Luz Velha

Sempre fui fascinado por coisas antigas. Desde garoto, sempre achei mais fácil relacionar-me com pessoas mais velhas. E quando já estava na faculdade, fiz amizade com uma senhora de 80 e poucos anos e com um homem de 92, que se tornaram possivelmente meus melhores amigos antes de eu deixar os Estados Unidos para sempre em 1974. O futuro sempre me pareceu pequeno – o passado, grandioso e fervilhante de vida. Coisas velhas costumam a ter caráter, aquele charme especial da rachadura na superfície dos objetos em cerâmica, ou as bem merecidas rugas em uma face humana velha e viajada. É esse desgaste mesmo que as realça e as torna preciosas. Contudo, sempre me questionei sobre uma velhice não associada ao desgaste, nem mesmo ao charme que ele carrega. Deus é obviamente o Ancião de Dias, nunca aposentado, nem antiquado nem atualizado, eternamente novo–simplesmente sempre. Mas aqui neste universo material parece haver também algo que é sempre novo, não obstante velho. É a luz. A luz do sol tem apenas a idade de alguns minutos, e o seu brilho e calor condicionam nossa vida diária mormente pela utilidade. Todavia, a luz das estrelas – fora para os navegadores marítimos, astrônomos e astrólogos – é inútil em grande medida. Porém, a luz estelar conta-nos uma história mais larga e nos revela um significado mais profundo. A luz das estrelas é luz velha. Platão chamou as estrelas de “as mais amáveis e perfeitas das coisas materiais”, mas a luz delas é velha, de uma idade de centenas, às vezes milhares, de anos. Telescópios olham mais longe e registram fenômenos surrealisticamente antigos, com idades de milhões ou até bilhões de anos. Logo, o passado não apenas se estende, maciçamente, ‘atrás de nós’, no tempo; ele também nos circunda, por todos os lados, no espaço. Isto contém certamente uma lição simbólica: deveríamos buscar a sabedoria no útero permanentemente prenhe do passado, e suspeitar das promessas vigaristas do futuro.