Cultos de personalidade (once again)

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É fácil apontar aos cultos de personalidade obviamente fanáticos, como aquele do Mao-tse Tung, Hitler, Stalin, e dos tiranos norte-coreanos; ou, numa chave mais “espiritual,” do Bhagwan Rashneesh (“Osho”), do David Koresh, do Jim Jones, etc., e achar, com grande confiança, que você nunca cairia sob o encanto de um tal charlatão.  Quando, porém, você assiste aos vídeos e documentários sobre esses personagens e seus cultos,  e vê os rostos e ouvir as vozes nas entrevistas de seus seguidores, vai ver e ouvir entre eles algumas pessoas obviamente inteligentes, presumivelmente equilibradas, até pessoas profissionais (médicos, advogados, professores, etc.) – sem qualquer marca óbvia de fanatismo ou extremismo. Porém, estão cheias de convicção de que seu “guru” é simplesmente maravilhoso, e praticamente isento de falhas sérias. Chegam até lágrimas nos seus olhos ao falarem dele.

Os católicos têm um exemplo ainda mais preocupante na figura de Marcial Maciel, o célebre fundador dos Legionários de Cristo, uma das congregações masculinas mais bem sucedidas dos fins do século XX. Com milhares de membros jovens bem disciplinados e exemplares (e acrescento que estou falando com admiração sincera), é uma marca na história católica do século passado. Até São João Paulo II achou Maciel um homem exemplar, talvez até um santo.

Mas foi revelada aos poucos sua vida secreta e, finalmente, ficou claro que sua pessoa foi equivocada em matéria que qualquer teólogo católico consideraria gravemente pecaminosa (e a justiça civil, criminosa). Mesmo assim e apesar da fiabilidade dessas revelações, ele fez coisas boas – inclusive a própria congregação – e sua comunidade de padres está sobrevivendo apesar das manifestações bem públicas dos seus delitos.

Acho isso bom e rico em lições. Sem dúvida, os “sobreviventes” sabem distinguir bem entre os bons frutos e o caráter problemático do fundador, a quem eles, por anos e anos, tinham chamado – com grande afeição de devoção – nuestro padre (“nosso pai”).  O cristão sabe bem que Deus usa instrumentos às vezes altamente imperfeitos para realizar seus planos. Contudo, temos que manter os olhos abertos.

O fato é que mesmo pessoas extremamente dotadas e (especialmente) carismáticas podem sim fazer coisas admiráveis e atrair um séquito significante, mas sem ser realmente admiráveis nos olhos de Deus, ou de qualquer pessoa que tem longa e diferenciada experiência com seres humanos. Os seguidores mais comprometidos desses líderes são, amiúde, pessoas jovens – por definição, sem muita experiência de vida. Charme, em si, não é uma virtude.

Mesmo um Hitler ou um Stalin podiam ser altamente charmosos em relações sociais. Para discernir entre os confiáveis e os menos fidedignos precisamos critérios objetivos para identificar os líderes, os mestres  que – mesmo com grandes contribuições à nossa cultura, ou à nossa consciência política – talvez carecem algumas das virtudes mais cruciais para ficarmos minimamente do lado de Deus na grande luta que é a nossa vida.

Estou pensando em vários casos, tanto da esquerda quanto da direita. São líderes na Europa, nos Estados Unidas e na América Latina – tanto líderes políticos como culturais ou até religiosos – que podem atrair milhares de seguidores. Sugiro apenas que as pessoas apliquem esses critérios a qualquer um deles, antes de virar um “seguidor.” Pode até aprender muito com eles, mas para segui-los, busquem no caráter deles (ou seja, na personalidade moral), antes de mais nada, três sinais indicadores:

—A capacidade de aceitar crítica com graça e humildade. Quem fica tipicamente irritado e resistente a qualquer crítica às suas posições, sua pessoa ou seus atos, e tende a ridicularizar tais críticas e recusar a engajar as pessoas que as falam com tranquilidade e seriedade (ou aceitar debates públicos), não merece discípulos. Platão ficou circundado não apenas por discípulos submissos, mas também por colegas no mesmo nível dele (alguns dos quais discordaram fortemente com teses básicas do platonismo!). Aristóteles deixou um exemplo ainda mais impressionante. Ele ficou 20 anos na Academia de Platão, ouvindo posições das mais díspares, interagindo com elas e depurando suas próprias posições em diálogo com elas.

