Esperteza e o mal

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Você pode ser muito inteligente e muito mau, mas não pode ser sábio sem ser bom. Ser inteligente, ou esperto, significa que você tem uma mente mercurial, podendo matar silogismos e dissecar argumentos com uma rapidez invejável. Você pode resolver somas e dançar o ballet discursivo das tabuadas sem derramar uma gota de suor. Mas, nada disso exige bom caráter. Em resumo, você pode ser um mestre em lógica e em cálculo, mas ser um demônio por dentro. Astúcia e esperteza são apenas habilidades, e alguns nasceram com mais aptidão para elas do que outros. Podem até ser afiadas à perfeição por meio da prática e do estudo, mas não deixam de ser dons neutros, podendo ser usados, como uma faca bem afiada, para cortar um pão para os seus filhos, ou para cortar gargantas para o Estado Islâmico. De fato, você não coisa alguma só por ser esperto; você apenas descobre como derivar, ou concluir ou inferir (ou manipular), uma vez que os princípios e premissas já lhe foram fornecidos de maneira pré-lógica.

E aí está a dificuldade. O que pressupomos, aquilo que sabemos antes de raciocinar – o que sabemos mesmo antes de usar a linguagem –, esses itens do conhecimento pertencem a uma ordem de verdades situadas na nascente do rio da lógica, não em sua foz. A lógica, assim como as operações matemáticas, pode correr como um carro acelerado a “pé embaixo”, mas com as engrenagens soltas, e somente vai a algum lugar quando as intuições originais e pré-discursivas tiverem sido ativadas. A lógica simbólica e a prática da matemática, soltas de qualquer amarração a princípios, encontraram a sua encarnação desengajada e desenraizada no moderno computador – sabidamente indiferente a emoções, significados e valores. Na esfera econômica, isso tem o seu correlato na supremacia do dólar, aquela medida cruamente calculável de quantidade pura, para a qual a produção da riqueza genuína ocupa um lugar secundário ao aumento de lucro em termos numéricos.

O conhecimento tem sido tão completamente instrumentalizado em nosso mundo moderno, escravizado à tecnologia e privado de qualquer objeto de valor intrínseco, que sua manifestação principal tornou-se a de um produto destinado a funcionar. A universidade onde trabalho proclama, descaradamente, que a sua finalidade é a ‘produção do conhecimento’ – a ser um tipo de fábrica cognitiva. Nenhuma menção à verdade, à formação do caráter, à comunicação dos valores duradouros ou à apropriação de uma tradição sólida. Numa palavra, ‘sabedoria’ não consta mais no currículo, nem mesmo como um objetivo distante. Ela sumiu de vista na fumaça da fábrica, e no negócio de produzir uma série sem fim de mercadorias para consumidores que nem sabiam que precisavam delas. E, claro, eles não precisam. O que eles realmente precisam – uma verdadeira sabedoria – terá de ser buscada em outro lugar. E, dado que o bem moral caminha de mãos dadas com a sabedoria, talvez devêssemos considerar primeiramente os santos.