A escolha que prende

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Na figura, vê-se meu pai, querendo saber o porquê de seu filho mais velho estar tirando uma foto da ala de cereais matinais do supermercado. Já vi alas mais longas do que essa, mas esta serve para documentar um dos casos mais comuns em nossa cultura de exagerada ‘liberdade de escolha’. Eu poderia ter escolhido sabores de refrigerantes, modelos de automóveis, estilos de camisetas, ou até temas de website. Sobre este último: se a WordPress tivesse me permitido escolher entre três ou quatro temas para construir a minha página na Internet, eu teria prontamente escolhido o mais simples para usá-lo em meu blog. Na realidade, tive de navegar por quase 200 temas diferentes, ponderar seus méritos comparativos, e passar quase uma hora afunilando-os até finalmente escolher um deles (mesmo assim, o gostinho da vitória me foi tirado – e continua sendo –, ao pensar que talvez fosse melhor, no final das contas, um tema diferente do que escolhi). Mas pelo menos eu era livre para escolher! Ou será que não?

Muitos terão ouvido da famosa conferência dos anos 1950 do filósofo Isaiah Berlin sobre os ‘dois conceitos de liberdade’, na qual ele enfatiza as duas maneiras de se falar sobre a liberdade, que se tornaram bem conhecidas desde então: uma, a liberdade de; a outra, a liberdade para. Ainda vale a pena lê-la e a distinção é importante. Mas, muito mais importante é outra distinção que logo perdemos de vista quando estamos preocupados em escolher entre Mini-Wheats e Froot-Loops. Trata-se da distinção entre o entendimento clássico e medieval de liberdade – o progressivo desdobrar de nossas faculdades naturais sob a orientação da razão, e a optimização dada pela virtude –, por um lado, e a noção moderna, atualmente vigente, da liberdade como a capacidade de escolher, escolher, e escolher de novo – a ideia de um indivíduo autônomo, indeterminado, monádico, capaz de apreender um espectro potencialmente infinito de opções e selecionar a mais desejada. O ideal tradicional foi mais bem figurado por Dante. Ele o vê como um homem subindo para cima e para longe da falsa ‘liberdade’ representada por Satan no coração comprimido do inferno, imobilizado na frieza de sua escolha de si mesmo ao invés da realidade. A verdadeira liberdade move-se para cima, através das provações da purificação, e se abre como uma flor para um céu sempre crescente de ar e luz. O poder das virtudes abre, expande e flexibiliza as faculdades aperfeiçoadas, impelindo-as a um estado de pleno desdobramento.

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Em contraste, o ícone moderno da liberdade individualista é o maníaco por controle cognitivo: o Fausto, que está dolorosa e obsessivamente focado em escolher o domínio do conhecimento sobre todo o resto. O mantra aqui é o seguinte: conhecimento é poder, poder sobre a natureza, sobre o tempo, e finalmente sobre a própria realidade. Isso ele comprou ao preço da mesma alma que Dante queria levar rumo à beatitude celeste. Ao invés disso, a mente e o coração de Fausto estão espremidos em um solitário e doloroso ponto, ao mirar – com olhar cobiçoso – os segredos esotéricos que prometem luz, mas que somente oferecem o negrume gélido de um vazio.

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A emancipação da versão moderna miniaturizada da liberdade (com seus espasmos infrenes de escolha, em uma convulsão viciante de arbitrariedade), e para a liberdade que provém de uma reconquista da noção incomparavelmente mais profunda e ampla da tradição pré-moderna, trazer-nos-á a liberdade para sermos (em ato) tudo o que somos (em potência). Essa verdadeira liberdade só pode ocorrer quando crescermos nas virtudes da prudência, temperança, fortaleza e justiça (e para os sobrenaturalmente valentes: fé, esperança e caridade) –, ao invés de surfarmos desajeitadamente por menus intermináveis de opções e sub-opções, à procura de um fugidio cereal para o desjejum, ou do último I-Phone, que promete, à maneira de um charlatão, levar-nos à “paz que ultrapassa todo o entendimento”.

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Choice as Bondage

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In the picture you see my father, wondering why his oldest son is taking a snapshot of a supermarket row of breakfast cereals. I’ve seen longer rows than this, but this one serves to document one of contemporary culture’s most familiar cases of overblown ‘freedom of choice’. I might have used flavors of soft drink, models of automobile, styles of T-shirt, or even themes of website to make my point. About this last: if WordPress had offered me a choice of three or four themes to frame my site in, I would have promptly chosen the simplest one and gotten on with my blogging. As it was, I had to surf through nearly 200 different themes, weigh their comparative merits, and spend almost an hour narrowing it down to the one I finally chose (even then, the sap was sucked out of my victory as I continued – and continue – to wonder if I should have chosen another theme that might have been even better). But at least I was free to choose!  Or was I?

Many will have heard of a famous 1950s lecture by the philosopher Isaiah Berlin on ‘two concepts of liberty’ in which he highlights two ways of speaking of freedom which have become well-known ever since: one, freedom from; the other, freedom for. It is still worth reading and the distinction is important. But far more important is another distinction which is promptly lost from view as we fret over choosing between Mini-Wheats and Froot-Loops. It is the distinction between the classical, medieval understanding of freedom as the progressive unfolding of our natural faculties under the guidance of reason and the optimization provided by virtue, and the reigning modern notion of freedom as the ability to choose, and then to choose again, and then again — the idea of an autonomous, undetermined, monadic individual entitled to survey a potentially infinite spectrum of options and select the one most coveted. The traditional ideal is best imaged by Dante. He sees it as a man ascending aloft and away from the thick suffocation of the bogus ‘freedom’ represented as Satan at the compressed heart of hell, immobilized in the ice of his own choice of self over reality. True freedom moves upwards through the ordeals of purification, and opens like a flower to an ever-expanding sky of air and light. The power of the virtues opens, expands and flexes the faculties they perfect, carrying them to a state of full deployment.

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In contrast, the modern icon of individualistic liberty is the cognitive control-freak Faust, focused painfully, and obsessively, on choosing the mastery of knowledge over all else. The mantra here is:  knowledge is power, power over nature, over time, and finally over reality. This he purchased at the price of that very soul which Dante would lead heavenwards to bliss. Faust’s mind and heart instead are squeezed to one lone and painful point as he squints at the esoteric secrets that promised light, but only delivered the cold black of the void.

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Emancipation from this miniaturized modern version of freedom (with its endless spasms of choice in an addictive fit of arbitrariness), and freedom for a reconquest of the incomparably deeper and broader traditional notion, brings freedom to be (in actuality) all that we are (in potency). Such true freedom can only come to pass when we grow in the powerful virtues of prudence, temperance, fortitude and justice (and for the supernaturally valiant: faith, hope and charity). Otherwise, we continue surfing cumbersomely up and down endless menus of options and sub-options, in pursuit of some elusive breakfast cereal, or the latest I-Phone, that promises – like a con-man – to take us to the peace which passeth all understanding.

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Primeiro ou único? (a batalha entre o ordinal e o cardinal na Reforma)

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Na comemoração dos 500 anos do começo simbólico da Reforma Protestante – uma tradição na qual eu pessoalmente fui criado – e ao reler os documentos do Concílio de Trento da Igreja Católica (sua resposta tardia, trabalhosa – e, para os que amam a inclusão  – ternurenta a Martinho Lutero), fico impactado por um aspecto raramente comentado daquela barulhenta altercação do século XVI. Refiro-me à diferença entre números ordinais e cardinais, e mais especificamente com respeito ao primeiro dígito de todos: ‘1’. Não me interessa aqui o fato igualmente fascinante de que ‘um’, de rigueur, não é um número de verdade, mas o princípio de número (qualquer número de verdade, para ser o que é, tem de ser um tal número; o ‘2’, por exemplo, não seria 2 se não fosse um 2, e não dois ou três 2s, que somariam 4 ou 6). O que me parece mais relevante neste contexto, porém, é a diferença entre o 1 cardinal e o 1 ordinal.

Veja, o bom Lutero havia aprendido em seus tempos de teólogo católico que: 1) as Escrituras, 2) a fé, e 3) a graça são primordiais como fontes de salvação – nenhum teólogo católico que se preze discordará disso –, e tivesse ele apenas sublinhado isso com algumas expressões latinas precisas e memoráveis, tais como prima scriptura, prima fide e  prima gratia, a Igreja teria apenas lhe agradecido por ter colocado essa primazia sob um foco mais preciso. Contudo, algumas circunstâncias (temperamento, tentações retóricas etc.) levaram-no a enfatizar aquela primazia de modo mais dramático, transformando-a em um atributo solo, único e exclusivo. Ele transformou o ordinal num cardinal. O Cardeal Caetano e Erasmo tentaram amenizar a intensidade da retórica do alemão, introduzindo distinções cruciais de que qualquer grande doutrina precisa para evitar aquele desvio da verdade chamado de ‘heresia’. Mas, não era para ser desse jeito. Uma conspiração de eventos e circunstâncias deu asas aos inegáveis dotes poéticos e retóricos de Lutero e, com a nova mídia social dos panfletos impressos, quem estivesse à frente dos meios de propaganda poderia facilmente silenciar as cuidadosas discussões doutrinais da tradição. Acrescente a isso os visíveis absurdos das vendas de indulgências pela Igreja na Alemanha – quase como se fossem bilhetes de loteria –, e a instituição milenar aparecia como muito carente de uma simplificação doutrinária, a fim de varrer esse escândalo do mapa. Ênfase sobre só Escritura,  fé e  graça parecia feita sob medida para a ocasião. E assim surgiram os mantras protestantes tão familiares (nós ocidentais precisamos também de mantras!): sola scriptura, sola fide, e sola gratia.

