Protologia e escatologia em miniatura

Muitos acham a Bíblia inacreditável, entre outras razões, porque o início é tão “mitológico” e o fim tão bizarro. Em outras palavras, vêem no início de Gênesis (que contém a protologia bíblica, ou seja o relato sobre origens–do universo, do homem, do mal e da salvação) nada mais do que uma de várias versões da mitologia fantástica da antiguidade; e no Apocalipse (que contém–juntamente com os discursos de Jesus sobre o fim do mundo–o relato sobre as “ultimas coisas,” ou seja a escatologia bíblica) nada mais do que uma fantasmagoria incoerente que reflete as trances delirantes de um louco, ou as viagens psicodélicas de um hippie avant la lettre.

Existem, porém, mesmo em nossas modestas vidas individuais, três profundezas que jazem (adaptando uma frase de Tomás de Aquino) procul a cognitione (longe do nosso conhecimento): elas são 1) nossa própria origem individual, 2) as profundezas presentes em nossa alma e 3) o nosso iminente fim vindouro.

Existimos sem lembrança do evento mais originante da nossa própria existência: a nossa concepção; no entanto, foi altamente importante para todo o curso da nossa vida, para dizer o mínimo. Também os nove meses no seio da nossa mãe, e aquele evento traumático que nos expulsou daquele paraíso temporário, nosso nascimento (e também tantos meses após nossa entrada no mundo)–de tudo isso, nossa memória carrega, na melhor hipótese, apenas alguns ecos no inconsciente.

A principal certeza que possuímos sobre esses eventos é a tradição oral provindo dos nossos pais. E mesmo assim, os eventos foram muito misteriosos para serem simplesmente contatos em termos biológicos; ao invés de explicações envolvendo células e sexo, ouvimos estórias sobre cegonhas, ou um Deus presenteando bebês como Papai Noel. Mas foi suficiente. Assim começamos a entender o sentido da nossa origem, sem pormenores biológicos. Mesmo quando, como adultos, aprendemos sim os detalhes sobre os pássaros e as abelhas, o assunto não virou menos mas até mais misterioso!storkÉ assim que a Bíblia também conta sobre a origem de todas as coisas–algo procul a cognitione. Mas o relato em Gênesis 1-3 comunica perfeitamente bem o sentido da criação do mundo, do ser humano e do começo do grande drama que é a nossa história. Agora, neste momento daquela história–quando ouvimos físicos falando sobre o Big Bang e biólogos evolucionistas nos apresentando uma “Eva mitocondrial,” (entre outras novidades sobre cosmogênese e origens humanas)–mal detectamos algo que fala sobre o sentido da nossa vida, seu valor ou seu propósito.

Quanto ao outro extremo–nossa morte e passagem para o além–enfrentamos também uma experiência única e misteriosa (ver meu ensaio, Paisagens e períodos póstumos). Embora que presenciamos mortes de outrem, nunca podemos antecipar plenamente essa transformação como será para nós mesmos. Sendo também procul a cognitione, usamos imagens e símbolos para esboçar, remotamente, um vislumbre daquilo que se aproxima de nós cada dia com passos deliberados. reaper

É desse modo que a Bíblia também trata esses eventos vindouros. Usa símbolos, mas também às vezes eventos históricos próximos que desempenham o papel de símbolos para um análogo evento na escala global. Por exemplo, muitas profecias de Jesus e do Apocalipse dizem respeito, acima de tudo, não ao fim do mundo, mas antes ao fim (à destruição) do Templo em Jerusalém e da pequena nação judia (AD 70 e 135). Isso já equivalia a um “fim do mundo” para muitos judeus. No entanto, também esses fins foram prefigurações pelo fim do universo na sua totalidade.

Há tantos mistérios que nos aguardam no momento–e, segundo as tradições mais sintonizadas com o mysterium mortis: momentos–da nossa “passagem.” As profundezas da morte e os múltiplos pórticos ao além-túmulo, repousando lá num futuro indiscernível–o qual, mesmo se cronologicamente perto, fica experiencialmente longínquo–não são menos profundas do que os mistérios fundantes da nossa existência e do nosso drama no passado. Mas todas essas funduras acham suas últimas raízes em nosso peitos.

A terceira profundeza–aquela que se mergulha no nosso interior também aqui e agora, no presente–é o mundo insondável da nossa alma nas suas dimensões espirituais. Também é pouco conhecido e assim procul a cognitione. Agostinho chegou a ver nas palavras da Sagrada Escritura, mesmo carecendo aquela eloquência que ele amava em Cícero e Virgílio, uma porta inigualável.

Estranhamente teve o lintel baixo (linguagem simples, direta, porém também ressonante em todas as direções), forçando quem quiser passar por ela a curvar-se; porém, uma vez dentro, descobrirá um salão com teto altíssimo. O preço do ingresso?–só humildade e um genuíno amor, pelo menos em germe. É possível superar as hesitações daqueles que acham o início e o fim da Escritura “mitológicos” ou bizarros, porque já descobrimos que nosso próprio início e nosso próprio fim não são menos difíceis de explicar; também são igualmente passíveis de narrativas pujantes e expectativas inéditas. Talvez com nenhuma parte da Bíblia (com excepção dos Evangelhos) podemos sentir as nossas próprias profundezas ressoar tanto quanto nos primeiros capítulos do Gênesis e no texto oracular do Apocalipse.depths soul