Dois antípodas da transcendência

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Muitas tentativas têm sido feitas para defender a teoria de que apenas a realidade física é real (o assim chamado ‘naturalismo’). Não obstante ser embaraçosamente frágeis e descaradamente ideológicas as tentativas, sua principal afirmação é que não há evidência conclusiva no mundo à nossa volta de que exista qualquer coisa além da massa e da energia, para que tudo faça sentido. E os defensores do naturalismo têm certa razão, na medida em que é  possível conduzir experimentos científicos reveladores e produzir maravilhas tecnológicas, sem prestar atenção, explicitamente, a qualquer causalidade extra-cósmica (o que está implícito aqui não precisa nos deter no momento). Mas, mesmo o ponto explícito teria que passar ao largo de um Cila e Caríbdis que poderia naufragar a sua coerência. Há duas extremidades da experiência humana que periodicamente invadem nosso mundo, e quando o fazem, afogam a lógica do naturalismo num mar, seja de júbilo, seja de desespero.

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A maior parte de nossas vidas navega num mar de experiências comedidas, seja de prazer e satisfação, seja de desconforto e dor – ou, então, numa espécie de limbo entre as duas categorias. Tentamos navegar nessas águas do melhor modo que podemos. Contudo, provavelmente na infância – e certamente logo depois –, todos nós ficamos cara a cara com experiências que não são de forma alguma comedidas. Pelo contrário, deparamo-nos com um júbilo irresistível, a exibição de uma beleza ‘de cair o queixo’, um vislumbre fugaz de uma mesmerizante glória não deste mundo, ou algum outro espetáculo que se recusa a encaixar-se em nossos conceitos mentais, ou ser articulado por nossa linguagem. Pode ter sido um por do sol, o mistério encantador e inquiridor estampado na face de um infante, um súbito e inexplicável rompante de bem-estar, ou quem sabe uma audiência séria do Te Deum de Berlioz – o que quer que tenha sido, levou-nos por um breve momento a uma fábrica de sonhos estranhamente ativa em nossa imaginação, com um surto de esperanças loucas de beatitude antecipada, das quais o fenômeno passageiro parece incapaz de dar conta. Mas, infelizmente, esta visita alienígena também pode ter vindo do pólo oposto. Pode ter sido a notícia devastadora da morte de um ente querido, ou o testemunho da crueldade de uma doença incurável devorando o corpo de alguém (talvez o seu próprio), ou uma reportagem sobre as vítimas civis de uma guerra, queimadas e deformadas pelos horrores da moderna ciência da mutilação e da morte. Sejam felizes ou horrorosos, todos nós conhecemos momentos em que algo extraordinário acontece ao pequeno círculo de nossas vidas. Também sentimos que o nosso mundo imediato parece ser um genitor improvável de essas maravilhas e monstruosidades; parece, ao contrário, que algo de fora acaba de se intrometer no mundo, produzindo um episódio efêmero de êxtase ou de horror noumênico.

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Essas invasões são experiências que poderíamos chamar de os ‘antípodas da transcendência’, ou seja, duas aberturas extremas por meio das quais energias incomuns penetram em nosso mundo, com uma inequívoca mensagem de ‘há algo mais’. É o mal extremo que nos assombra, assim como é o bem avassalador que nos magnetiza. Quando testemunhamos a existência assombrosa e real de um assassino contumaz, e em seguida, num contraste quase cruel, a igualmente óbvia existência de um santo taumatúrgico – talvez um Charles Manson, no primeiro caso, e um Padre Pio, no segundo -, notamos algo. Notamos uma similaridade: ambos respirem os ares de um outro mundo. Os dois mundos dos quais a singularidade desses extremos tira a sua seiva têm em comum apenas a sua transcendência – o primeiro, um poço sem fundo de uma negatividade sufocante; o outro, um elevado píncaro de entidade radiante.

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Dante escreveu sua Comédia sobre esses domínios, mas qualquer um com um coração humano pode perceber suas breves epifanias mesmo na mais modesta das vidas. A maior derrota do naturalismo é que nosso mundo natural continua a ter seus momentos transparentes, e assim nos permite essas espreitas momentâneas nas dimensões transcendentes que nos cercam.