A diferença entre diferença e ‘diversidade’

Alguém disse ‘paradoxo’? E que tal isso: para ser diferente de algum modo, é preciso primeiro ser o mesmo. Mas outro paradoxo é mais estranho ainda: aqueles que hoje em dia pregam interminavelmente a importância de ser ‘diverso’, com mais frequência do que se pensa, acabam por produzir mais e mais do mesmo. Sei que isso soa estranho, mas pense um pouco. Aqueles verdadeiramente interessados em serem diferentes começam necessariamente com um ‘mesmo’, com uma identidade tradicional estabelecida, para depois abrirem toda uma cauda de pavão de diferenças, sem, sequer por um momento, desprezar a estabilidade com que começou; não é um jogo de soma zero. Os apologistas da diversidade, ao contrário, começam com as diferenças para, em nome do pluralismo e da igualdade, eliminá-las progressivamente, produzindo homogeneidade. O fato que aqui passa despercebido é que o diferente verdadeiramente pressupõe uma identidade ou uma semelhança, sobre a qual se ergue a diferença dentro de uma estrutura pré-existente, e sem a qual a diferença mesma (trocadilho interessante!) se desvaneceria, sumindo num fundo cinza.

Os proponentes da atual moda da ‘diversidade’ (seja de gênero, cultura, expressão ou qualquer outra coisa) ironicamente desencadeiam forças e movimentos que muitas vezes apagam ou borram as diferenças naturais e tradicionais, gerando uma uniformidade obrigatória, usualmente sob o título de ‘políticamente correto’. E isso ocorre mesmo quando camuflado em pantomimas de fingida originalidade e exibido em melodramáticas poses de ousadia. Não posso dizê-lo mais claramente, mas posso oferecer alguma explicação.

[Estou deixando de lado reflexões mais sutis sobre as relações entre a diferença e o significado na linguagem – em de Saussure, por exemplo –, e sobre o interessante, mas estranho, neologismo francês différance [sic], vou defirir (como se deve) para Derrida. No lugar disso, meu foco aqui é no modo como pessoas normais e não acadêmicas usam as palavras. Porém, farei um ou outro aceno à filosofia clássica, que é, de certa forma, saudavelmente não-acadêmica].

Se pararmos e pensarmos por um momento, perceberemos que não usamos a palavra ‘diferente’ sobre coisas ou atos que são, por assim dizer, mundos à parte. Coisas que diferem entre si devem ser comparáveis. Ninguém comentará o quanto um cão labrador é diferente do buraco negro Cygnus X-1, ou sobre a impressionante diferença que existe entre assoar seu nariz e planejar uma viagem para a Europa. Na classificação tradicional das coisas (mesmo na tarefa cotidiana de colocar as coisas em ordem), nós normalmente precisamos, em primeiro lugar, do que se costuma chamar de ‘gênero próximo’, antes de podermos invocar uma ‘diferença específica’; esses dois permitirão à mente isolar uma ‘espécie’ mais definida (não num sentido biológico, mas lógico; podemos também usar aquela palavra que se tornou uma palavra ‘sórdida’ na filosofia contemporânea: ‘essência’).

Um labrador pode apenas diferir de um collie porque ambos são cães; e um cão pode diferir de um gato porque ambos são mamíferos quadrúpedes; e um quadrado de um triângulo porque ambos são figuras. E (é hora de polêmica), um homem de uma mulher porque ambos são seres humanos. Não se pode apenas ser ‘animal’, é preciso ser algum tipo de animal. Não há algo como uma figura pura: tem de ser uma oval, um quadrado ou um triângulo etc. para ser uma figura. Você não pode ser um humano híbrido; tem de ser um homem ou uma mulher para ser minimamente humano (as raras exceções serão vistas em seguida).0_CATERS_HALF_MAN_HALF_WOMAN_MAKE_UP_01-800x498

As diferenças, numa palavra, estão enraizadas na natureza, ou numa ordem natural das coisas. Descobrimo-las com nossas faculdades cognitivas (nossos sentidos e nossa razão), e apesar de podermos, no curso normal das coisas, reagir a elas com nossas funções apetitivas (emoções e vontade), estas não constituem as diferenças, e nem poderiam. De fato, o lado apetetivo nosso nem podería reagir às diferenças se as constituissem.