A Igreja Católica finalmente tiraria proveito – com um atraso lamentável – desses exageros e produziria suas próprias fórmulas cuidadosamente balanceadas, tais como: Escritura e Tradição / fé e obras / graça e natureza (outras harmonias análogas viriam nos debates dos séculos posteriores, como fé e razão, religião e ciência). Esses são os pares de ‘gêmeos não idênticos’, conceptuais e inclusivos, que o Catolicismo prepararia daí por diante – de forma precária, mas tonificante –, para colocar sobre as escalas da verdade cristã. Foram formulados em Trento, mas já vigoravam antes como parâmetros vivos de um milênio de fecundidade medieval. Universos de teologia e filosofia Patrística e Escolástica já tinham extendido suas asas sobre o terreno marcado por aqueles polos complementares; da mesma forma, milhares de igrejas, basílicas, monastérios e santuários bizantinos, românicos, góticos e renascentistas – cheios de afrescos, mosáicos e estatuária –  já haviam se erguido gloriosamente sobre o mesmo terreno. O princípio do ‘tanto/quanto’, em vez do ‘um ou outro’, prevaleceria no Catolicismo, embora este também levasse aqui ou acolá a certos exageros transeuntes. Entretanto, no geral, o Catolicismo manteria aquele nobre equilíbrio do cocheiro que se inclina ora para a direita ora para a esquerda, na medida em que seus cavalos correm resolutamente para frente, rumo a uma Verdade cada vez maior, mais abrangente – e mais imprevisível! – do que nossas mentes poderiam imaginar.

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First or Only? (the battle between the ordinal and the cardinal in the Reformation)

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As we commemorate 500 years since the symbolic beginning of the Protestant Reformation – a tradition within which I myself grew up – and I reread the documents of the Catholic Church’s Council of Trent (its belated but belabored – and for those that love inclusiveness, beloved – answer to Martin Luther), I am struck by a seldom-commented feature of that vociferous altercation of the 16th century. I mean the difference between ordinal and cardinal numbers, and more specifically as regards the first digit of them all: ‘1’.  I am not interested here in the equally fascinating fact that one’, de rigueur, is not a number at all, but the principle of number (any true number, to be what it is, must be one such number; a ‘2’, for instance, would not be a 2 if it were not one 2, and not two or three 2’s, which would make it 4 or 6). What seems more apropos of reflections on Reformation history, however, is the difference between the cardinal 1 and the ordinal 1 – that is, between the ‘one and only one’ and the ‘first’ (even the primus inter pares), presumably followed by comparably important ‘seconds’ or even ‘thirds’, etc.

You see, good Luther had learned from his years of Catholic theology that 1) Scripture, 2) faith and 3) grace are first as sources of salvation – no Catholic theologian worth his salt will object to this – , and had he only underlined this with some accurate, memorable Latin phrases, like prima scriptura, prima fide, and prima gratia, the Church would have only thanked him for bringing this ‘primacy’ into sharper focus. However, circumstances (temperament, rhetorical temptations, etc.) tempted him to emphasize the primacy even more dramatically by morphing it into unicity, or uniqueness, or only-ness. He turned the ordinal into a cardinal (no pun intended). Cardinal Cajetan and Erasmus tried to finesse the German’s rhetorical intensity into the crucial distinctions any great doctrine needs if it is to avoid that skewing of truth known as heresy. But it was not to be. A conspiracy of events and circumstances turned Luther’s undeniable poetical and rhetorical gifts loose and, with the new social media of the printed pamphlet, whoever had the edge on propaganda ‘reading-bytes’ could easily silence the careful, doctrinal disquisitions of the centuries. Add to this the visible absurdity of indulgences being sold by the Church in Germany like lottery tickets, the hoary institution seemed in need of some doctrinal simplifications to sweep this scandal off the map. Emphasis on only Scripture, only faith, and only grace seemed made to order. And thus emerge the Protestant mantras we know so well (we Westerners need our mantras too, don’t we?): sola scriptura, sola fide, and sola gratia.

The Catholic Church will finally – though with regretful tardiness – profit from these overstatements and churn out her own carefully-balanced formulae, namely: Scripture and Tradition / faith and works / grace and nature (further harmonies will come in the debates of later centuries, like faith and reason, as also religion and science). These are the inclusive conceptual non-identical twins Catholicism has henceforth poised precariously but invigoratingly on the scales of Christian truth. They are formulated at Trent, but were there in full force before as the living parameters of a millennium of medieval fecundity. Worlds of Patristic and Scholastic theology and philosophy had already spread their wings over the landscape marked off by those complementary poles; likewise, thousands of Byzantine, Romanesque, Gothic and Renaissance churches, basilicas, monasteries and sanctuaries –  full of frescos, mosaics and statuary – had risen gloriously over that same landscape. The ‘both/and’ principle will prevail in Catholicism, although it too will sway into temporary exaggerations of one sort or the other. Still, on the whole it will maintain that noble balance of the horseman who leans now left and then right, as his steeds charge forward towards a Truth forever larger, forever wider – and wilder! – than our minds could ever imagine.

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Como encolher e domar o cristianismo

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Eu tenho três queixas contra várias apresentações modernas do Cristianismo, que muitas vezes parecem tentar reduzir aquela grandiosa singularidade histórica a um bichinho de estimação. Os alvos de minhas queixas podem ser designados assim: provincialismo, sentimentalismo e moralismo. O primeiro dá tanto destaque ao costume herdado e ao colorido local, que o papel global do Evangelho é obscurecido (e isso se aplica também a toda resistência exagerada à enculturação para fora da Europa Latina, na qual uma ‘província’ deseja impor-se a outra, tal qual na controvérsia dos ritos entre os jesuítas e o Vaticano na China dos séculos XVII e XVIII); o segundo sobrepõe a emoção ao pensamento, com todas as formas que Ronald Knox chamou de ‘entusiasmo’ em seu livro magistral de mesmo título (por exemplo, excessos litúrgicos de improvisação, exageros carismáticos e músicas e gestos religiosos adocicados; o terceiro põe o rigor moral acima da instrução metafísica e teológica, e especialmente acima daquilo que se deveria seguir à instrução, ou seja, o desenvolvimento da intuição (como quando esperamos que os outros – especialmente os jovens – afinassem suas vidas morais, antes de ouvirem qualquer boa notícia que pudesse incentivá-los a fazê-lo). De fato, o ‘Cristianismo’, para a maioria dos jovens de hoje (e mais ainda o ‘Catolicismo’) – a despeito do fato de termos aqui o mais gigantesco, chocante e revolucionário ensinamento sobre a realidade jamais proferido neste planeta – é encolhido e domesticado pelos referidos alvos da minha crítica, que o consideram tão-somente (e de forma domada e segura): 1) nossas preciosas tradições familiares e locais; 2) algo com que nos conectamos somente quando as emoções fiquem excitadas; 3) coisas que não podemos fazer nem ser – ponto final. E o pecado, é claro, conecta-se nas mentes dos jovens, quase invariavelmente, a coisas que nos fazem sentir bem, até muito bem. Eles reconhecem as coisas boas e gostosas quando as sentem, e o grande mundo da ‘religião’ parece ter se enganado redondamente em relação aos maravilhosos prazeres que Deus criou.

‘Metanoia’, tal qual gerações de exegetas assinalaram, embora que não seja incorreta a tradução como ‘arrependimento’, o próprio arrependimento é mal entendido se não se analisa cuidadosamente a palavra grega. A ‘mudança’ sugerida pela preposição meta, é do nous, do ‘pensamento’, do modo como entendemos e encaramos a realidade. Para arrepender-se de algo, é preciso ver o que se fez de errado, o que requer por sua vez ver o que é o certo – ou seja, como o mundo realmente é, e como nós, consequentemente (digamos novamente: consequentemente), devemos ser. Por outras palavras, para vermos o que é moralmente certo, precisamos de um entendimento básico do que é metafisicamente verdadeiro. Esperar que nos horrorizemos com o pecado sem sequer vislumbrarmos a beleza do bem, é uma empreitada invertida, típica da religiosidade moderna, e garantido a espantar as pessoas sãs dos bancos da igreja (e, previsivelmente, fazê-las correr para os próximos prazeres disponíveis). As pessoas jovens, que já experimentaram prazeres e alegrias reais em suas vidas, jamais serão persuadidas por um código moral articulado numa paisagem estéril de figuras pálidas sacudindo seus dedos em sinal de proibição. Os jovens são muito astutos para serem assim enganados.

Assim como a filosofia prática tem forçado a filosofia teórica a uma posição defensiva em tempos recentes, da mesma forma a pregação instrucional, o catecismo bem pensado e a teologia doutrinal veem-se intimidadas por posturas moralizantes, ou por músicas litúrgicas agitadas, com as quais as congregações eclesiais tentam compensar, com emoção, o que lhes falta em convicção.

Se as pessoas não ouvem mais falar de um Deus Trino como um Deus-Pai vivo e gerador, e de Cristo como um Filho realmente, e eternamente, gerado (com vida e logos jorrando de dentro), e do Espírito como um amor totalmente e incessantemente em estado de transbordamento; e portanto, a própria Criação como uma efusão de dons provindo dessa fonte de vida que brota sem parar, então um resultado é certo: nossas lições morais ficarão de pé só no discurso, porquanto serão incapazes de subsistir sem o pano de fundo de uma visão teológica de mundo bem construída – a única coisa capaz de lhes dar legitimidade.

Local, emoção e mandamento só fazem sentido para o cristão, e somente ganham corações, quando o lugar se ilumina a partir de um mapa do universal, do global (do ‘católico’); quando a emoção nos move, de forma sim fervorosa e vibrante, mas na matriz estável da vontade (que os Escolásticos chamam de apetite racional); e quando as injunções morais emergem amorosamente, mas logicamente, da metafísica do real.

