos e, por outro, pelas inevitáveis limitações de nossa própria experiência pessoal, a civilização tem tradicionalmente estruturado nosso sensorium e nossas emoções por meio do sistema das belas artes. Estas trazem tanto integração ao mundo frenético da multiplicidade, como uma expansão vicária ao nosso provincialismo nativo.

Como o deleite da sensação, com todos esses indicadores instigantes de que há algo mais além dela, gera as belas artes; e como do intelecto, se maravilhando com os múltiplos sinais de transcendência que invadem a mente quando pensa sobre as coisas, surge a filosofia; assim, o deleite e o maravilhoso são elevados a uma augusta estupefação, um verdadeiro temor de Deus, quando nossos sentidos e nosso intelecto seguem o apetite purificado da vontade pelo infinito. A religião – mais cedo ou mais tarde – ergue-se no horizonte de toda experiência humana, e até as negações da religião assumem, paradoxalmente, seu manto de autoridade. A dança entre o conhecimento e a ignorância é destinada a continuar na religião, e se tornará a fonte mesma de nossa beatitude. Na presença d’Aquele Que É, para sempre se aprende mais sobre Sua infinita beleza, mas nem por isso se deixa de ser abraçado ainda mais calorosamente pelo excesso extático de Sua incalculável abundância. Como dizem os santos, Deus é sempre maior. Você não pode ‘po-lo para baixo’ nem decifrá-lo, tampouco quereria faze-lo.

Isso acontece também com qualquer pessoa amada. Você jamais a domina, e por mais que vocês aprendem e vivem juntos, mais se dá conta daquele belo borrão atrás dos olhos da pessoa amada, prometendo que há sempre algo mais – tocado por seu amor mas não por seu pensamento. É muito mais assim com Deus. Quando as artes despertam em nós a maravilha, e a filosofia é alimentada pelo espanto, a religião nos explica porque. Vere mirabilis Deus.