O traço curioso dos sermões seculares recentes em louvor à ‘diversidade’ é que eles tipicamente apagam impunemente as mais conspícuas e manifestas diferenças, cobrindo elas com chavões que apelam aos apetites de muitos, mas à inteligência de ninguém. Não acho que isso seja sempre tão inocente. Nas campanhas sociais mais ferventes, há razões ocultas por trás dos slogans simplistas e das gesticulações frenéticas. Os filósofos podem meditar no topo de suas montanhas, mas as correntes de seus pensamentos mais cedo ou mais tarde fluem para baixo, para nós no vale do cotidiano.

Duas correntes filosóficas de grande ímpeto nasceram no afligido século XIV. Foi uma época rica em mística, poesia, alguns avanços na lógica e na filosofia da linguagem, e notáveis projetos pioneiros no moderno método científico, mas pobre em projetos abrangentes de filosofia e teologia. O cenário estava maduro para o surgimento de um par de ideologias, que se tornariam favoritas da modernidade. Essas duas correntes com frequência andam juntas, como faz a maioria das ideias ou sistemas que pretendem dar conta tanto das dimensões cognitivas quanto das apetitivas da existência humana. Afinal de contas, se elas quiserem tratar da realidade humana em termos integrais, terão de ter algo a dizer sobre a teoria e a prática, sobre o conhecimento e a ação, a verdade e o amor.

allObjects(Para entender o que segue, dê uma olhada a qualquer conjunto aleatório de coisas ao seu redor.) A primeira dessas correntes é usualmente chamada de nominalismo. Foi a vencedora de um longo debate medieval sobre a natureza da universalidade no modo como usamos os conceitos e as palavras. O mundo medieval viu longos esforços de intuição e raciocínio, cultivados nos prolíficos séculos dos estudos gregos, árabes e latinos sobre o conhecimento humano. Infelizmente, os debates multiplicaram-se – especialmente após o fim do século XIII – muito além de um florescimento saudável. Boa parte do escolasticismo subsequente cresceu menos como uma árvore saudável no sol, e mais como uma planta esquecida no porão, grotescamente ramificada e com uma palidez pastosa. Depois de Alberto, Tomás e Boaventura terem erguido a Escolástica latina às suas maiores visões sinópticas (múltiplas, mas não incompatíveis), o século seguinte olhou para outros lados. Mas, também, a lentidão na absorção da profunda metafísica de Tomás de Aquino deixou o mundo erudito mergulhado em assuntos mais mundanos e práticos (afinal, aquele foi o século da Peste Negra e de grandes deslocamentos demográficos). Entre esses assuntos: as vantagens advindas do descarte das aspirações ‘essencialistas’ e de encarar as coisas como objetos basicamente diversos e heterogêneos, querendo apenas serem usados. Isso logo se transformaria numa nova abordagem do entendimento do mundo à nossa volta, e uma forma de pegar nele e usá-lo.

Coisas com as suas naturezas passaram a ser vistas não mais como realidades sustentadas por estruturas internas que participam – imperfeita, mas robustamente – nas Ideias arquetípicas na mente de Deus, mas, ao contrário, como objetos individuais, brutos e irredutíveis, necessitando da atividade criativa de nosso intelecto para tangê-los aos ‘pombais’ construídos por nossa própria mente, para fazermos deles o que quisermos. A diversidade individual jogou fora as essências universais, mas ao mesmo tempo seduziu-nos a manuseios práticos e cada vez mais técnicos e intervencionistas. As diferenças entre as coisas individuais foram destacadas, cada vez mais, de seus alicerces essenciais, os quais até então haviam mostrado seus traços comuns e sua integração com o resto do cosmos. Esses objetos órfãos vagaram, por assim dizer, em busca de significado, tentando mostrar sua aptidão para novas ocupações (como mercenários tentando ser recrutados). Os nominalistas sugeriram que faríamos melhor em apenas encontrar nomes úteis para esses objetos, e então nos ocuparmos com o assunto mais sério de encontrar o melhor meio de usá-los.

