Bruckner! (português)

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Ouvi Bruckner pela primeira vez em meados dos anos 1970, inspirado por um amigo vienense, na Áustria. Surpreso pela minha ignorância acerca daquele compositor austríaco reconhecidamente esquisito, mas formidável, o amigo olhou-me nos olhos com aquele zelo que só se revela quando se está a ponto de divulgar um segredo esotérico e explosivo: a música de Bruckner é – proclamou ele em alemão – wunderschön! (ele fez uma pausa para secar as lágrimas, e repetiu:) wunderschön!. Em alemão, isso não significa apenas belo, mas suntuosa e comoventemente adorável. Eu fiquei emocionado com sua insistência e paixão, apesar de um pouco desconfiado que tudo não passasse de ufanismo nativista de um austríaco. No final das contas, sofri uma humilhação ao ter minha ignorância exposta. Assim que eu pude, botei minhas mãos numa fita cassete de Bruckner e a fiz tocar no meu Walkman.

Acadêmico consumado que eu era (aos 22, gabava-me de saber não tudo, mas quase tudo), decidi que seria bom, em primeiro lugar, familiarizar-me com a biografia desse prodígio musical, que havia habilmente voado para longe do meu radar durante tanto tempo. Corri para toda enciclopédia ou biografia curta que eu pude encontrar, e logo me deparei com a foto que se vê acima. “Hummm”, pensei, “um visual não tão clássico quanto os de Bach ou Mozart, nem tão intimidador quanto Beethoven ou Wagner, tampouco tão belo quanto Mahler; ainda assim, vai servir”. Admiti-o para uma audição no meu clube de compositores favoritos. Contudo, ao aprender mais sobre ele, fiquei desconcertado. Quase cancelei a audição.

Não demorou muito para eu deparar com a opinião predominante sobre Bruckner – algo que os connaisseurs esnobes de música clássica proclamaram por um século, dizendo a todos para não perderam tempo com aquele peão boiadeiro. E eles tinham razão em relação a uma coisa: Bruckner foi sem dúvida um dos homens mais incultos a terem andado pelos Alpes austríacos. Nascido numa pequena vila montanhosa, ele falava um dialeto alpino (quando falava coerentemente), vestia-se à la Exército da Salvação (com calças de bainha alta, pois tocava órgão e – dizia ele – por isso precisava dos pés livres para os pedais). Apresentava-se com uma falta de jeito e com um desleixo que o tornaria comparável ao mais miserável dos moradores de rua dos tempos de hoje. Sabia quase nada de história, filosofia, poesia, drama, dança, ciência, etc. etc. Como disse: inculto. Mas, quando ele se sentava ao órgão de sua igreja local (e muitas outras ao longo de sua vida), imediatamente metamorfoseava-se, como um Hulk, num gigante da música. A improvisação – provavelmente o maior teste de alto talento musical – fluía por seus dedos com uma facilidade impressionante. É lamentável, considerando sua obra, que tenha composto tão pouco para órgão, mas acho que ele compensou essa lacuna de maneira grandiosa.black-and-white-buttefly-music-notes-facebook-cover-black-and-830x307

Quando eu finalmente ouvi sua nona sinfonia inacabada (por que não começar pelo topo?), senti como se tivesse entrado na Catedral de Notre Dame, ficando arrebatado (como ainda estou). Depois, ouvi a sua quarta sinfonia (uma audição mais fácil), bem como a sétima, mais acessível e popular. Mas eu ainda não havia me deparado com a espantosa, surpreendente e ousada quinta sinfonia (pertenço à minoria dos amantes dessa sinfonia imperfeita), para não falar do primeiro contato dos meus ouvidos virgens com a mais grandiosa, exigente e transformadora de todas as sinfonias, a oitava. Nessa época, tornei-me um apologista de Bruckner dos mais insuportáveis, mas percebi – para minha surpresa e incredulidade – que esse músico baixinho era visto, quase universalmente, como bombástico, desarticulado, confuso e, acima de tudo, incapaz de economia (suas sinfonias são qualquer coisa, menos sucintas). Ele é visto por muitos como um tipo de Wagner absurdamente ‘batizado’. Idolatrava o gênio megalomaníaco alemão; e o fato de ser, com Wagner, um dos favoritos de Hitler, com certeza não lhe angariava muitos admiradores. Adicione-se a isso o fato de que, ao contrário de qualquer outra celebridade musical do século XIX de estatura comparável, Bruckner era um católico devoto, e frequentador diário às Missas. Portanto – falava a voz dos sabichões da música erudita –, se o que você busca é um romantismo tardio, então vá para Mahler, e deixe de lado esse patético capiau em seu auto-indulgente pântano musical cheio de piedade e presunção.

