Amor e união – sinônimos?

Kalady1983 002

Foi há 34 anos que passei duas horas conversando em Kalady, Índia, com esse monge da Missão Ramakrishna. Eu havia estado doente por seis semanas antes desse encontro, de modo que estava mais magro e pálido que o usual. O monge era amável e muito disposto a conversar. Então, durante o chá, discutimos os méritos comparativos das espiritualidades hindu e cristã. Como era de se esperar, eu enfatizei a centralidade do amor na visão cristã de Deus e do homem. Jamais esquecerei o quão energicamente meu anfitrião hindu se animou e, com aquele característico balançar de cabeça e gesto de mão (que só os indianos sabem fazer), retrucou: “…mas o que é amor? Amor é união, é só isso. Amor é união.” Não me lembro como lhe respondi naquela ocasião – meu cérebro ainda estava nadando em antibióticos –, mas as palavras do monge têm ressoado em minha mente quase todos os dias desde aquela tarde quente no sul da Índia. Eu sabia que ele estava errado. Tomás de Aquino ensina – é verdade – que a união de naturezas é uma causa do amor; a união de vontades, de certa forma a essência do amor; e a união no ser, um efeito do amor. Então, a união está, sem dúvida, um ingrediente essencial do amor. Mas aquelas belas distinções pressupõem algo que estava totalmente ausente na análise de meu interlocutor: a noção de pessoa.

O problema não era apenas o fato de a observação dele ter sido muito genérica, como se tivesse dito “diamantes são apenas pedras”, ou “caviar é apenas comida”, despercebendo assim uma especificidade crucial do amor enquanto união. Pois pessoas não são tão-somente espécies de um gênero, ou exemplos de um tipo; elas são únicas e irrepetíveis. A singularidade ‘dura’ evidenciada pela pessoalidade – tornando não apenas cada homem ou cada anjo, mas até mesmo Deus, enquanto seres, inalienavelmente individuais – faz do amor um ato de vontade que une duas subjetividades distintas e ontologicamente densas. E o amor produz, segundo Mestre Eckhardt, uma fusão sim, mas de forma nenhuma uma confusão (fusus non confusus). É comunhão mais que união; abraço e não fundição; ‘eu’ e ‘tu’ como ‘nós’ e não um amorfo ‘Uno’; “O Senhor esteja convosco”…e não a ‘Força’. Aliás, o amor é justamente a afirmação de uma distinção sem separação. Para mim, desejar o seu bem – sendo o “querer o bem ao outro” a própria definição do amor – é querer que você continue a existir, e que seja cada vez mais plenamente quem é, e o quê é. O amor afirma e celebra a existência individual.

Se fôssemos além das visões psicologizantes modernas acerca da personalidade e revisitássemos as análises patrísticas e escolásticas da tradição medieval em toda a sua profundidade metafísica, quem sabe encontraríamos uma linguagem comum entre as visões hindu e cristã do amor na melhor metafísica indiana. Eu, por mim, estou convencido que é possível, mas não por comparações superficiais – e nivelamentos conceituais – entre Oeste e Leste, e sim por penetração no pensamento mais profundo sobre o ser pessoal no Ocidente, e na reflexão mais madura do Oriente sobre o Self.