Leaving Troy (rev.)

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The northwestern corner of “Asia Minor” (today’s Turkey) represented to the ancient world the westernmost cusp of the huge, heaving landmass of Asia, which stretched behind it all the way to Japan in the north and to New Guinea in the south. Mesopotamia, Persia, India and China all lie there, heavy with millennia of history and culture. And on that intruding tip we find the fabled city of Troy, an undisputed fact of history now that archaeology has unearthed multiple layers of a complex metropolis of almost prehistoric antiquity. From that eastern city of Troy, three voyages would begin that would leave their mark on what would later be known as Europe. Even the name of the continental newcomer traced its story back to the East, as the Phoenician princess “Europa” was said to have been ravished by the king of the gods and brought to the shores of Greece. That is myth, which is – as Coomaraswamy termed it – “penultimate truth.” The three voyages, however, were more than myth, and especially the third.

Our Greek cultural forefathers were forever interacting with the East. Their first great historical work (The Persian Wars, by Herodotus), and their first dramatic masterpiece (The Persians, by Aeschylus), both dealt with the inhabitants of what is today Iran. World history would have looked very different if the Greeks had not triumphed – against all odds – against the massively superior Persian Empire. But the Trojan connection goes even deeper than that. To begin with, that war predates the Persian War by centuries. In the latter war, the Greeks won, but they didn’t conquer; it was a war of successful self-defense. In the former war, both winners and losers launched myth- and history-making voyages. Troy haunts the Western imagination not as a defeated enemy, but as the stage of an iconic altercation that was to frame the emerging narrative of Europe from both sides of the contest.

On the winning side, Odysseus leaves Troy and undertakes his fabulous and prolonged voyage home to the peninsular country that – courtesy of the blind bard Homer – was soon to sing his story. Greece would begin to speak not only in sublime epic, lyrical and dramatic verse, but also in an idiom unmatched hitherto on Western lips: philosophical prose. A new wave of naturalistic sculpture would also rise out of that culture, fascinated artistically with the natural curves of the body as the new philosophy would be captivated by the natural trajectories of logic. During this philosophical apotheosis, their distant past heroes’ struggle on that Asian coast would serve as their defining epic recollection. Generations of Greek schoolboys would henceforth memorize their Odyssey and Iliad, and learn what example teaches even to theory.

On the losing side, another story was told, with a plot just as momentous as that of the victors. Aeneas also left Troy, but he wasn’t going home to a Penelope; he was fleeing a home which was burning to the ground. Odysseus met obstacles when he got home, but he did get home. Aeneas began with obstacles, and they continued as he searched for a new domicile. At long last, he found his new home on the Western shore of Italy: Rome. Thus, Western civilization’s two European fountainheads – Greece with its philosophy and art, and Rome with its law and architecture – both look to a founding saga based on an ancient war on an Asian shore. And since Rome was fated to ultimately conquer Greece militarily (and in some way settle accounts after their forefathers’ defeat at Troy), it would no less decisively be conquered by Greece culturally, blown away by the latter’s love and articulation of beauty and wisdom.

Virgil’s Latin Aeneid is already worlds apart from Homer’s two epics in style and tone, although alike in scope and ambition. But the text that will recount the third voyage from Troy is so different from all three epics (and indeed from all earlier literature of any genre), it stands alone in the world of the written word. I refer of course to the New Testament, and to the episode in St. Paul’s missionary travels that brought him to that very tip of Asia that bore the ruins of Troy. A new literary genre arose without warning. We call it the Gospel.

There St. Paul famously dreams of a Macedonian from across the Aegean Sea, pleading with him to come to the other shore (Acts 16,9). So often in religious history, the “other shore” has symbolized a decisive moment in one’s spiritual life – in Hinduism and Buddhism as a symbol of mosksha or nirvana, in Jainism the transcendent conquest heralded by the tirthankaras (the “ford-makers”). In Paul’s case, he is the one who is bringing liberation and enlightenment to that other shore. It is he who is fording the body of water that separates Asia from the Europe-to-be. And to the Hellenic fervor for aesthetics and dialectic, and to sober Roman jurisprudence and stately architecture, a new ingredient was injected. Adding to this civilizational recipe, Paul of Tarsus decided to act on a dream.

