O maravilhoso

staunen

Nosso vocábulo ‘maravilhamento’ é uma das traduções possíveis do verbo grego thaumazein (usualmente vertido para o Latim como admirari, apesar da palavra portuguesa ‘admirar’ expressar apenas parte do significado). Tanto Platão (Teeteto, 155d) quanto Aristóteles (Met. I.2, 982b12ss) insistem que a filosofia só tem início quando se experimenta o maravilhoso, o famoso ‘espanto filosófico’. Dado que o meu site leva essa noção em seu nome – e dado que se espera que eu, como professor de Filosofia, semeie o senso do maravilhoso em meus alunos – tentarei deixar claro o que vem a ser esse maravilhoso, assim como alertar sobre os seus impostores.

Para começar, o espanto não é a mera ignorância. Você não pode maravilhar-se com aquilo sobre o que não sabe coisa alguma, muito menos com aquilo que você nem sabe que existe. Também não é conhecimento qua conhecimento: a simples cognição de um objeto; ao contrário, o maravilhamento é um tipo especial, quase subversivo, de conhecimento, que evidencia e referencia o desconhecido; um conhecimento cuja posse aponta para um incognitum na penumbra que nos circonda. É uma parte de conhecimento para muitas partes de ignorância, mas não em uma relação de soma zero. No verdadeiro maravilhoso, quanto mais sabemos genuinamente sobre um objeto, ao mesmo tempo mais adquirimos consciência da extensão de nossa ignorância sobre tudo que ele implica e significa. Aumento em conhecimento não significa redução de desconhecimento, pois ainda que o novo conhecimento possa ser de fato um ganho, esse ganho serve como uma nova plataforma a partir da qual vislumbramos as sombras e as sugestões de uma multidão de verdades ainda não conquistadas.

O maravilhamento tampouco é um estado de perplexidade perante um enigma, na esperança de resolvê-lo; antes, é a condição do ser chamado por dentro de um mistério, e convidado a viver nele. Não pretendo mistificar ou romantizar o assunto. Não se trata aqui de indivíduos andando por aí de bocas abertas e olhos esbugalhados, muito menos dos zumbis chapados da minha geração, quando acabavam os baseados, deitados no chão, com os olhos vidrados no teto, dizendo: “Uau!” Nada disso. O maravilhoso provém de um autêntico aumento no conhecimento, e isso pressupõe um conhecimento adquirido com contexto, perspectiva e foco. Esse tipo de conhecimento foi outrora proporcionado por uma adequada educação liberal, em que tanto as humanidades quanto as ciências abriam as imaginações, mentes e corações aos mundos imensos do real. Tal conhecimento cintila instantaneamente com espelhos de todo o mundo à sua volta (contexto), com todos os valores subordinados e superiores a ele (perspectiva), e é articulado com apenas aquela exatidão apropriada à sua natureza (foco).

O maravilhoso deve ser também distinguida da mera curiosidade. Certamente, o uso comum confunde, inocentemente, as duas coisas, mas perdemos algo importante com isso. A rigor, a curiosidade refere-se a um interesse abelhudo em saber o que normalmente não é da nossa conta, e não ao nosso desejo natural de conhecer, o que, para Aristóteles, é muito da nossa conta. Pois o que acontece quando conhecemos alguma coisa é que nós, num sentido intencional mas efetivo, tornamo-nos um com a coisa que conhecemos; mas a cognição curiosa e desordenada nos fende de modo a dividir-nos e fragmentar-nos interiormente – algo assim como contar às crianças todos os detalhes de nossa sexualidade. O conhecimento ordenado, contudo, abre a alma para uma unidade maior, nidificando suas energias num mistério acolhedor, do qual se pode aproximar para sempre, mas jamais exauri-lo.

De onde vem esse maravilhamento? A sensação, especialmente a visão, já vem carregada com uma excitação que vemos na face de todas as crianças. Elas veem algo, e por este ato, elas também ‘veem’ que há muito mais para se ver, que ainda não está presente. Suas mentes já estão famintas pela carne da realidade. Essa mistura de conhecimento e ignorância – que é a verdadeira química do maravilhoso – mantém nossos sentidos vivos e alertas mesmo depois que o intelecto embarca em suas buscas paralelas. Uma vez que precisamos de ordem e, por um lado, somos ameaçados pelo simples volume de objetos sensoriais e a ameaça do caos e, por outro, pelas inevitáveis limitações de nossa própria experiência pessoal, a civilização tem tradicionalmente estruturado nosso sensorium e nossas emoções por meio do sistema das belas artes. Estas trazem tanto integração ao mundo frenético da multiplicidade, como uma expansão vicária ao nosso provincialismo nativo.

Como o deleite da sensação, com todos esses indicadores instigantes de que há algo mais além dela, gera as belas artes; e como do intelecto, se maravilhando com os múltiplos sinais de transcendência que invadem a mente quando pensa sobre as coisas, surge a filosofia; assim, o deleite e o maravilhoso são elevados a uma augusta estupefação, um verdadeiro temor de Deus, quando nossos sentidos e nosso intelecto seguem o apetite purificado da vontade pelo infinito. A religião – mais cedo ou mais tarde – ergue-se no horizonte de toda experiência humana, e até as negações da religião assumem, paradoxalmente, seu manto de autoridade. A dança entre o conhecimento e a ignorância é destinada a continuar na religião, e se tornará a fonte mesma de nossa beatitude. Na presença d’Aquele Que É, para sempre se aprende mais sobre Sua infinita beleza, mas nem por isso se deixa de ser abraçado ainda mais calorosamente pelo excesso extático de Sua incalculável abundância. Como dizem os santos, Deus é sempre maior. Você não pode ‘po-lo para baixo’ nem decifrá-lo, tampouco quereria faze-lo.

Isso acontece também com qualquer pessoa amada. Você jamais a domina, e por mais que vocês aprendem e vivem juntos, mais se dá conta daquele belo borrão atrás dos olhos da pessoa amada, prometendo que há sempre algo mais – tocado por seu amor mas não por seu pensamento. É muito mais assim com Deus. Quando as artes despertam em nós a maravilha, e a filosofia é alimentada pelo espanto, a religião nos explica porque. Vere mirabilis Deus.