Cultos de personalidade

É fácil apontar aos cultos de personalidade obviamente fanáticos, como aquele do Mao-tse Tung, Hitler, Stalin, e dos tiranos norte-coreanos; ou, numa chave mais “espiritual”, do Bhagwan Rashneesh (“Osho”), do David Koresh, do Jim Jones, etc., e achar, com grande confiança, que você nunca cairia sob o encanto de um tal charlatão.  Quando, porém, você assiste aos vídeos e documentários sobre esses personagens e seus cultos,  e vê os rostos e ouvir as vozes nas entrevistas de seus seguidores, vai ver e ouvir entre eles algumas pessoas obviamente inteligentes,  presumivelmente equilibradas, até pessoas profissionais (médicos, advogados, professores, etc.)–sem qualquer marca óbvia de fanatismo ou extremismo. Porém, estão cheias de convicção de que seu “guru” é simplesmente maravilhoso, e praticamente isento de falhas sérias.  Chegam até lágrimas nos seus olhos ao falarem dele.

Os católicos têm um exemplo ainda mais preocupante na figura de Marcial Maciel, o célebre fundador dos Legionários de Cristo, uma das congregações masculinas mais bem sucedidas dos fins do século XX, com milhares de membros jovens bem disciplinados e exemplares (e acrescento que estou falando com admiração sincera). Até São João Paulo II achou Maciel um homem exemplar, talvez até um santo. Mas foi revelada aos poucos sua vida secreta e, finalmente, ficou claro que sua pessoa foi equivocada em matéria que qualquer teólogo católico consideraria gravemente pecaminosa (e a justiça civil, criminosa). Mesmo assim e apesar da fiabilidade dessas revelações, ele fez coisas boas–inclusive a própria congregação–e sua comunidade de padres está sobrevivendo apesar das manifestações bem públicas dos seus delitos. Acho isso bom e rico em lições. Sem dúvida, os “sobreviventes” sabem distinguir bem entre os bons frutos e o caráter problemático do fundador, a quem eles, por anos e anos, tinham chamado–com grande afeição de devoção–nuestro padre (“nosso pai”).  O cristão sabe bem que Deus usa instrumentos às vezes altamente imperfeitos para realizar seus planos. Contudo, temos que manter os olhos abertos.

O fato é que mesmo pessoas extremamente dotadas e (especialmente) carismáticas podem sim fazer coisas admiráveis e atrair um séquito significante, mas sem ser realmente admiráveis nos olhos de Deus, ou de qualquer pessoa que tem longa e diferenciada experiência com seres humanos; os seguidores mais comprometidos desses líderes são, amiúde, pessoas jovens–por definição, sem muita experiência de vida. Charme, em si, não é uma virtude. Mesmo um Hitler ou um Stalin podiam ser altamente charmosos em relações sociais.  Para discernir entre os confiáveis e os menos fidedignos precisamos critérios objetivos para identificar os líderes, os mestres  que–mesmo com grandes contribuições à nossa cultura, ou à nossa consciência política–talvez carecem algumas das virtudes mais cruciais para ficarmos minimamente do lado de Deus na grande luta que é a nossa vida.

Estou pensando em vários casos, tanto da esquerda quanto da direita. São líderes na Europa, nos Estados Unidas e na América Latina–tanto líderes políticos como culturais ou até religiosos–que podem atrair milhares de seguidores. Sugiro apenas que as pessoas apliquem esses critérios a qualquer um deles, antes de virar um “seguidor”. Pode até aprender muito com eles, mas para segui-los, busquem no caráter deles, antes de mais nada, três sinais indicadores:

  1. A capacidade de aceitar crítica com graça e humildade. Quem fica tipicamente irritado e resistente a qualquer crítica às suas posições, sua pessoa ou seus atos, e tende a ridicularizar tais críticas e recusar a engajar as pessoas que as falam com tranquilidade e seriedade (ou aceitar debates públicos), não merece discípulos. Platão ficou circundado não apenas por discípulos submissos, mas também por colegas no mesmo nível dele (alguns dos quais discordaram fortemente com teses básicas do platonismo!). Aristóteles deixou um exemplo ainda mais impressionante. Ele ficou 20 anos na Academia de Platão, ouvindo posições das mais díspares, interagindo com elas e depurando suas próprias posições em diálogo com elas. O que hoje em dia chamamos “peer review” (avaliação pelos pares)–mesmo se abusado e exagerado às vezes (como tudo nesta vida)–é uma manifestação sadia e realista daquilo que todo intelectual público precisa na definição e elaboração das suas próprias ideias. Quem trabalha sozinho, ou se gaba em ser “auto-didata,” é especialmente suscetível ao perigo de “endogamia intelectual.”  “He that is taught only by himself has a fool for a master” (Ben Johnson).  Platão teve Sócrates e os desafiantes sofistas;  Aristóteles, Platão e sua turma; Plotino, Amônio Sacco e colegas; Agostinho teve Ambrósio e outros companheiros cultos; Tomás de Aquino, Alberto Magno e os colegas dominicanos, franciscanos e professores do clero secular….e assim por diante.  Tomás, de bom escolástico, aprendeu engajar, ativa e respeitosamente, todas as abordagens plausíveis contra suas posições antes de articulá-las (as famosas objectiones).  Quem não sabe fazer isso, ou algo análogo, não deveria ser seguido.
  2. Uma visão diferenciada (digamos, “colorida”) da realidade, sem a tendência a caracterizar as coisas em termos preto/branco. Especialmente desqualificador é a demonização de alguma corrente de pensamento ou de política e a recusa de identificar os elementos bons e positivos sem os quais, no final das contas,  ninguém poderia aderir a eles to begin with.  A partir do bem nas posições a serem atacadas, o ataque pode prosseguir com acerto e humildade.
  3. Medida e modéstia nas palavras. Alguém que nunca para de falar–que fala e fala e fala (especialmente possível hoje no mundo da média social!), que tem algo a dizer sobre tudo, e que dá a impressão de nutrir um amor exagerado pelo som da sua própria voz, não é um mestre confiável. O Hitler e também os ditadores do comunismo de cunho soviético são famosos pelos seus discursos de horas a fio. Um mestre verdadeiramente sábio será alguém que até prefere o silêncio, e que, pelo menos, costuma calar muito antes de abrir a boca.

Finalmente cabe observar que o apego pessoal a um professor ou mestre, pelo menos nos primeiros meses e anos de aprendizagem, é normal e praticamente inevitável. Começamos nossa vida como crianças com confiança totalmente acrítica em nossos pais, e é bom assim. Mas não é bom uma pessoa de 25 ou 30 anos continuar viver sob a guarda-chuva dos seus pais e recusar a ganhar sua independência tanto econômica quanto intelectual. Igualmente com nossos professores; eles fazem uma contribuição preciosa à nossa formação por um tempo estritamente delimitado, e depois a relação deveria terminar. Teremos que reconhecer que eles são também humanos, que têm fraquezas e que um vínculo permanente de discípulo para com eles só vai prejudicar nosso amadurecimento. Há só uma grande exceção a isso; estou escrevendo este texto na Semana Santa, dedicada aos dias mais silenciosos daquele que é o Verbo em carne.  Sete brevíssimas palavras serão proferidas por ele Sexta Feira Santa à tarde. Ele é a única personalidade que merece um culto.

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