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How to Shrink and Tame Christianity

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I have three peeves with many modern presentations of Christianity, which often seem intent on reducing that grandiose historical singularity to a domesticated pet. The targets of my peevishness can be named as follows: provincialism, sentimentalism and moralism. There you have it. The venom is on my lips as I pronounce the names. The first puts inherited custom and local color so much into the foreground that the global role of the Gospel is obscured (and this applies also to all unreasonable resistance to enculturation beyond Latin Europe, in which one ‘province’ wishes to impose itself on another, as became an issue in the rites controversy of the Jesuits in China in the 17th-18th centuries); the second puts emotion before thought, all forms of what Ronald Knox termed ‘enthusiasm’ in his masterful book of that title (see liturgical excesses of improvisation, charismatic exaggerations and saccharine, feel-goody religious songs and gestures); the third puts moral stricture before metaphysical and theological instruction, and especially on what should follow on instruction, namely, growing insight (like when we expect folks — especially youth — to get their moral act together before hearing any good news at all that might encourage them to do so). Indeed, ‘Christianity’, for most young people of today (and ‘Catholicism’ even more) — despite the fact that we have here the most gargantuan, shocking and revolutionary teachings about reality ever to hit the planet — is reduced and tamed by the targets of my critique to be only (and quite safely): 1) our precious local, or family, traditions; 2) something we only connect with when our emotions are whipped up artificially; and 3) things you can’t do and things you can’t be — end of story. And sin, of course, is connected in their minds, almost invariably, to things that make you feel good, indeed real good. And young people know good things when they feel them, and the big world of ‘religion’ seems to have gotten it all wrong about the obviously good pleasures God created.

Metanoia, as generations of exegetes have pointed out, is not inaccurately translated as repentance, but even repentance is misunderstood if one does not take a hard look at the Greek word itself. The ‘change’ suggested by the preposition meta, is of the nous, the ‘thinking’, the way we understand and look at reality. To be sorry you must see what you did wrong, and that requires in turn seeing what is right – that is, how the world God created really is, and how you, therefore (say it again: therefore), ought to be. In other words, to see what is right morally, you must have a basic grasp of what is true metaphysically. To expect us to be horrified by sin without even a glimpse of the beauty of goodness is a typical topsy-turvy approach of modern religiosity, sure to send sane people running from the pews (and, predictably, to the immediately available pleasures). Young people, who have already touched real pleasure and excitement in their lives, will never be persuaded by a moral code which is articulated in a barren landscape of pallid faces and wagging fingers. They know better, and they are right.

Just as practical philosophy has edged theoretical philosophy into a defensive posture in recent times, similarly instructional preaching and well thought-out catechism and doctrinal theology find themselves out-gestured by moralizing postures, or by swaying liturgical songfests, where church congregations try to compensate with emotion what they lack in theoretical conviction.

If folks don’t hear more about the Trinitarian God as a generating, living God as Father, and Jesus as a truely generated Son (overwhelming, indeed innerwhelming with life and logos abundant), and the Spirit as a love that is total and forever on the verge of overflowing; and thus the creation as a loving outpouring of gifts from out of that bosom of eternally sprouting life, one outcome is certain: all our prohibitions will rise and fall as we speak them, unable to steady themselves against the backdrop of a properly painted theological worldview, which alone can give them warrant.

Place, emotion and commandment only make sense, and only win hearts, when place shines forth from a map of the universal, the global (the ‘catholic’); when emotion moves, vibrantly and fervently indeed, but within the steady matrix of the will (which is, as the Scholastics put it, our rational appetite); and when moral injunction emerges lovingly, but logically, from the metaphysics of the real.

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The Goodness of the Sixth Day

GOOD-FRIDAY, 1613, RIDING WESTWARD.

LET man's soul be a sphere, and then, in this,
Th'intelligence that moves, devotion is;
And as the other spheres, by being grown
Subject to foreign motion, lose their own,
And being by others hurried every day,
Scarce in a year their natural form obey;
Pleasure or business, so, our souls admit
For their first mover, and are whirl'd by it.
Hence is't, that I am carried towards the west,
This day, when my soul's form bends to the East.
There I should see a Sun by rising set,
And by that setting endless day beget.
But that Christ on His cross did rise and fall,
Sin had eternally benighted all.
Yet dare I almost be glad, I do not see
That spectacle of too much weight for me.
Who sees God's face, that is self-life, must die;
What a death were it then to see God die?
It made His own lieutenant, Nature, shrink,
It made His footstool crack, and the sun wink.
Could I behold those hands, which span the poles
And tune all spheres at once, pierced with those holes?
Could I behold that endless height, which is
Zenith to us and our antipodes,
Humbled below us? or that blood, which is
The seat of all our soul's, if not of His,
Made dirt of dust, or that flesh which was worn
By God for His apparel, ragg'd and torn?
If on these things I durst not look, durst I
On His distressed Mother cast mine eye,
Who was God's partner here, and furnish'd thus
Half of that sacrifice which ransom'd us?
Though these things as I ride be from mine eye,
They're present yet unto my memory,
For that looks towards them; and Thou look'st towards me,
O Saviour, as Thou hang'st upon the tree.
I turn my back to thee but to receive
Corrections till Thy mercies bid Thee leave.
O think me worth Thine anger, punish me,
Burn off my rust, and my deformity;
Restore Thine image, so much, by Thy grace,
That Thou mayst know me, and I'll turn my face.

 - John Donne

Moving and changing (mudando-se e mudando)

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I have been absent from my own blog for several weeks due to a prolonged illness in February, after which — hardly out of the woods health-wise — I was greeted with the prospect of either moving from my apartment of 20 years to another, or enduring aggressive and ear-shattering reforms intended for my former abode (mandated, incidentally, by the university which owns the bricks and stones I live in). I opted to move. But moving is very moving, if I might dare to carry the Portuguese double-use of the word into my native English. In the tongue of Brazil, I have been saying to my students, friends and colleagues for the last two weeks: “Eu mudei, e eu mudei” — literally, “I moved, and I moved,” but of course it doesn’t work in English, where we would have to say: “I moved, and I have changed.” Moving and changing are teasingly close. ‘Where you are’ is an accident in Aristotle’s philosophy, but accidents can be drastic, and they definitely change you. And moving has changed me, although I hope for the better. As soon as I regain my direly drained forces, I intend to resume my blog with new perspective, and, hopefully,  new ‘motion’. Until then, I will try to put my 4,000 books on the shelves they long for, and look at the world and myself from a brand new place.

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Estive ausente de meu blog por várias semanas, devido a uma prolongada enfermidade em fevereiro, após a qual – e ainda não de todo superadas as dificuldades em termos de saúde – fui saudado com a necessidade de mudar-me do apartamento onde moro há vinte anos para outro, ou aguentar as reformas agressivas e barulhentas programadas para a minha ex-casa (reforma obrigatória, diga-se de passagem, pela universidade, que é a dona dos tijolos e das pedras que formam meu lar). Optei por me mudar. Mas, “uma mudança é muito comovente”, se eu puder forçar o duplo uso da palavra ‘mudar’ em português. Na língua do Brasil, tenho dito aos meus amigos, colegas e alunos nas duas últimas semanas: “Eu mudei e eu mudei” – que, traduzindo literalmente para meu Inglês nativo (“I moved, and I moved”) não faria sentido. ‘Mudar-se’ e ‘mudar’ estão provocantemente próximos. ‘Onde você está’ é um acidente na filosofia de Aristóteles, mas os acidentes podem ser drásticos e com certeza nos mudam. A mudança [de casa] me mudou [por dentro], e espero que para melhor. Assim que eu recuperar minhas forças que foram bastante drenadas, pretendo retomar meu blog com nova perspectiva e, quem sabe, nova ‘moção’. Até lá, tentarei colocar meus 4.000 livros nas estantes que eles tanto almejam, e encarar o mundo e a mim mesmo de um novo lugar.

On Being Brilliantly Wrong

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Though serious Christians may differ on how to characterize an ‘inerrant’ Bible or an ‘infallible’ Magisterium, consensus ought to be forthcoming regarding the errant and fallible character of every other source of guidance on offer. This includes not just the slow and thick, but most especially the quick and brilliant; not just the hardened lier, but especially the posing sage. Our minds gravitate to God, and since we cannot yet see him, we are forever subconsciously seeking divine qualities in the people we do see. It may be easy to demote the criminal, or the bearers of everyday mediocrity. Their foibles are on unmistakable display. But the brilliant in intellectual terms, or the great artist, and even more the seemingly noble in moral terms – who lavish us with insights or inspire us with solemn example – are easily confused with utter perfection. To expose such confusion, when the Catholic Church sizes up its candidates for sainthood, one of the first signs of disqualification is any hint that the candidate thought he or or she was indeed a saint. The canonized saints will have weakness they are only too aware of, and not a few of them will have theological ideas slightly left or right of center. My focus here, though, is on the brilliant, the philosophical and theological stars on our wayward world’s firmament.

One part of growing up we all know through experience is learning – in a process both slow and unsettling – that mom and dad are just two more human beings among millions. Daddy’s infallible prowess, and Mommy’s infinite bosom of protection and forgiveness, finally display their limits, and quite opposite traits begin to blemish our icons of parental perfection. If we truly love them, we will learn to love them even more for their shortcomings than we did for their imagined grandeurs. We have a harder time with this, however, when it comes to the saints. We tend to flatten them into two-dimensional do-gooders. The ones we have come to know more directly in recent times, like St John Paul and St Theresa of Calcutta, won’t always fit the story-book image of the sweet and holy. John Paul II was a great saint, and a world-historical figure, but perhaps would lose a few stars as administrator in the complex Vatican system – he apparently wasn’t good at delegation, and it may have been this which caused the Curia to go south during his long papacy, and the sex abuse scandal to be nudged aside by other issues. Mother Theresa’s occasional imprudent decisions are all documented, and her own dark inner struggles have become a part of an even more realistic profile. But this is simply the way we humans grow in holiness, with embarrassing, unsightly tares fully on display right next to the golden grains of wheat, hand-in-hand all the way to heaven. But again, I want to turn to the intellectuals, since it is their delinquencies that most concern me.

