Edith e Elizabeth

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Entre as insinuações que, com frequência, se tem dito contra a Igreja Católica, estão as seguintes: 1) a Igreja reprime mulheres, e 2) o filósofo/teólogo favorito da Igreja, Tomás de Aquino, está irremediavelmente fora de moda. Eu gostaria de convidar duas notáveis senhoras a colocar suas luvas de boxe e de desafiar qualquer pessoa a fazer as mencionadas insinuações diante delas. (A primeira, sendo uma santa e uma mártir, provavelmente declinaria, porém, a outra provavelmente pudesse lutar pelas duas). Em termos gerais, as duas mais influentes e poderosas correntes filosóficas do século XX tiveram, como garotos-propaganda, um alemão e um austríaco: Edmund Husserl, fundador da fenomenologia e, de longe, o mais fértil dos vovôs das filosofias continentais, sendo estas tão variadas como o existencialismo, a fenomenologia e a hermenêutica ; e Ludwig Wittgenstein, que, dentre todos, teve o maior impacto na filosofia anglo-saxã e – em seus dois projetos filosóficos distintos – gerou um prole intelectual comparável, em variedade, àquela de Husserl, porém articulada no vocabulário bem distinto da tradição analítica. O vetor básico seguido por cada uma dessas tradições era tão diferente, que os seus proponentes dificilmente se entenderiam – e tampouco conversariam – por décadas. Recentemente, porém, o embaralhamento demográfico global provocou uma boa medida de miscigenação filosófica, e a tradição pragmática norte-americana (antes menosprezada tanto pelos pensadores continentais quanto pelos analíticos) acabou por fornecer uma inesperada lingua franca àqueles dois rivais.

Entretanto, a sabedoria dos milénios costuma esperar nos bastidores e, após a passagem da fanfarra dos novatos, marchará confiantemente pelo palco para julgará os conflitos e lançará sua antiga luz sobre as novas sombras. Tomás de Aquino é um desses sábios pacientes. Mas, eu gostaria de chamar a atenção aqui para o fato de duas brilhantes filósofas do século XX estarem muito ligadas – pessoal e profissionalmente – aos dois mestres supracitados. Contudo, elas foram levadas precisamente pelos métodos e inovações desenvolvidos por seus mestres de volta à  contribuição (sempre-presente) de Tomás de Aquino. Edith Stein foi assistente pessoal de Husserl por alguns anos e dedicou-se a redigir um espesso volume sobre a metafísica tomista, e tudo isso em profundo diálogo com os insights mais duráveis de Husserl. Ela também migrou do Judaísmo para o Catolicismo, movida pela mesma convicção e amor pela verdade que a tinha levado a Husserl; e a partir daí, assim como Sócrates e Boécio, consumou o seu amor à sabedoria com a sua morte: no caso de Edith, foi o martírio em Auschwitz. Elisabeth Anscombe foi uma das primeiras fãs de Wittgenstein, e acabou estudando com ele e virando uma tão grande amiga, ele a escolheu para traduzir seu último trabalho filosófico (mesmo antes de ela ter aprendido o alemão!); também virou um dos seus testamenteiros literários. Ela, como ninguém mais, trouxe Wittgenstein à atenção do mundo erudito após a morte prematura do filósofo. Mas, o amor dela pela análise da linguagem ensinada por Wittgenstein foi equiparado ao seu amor pela Igreja Católica, para a qual ela entrou ainda adolescente, enquanto se preparava para uma das carreiras filosóficas mais destacadas do século XX.

Duas mulheres, ambas católicas convertidas, ambas nos mananciais dos dois maiores rios da filosofia do século XX, e ambas ajudicando sabiamente as aventuras do pensamento moderno, a partir dos píncaros de um teólogo do século XIII. Edith Stein foi uma santa, e Elisabeth Anscombe, segundo todos os relatos – além de ser uma filósofa brilhante e prolífera –, foi uma ‘força da natureza’. Santa Edith, por ser judia e freira, caminhou nua pela câmara de gás, rumo à sua morte. Santa Edith, rogar por nós! Elisabeth pode não ter evidenciado os sinais típicos de uma santa, mas ela foi, à sua maneira, tão radical quanto Santa Edith. Ao entrar num restaurante em Boston no começo dos anos 1960, usando um terninho antigo – época em que as mulheres usavam apenas vestidos –, disseram-lhe à porta que não era permitido que mulheres trajando calças jantassem ali. Ela imediatamente tirou as calças.