Centuries hence, the Celtic, Germanic and Slavic peoples of the north would inherit the fruits of this promiscuous Mediterranean mix, and the Europe we have known since the Middle Ages would begin to rise like a Gothic cathedral. But as the three major components – hailing from Jerusalem, Athens and Rome – begin to interact alchemically, something new in history was afoot and the world was never to look the same. Odysseus’s and Aeneas’s sea crossings were long and sinuous, but Paul’s was swift and direct. Nonetheless, all three voyages began in Troy, and all three voyages led – directly or indirectly – to wherever you are sitting right now.

 

Bruckner! – em port. (rev.)

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Ouvi Bruckner pela primeira vez em meados dos anos 1970, inspirado por um amigo vienense, na Áustria. Surpreso pela minha ignorância acerca daquele compositor austríaco reconhecidamente esquisito, mas formidável, o amigo olhou-me nos olhos com aquele zelo que só se revela quando se está a ponto de divulgar um segredo esotérico e explosivo: a música de Bruckner é – proclamou ele em alemão – wunderschön! (ele fez uma pausa para secar as lágrimas, e repetiu:) wunderschön! Em alemão, isso não significa apenas belo, mas suntuosa e comoventemente deslumbrante. Eu fiquei emocionado com sua insistência e paixão, apesar de um pouco desconfiado que tudo não passasse de ufanismo nativista de um austríaco. No final das contas, sofri uma humilhação ao ter minha ignorância exposta. Assim que eu pude, botei minhas mãos numa fita cassete de Bruckner e a fiz tocar no meu Walkman.

Acadêmico consumado que eu era (aos 22, gabava-me de saber não tudo, mas quase tudo), decidi que seria bom, em primeiro lugar, familiarizar-me com a biografia desse prodígio musical, que havia habilmente voado abaixo do meu radar durante tanto tempo. Corri para uma enciclopédia, e logo me deparei com a foto que se vê acima. Hmm, pensei, um visual não tão clássico quanto um Bach ou um Mozart, nem tão intimidador quanto um Beethoven ou um Wagner, tampouco tão belo quanto um Mahler; ainda assim, vai servir. Admiti-o para uma audição no meu clube de compositores favoritos. Contudo, ao aprender mais sobre ele, fiquei desconcertado. Quase cancelei a audição.

Não demorou muito para eu deparar com a opinião predominante sobre Bruckner – algo que os especialistas esnobes de música clássica proclamaram por um século. Segundo eles, não deveríamos perder tempo com aquele peão boiadeiro. E eles tinham razão em relação a uma coisa: Bruckner foi sem dúvida um dos homens mais incultos a terem andado pelos Alpes austríacos. Nascido numa pequena vila montanhosa, ele falava um dialeto alpino, vestia-se pobremente (com calças de bainha alta, pois tocava órgão e – dizia ele – por isso precisava dos pés livres para os pedais). Apresentava-se com uma falta de jeito e com um desleixo como um morador de rua. Sabia quase nada sobre história, filosofia, poesia, drama, dança, ciência, etc. Como disse: inculto. Mas, quando ele subiu no assento do órgão de sua igreja local (e muitas outras ao longo de sua vida), metamorfoseava-se, como um Hulk, num gigante musical. A improvisação – provavelmente o maior teste de alto talento musical – fluía por seus dedos com uma facilidade impressionante. É lamentável, considerando sua obra, que tenha composto tão pouco para órgão, mas podemos dizer que ele compensou essa lacuna de maneira grandiosa.black-and-white-buttefly-music-notes-facebook-cover-black-and-830x307

Quando eu finalmente ouvi sua nona sinfonia inacabada (por que não começar pelo topo?), senti como se tivesse entrado na Catedral de Notre Dame, ficando arrebatado (como ainda estou). Depois, ouvi a sua quarta sinfonia (uma audição mais fácil), bem como a sétima, mais acessível e popular. Mas eu ainda não havia me deparado com a espantosa, surpreendente e ousada quinta sinfonia (pertenço à minoria dos amantes dessa sinfonia imperfeita), para não falar do primeiro contato dos meus ouvidos virgens com a mais grandiosa, exigente e transformadora de todas as sinfonias, a oitava.

Nessa época, tornei-me um apologista de Bruckner dos mais insuportáveis, mas percebi – para minha surpresa e incredulidade – que esse músico baixinho era visto, quase universalmente, como bombástico, desarticulado, confuso e, acima de tudo, incapaz de economia (suas sinfonias são qualquer coisa, menos sucintas). Ele é visto por muitos como um tipo de Wagner absurdamente “batizado.” Idolatrava o gênio megalomaníaco alemão; e o fato de ser, com Wagner, um dos favoritos de Hitler, com certeza não lhe angariava muitos admiradores. Adicione-se a isso o fato de que, ao contrário de qualquer outra celebridade musical do século XIX de estatura comparável, Bruckner era um católico devoto, e frequentador diário às Missas. Portanto – falava a voz dos sabichões da música erudita –, se o que você busca é um romantismo tardio, então vá para Mahler, e deixe de lado esse patético capiau em seu auto-indulgente pântano musical, cheio de piedade e presunção.