No século XIV, já estava nascendo uma visão subjetivista e construtivista acerca das cogitações mentais, e a maioria dos filósofos subsequentes e antecipadores da modernidade seria também nominalistas (usassem ou não este termo). Contudo, a mente sempre se move pari passu à vontade. Concomitantemente ao nominalismo, aparece uma ideologia que, como era de se esperar, lhe serve logicamente muito bem WILL-POWER-Custom-Custom1como companheira. Se as coisas não têm essências as quais a mente possa apreender universalmente em seus exemplos individuais (ambas – essências e mentes – enraizadas, em última instância, no Logos divino, arquetípico e exemplar), nem há qualquer ‘âncora’ realista da entidade com as quais os conceitos, juízos e raciocínios mentais possam ser medidos; e se Deus é visto como sendo, na verdade, mais e mais como um artesão caprichoso cuja Vontade onipotente é a fonte não apenas da existência das coisas, mas também das suas essências (na visão tradicional, era o Inteleto Divino que ‘causou’ as essências); então, a vontade humana acaba por interpretar tudo isso como uma nova permissão para atacar e manipular esse mundo constituído em última instância por coisas diversas e isoladas, segundo os mandatos da própria vontade humana. Essa prioridade da vontade sobre a mente, do poder sobre a razão, do capricho sobre a Providência, é tradicionalmente chamada de voluntarismo.

Muita tinta já correu sobre esse tópico e não tenho a intenção de ‘chover no molhado’ aqui. Apenas sugerirei que a linha que conecta essas duas convicções ideológicas – nominalismo e voluntarismo – com a maioria das criações distópicas do mundo moderno é mais grossa do que se pensa: na ordem econômica e política, com o Socialismo Nacional (os nazistas) e o Socialismo Internacional (soviético ou maoísta), no qual os indivíduos tornam-se joguetes dispensáveis num idealizado programa de aperfeiçoamento); na cultura, com o consumismo que esmaga todos os critérios de beleza e até de utilidade (imagine os consumidores pensando avidamente sobre qual marca escolher, dentre uma seleção virtualmente infinita de cereais matinais); nas ordens científica e tecnológica – o casamento desses dois adjetivos foi em si mesmo uma consequência das forças aqui em pauta – nas milhares de ogivas nucleares precariamente posicionadas, que o nosso mundo moderno produziu, mas não tem a menor ideia como controlar; e tristemente, em nossos belos oceanos, cada vez mais atulhados de garrafas e sacos plásticos.

Um desenvolvimento mais modesto e comedido da ciência e da tecnologia, mantendo a maioria de seus inegáveis benefícios, tornou-se impossível, com esses dois motores filosóficos roncando ao fundo. Eles não permitiram quaisquer pesos e contrapesos sobre o desejo voluntarista do homem de manipular indiscriminadamente o mundo material – um mundo não mais amparado pelo respeito perante a irradiação das suas essências. Não poderíamos mais ler a eloquente linguagem simbólica com que o universo falava em tempos mais sãos, mas, ao invés disso, este passou a ser visto como se apresentando ‘de bom grado’ – diríamos até ‘promiscuamente’ –, tal como uma massinha de modelar nas mãos caprichosas dos modernos tecnocratas.

Um fruto mais recente do nominalismo e do voluntarismo, mas ainda logicamente atrelado a eles, é a confusão entre diferença e ‘diversidade’, com a qual comecei. Embora esse turbilhão conceitual passe por múltiplas dimensões do pensamento contemporâneo, ele é mais palpável e destruidor ao depreciar e erodir a evidência científica em todos os níveis: genético, hormonal, cromossômico, cerebral e psicológico – sem falar do testemunho avassalador do corpo humano – qual seja, a de que o homem e a mulher são muito diferentes, e de que essa diferença é dada, não produzida. E, além do mais, essa diferença é profundamente enraizada na única natureza compartilhada por eles.

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Como todas as coisas evidentes, quando se começa a discutir sobre elas, o discurso torna-se obscuro e você acaba perplexo – não porque a matéria seja em si obscura, mas porque, quando o raciocínio se intromete naquilo que é intelectualmente intuitivo, usa-se o instrumento errado; a luz natural gradualmente se enfraquece na presença de um agente estranho (algo como o abater das luzes de um cinema, quando o filme vai começar). A razão nada tem de bom a fazer onde a intuição intelectual atua plenamente. Não se precisa provar aquilo que já se sabe, nem buscar ou procurar minuciosamente por aquilo que já se vê. É a ferramenta errada. É como fazer uma pintura com um violino, ou dirigir um carro colocando uma bicicleta no assento do motorista. Não é apenas um abuso do instrumento, é ineficaz para se atingir o objetivo em pauta.