I work at a university, full of professors who pretend, at least, to be smart, and many of them are very smart, a smaller portion truly intelligent, and perhaps a select few genuinely wise. Where I myself stand on this scale is something I will leave to the consensus of my students, if such can ever be gauged. I have no idea. But I have lived long enough to have located at least a handful of truly wise thinkers – most of them, alas!, only available through their books – and know that it is true wisdom that radiates through their writing, whether eloquent or rudimentary, cool or square. I have referred to a selection of these sages in my other post: Incoming Light. But what about that category of thinkers and writers who are very smart, and often enough impressively intelligent as well – with even occasional, but rare, rays of wisdom shining through their words – but who are, precisely due to their considerable, but never sapientially consummated endowments, often brilliantly wrong?

Aristotle sold out to the rather creepy theory of abiogenesis; Aquinas’ theology, from a Catholic point of view, gets it wrong about the Immaculate Conception; and even the archetypal genius Einstein resisted the Big Bang theory for years (in part because his priest-friend Georges Lemaître had conceived it, and he feared he was maybe theologically biased). Let us allow our geniuses to be ingeniously wrong!  When my young students find some great thinker, they understandably have a hard time recognizing his faults. You have to understand a number of deep matters in order to misunderstand a few. Since most of us don’t understand them at all, we will hardly notice when the brilliant get them wrong. Being brilliant is a gift that can bring great light to those less illumined, but it also secures for its annointed the dubious privilege of – at least from time to time – being brilliantly, and possibly dangerously, wrong. That is why there has to be a living voice in a true Church, someone who occasionally interrupts our brilliant disquisitions to point out an overlooked fact, or a slightly twisted emphasis. That voice is called the magisterium. It has been compared to the referee, or the umpire, in a game – not someone we are overly fond of, but someone without whom the game would quickly become a riot. And yet we are the ones who play the game, with our theologians and philosophers, and not these pesky arbiters. From time to time we will hear a whistle, and even the brilliant will have to stop and listen.

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Seven Islands (in progress)

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     SEVEN  ISLANDS  (text in progress, to be added to periodically)

Scott Randall Paine

 Introduction:  Kansas, an island in the prairie

When thinking of islands, the U.S. state of Kansas does not readily come to mind. Still, there is something insular about the interior of continents, and the Midwest of the U.S., for all its folksiness and charm, can become a place of isolation, especially for those who grew up—as I did—in the 50s and 60s. I do not doubt for a moment that someone from California or New York City can also be insular, and this despite the vast offering of cosmopolitan contact. Maybe even because of it. Sometimes the very density of that access can drive persons into provincial corners of their minds, and they end up being just as insular as a bumpkin from Nebraska or Missouri. The conspicuous global doors on display on the coasts can remain as unopened as the more furtive ones of the hinterlands. Still, my own years of being reared in the Sunflower State made any truly international adventure an unlikely wrinkle in my fate.

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Seven islands, nonetheless, apparently beckoned to me already in the mid-70s, and turned my deep Midwestern roots into missile launch facilities, with a final distant target in the unlikely South American wilds of Brazil. These seven islands (or groups of islands) serve as a kind of shorthand to my more lengthy stays and travels, and they significantly and symbolically string like a garland around the globe, starting in the east Pacific and travelling west all the way to the East Indies. They are: the Galapagos Islands, Easter Island, Tierra del Fuego, Iona (in Scotland), Zanzibar (off the coast of Tanzania), Sri Lanka (in South Asia) and Bali (in Indonesia). These isles are all small, but they remind us that in fact all the land of the earth is small when compared with the oceans. Over 70% of the face of the planet is aquatic, so strictly speaking, even Eurasia and Africa are just oversized islands. Indeed, the United States’ controversial claim of ‘manifest destiny’ – interpreting its fated real-estate to go from ‘sea to shining sea’ – in  a sense involves a vision of its own privileged spot on earth to be that of one grand triumphant island.

I’ve travelled an unconscionable amount for a 64-year-old, and seen as much of the world as most of the great adventurers ever saw, and more than some. Of course, I cheated as I sped over oceans and continents 35,000 feet above the earth – there where most explorers plied the dangerous waves of our oceans, or braved mountains and desert terrain. I take my hat off to all of those travelers of earlier centuries. And I especially admire those who risked it all on those grand ships of old that are a beauty to the eyes, but certainly a torture to their passengers.

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I also salute the grandparents of my grandparents, who, on both sides of our family, rode wagon trains from points east all the way to Kansas.

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Like ships, those caravans processed like a pageant, but also like ships, bruised the bodies they carried. Kansans may be easily insular in attitude, but their ancestors were wayfarers every one. I take pride in that. But I never dreamt, as a boy, that circumstances would carry me from Kansas to just about every major corner of the world, but so it has happened. I can claim little credit for this, for propitious circumstances simply came my way and surrounded me from about the age of 20, and the most I can pride myself on is that I was always swift in grabbing an opportunity when it presented itself. But I can take no credit for the opportunities themselves. And a braver and nobler man might have made better use of them than I have.

Although I did not visit these seven islands in any sort of chronological order – having set foot on them during quite different trips of the last 20 years – they have risen in my memory as landmarks of not only geographical significance, but also philosophical and religious import. Each island pulled a distinctly different mix of messages from my mind, and seeded a discrete meditation in my heart. It occurred to me that it would be of interest – both for myself and for others – to revisit these seven islands, reminisce about the days in which my feet walked upon them, and reflect on what insights the seven meditations have sired.  (The seven chapters, as now foreseen, will be as follows:)

  1. The Galapagos Islands: Darwin’s Unimagined Evolution
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Galápagos Islands

I have never felt in the slightest challenged, worried, upset or troubled by Darwinian suggestions that our species may have developped over millions of years. Whether dozens of years or quadrillions has never seemed to me any reason to get into a fuss. Theologically, I can take it either way. But where Darwinians seem to be totally off the map of sanity is when it comes to using that most basic and common-sensical faculty with which our human nature is endowed – the imagination. When I hear them blithely commenting on how all the diverse species of our world came about by minute genetic shifts through a series of aleatory mutations —  and that this pretty much explains the menagerie — I feel like not a one of them has ever stood in the presence of an Indian elephant, or a Brazilian tucan, or a Mexican butterfly, or even an annoying tropical mosquito. I wonder if they have even read Aesop. No disjunction in the modern scientistic mind is as gaping and as fatal to any access to true wisdom as that which lies between the question: ‘how?’ and the questions: ‘what?’ and ‘why?’.

By bracketing (or stigmatizing as irrelevant) the latter two questions – which traditionally were embraced within the notions of formal and final causality – the ‘how’ question could be isolated and all forms of manipulation, technique, power generation and Promethean mastery over nature set free (in a word: efficient causality); the natures of things and their ultimate purposes in a providential plan would henceforth be seen as obstacles to our development of muscle and control – lyrical pasttimes for poets and religious mystics, perhaps, but hardly serious considerations for the business of science. Now, when minds that have been habituated to this way of looking at reality, and trained in two centuries of mechanistic technique and mastery, finally turned their little lights on the world of life, they noticed that there was also a ‘how’ here. Involved in the appearance of our world’s species of plants and animals, and, of course, also the species to which we belong, are processes and step-by-step causalities we can also isolate and describe. And, as was the case with physics and chemistry, biology too learned bucketloads of facts about how life functions and how it comes to do what it does. But as had been done with chemical substances and with physical forces, one continued to look past natures and purposes, and focus instead  on the mechanics of howness. I am afraid this is what happened to Darwin.

As I negotiated the unwelcoming volcanic rock on one of the Galapagós islands, I was probably as startled as the great English naturalist himself was, back in the 1830s, as pieces of that rock began to move. Of course, all that had happened was that I had just noticed a few of the thousands of sinfully ugly iguana that populate the island.

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However, these mini-Godzillas instantly offered their services as symbols of what can often confound the imagination of a scientistic reductionist. What appears to be the tiny interval between non-living and living matter, between rock and iguana, seems negligible indeed when you witness these sluggish. lithic reptiles shifting their living cells atop the mineral molecules. However, we are chastened by our Darwinian, as he shyly lifts a finger and admits that, after all, natural selection has actually not been of much help in explaining the gulf between the inorganic and organic worlds. Not that there are no efforts underway, but whatever triumphs the scheme can already claim in linking living species within a continuum of genetic causality, an explanation of the all-important quantum leap from lifeless molecule to living cell is not one of them.

 

2. Easter Island: Echos of Eden (Primal Religion)

….about our non-literate progenitors and the wisdom that never got into print…..

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Easter Island 2009
  1. Tierra del Fuego: What Oceans Reveal

…..the oceans, what they mean but can never say….  the two biggest kiss at Tierra del Fuego…

Tierra del Fuego

4. Iona: from Bethlehem to Ultima Thule (the Christian Drama)

Christianity, the least-known religion in the world………….

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Iona, Scotland
  1. Zanzibar: The B.C. Within the A.D. (Islam)

Islam…..back to basics?  ‘Old Testament’ rewind?….. lots to say, none of which gets said in today’s fuss over terrorism…..