No entanto, a música de Bruckner é, simplesmente, demasiado interessante para ser ignorada. Os famosos crescendos orquestrais são de tal grandeza transcendente, que somente lágrimas vão revelar se você escutou mesmo. Assim, a Europa não conseguia bani-lo de sua imaginação musical, e ele foi tocado com certa regularidade, a despeito dos opositores. Mas, sua música quase não cruza o Atlântico. Por isso, deliciei-me quando ouvi recentemente que o regente e pianista argentino/israelense, Daniel Barenboim – fã de Bruckner de longa data – homenageou o compositor no Carnegie Hall de Nova Iorque, com o ciclo completo de suas sinfonias.

Anton_brucknerBarenboim admite que há compositores mais melódicos, mais “arquitetônicos,” melhores orquestradores e, com certeza, aqueles mais concisos e econômicos na expressão. Mas, ele nos diz também que não é a melodia, a arquitetura, a orquestração ou a brevidade que nos arrastam para Bruckner. É-se arrastado para Bruckner por meio da mesma força que o arrastou, ele mesmo, para a música: a sua fé. Ninguém mais no século XIX compôs mais religiosamente, mais espiritualmente, do que Bruckner. Com ele, não tem programa musical, nenhuma poesia, nenhuma estória; apenas uma escavação arqueológica em busca de Deus e do sobrenatural, sedutoramente escondidos no mundo do som, como veios de ouro na terra. Na verdade, o seu Te Deum e as Missas são também trabalhos geniais, mas é em suas sinfonias que algo de outro mundo vem majestosamente à tona.

Ele cava, cava mais, explora e peneira – retornando a um local anterior só para cavar um pouco mais – e então, muitas vezes num crescendo expectante, outras vezes numa súbita tempestade fônica, dá-se uma epifania igual a nada que se encontre na literatura sinfônica. Não há algo que se pode igualar àqueles momentos. Quando se conhece bem a música dele, meditativamente se espera por esses momentos – assim como cada um de nós espera por Deus – e ficamos até impacientes com Bruckner, enquanto ele busca em seu coração e na orquestra aquela convergência de sons que levará à última revelação. Finalmente, Bach é mais consistentemente brilhante; Mozart mais divertido e variado; Beethoven, mais sintético e impactante; Brahms, mais assertivo e Mahler mais expansivo. Mas, só em Bruckner achamos aquela passagem entre a Terra e o Céu que nos assegura que a beleza do além é por demais assoberbante. Para aqueles preparados a prossegui-la, terá valido a espera.

[Para os iniciantes em Bruckner, provavelmente suas 4ª e 7ª sinfonias deveriam ser ouvidas primeiro. Se você tem menos paciência e quer provar um pouco do melhor, ouça o Adagio da 8ª. (ou da 4ª, 5ª, 7ª ou 9ª… mas eu recomendo o da 8ª). Entre muitas versões excelentes, gosto do andamento de Herbert von Karajan: https://www.youtube.com/watch?v=asJf3KmAg08; se quiser ir direto para o Adagio, pule para 32:15. Há versões com melhor som, mas o buscador encontrará aquela sonoridade que semeará a glória em seu coração)].

death mask Bruckner
death mask of Anton Bruckner

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Bruckner! (rev.)

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I first listened to Anton Bruckner in the mid-70s, inspired by a Viennese friend of mine in Austria. Amazed at my ignorance of the admittedly odd but formidable Austrian composer, he looked me in the eye with the kind of earnestness one only shows when about to divulge an esoteric and explosive secret. Bruckner’s music is (he proclaimed in German): wunderschön!  He then paused a moment to hold back the tears, and repeated: wunderschön!  In German, that means not just beautiful, but seriously and world-shakingly, tear-jerkingly lovely. I was moved by his insistence and passion, and, although slightly wary of possible Austrian self-promotion, finally overcame the humiliation at having my ignorance exposed. As soon as I could, I got my hands on a cassette tape of Bruckner and slipped it into my Walkman.