Além do mais, ao misturarem-se faculdades heterogêneas, cria-se uma desnecessária ansiedade. Há uma experiência análoga, que todos experimentamos ao respirar. Em princípio, precisamos respirar automaticamente, sem que nossa consciência racional se dê conta de cada inalação e exalação; quando, porém, direcionamos nossa atenção para a respiração em si (a menos que se tenha uma boa razão, por exemplo, no consultório médico ou numa meditação controlada), ela subitamente se torna difícil e podemos até mesmo experimentar certo pânico. Assim acontece com as questões evidentes. Nós apreendemos natural e instintivamente – mesmo quando somos crianças pequenas – que há uma vasta e maravilhosa diferença entre o homem e a mulher, entre sua mãe e seu pai; e simultaneamente nos damos conta de que essa mesma distinção se delineia a partir de uma apreensão, igualmente intuitiva, acerca da natureza idêntica dos dois. Eles podem ser diferentes (em sexo ou gênero), porque são o mesmo (em natureza). Esse insight infantil faz jorrar um monte de implicações filosóficas.

A ciência dá sua chancela ao instinto infantil. Ela é unânime em medir e descrever essa diferença como irredutível (não que os propaladores da diversidade se preocupem com isso!). Quando ocorrem casos excepcionais – por exemplo, em casos relativamente raros de inter-sexualidade ou disforia de gênero – estes são vistos, em termos médicos, precisamente como exceções, e os que têm tais condições devem ser tratados como o mesmo respeito com que se trata qualquer pessoa excepcional. São ‘exceções que confirmam as regras’, como se diz por aí – elas não constituem a regra, nem criam uma nova regra. Casos limítrofes e ambiguidade sexual chamam bastante a atenção para o fato de que nossa natureza humana comum, em última análise, realmente transcende as diferenças sexuais, e que esses indivíduos excepcionais são como lembretes da natureza de que há mais em nosso destino do que simplesmente ser macho ou fêmea. Os cristãos veem seu destino último, no final das contas, como um estado em que o casamento, e por implicação a identidade sexual, não mais desempenharão o papel que desempenham aqui em baixo (Mt. 22,30). Logo, não é o caso de insistirmos, desmedidamente, sobre a diferença entre os sexos.

Mas, cristãos ou não, ainda estamos vivendo cá embaixo. E para além de todas as dimensões variáveis da nossa personalidade, nosso estilo, sentido de moda, habilidades adquiridas, condicionamento físico ou treinamento nisto ou naquilo – em resumo, em todas as coisas que se colocam em alto grau sob a soberania de nossas vontades –, há outras dimensões que recebemos da natureza, e do Deus da natureza, as quais se situam além do alcance mesmo de uma vontade das mais decididas. Salvo naqueles casos raros e claramente excepcionais de ambiguidade sexual, não pode estar sob o domínio da sua vontade determinar – para sempre, nem por uma temporada – que você seja um homem, tendo nascido mulher, ou vice-versa. Dizer o contrário disso é negar as distinções da natureza e produzir uma identidade confeccionada pela arte: a arte da diversidade. Dado que a ciência não ajudará os prosélitos da diversidade, eles previsivelmente apelam para a arte. Faça-se você mesmo!

Note que as palavras ‘diversidade’ e ‘diversão’ são – não sem sérias implicações – relacionadas. Qualquer diversidade imperial e voluntarista (que dê à nossa vontade a última palavra sobre quem ou o quê nós somos) é mera diversão, um tipo de encenação adolescente: uma espécie de farsa teatral promovida por uma vontade que deseja reinar sobre a natureza. Tudo o que conseguimos com isso é a pretensa esperança de viver uma existência absolutamente singular, irredutivelmente concreta, totalmente original: ser uma pessoa auto-construída não pertencente a qualquer espécie, não sujeita a qualquer lei natural e que decide não apenas o que deve fazer ou qual papel desempenhar na sociedade, mas o que é ontologicamente. Isso traz ao mundo não um homen ou uma mulher de nobreza e maturidade, atento à realidade e humilde diante das verdades autoevidentes, mas tão-somente um Frankenstein auto-construído: na pior das hipóteses, um monstro; na melhor, um palhaço. Talvez ambos.

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