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  1. Sri Lanka: Buddhism – the Glue of Asia

So easy to think you understand it, when you haven’t, but it has understood you before you even asked…..

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Sri Lanka with boy monks, 2007
  1. Bali: Hinduism Out on a Limb

The Hindu universe, located overwhelmingly in India, has invaded the world courtesy of the British Empire.  But long before Englishmen colonized South Asia, Hindus colonized Southeast Asia, and a rare relic thereof lies on the enchanted isle of Bali….

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Bali, Indonesia 2007

Conclusion:  On Becoming a Wandering Jew

If you don’t have an approximate understanding of who the Jews were and are, you’ll never make sense of our world, of any religion, or of any pain.

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Sobre o meticuloso ritual do Ano Novo

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Até mesmo no meu amado Brasil, o país que adotei, onde a massiva e endêmica impontualidade grassa por onde quer que se olhe, quase todas as almas estarão acordadas, segundos antes da meia-noite de 31 de dezembro, com os olhos colados num relógio e escrupulosamente fazendo a contagem regressiva para o novo ano civil. O começo de celebrações religiosas, aulas e compromissos de todo tipo são perdidos por margens de até uma hora, mas o começo do novo ano secular é consagrado com uma precisão a toda prova. A diferença entre 23:59 de 31/12 e 00:01 de 01/01 é saudada como uma transfiguração mágica e arrebatadora, mas a diferença entre o Advento e o Natal sumiu totalmente; e a linha divisória entre a Quaresma e a Páscoa também se apagou. A difusão virulenta das festividades do Carnaval aqui no Brasil tem alguma relação com a Quaresma, é verdade, mas a Quarta-Feira de Cinzas com frequência escorrega (assim como o resto do ano litúrgico) dentro da longa sombra da Terça-Feira Gorda.

A razão para isso é simples. Quando a religião declina, a religiosidade permanece – apenas muda de endereço; quando não mais se acredita na transcendência, o mundo imanente torna-se o apoio vacilante do culto e da adoração. Nós esbanjamos o simples momento da mudança quantitativa de um 2016 para um 2017, por exemplo– nem sequer cai num solstício! – com uma espécie de devoção e uma observância estrita da pontualidade. E a intensidade é possível, quase necessária, porque não experimentamos mais o dramático momento de 25 de dezembro, quando o Cristo Menino foi deitado na manjedoura pela primeira vez desde o último janeiro (destacando as festas de Natal do tempo, e atmosfera diferente, do Advento); nem experimentamos mais aquele frio na espinha quando as luzes da igreja se apagam todas e a lumen Christi, em forma de uma única vela, entra no santuário para a explosão de luzes na Páscoa. Quando os dias santos viram apenas ‘feriados’, ‘dias de graça’ se tornam ‘dias de folga’, e nossos instintos religiosos órfãos buscam alhures suas regras e rubricas. Hinos religiosos menos e menos cantados? Que tal um ‘hino’ nacional num evento esportivo, com lágrimas nos olhos? Não se paga mais o dízimo? Ora, paguemos nossos impostos até a data mágica de 30 de abril. Esqueceu-se de como rezar? Tente a blasfêmia (que não passa de uma oração travestida). E fora com os mandamentos religiosos! Mas, sejamos politicamente corretos em tudo que falamos e fazemos! ….acho que você já sabe onde quero chegar. Entenda-me bem, não estou desencorajando as festividades de Ano Novo – pontualidade uma vez por ano é melhor do que nunca, e celebrar o começo do ano solar (ou lunar, para alguns) é uma tradição antiga que merece respeito. Ergamos um brinde a isto, portanto! Mas, ao contarmos os últimos segundos do ano civil, deveríamos nos lembrar, se só por um instante, que um dia estaremos contando os últimos segundos de nossas vidas, e então todos aqueles dias santos, negligenciados durante o ano, farão muito mais falta para essa transição do que o confete e o champanhe de 1º de janeiro.

O vórtice do pensamento conspiratório

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Para todo filho de Abraão, a ideia de que o inferno conspira contra o Paraíso é um lugar-comum. Está na categoria do “e daí?”.  Contudo, a privação do ser, que caracteriza o mal, não apenas garante a derrota final deste, mas também acarreta a futilidade de se estudar seriamente as intrigas do mal. Obedecer à prescrição evangélica de ser “tão esperto quanto as serpentes” é perigoso, exceto se acompanhada pelo mandamento gêmeo de ser “tão simples como as pombas”. Eu suspeito até que é a simplicidade que seja a chave da espertez. Obviamente, devemos estar alertas contra a maldade, e jamais ser ingênuos acerca de quão ruins as coisas são, ou do quão piores elas podem se tornar. Esperar uma utopia é tolice, e tentar realizá-la é sempre destrutivo. Mas, além de ser atento e realista – e dado que você não seja um exorcista, nem um agente da lei nem das forças armadas –, quanto menos tempo você perder “estudando o inimigo”, melhor. Pessoas que conheci bem nos últimos 45 anos e que mergulharam nesta ou naquela forma de teoria da conspiração, acabaram com suas mentes (sobretudo no caso dos espertos!) sendo sugadas pelo vórtice de um hipnotizante fascínio pela revelação das maquinações do mal. Ora, isso atordoa e desorienta. Aquelas pessoas inevitavelmente terminaram atribuindo mais coordenação e eficiência à maldade e seus ardis – em termos puramente ontológicos – do que o mal é capaz de fazer. Más companhias – uma categoria à qual todos nós pertencemos às vezes! – estarão sempre muito mais preocupadas em brigar entre si do que em montar boas estratégias contra o bem. O mal inevitavelmente ganhará algumas batalhas – conduzidas por um Judas, um Stalin, um Hitler, um Al Baghdadi –, porém, jamais será capaz sequer de entender o que significaria uma vitória final ou seu aspecto, pois seus olhos são avessos à luz. Contudo, as pessoas que buscam firmemente o bem e o sagrado, radicados no Ser em toda a sua densidade e intensidade, erguerão as muralhas mais sólidas possíveis contra o mal. As palhaçadas desenraizadas da iniqüidade finalmente sumirão dentro do nada com que elas flertam.

As três pernas de um tamborete

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Nossas vidas sensoriais e emocionais radicam em nossos corpos; nosso pensamento e vontade em nossas mentes; nossas aspirações mais profundas e nosso caráter crescente, em nossos corações. O humano se atrofia, a menos que os três – corpo, mente e coração – se desenvolvam e interajam. Em primeiro lugar, é fácil perceber e sentir espontaneamente, como fazem os animais; mas nós, seres humanos, somos chamados a formar e disciplinar nossas vidas sensoriais e emocionais por meio daquilo que chamamos das belas artes, mesmo em forma bem amadora. As artes falam também à mente e ao coração, mas seu vocabulário está nos sentidos (por exemplo, a pintura está para o olho, assim como a música para os ouvidos, a literatura para a imaginação, etc.). Uma experiência rica e ordenada nas artes e nos estudos humanísticos enche nossas memórias de canções, estórias, visões e arquétipos – experiência sobre a qual a mente mais tarde pensará, a vontade fará suas escolhas, e à qual o coração, finalemente, responderá.

Em segundo lugar, cada um de nós pensa e, ainda que de modo rudimentar, filosofa (Por que isto? Qual o sentido daquilo? De onde veio A?  Para onde vai B?). Porém, ao menos algumas pessoas têm de fazer essas coisas de forma disciplinada e com método, a fim de ajudar os outros a pensar tão clara e realisticamente quanto possível. A liberdade de nossas vontades prospera apenas quando o pensamento é reto.

Por fim, quando tudo foi dito e feito (ou melhor talvez: sentido e pensado), há uma terceira dimensão, mais profunda e ‘aquém’ de toda a sensação, emoção, pensamento e escolha. As tradições mundiais frequentemente referem-se a esse algo como o ‘coração’, significando o ponto de convergência de todas as faculdades supramencionadas – ou seja, aquele centro fugidio, mas intensa e densamente real de nosso ser. Nossos atos sensoriais e mentais parecem pairar sobre a superfície desse centro ou orbitar ansiosamente em torno dele. Mas, este mesmo centro leva-nos – seja de modo religioso ou ‘religiosamente secular’ – a uma atitude de absolutização, quer queiramos ou não. Somos compelidos por nossos corações a adorar algo, o que quer que seja, e a absolutizá-lo e, e se não for Deus o objeto dessa adoração, será algo diferente (nós próprios, dinheiro, poder, prazer – complete a lista você mesmo). G.K. Chesterton observou que quando pessoas parem de acreditar em Deus, não é que eles acreditam em nada, mas que acreditam em qualquer coisa que seja. Essas coisas já se confundem um bocado quando a arte tenta ser filosofia, ou a filosofia arte, mas nenhuma confusão é tão comum hoje, ou tão perigosa, como quando filosofia ou arte finge ser religião. Tão-somente quando a arte, a filosofia e a religião permanecem distintas, mas inseparáveis – como as três pernas de um tamborete –, é que a vida pode encontrar o apoio de que precisa. Depois, podemos nos alçar e trilhar o nosso caminho irregular com um equilíbrio precário, mas mesmo assim gostoso.

Fatos nus

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A modéstia, tal como a entendo, é uma forma de respeito que mostramos às outras pessoas, ao agirmos e nos vestirmos visando suas faculdades mais elevadas, e não despertando sua carnalidade contra a vontade. Obviamente, o que excita em uma cultura pode não fazê-lo em outra; e, numa cultura, o que excita uma pessoa pode não excitar outra. Mas, há limites em relação a isso, como poderia ser o caso de uma pessoa que, mesmo modestamente vestida, desperte o desejo. Mas, quando se olha para as mulheres estufadas dos tempos vitorianos, e também para os homens todo-abotoados, e vemos fotos deles nadando quase totalmente vestidos, percebe-se que isso não é mais modéstia, mas uma perversa aliança entre o puritanismo e a indústria da moda. E, claro, isso sequer dá resultado! Sigmund Freud arrancou as camadas tanto dos vestidos vitorianos quanto dos ardis inconscientes, ao por a nu os segredos sexuais daquela época.