Consummate scholar that I was (at 22, I fancied I knew not everything, but almost everything), I decided I must first familiarize myself with the biography of this musical prodigy who had deftly flown beneath my radar for so long.  I ran to whatever encyclopedia or short bio I could find, and quickly came upon the photo you see above. Hmm, I thought, not as classical a look as Bach or Mozart, and not as intimidating as Beethoven or Wagner, nor as handsome as Mahler, and yet he will do. I admitted him to audition for my favorite composers club. But then I learned a bit more about this man, and was taken aback. It almost made me cancel the audition.

I had come upon what seemed to be the consensual low-down on Bruckner – something all the snooty classical music mavens have proclaimed for a century. In effect, they have told us not to waste their time with this cowboy. And they were right about one thing : Bruckner was clearly one of the most uncultured men who ever walked the Austrian Alps. Born in a small mountain village, he spoke an Alpine dialect (when he spoke coherently at all), dressed Salvation Army (with pants cut high, since he played the organ and, he claimed, needed unhindered feet for the pedals). He behaved with a clumsiness and self-effacement that would rival the most abject among our homeless today. He knew next to nothing about history, philosophy, poetry, drama, dance, science, etc. As I said: uncultured. But then he climbed onto the seat at his local church’s organ (and many others thereafter) and promptly morphed, Hulk-like, into a musical giant. Improvisation – arguably the supreme test of high musical endowment – rolled off his fingers with astonishing ease. It is regrettable, in retrospect, that he composed so little for the organ, but I think we can say he made up for it in a big way.black-and-white-buttefly-music-notes-facebook-cover-black-and-830x307

When I finally heard his unfinished 9th (why not start at the top?), I felt like I had just walked into Notre Dame cathedral, and I was enraptured (still am). Later came his 4th (an easier listen), and his accessible and popular 7th. But I hadn’t yet confronted the astounding, surprising, adventuresome 5th – I am in a small minority in my love of this imperfect symphony – let alone submitted my virgin sensorium to arguably the grandest, most demanding and most transformative of all his symphonies, the 8th. By this time, I had become an insufferable Bruckner apologist.

However, as I turned again to those mavens, I noticed – to my shock and disbelief – that this dwarfish musician was regarded, almost universally, as bombastic, disjointed, confused and, above all, incapable of economy (his symphonies are anything but succinct). He is seen by many as a kind of absurdly baptized Wagner; he idolized the German megalomaniacal genius, and the fact that he was, along with Wagner, one of Hitler’s favorites, certainly won him no converts. Add to this that unlike any other 19th century musical celebrity of comparable stature, Bruckner was a devout Catholic, and daily Mass attendant. So – we were soberly told – if it’s  late romanticism that you covet, go to Mahler, and leave this pathetic bumpkin to his self-indulgent musical swamps of piety and pretension.

Despite all this, Bruckner’s music is just too interesting to roundly ignore. The famous orchestral swells are of such transcendent grandeur and sublimity, tears and tears alone will reveal you were really listening. Europe was unable to banish him from its musical repertoire, and he was performed with some regularity, despite the nay-sayers. But he hardly ever crossed the Atlantic. Thus, I was delighted when I recently heard that the Argentine/Israeli pianist and conductor, Daniel Barenboim – a longtime fan of Bruckner – was honoring the composer in New York City’s Carnegie Hall with a full cycle of his symphonies.  That was earlier this year.

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Barenboim concedes that there are more melodic composers, more architectonic, better orchestrators and, certainly, those more concise and economic in expression. But he tells us also that it is not melody or architecture or orchestration or brevity that draw us to Bruckner. One is drawn to Bruckner by that which drew him to music: his faith. No one else in the 19th century composed more religiously, more spiritually, than Bruckner. No program music here, no poetry, no story, just an archaeological dig for God and the supernatural, as multiply hidden in the world of sound – like veins of gold in the earth. To be sure, his Te Deum and Masses are also works of genius, but it is in his symphonies where something otherworldly is on unmistakable display.

He digs, and digs again, explores and sifts – returning to an earlier spot to dig just a bit more – and then, often in an expectant crescendo, other times in a sudden cloudburst, there is an epiphany unlike anything else in symphonic literature. Nothing can equal those moments. When you know the music, you meditatively wait for them – like all of us wait for God – and grow impatient with Bruckner as the composer searches his heart and the orchestra for just the right convergence of sound and revelation. Bruckner’s organ playing is more visible in the shape of his symphonies than any reliance on Beethoven or even Wagner. In this way he stands alone. Finally, Bach is more consistently superb, Mozart more playful and varied, Beethoven more synthetic and rousing, Brahms more assertive and Mahler more expansive; but Bruckner alone creates a passageway between earth and heaven that reminds us that the beauty beyond is utterly overwhelming, and, for those willing to pursue it, well worth the wait.

