Páscoa empírica

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Uma concepção comum e enganosa sobre o Cristianismo dirá que ele se baseia em crer em uma série de verdades abstratas com respeito a um Deus que é um e três, e sobre uma pessoa que é Deus e homem. O lado mais abstruso desses artigos de fé, contudo, seria elaborado tão somente séculos após as primeiras pregações dos apóstolos. Certo, eles são parte integrante de um todo orgânico, mas vieram mais tarde no crescimento desse todo, assim como flores e frutos surgem depois na vida de uma árvore recém-germinada. As raízes e o tronco vêm primeiro, ou, para mudar a metáfora, os alicerces e fundações vêm antes das paredes e do telhado. E os cristãos consideram essa fundação, não um ensinamento rarefeito, mas um fato. O Cristianismo se sustenta, ou desmorona, sobre a verdade de um fato empírico. Todas as elaborações teológicas e do magistério da Igreja surgiram subsequentemente a esse fato, e, sem este, aquelas se tornariam diáfanos sopros de ar. “Se Cristo não ressuscitou,” afirmou São Paulo sem rodeios, “logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé”.  Mas, o que isso quer dizer?

Vejamos: imagine uma pessoa que você conhecia e amava, mas que morreu. Imagine-a quando viva e vibrante, e então a imagine imóvel e pálida em seu caixão. Agora, imagine-a, dias depois do funeral, entrando pela porta da frente e beijando você no rosto. Tão logo você tivesse superado a dúvida inicial – andando em volta dela algumas vezes, beliscando seu corpo e checando a sua respiração – dificilmente você estaria inclinado a proferir abstrações. Você sentiria que algo havia acabado de mudar para sempre em sua vida. E você começaria a contar a todo mundo sobre isso. O bicho-papão mais temido de todos – a morte – teria acabado de sofrer um dramático revés, e todo um universo de significados, outrora fixos e fadados, teria sido virado de ponta-cabeça. Essa foi a primeira experiência do conteúdo do testemunho cristão – um testemunho da morte e ressurreição de um homem conhecido e amado por um grande número de pessoas comuns, e não acadêmicas. Uma morte ignominiosa e inegável (tão definitiva quanto a de uma mosca esmagada sob a sola do seu sapato) fora testemunhada e lamentada, apenas para ser revertida e transcendida diante dos mesmos olhos humanos e no mesmo estranho mundo em que vivemos.

A palavra ‘mártir’ significa testemunha, e o que foi testemunhado aqui foi uma intrusão da Vida do alto dentro deste mundo de morte inevitável. E isso não foi apenas uma renovação ‘espiritual’, mas uma reinicialização corporal: moléculas e células sendo postas numa nova ordem do ser. Milhões preferiram a tortura e até a própria morte a negar esse testemunho. E, para que não excluamos injustamente os acadêmicos, Paulo de Tarso era um cara brilhante – em termos atuais, ele teria o equivalente a doutorados em filosofia e teologia. Mas, o fato da Ressurreição o levou de roldão, e nunca mais o superou. A raiz da fé cristã, bem como a fonte de toda a sua mais sublime teologia, é isso: jamais superar o fato empírico da Páscoa.