Lembro-me certa vez de estar em algum lugar do mundo, segurando meu traje de banho, querendo pular na piscina, mas não podendo fazê-lo porque não encontrava um lugar para me trocar. Na Alemanha, e na maioria dos países eslavos, eu teria apenas de dar as costas para a multidão e me trocar, pronto! Vi isso muitas vezes naqueles países, onde muitos mostram seus traseiros nus por um segundo, enquanto mudam de roupa rapidamente, mas sem neurose. Nos EUA, isso poderia dar cadeia! Acho que os alemães são mais naturais quanto a isso, e todos nós faríamos bem em relaxar no tocante a esse assunto. Para o bem ou para o mal, nós somos hoje pesadamente esclarecidos acerca de nossos corpos e do sexo. Teremos que tirar o melhor partido do assunto. Mas há uma outra dimensão nisso tudo.

Certa vez, estava eu viajando no assento da frente de um pequeno ônibus, no caminho entre Damasco e Palmira, na Síria. Cruzei minhas pernas, de modo que a sola de um de meus sapatos estava ligeiramente voltada para o motorista. Um passageiro muçulmano deu um tapinha em meu joelho, apontou com seu dedo primeiro para a sola e depois para meu rosto, não de forma rude, mas com insistência. Meu sapato não era exatamente imodesto, mas estava no mesmo espírito – expondo a alguém as partes ‘menos nobres’ de nosso corpo, neste caso, a sujeira de nossos pés. Isso é particularmente típico do Oriente Médio, como nos lembra bem a prática bíblica de lavar os pés. É estranho dizer, mas eu me sintonizei instantaneamente com essa prática, e desde então tenho evitado voltar a sola de meus pés na direção de uma pessoa.

Essa anedota remete-nos ao outro lado da modéstia: que nós não apenas cobrimos partes de nós que poderiam indevidamente despertar as paixões de outra pessoa, mas também porque são desagradáveis à vista, até mesmo feias. Como regra, a maioria de nós é pouco atraente, até mesmo assustador, quando pelada. Cobrimos nossa nudez na maior parte do tempo não para impedir que o sexo oposto diga “Ooh la la!”, mas para evitar que alguém diga “Eca!”.  É claro que existe aqui também uma questão de higiene e de odor. Os naturistas, é claro, proclamarão que seus corpos descaradamente nus e bem ventilados não têm o problema do mau cheiro advindo das coisas enroladas em camadas e mais camadas de roupas. Pode ser, mas cabe dizer que o ser humano é a única espécie de animal que por natureza se veste; para nós é natural ser vestido. Aliás, a maioria dos climas da Terra não recomenda ostentar nossa pele nua, como se fosse um casaco de pelos ou de penas. E, novamente, assim como a maioria de nós não se deliciaria com a visão do interior de nossas bocas e narizes, nós da mesma forma preferimos que as várias intersecções funcionais de nossos corpos, bem como o seu aparato nutritivo e higiênico, estejam ocultas à vista. Marcel Marceau estava certo: nossas faces e mãos possuem tudo o que é preciso para nos comunicarmos perfeitamente. Elas têm todos os cinco sentidos e o resto do corpo é apenas como um elenco secundário. Este pode passar a maior parte do tempo fora da câmera sem afetar o enredo.

A estela nestoriana

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Após voltar de Beijing, Monte Tai, Qufu e Harbin no leste da China, tomei um avião para Xi’an, uma das antigas capitais e sede de um enorme projeto de tradução que ensinou o Budismo aos chineses nos meados do primeiro milênio d.C. Eu tinha ido ao Leste Asiático (foi em 2004) para pesquisar o Taoísmo, o Confucionismo e o Budismo chinês in situ, e Xi’an oferecia muito para suplementar aquilo que eu já havia visto em minhas visitas nas regiões do leste. Contudo, após explorar o Pagode do Ganso Selvagem [Wild Goose Pagoda] (lugar daquelas traduções revolucionárias), alguns museus e os fabulosos Soldados de Terracota do primeiro imperador, notei uma curiosa recomendação em meu guia: ‘Floresta de Estelas’. Decidi dar uma olhada.

Muito antes do disco rígido, havia a estela rígida, uma técnica de armazenamento de informação que deve sobreviver ao Google. Era um método empregado por um imperador do século XI para preservar textos importantes, imagens e caligrafias de sua civilização, não em osso, casco de tartaruga, pergaminho, nem na famosa invenção chinesa do papel, mas em textos cinzelados em grandes blocos (estelas) de granito. Enquanto caminhava pela espessa floresta de cerca de 3.000 pedras negras e de uma miríade de caracteres chineses, lembrei-me de Lucas 19, “… até as pedras clamarão”. Aqui o orgulhoso legado da China fez o seu melhor para aproximar-se o mais possível de uma forma de perpetuidade. Porém, ao me aproximar do portão frontal para sair, notei uma grande estela à minha direita que não havia visto na entrada. Eu li o breve título em Inglês: ‘The Nestorian Tablet of the Tang Dynasty’ [‘A Tábua Nestoriana da Dinastia Tang’]. Eu soube depois que os cristãos nestorianos tinham chegado à China não muito depois dos budistas, e que essa estela havia sido confeccionada no século oitavo, mas fora enterrada no século seguinte, durante as perseguições ao Budismo e a outras religiões estrangeiras. Foi desenterrada no começo do século XVII e os missionários jesuítas ajudaram a interpretá-la. Na virada do século XX, esforços da parte de um museu ocidental, a fim de se apropriar da estela, fizeram os chineses agarrarem o artefato e o colocarem longe do alcance de mãos estrangeiras. Puseram-no na ‘Floresta’. Esse lugar logo se tornou um tesouro nacional do povo que chama seu país de o ‘Reino do Meio’, destinado a sobreviver até mesmo à devastação da Revolução Cultural de Mao Zedong nos anos 1966-76. É uma esquisitice da história que essa coleção cheia de pura sabedoria e beleza nativa da China não mostra uma única inscrição budista, mas ostenta galhardamente um documento cristão bem em sua porta de entrada. O Cristianismo atualmente é a religião que mais cresce na China, e se a atual tendência continuar, a China poderá ter a maior população cristã do mundo em 2030 (maior até do que a do Brasil). Não menos do que o monólito fictício de 2001 – Uma Odisseia no Espaço, a estela nestoriana, que faz parte autêntica da história cristã, pode ter disparado uma genuína mudança na aventura humana.

Apontando e vendo juntos

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Todos os bebês apontam sem treinar. Mãe alguma precisa instruir seu filho a estender seu pequeno dedo indicador e a dirigi-lo a um objeto. Eles fazem isso sozinhos e esta, assim como falar e andar, é uma das conquistas que checamos em nossa lista, quando a criança abre-se ao mundo à sua volta. Vem antes da linguagem e, na verdade, a linguagem deixaria de ‘chegar ao ponto’, por assim dizer, se aquele gesto soberano não apenas a precedesse, mas o acompanhasse permanentemente. Estudos recentes mostraram que a mente do bebê não está apenas tendo interesse pessoal nos objetos para os quais ela aponta, mas está também se oferecendo às outras pessoas para contemplar ou ouvir junto aquilo que despertou a atenção. Uma vez adultos, quando vemos algo de que gostamos, ou até algo que nos cause medo, um de nossos primeiros impulsos é chamar a atenção de alguém, para que não apreciemos ou temamos em isolamento. De fato, há algo de social na sensação. Recordo-me de uma maravilhosa passagem na literatura medieval – creio que no Comentário de Macróbio sobre o Sonho de Cipião (de Cícero), mas não consigo pôr o dedo nele agora –, em que alguém que, tendo ascendido às maiores alturas dos Céus, vê as gloriosas vastidões da Criação bem diante de seus olhos e faz uma observação reveladora. Ele diz o quão enormemente triste seria ter a graça de contemplar tão esplêndida série de maravilhas, sem ter com quem compartilhar isso tudo. O bebê sorridente pode apenas estar apontando para seu pai fazendo uma careta, mas seu dedo indicador já está visando às estrelas.

Amor e união – sinônimos?

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Foi há 34 anos atrás que passei duas horas conversando em Kalady, Índia, com esse monge da Missão Ramakrishna. Eu havia estado terrivelmente doente por seis semanas antes desse encontro, de modo que estava um pouco mais magro e pálido que o usual. O monge era amável e muito disposto a conversar. Então, durante o chá, discutimos os méritos comparativos das espiritualidades hindu e cristã. Como era de se esperar, eu enfatizei a centralidade do amor na visão cristã de Deus e do homem. Jamais esquecerei o quão energicamente meu anfitrião hindu se animou e, com aquele característico balançar de cabeça, e gestos com as mãos, que só os indianos sabem fazer, retrucou: “…mas o que é amor? Amor é união, isso é tudo. Amor é união.” Não me lembro como lhe respondi naquela ocasião – meu cérebro ainda estava nadando em antibióticos –, mas as palavras do monge têm ressoado em minha mente quase todos os dias desde aquela tarde quente no sul da Índia. Eu sabia que ele estava errado. Tomás de Aquino ensina – é verdade – que a união de naturezas é uma causa do amor; a união de vontades, a essência do amor; e a união no ser, um efeito do amor. Então, a união está, sem dúvida, um elemento essencial do amor. Mas aquelas belas distinções pressupõem algo que estava ausente na análise de meu interlocutor: a noção de pessoa.

