Como encolher e domar o cristianismo

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Eu tenho três queixas contra várias apresentações modernas do Cristianismo, que muitas vezes parecem tentar reduzir aquela grandiosa singularidade histórica a um bichinho de estimação. Os alvos de minhas queixas podem ser designados assim: provincialismo, sentimentalismo e moralismo. O primeiro dá tanto destaque ao costume herdado e ao colorido local, que o papel global do Evangelho é obscurecido (e isso se aplica também a toda resistência exagerada à enculturação para fora da Europa Latina, na qual uma ‘província’ deseja impor-se a outra, tal qual na controvérsia dos ritos entre os jesuítas e o Vaticano na China dos séculos XVII e XVIII); o segundo sobrepõe a emoção ao pensamento, com todas as formas que Ronald Knox chamou de ‘entusiasmo’ em seu livro magistral de mesmo título (por exemplo, excessos litúrgicos de improvisação, exageros carismáticos e músicas e gestos religiosos adocicados); o terceiro põe o rigor moral acima da instrução metafísica e teológica, e especialmente acima daquilo que se deveria seguir à instrução, ou seja, o desenvolvimento da intuição (como quando esperamos que os outros – especialmente os jovens – afinassem suas vidas morais, antes de ouvirem qualquer boa notícia que pudesse incentivá-los a fazê-lo). De fato, o ‘Cristianismo’, para a maioria dos jovens de hoje (e mais ainda o ‘Catolicismo’) – a despeito do fato de termos aqui o mais gigantesco, chocante e revolucionário ensinamento sobre a realidade jamais proferido neste planeta – é encolhido e domesticado pelos referidos alvos da minha crítica, que o consideram tão-somente (e de forma domada e segura): 1) nossas preciosas tradições familiares e locais; 2) algo com que nos conectamos somente quando as emoções fiquem excitadas; 3) uma ladainha de proibições morais, coisas que não podemos fazer nem ser – ponto final. E o pecado, é claro, conecta-se nas mentes dos jovens, quase invariavelmente, a coisas que nos fazem sentir bem, até muito bem. Eles reconhecem as coisas boas e gostosas quando as sentem, e o grande mundo da ‘religião’ parece ter se enganado redondamente em relação aos maravilhosos prazeres que Deus criou.

‘Metanoia’, tal qual gerações de exegetas assinalaram, embora que não seja incorreta a tradução como ‘arrependimento’, o próprio arrependimento é mal entendido se não se analisa cuidadosamente a palavra grega. A ‘mudança’ sugerida pela preposição meta, é do nous, do ‘pensamento’, do modo como entendemos e encaramos a realidade. Para arrepender-se de algo, é preciso ver o que se fez de errado, o que requer por sua vez ver o que é o certo – ou seja, como o mundo realmente é, e como nós, consequentemente (digamos novamente: consequentemente), devemos ser. Por outras palavras, para vermos o que é moralmente certo, precisamos de um entendimento básico do que é metafisicamente verdadeiro. Esperar que nos horrorizemos com o pecado sem sequer vislumbrarmos a beleza do bem, é uma empreitada invertida, típica da religiosidade moderna, e garantido a espantar as pessoas sãs dos bancos da igreja (e, previsivelmente, fazê-las correr para os próximos prazeres disponíveis). As pessoas jovens, que já experimentaram prazeres e alegrias reais em suas vidas, jamais serão persuadidas por um código moral articulado numa paisagem estéril de figuras pálidas sacudindo seus dedos em sinal de proibição. Os jovens são muito astutos para serem assim enganados.

Assim como a filosofia prática tem forçado a filosofia teórica a uma posição defensiva em tempos recentes, da mesma forma a pregação instrucional, o catecismo bem pensado e a teologia doutrinal veem-se intimidadas por posturas moralizantes, ou por músicas litúrgicas agitadas, com as quais as congregações eclesiais tentam compensar, com emoção, o que lhes falta em convicção.

Se as pessoas não ouvem mais falar de um Deus Trino como um Deus-Pai vivo e gerador, e de Cristo como um Filho realmente, e eternamente, gerado (com vida e logos jorrando de dentro), e do Espírito como um amor totalmente e incessantemente em estado de transbordamento; e portanto, a própria Criação como uma efusão de dons provindo dessa fonte de vida que brota sem parar, então um resultado é certo: nossas lições morais ficarão de pé só no discurso, porquanto serão incapazes de subsistir sem o pano de fundo de uma visão teológica de mundo bem construída – a única coisa capaz de lhes dar legitimidade.

Local, emoção e mandamento só fazem sentido para o cristão, e somente ganham corações, quando o lugar se ilumina a partir de um mapa do universal, do global (do ‘católico’); quando a emoção nos move, de forma sim fervorosa e vibrante, mas na matriz estável da vontade (que os Escolásticos chamam de apetite racional); e quando as injunções morais emergem amorosamente, mas logicamente, da metafísica do real.

glo