No entanto, a música de Bruckner é muito interessante para ser simplesmente ignorada. Os famosos crescendos orquestrais são de tal grandeza transcendente e sublime, que somente suas lágrimas revelam que você realmente os ouviu e compreendeu. A Europa não podia bani-lo de sua imaginação musical, e ele foi tocado com certa regularidade, a despeito dos opositores. Mas, sua música quase não cruza o Atlântico. Por isso, deliciei-me quando ouvi recentemente aquele regente e pianista argentino/israelense, Daniel Barenboim – fã de Bruckner de longa data – homenageando o compositor no Carnegie Hall de Nova Iorque, com o ciclo completo de suas sinfonias. Isso foi no começo deste ano.

Anton_brucknerBarenboim admite que há compositores mais melódicos, mais ‘arquitetônicos’, melhores orquestradores e, com certeza, aqueles mais concisos e econômicos na expressão. Mas, ele nos diz também que não é a melodia, a arquitetura, a orquestração ou a brevidade que nos arrastam para Bruckner. É-se arrastado para Bruckner por meio daquilo que o arrastou, ele mesmo, para a música: a sua fé. Ninguém mais no século XIX compôs mais religiosamente, mais espiritualmente, do que Bruckner. Com ele, não tem programa musical, nenhuma poesia, nenhuma estória; apenas uma escavação arqueológica em busca de Deus e do sobrenatural, sedutoramente escondidos no mundo do som, tal como os veios de ouro na terra. Na verdade, o seu Te Deum e as Missas são também trabalhos geniais, mas é em suas sinfonias que algo de outro mundo aparece inequivocamente.

Ele cava, cava mais, explora e peneira – retornando a um local anterior só para cavar um pouco mais – e então, muitas vezes num crescendo expectante, outras vezes numa súbita tempestade fônica, dá-se uma epifania igual a nada que se encontre na literatura sinfônica. Não há algo que se pode igualar àqueles momentos. Quando se conhece bem a música dele, meditativamente se espera por esses momentos – assim como cada um de nós espera por Deus – em que a paciência de Bruckner se choca com a nossa impaciência, na medida em que o compositor busca em seu coração e na orquestra aquela convergência de sons que levará à revelação final. A arte organística de Bruckner é mais visível na estrutura de suas sinfonias do que qualquer dependência em relação a Beethoven ou mesmo a Wagner. Nesse aspecto, ele é único. Finalmente, Bach é mais consistentemente brilhante; Mozart mais divertido e variado; Beethoven, mais sintético e estimulante; Brahms, mais assertivo e Mahler mais expansivo. Mas, Bruckner é quem cria uma passagem entre a Terra e o Céu, recordando-nos que a beleza do além é por demais assoberbante, e que a espera – sem dúvida alguma – vale a pena.

[Para os iniciantes em Bruckner, provavelmente suas 4ª e 7ª sinfonias deveriam ser ouvidas primeiro. Se você tem menos paciência e quer provar um pouco do melhor, ouça o Adagio da 8ª. (ou da 4ª, 5ª, 7ª ou 9ª… mas eu recomendo o da 8ª). Entre muitas versões excelentes, gosto do andamento de Herbert von Karajan: https://www.youtube.com/watch?v=asJf3KmAg08; se quiser ir direto para o Adagio, pule para 32:15. Há versões com melhor som, mas o buscador encontrará aquela sonoridade que semeará a glória em seu coração)].

death mask Bruckner
death mask of Anton Bruckner

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