O problema não era apenas o fato de a sua observação ser muito genérica, como se dissesse “diamantes são apenas pedras” ou “caviar é apenas comida”, perdendo assim uma especificidade crucial do amor enquanto união. Pois pessoas não são tão-somente espécies de um gênero, ou exemplos de um tipo; elas são únicas e irrepetíveis. A singularidade ‘dura’ evidenciada pela pessoalidade – tornando não apenas cada homem ou cada anjo, mas até mesmo Deus, enquanto seres, inalienavelmente individuais – faz do amor um ato de vontade que une duas subjetividades distintas e ontologicamente densas. E o amor produz, segundo Mestre Eckhardt, uma fusão sim, mas de forma nenhuma uma confusão (fusus non confusus). Comunhão mais que união, abraço e não fundição, ‘eu’ e ‘tu’ como ‘nós’ e não um amorfo ‘Uno’, “O Senhor esteja convosco”…e não a Força. Aliás, o amor é justamente a afirmação de uma distinção sem separação. Para mim, desejar o seu bem – sendo o querer o bem ao outro a própria definição do amor – é querer que você continue a existir, e que seja cada vez mais plenamente quem é, e o quê é. Se fôssemos além das visões psicologizantes modernas acerca da personalidade e revisitássemos as análises patrísticas e escolásticas em toda a sua profundidade, quem sabe encontraríamos um esteio comum entre as visões hindu e cristã do amor na melhor metafísica indiana. Eu, por mim, estou convencido que é possível, mas não por comparações superficiais – e nivelamentos conceituais – entre Oeste e Leste, e sim por penetração no pensamento mais profudo sobre o ser pessoal no Ocidente, e na reflexão mais madura do Oriente sobre o Self.

Porque amo Tomás

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Um de meus estudantes perguntou-me uma vez o que eu mais admirava em Santo Tomás de Aquino (a quem eu costumo citar bastante). Eu jamais havia sido perguntado sobre isso, mas a resposta veio rapidamente. Não é que ele esteja sempre certo; ele não está (e quem estaria?). O que eu admiro nele é, sobretudo, sua humildade intelectual e reverência ao real. Isso é especialmente evidenciado no quão meticuloso, justo e deferente ele é quando expõe as ideias das quais discorda. Todos nós sentimos uma tentação quase irresistível de fazer nossos oponentes de ‘espantalhos’, e de caricaturar seus posicionamentos ao invés de descrevê-los. Se você estivesse num debate com Tomás, seria tratado com a cortesia de ter a sua opinião ouvida e apresentada sob a forma mais nobre possível, com todos os pontos fortes ressaltados e as fraquezas – para o momento – quase justificadas. Isso forma as chamadas ‘objeções’ – às vezes superando o número de 20 em seus trabalhos mais detalhados –, as quais vão longe e fundo em busca de qualquer erro em seu próprio pensamento, ouvindo atentamente a lógica de seus oponentes e lhes dando espaço e tempo para concluir seus argumentos. Ele não quer perder a verdade, onde quer que ela esteja se escondendo. Entretanto, uma vez que os defensores tenham terminado sua exposição, o ataque de Tomás será rápido e intrépido. Mas mesmo assim, ele começará normalmente fazendo uma distinção (“Há dois modos de se entender isso…” ou “Há dois tipos daquilo…”), o que dará aos seus interlocutores uma última chance de ‘salvar as aparências’, vendo talvez que seu erro não decorra tanto de uma estupidez gritante quanto de apenas uma falha em perceber uma distinção difícil. Hoje em dia, contudo, vivemos num mundo de palavras que se gloriam nos espantalhos e nas caricaturas. O meio mais seguro de apontar o embotamento de uma mente é pega-la ridicularizando aquilo que não levou tempo a estudar, e fazendo caricaturas exageradas de coisas que ela nem conseguiu enxergar de forma normal. Se esses pequenos palpiteiros ficassem de boca fechada, poderiam pelo menos fingir inteligência e mascarar sua indolência mental num arquear das sobrancelhas. O entendimento verdadeiro, por sua vez, é um longo e penoso trabalho, não apropriado aos medrosos.

O universo é uma selfie de Deus?

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A resposta curta é: não. Uma resposta algo mais longa, porém, dará um pouco de legitimidade àqueles, de início, seduzidos pela ideia. O Genesis e as religiões abraâmicas insistem enfaticamente que o mundo e tudo o que há nele não são divinos, e que o fato de uma criatura pensar-se divina é, com efeito, a fonte de todo o mal. Mas, a coisa não é tão simples assim. O mesmo livro do Antigo Testamento ensinará, com igual autoridade, que fomos criados ‘à imagem e semelhança de Deus’. Portanto, já somos semelhantes a Deus de certa forma, ainda que também estritamente proibidos de buscar a semelhança com Deus de outro modo. O consenso teológico atribui a imagem de Deus em nós às nossas faculdades espirituais (intelecto e vontade), sendo o fruto proibido uma expropriação dos ‘direitos divinos’ de determinar o que é certo e errado (simbolizado pela árvore do conhecimento do bem e do mal). Mas tudo isso merece muitas páginas de teologia e anos de meditação. Olhemos um pouco além da nossa posição egocêntica (por mais difícil que seja), e façamos uma pergunta mais abstrata e metafísica, ou seja: Como é possível o Absoluto (Deus) coexistir com o Relativo (a Criação)?

Duas soluções populares ao problema do Uno e do Muito – do divino e do criado – são o panteísmo e o monismo. O primeiro diz que o Universo já é divino; o outro simplesmente proclama que tudo é um. Embora ambos descartem a dualidade e pareçam defender a mesma coisa, há entre eles uma diferença sutil, porém importantíssima. No panteísmo, o Universo ganha um upgrade, seja por ser considerado idêntico a Deus (em algumas formas), ou uma dimensão d’Ele (como em Espinoza, por exemplo) – nada de sombras platônicas nem  mayas evanescentes, e em vez disso: simples identificação. No monismo, contudo, a ênfase é na unicidade, e a multiplicidade na qual o universo se orgulha é degradada a uma tênue aparência – no máximo, um carrossel fantasmagórico de indicadores, todos apontando para o Uno e em seguida desaparecendo; na pior das hipóteses (mas, mais coerente do ponto de vista lógico), uma ilusão. A doutrina da criação não sucumbe a qualquer dessas evasivas simplistas. Se Deus é simplesmente o universo, não é um deus tão impressionante, e faríamos melhor em jogar fora nossos livros de orações e concordar com os materialistas que a matéria é tudo o que existe. Deveríamos, nesse caso, estudar astrofísica em vez de teologia. E apesar de a aparência de água sobre o asfalto possa ser uma ilusão mesmo, as cataratas do Iguaçu não o são. De novo, nossos materialistas estão certos de que este mundo é muito real para ser taxado de ilusão.

Como sempre, as estrelas nos ajudam a entender melhor as coisas elevadas. Estrelas sem planetas ainda assim brilham, mas aquelas com planetas não apenas brilham, mas também têm a sua luz refletida. Ora, a quantidade de luz não muda neste caso, mas sim a iluminação. Esta tem sido a melhor analogia que pude encontrar para esclarecer aos meus alunos como a criação pode ter aquilo que Tomás de Aquino chamou de novitas essendi (novidade do ser), sem, contudo, diminuir a infinidade do ser de Deus. Como o nosso sol, que ilumina mais coisas (os planetas), mas nem por isso tem mais luz do que uma estrela do mesmo tamanho mas sem planetas, assim também é com a criação, em que há mais seres, mas não mais ser. Deus é, nas palavras de Tomás de Aquino, não mais um ser entre outros (nem o ‘Máximo’), e sim o ‘Ser Mesmo Subsistente’.  É totalmente transcendente ao universo só por ser radicalmente immanente a ele. Aquilo que Cristo vai exigir dos seus seguidores, de ser “dentro do mundo mas não do mundo”, se aplica metafisicamente à relação entre Deus e o universo.

Ora, compartilhar o ser é como compartilhar o conhecimento ou o amor. Santo Agostinho ensina-nos que repartir coisas materiais é ter menos do que teríamos se não tivéssemos repartido; mas, ao compartilhar coisas espirituais, obtemos mais delas. Divida um bolo ou um saco de castanhas com alguém, e terminará com menos bolo e menos castanhas; mas divida o seu conhecimento ou o seu amor com alguém, e acaberá com mais conhecimento e mais amor. Se isto é verdade acerca dessas realidades espirituais, quanto mais não o seria acerca da raiz de todo conhecimento e todo amor, que é o Ser em Si. Entretanto, temos de virar Agostinho um pouco de ponta-cabeça. Você pode não perder coisa alguma quando compartilha bens espirituais, mas há um bem cujo compartilhamento – mesmo se não lhe traz qualquer perda – também não lhe traz qualquer ‘ganho’: o ser. Quando Deus da o ser, não perde nada – é verdade -, mas diferentemente das nossas experiências de compartilhar conhecimento e amor, também não acrescenta nada a si mesmo. Um gigantesco aumento em ‘iluminação’, mas o montante de Luz fica o mesmo. Mais seres, mas não mais ser.

O que a Filosofia não é – e o que ela é

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Nenhuma outra área do conhecimento, além da Filosofia, sofre tanta controvérsia acerca do que é exatamente. As ciências naturais e (mais ainda) as sociais podem abrigar ambiguidades em seus métodos e nos pormenores de sua análise, mas normalmente há poucas disputas sérias acerca do que se estuda nessas ciências. Com a Filosofia não é assim. Pergunte a três filósofos o que eles investigam como filósofos, e você obterá três respostas tão diferentes – de fato, uma delas pode muito bem afirmar que a Filosofia nem existe mais! –, que o leigo poderá questionar-se por que uma universidade financiaria um departamento onde impera tamanha confusão. Um modo de colocarmos nosso pensamento em ordem neste assunto é abordando-o negativamente. Ou seja, o que não é Filosofia?  Talvez aqui achemos algum consenso.

