Futuro fictício

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Ernst Bloch, um velho, porém interessante, neo-marxista (mais um ‘neo’ que já se tornou ‘paleo’), certa vez disse que a maior parte do que se passa em nossa mente aponta para o futuro – esperanças, sonhos, expectativas, antecipações, projetos, perspectivas, etc. Nada realmente novo aqui, assim como a maioria das novidades modernas (e pós-modernas) – se calham de ter algo de certo – é na verdade a sabedoria tradicional retocada e, frequentemente, mal compreendida. A teleologia aristotélica, que os inovadores da modernidade pensaram ter enterrado de uma vez por todas no Século XVII, emergiu novamente, de forma bastante inesperada, na biologia contemporânea. Ela simplesmente põe em destaque aquela ‘causa das causas’, que Aristóteles chamou de causalidade final: aquela pelo qual nosso presente está para sempre configurado rumo à sua forma imanente, a qual faz com que o presente seja e se torne aquilo que é. E na Teologia, a virtude da esperança, que é uma tensão antecipatória, simplesmente complementa as raízes históricas do ato da fé e o imperativo presente da virtude da caridade. Bloch teve o mérito (apesar do seu marxismo) de inspirar um olhar renovado à dimensão da esperança na Teologia Cristã do Século XX (Moltmann, Pannenberg, Metz), e até mesmo chamou novamente a atenção para a negligenciada terra de ninguém da escatologia teológica. Contudo, a preocupação messiânica do marxismo com o futuro trai um profundo mal-entendido em relação ao passado.

Desde o Século XVIII algo estranho tem acontecido com o futuro. Como alguém certa vez disse ironicamente, “o futuro não é mais o que era”. Ao invés de seguir os óbvios ditames do senso comum de levar em conta os dinamismos do presente – os objetivos e propósitos que o sábio sempre deve ter em mente diante das distrações do momento – o progressivismo iluminista sugere que o futuro receba mais do que apenas respeito; devia ser venerado. Para os iluministas, o futuro é onde a realidade verdadeiramente acontece, uma utopia bem ao nosso alcance, se nós tão-somente subscrevermos a uma nova ideologia que garanta o seu advento, ou a uma nova tecnologia que finalmente faça o ‘futuro perfeito’ aparecer como num passe de mágica. Todavia, utopias sofrem de uma deficiência congênita: elas sempre se situam no futuro – sempre. Em outras palavras, elas jamais chegam. Mas, o passado, ao contrário, nunca vai embora. Ao invés de passar para trás de nós, ele passa dentro de nós, e, como a psicanálise tem provado, passa para as nossas profundezas. Tanto é assim que, se o ignorarmos, acabamos ignorando a nós mesmos, e viramos presas fáceis de tolos Shangri-lás em um futuro fantasiado.

Portanto, o presente não é apenas o presente, é também o passado; e o que quer que o futuro possa conter, estará contido aqui e em mais lugar nenhum. ‘Viver no presente’ é muitas vezes idealizado como um objetivo de nossa jornada espiritual, a ser conquistado pela pessoa que desperta completamente para a aparente não existência tanto do passado quanto do futuro, e que se mantém focada na única realidade que existe: aquela que está acontecendo agora. Mas, mesmo aqueles que defendem esse foco no presente têm de admitir que há um predador à espreita naquele momento que é precisamente o oposto do despertar para a riqueza do presente. Afinal de contas, encaramos a pessoa que esquece as lições do passado, e falha em se precaver para o futuro, como particularmente não esclarecida, e os sábios amadores nunca se cansam de nos lembrar que quem esquece o passado está condenado a repeti-lo. Mas, de novo, uma razão para isso é que passado e futuro não são ‘não-presente’ de forma igual; o futuro é literalmente ilusório, e o passado, em última análise, não está nada ausente. O futuro, como futuro, jamais chega na verdade, pois, falando em termos metafísicos, ele nada mais é do que a fruição presente das energias do passado. Se o futuro finge ser mais do que isso, torna-se ficção: futuro fictício.

No entanto, há um modo de viver no presente que o torna transparente ao passado, um passado ponderado e contemplado, que germina e nutre – não pela nostalgia, mas por uma apropriação criteriosa. Devemos nos esforçar muito para não esquecer o passado, e mais ainda para não lembrarmos mal dele; esse esforço constitui a parte do leão daquilo que chamamos de educação. Mas, construir sonhos sobre o futuro é fácil, pois são nossas invenções em todo o caso. São brincadeiras infantis, pois os viciados nisso recusam-se a encarar o presente como adultos, o que significa reconhece-lo em suas múltiplas raízes fincadas em nosso extraordinário passado. O fato de ser tão difícil segurar o passado deve-se precisamente a ele ser real e pesado com fatos, ao passo que o futuro é fácil de ser inventado, pois ele sempre escapole de nossas mãos antes que se inicie o grande esforço de torna-lo real. A verdadeira sabedoria nos chama a olhar para o presente à luz do melhor do passado – para contemplar as múltiplas dimensões presentes da realidade dentro de nós e para além de nós, abrigando assim, em nosso presente, todo o verdadeiro, o bem e o belo que os tempos antigos nos legaram. O futuro – o que quer que seja – cuidará de si mesmo.