(For those new to Bruckner, probably his 4th and 7th ought to be heard first. If you have less patience and want a bit of the best, take in the Adagio of the 8th (or of the 4th, the 5th, the 7th or the 9th….but I recommend the 8th). Of many fine versions, I like the tempo of Herbert von Karajan here: https://www.youtube.com/watch?v=asJf3KmAg08 ; if you want to go straight to the Adagio, jump to 32:15.  There are versions with better sound, but he who seeks will find the one that seeds the glory in his heart.)

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death mask of Anton Bruckner

Inteligência e o mal

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Você pode ser muito inteligente e muito mau, mas não pode ser sábio sem ser bom. Ser inteligente, ou esperto, significa que você tem uma mente mercurial – talvez até um QI muito alto – podendo manipular silogismos e dissecar argumentos com uma rapidez invejável. Você pode resolver somas e dançar um ballet discursivo nas tabuadas sem derramar uma gota de suor. Mas, nada disso exige bom caráter. Em resumo, você pode ser um mestre em lógica, cálculo e até retórica, mas ser um demônio por dentro. Astúcia e esperteza são apenas habilidades, e alguns nasceram com mais aptidão para elas do que outros. Podem até ser afiadas à perfeição por meio da prática e do estudo, mas não deixam de ser dons neutros, podendo ser usados, como uma faca bem afiada, para cortar um pão para os seus filhos, ou para cortar gargantas para o Estado Islâmico. De fato, você não coisa alguma só por ser esperto ou “altamente inteligente”; você apenas possui um talento inato para derivar, cotejar, concluir, inferir (e manipular!), uma vez que os princípios e premissas já lhe foram fornecidos de maneira pré-lógica, para o bem ou para o mal (dependendo da fonte das intuições).

Eis a questão. O que pressupomos, aquilo que sabemos antes de raciocinar – o que sabemos mesmo antes de usar a linguagem –, esses itens do conhecimento pertencem a uma ordem de verdades situadas na nascente do rio da lógica, não em sua foz. A lógica, assim como as operações matemáticas, pode correr como um carro acelerado a máximo, mas com as engrenagens soltas; desse jeito, vai a algum lugar só quando as intuições originais e pré-discursivas tiverem sido ativadas. Tais intuições são nutridas da sua vida moral, da sua humildade e sua honestidade – sua abertura à verdade e também à correção. A lógica simbólica, a matemática e também a habilidade retórica podem florescer, indiferentemente, em um santo e em um monstro. Soltas de qualquer amarração a princípios tanto metafísicos quanto morais, encontram a sua encarnação desengajada e desenraizada no moderno computador – sabidamente desapegado a emoções, significados e valores. Na esfera econômica, isso tem o seu correlato na supremacia do dólar, aquela medida friamente calculável de quantidade pura, para a qual a produção da riqueza genuína ocupa um lugar secundário ao aumento de lucro em termos numéricos. É cruelmente significativo que a medida do ganho monetário é indicado pela multiplicação do símbolo do zero, “0” – a cifra primordial para significar nada.

O conhecimento tem sido tão completamente instrumentalizado em nosso mundo moderno, escravizado à tecnologia e privado de qualquer objeto de valor intrínseco, que sua manifestação principal tornou-se a de um produto destinado a ser consumido ou utilizado. A universidade onde trabalho proclama, descaradamente, que a sua finalidade é a “produção do conhecimento” – a ser um tipo de fábrica cognitiva. Nenhuma menção à verdade, à formação do caráter, à comunicação dos valores duradouros ou à apropriação de uma tradição sólida. Numa palavra, “sabedoria” não consta mais no currículo, nem mesmo como um objetivo distante. Ela sumiu de vista na fumaça da fábrica, e no negócio de produzir uma série sem fim de mercadorias para consumidores que nem sabem que precisam delas. E, claro, não precisam. O que eles realmente necessitam – uma verdadeira sabedoria – terá de ser buscada em outro lugar. E, dado que o bem moral caminha de mãos dadas com a sabedoria, talvez devêssemos buscar nossos mestres e professores, primeiramente, entre os santos.