Eu afirmarei com confiança que existem cinco coisas que a Filosofia não é, de acordo com os seguintes critérios: modo de exposição, amplitude da temática, método de discurso, faculdade humana empregada, e propósito. Usando esses critérios, defenderei que a Filosofia não é sabedoria proverbial, não é uma ciência no sentido moderno, não é mitologia, não é uma das belas artes, e não é religião.

  1. As etimologias não regulam inteiramente o significado dos vocábulos, mas, no caso da Filosofia, alguma semelhança com a ‘adorável e amável’ sabedoria [Φιλοσοφία, literalmente “amor pela sabedoria”] deve ser localizada em seus frutos para que a palavra mantenha o mínimo do seu significado original. Provérbios (aforismos, ditados, máximas, etc.) são tipicamente repletos de uma sabedoria que vem como que embalada num pequeno pacote. Pode ser, porém, que é justamente a brevidade que amemos, enquanto a Filosofia é conhecida por tratar os assuntos de maneira extensa e articulada. Em sua maior parte, raramente é proverbial, mas decidamente – por vezes interminavelmente –  discursiva.
  1. Notáveis tentativas para reduzir uma ciência moderna a outra (Química à Física, Biologia à Química, por exemplo) têm sido também notáveis fracassos. A maioria das triunfantes ciências de hoje prende-se admiravelmente ao seu chão, mas o faz apenas erigindo barreiras e destacando os limites entre os objetos de cada uma. Em contraste, as filosofias, independentemente da faixa a que pertençam, sempre aspiraram a uma espécie de visão sinótica, seja pela mediação com outras áreas do conhecimento, seja por transcendê-las completamente. Tal generalidade pode ser cognitivamente ambiciosa (Plotino, Hegel), ou bem modesta (Kant, Wittgenstein), mas há sempre uma busca de abrangência nas empreitadas filosóficas. Sem querer saber tudo sobre algo (como nas ciências), o filósofo deseja saber algo (ainda que modesto) sobre tudo. A Filosofia procura ser, em algum sentido robusto, universal.
  1. Contudo, já existe um discurso que com frequência lida com a sabedoria e com questões de abrangência universal, e que tipicamente – seja em termos históricos ou em termos pedagógicos – antecede à Filosofia. Trata-se da mitologia. Apesar de filosofias e mitologias correrem, muitas vezes, paralelamente, podendo até encontrarem-se inseparáveis em muitos discursos humanos, elas são, típica e famosamente, distintas. A distinção está no método discursivo. Mitos são narrados (ou contados); a Filosofia é raciocinada (ou argumentada).
  1. Pode-se suspeitar que a procura da sabedoria e a visão abrangente necessitam mais do que mitos e argumentos, e que por isso é preciso voltar-se aos horizontes abertos das artes. Música, drama, literatura, pintura, arquitetura, dança, e hoje em dia o cinema, parecem prometer mais envergadura temática e mais profundidade metafísica do que os tratados de Aristóteles ou de Heidegger, ou os diálogos de Platão ou de Hume. Mas, também aqui, ainda que muitas vezes inseparável das artes, a Filosofia tem se mantido distinta delas. Isto se dá em virtude daquilo que as artes exercitam em nossa composição humana: acima de tudo, nossos sentidos, emoções e imaginação, e apenas de modo auxiliar o nosso intelecto. A Filosofia é exatamente o contrário. A faculdade humana que está em primeiro plano aqui é a nossa mente ponderante, tanto no modo intuitivo quanto inferencial. A Filosofia não é, em seu sentido primeiro e mais importante, uma atividade sensorial, e sim mental ou, numa terminologia mais tradicional, intelectual.
  1. Mas, para que tudo isso? O fim e o propósito da Filosofia podem parecer bastante exaltados às vezes, e alguns de seus praticantes não escaparam de confundi-la com a religião (os pitagóricos, alguns neoplatônicos, a bizarra religião filosofica de Comte, o DIAMAT soviético, vêm à mente). O Budismo, muitas vezes mencionado como uma religião, é considerado por outros, com boas razões, uma filosofia. Portanto, há ambiguidades aqui. Mas, em geral, a religião coloca o objetivo da transformação pessoal no centro do palco, e sem isso nem existiria. A Filosofia pode de fato fornecer insights que, no final das contas, resultarão numa metamorfose pessoal. Não obstante os recentes apologistas da Filosofia como ‘modo de vida’, ou até de espiritualidade (Hadot e companhia), a maioria dos filósofos identificou o seu objetivo menos como uma transformação existencial, e mais como um tipo de conhecimento, ou como um particular hábito de pensamento. O propósito da Filosofia é considerado, por natureza, cognitivo.

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Os limites negativos que delineei em cima já nos levaram a alguns resultados positivos, na medida em que múltiplos contrastes de algo com aquilo que não é,  já lhe traçam um esboço que sugere conteúdo: assim, vimos que a Filosofia é discursiva, tem aspirações universais, é de alguma forma argumentativa no seu método, é distintamente intelectual em sua operação e se propõe a atingir um tipo de conhecimento. Aqui, eu ousarei pôr o meu dedo em sua essência fugidia. Jamais ouvi falar disso antes – conquanto provavelmente já tenha sido dito –, mas, quando me recordo de minhas décadas filosofando e observando o que os filósofos fizeram de melhor, não posso escapar à conclusão: ‘filosofia’ é alguma coisa nos filósofos, uma qualidade que ganhamos e que nos impele a desempenhar o ato filosófico. E esta coisa é:

o hábito intelectual adquirido de olhar para a realidade, e de ponderar sobre ela, com o intuito tenaz de descobrir seus princípios mais abrangentes e fundantes – na medida em que sejam conhecíveis – a respeito do cosmos, do ser humano e da transcendência. 

A ressalva inserida no parágrafo anterior permite-nos acolher, abaixo do guarda-chuva da definição, até mesmo os minimalistas cognitivos – dos céticos aos kantianos, até aos pós-modernistas –, pois estes também reivindicam um tipo de posicionamento abrangente e fundante em princípios, ao delimitarem e radicalmente relativarizarem as possibilidades de todo conhecimento.

Nós não nascemos filósofos (e, felizmente, poucos se o tornarão), mas a boa Filosofia, em minha visão, constrói-se sobre o conhecimento natural que todos possuímos pelo simples fato de sermos humanos. Esse conhecimento natural carrega, como seu segredo sagrado, a experiência de admiração (espanto, assombro, amaravilhamento, etc.). Nosso conhecimento é sempre circundado por desconhecimento. Como crianças, rapidamente descobrimos que viemos de algo (até de alguém); em outras palavras, descobrimos que somos ‘derivados’. Descobrimos também que estamos sempre a caminho, indo para um ou outro destino, seja ele só a próxima fase do nosso crescimento. Além disso, quando ainda em fraldas, verificamos, competente e convincentemente, que existe um mundo à nossa volta, o qual está muito além de nosso conhecimento e controle. Um pouco depois, mas ainda fazendo parte das nossas conquistas cognitivas juvenis, descobrimos que devemos fazer escolhas e que todo tipo de coisas boas ou más resultarão delas.

Todos nós vamos, em maior ou menor grau, empurrar nossas fronteiras para além desses horizontes imediatos. Por exemplo, além de nossa família nuclear podemos buscar as origens de nossos antepassados e explorar um pouco de genealogia; podemos investigar, além de nossos planos imediatos, sobre os objetivos futuros em relação a onde iremos depois de sair de casa, ou após a faculdade, ou após a aposentadoria (ou após a morte?). Da mesma forma, para além de nossa residência e vizinhança, podemos pensar em escalas mais amplas, localizando nossa cidade no estado, nosso estado em um país, nosso país em um continente, e talvez mesmo imaginar a posição de nosso planeta no sistema solar, e por aí vai. E também, por volta dos 20 anos, devemos ter suficiente comando sobre nossa liberdade para administrar nossas futuras escolhas com responsabilidade e com consciência crescente das consequências. Contudo, a grande maioria de nós vai deixar as pesquisas em escala mais modesta, e seguir em frente com a vida cotidiana, a vocação, o emprego, a família. Os devaneios de domingo à tarde ou os coquetéis que frequentamos podem nos proporcionar ocasiões para ocuparmos com as ‘grandes questões’, mas raramente vamos muito longe com a onerosa tarefa de desvelar os mistérios implicados por elas.

O que torna os filósofos diferentes (diferentes, não melhores) é que, em suas vidas, eles não podem deixar de prolongar seus questionamentos sobre origens, destinos, universos e liberdade, bem como são incuravelmente desafiados pelo verdadeiro, pelo bom e pelo belo. Essas questões amadurecerão na metafísica, cosmologia, antropologia filosófica, ética, filosofia política e estética, entre outras disciplinas (tudo isso monitorado pela lógica – aquela grande serviçal, mas mestre temível). Seus praticantes não descansarão enquanto não conseguirem pelo menos alguns novos raios de luz sobre causas mais primordiais, fins mais derradeiros, e ‘mundos’ mais transcendentes à nossa volta, e, finalmente, as fontes da liberdade que tanto nos assombram quanto nos provocam. Causas, consequências, contextos e consciência (no sentido moral e psicológico) não são apenas parâmetros de vida pragmática para os filósofos; são chamamentos para aventura intelectual. A verdade busca suas fundações; o bem, sua expansão; a beleza, sua perfeição. Meu filósofo ideal ouve a chamada, e se junta a essa busca.