O que hoje em dia chamamos “peer review” (avaliação pelos pares) – mesmo se abusado e exagerado às vezes (como tudo nesta vida) – é uma manifestação sadia e realista daquilo que todo intelectual público precisa na definição e elaboração das suas próprias ideias. Quem trabalha sozinho, ou se gaba em ser “auto-didata,” é especialmente suscetível ao perigo de “endogamia intelectual.”  “He that is taught only by himself has a fool for a master” (Ben Johnson). 

Platão teve Sócrates e os desafiantes sofistas; Aristóteles teve Platão e sua turma; Plotino, Amônio Sacco e colegas; Agostinho teve Ambrósio e outros companheiros cultos; Tomás de Aquino, Alberto Magno e os colegas dominicanos, franciscanos e professores do clero secular….e assim por diante. Tomás, de bom escolástico, aprendeu engajar, ativa e respeitosamente, todas as abordagens plausíveis contra suas posições antes de articulá-las (as famosas objectiones). Quem não sabe fazer isso, ou algo análogo, não deveria ser seguido.

–Uma visão diferenciada (digamos, “colorida”) da realidade, sem a tendência a caracterizar as coisas em termos preto/branco. Especialmente desqualificador é a demonização de alguma corrente de pensamento ou de política e a recusa de identificar os elementos bons e positivos sem os quais, no final das contas, ninguém poderia aderir a eles absolutamente. No final das contas, é apenas a partir do bem nas posições a serem atacadas, que o ataque pode prosseguir com acerto e humildade.

–Medida e modéstia nas palavras. Alguém que nunca para de falar – que fala e fala e fala (especialmente possível hoje no mundo da mídia social!), que tem algo a dizer sobre tudo (mesmo coisas sobre as quais sabe pouqíssimo), e que dá a impressão de nutrir um amor exagerado pelo som da sua própria voz, não é um mestre confiável. O Hitler e também os ditadores do comunismo de cunho soviético são famosos pelos seus discursos de horas a fio. Um mestre verdadeiramente sábio será alguém que até prefere o silêncio, e que, pelo menos, costuma calar muito antes de abrir a boca.

Finalmente cabe observar que o apego pessoal a um professor ou mestre, pelo menos nos primeiros meses e anos de aprendizagem, é normal e praticamente inevitável. Começamos nossa vida como crianças com confiança totalmente acrítica em nossos pais, e é bom assim. Mas não é bom uma pessoa que chega na casa de 30 anos continuar viver sob a guarda-chuva dos seus pais e recusar a ganhar sua independência tanto econômica quanto intelectual.

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É a mesma coisa com nossos professores; eles fazem uma contribuição preciosa à nossa formação por um tempo estritamente delimitado, e depois a relação deveria terminar. Teremos que reconhecer que eles são também humanos, que têm fraquezas e que um vínculo permanente de discípulo para com eles só vai prejudicar nosso amadurecimento. Há só uma grande exceção a isso; estou escrevendo este texto na Semana Santa, dedicada aos dias mais silenciosos daquele que é o Verbo em carne. Apenas sete brevíssimas palavras serão proferidas por ele Sexta Feira Santa à tarde. Enfim, Ele é a única personalidade que merece um culto.

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So Much We Don’t See

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Before talking about angels, we should be reminded that a consideration of invisible realities need hardly be arcane, or the subject-matter as “supernatural” as one might suspect. Reflect, for a moment, on a few dimensions of the world we take to be quite real, but cannot pick up with our senses:

1) spatially: there is far more world, more cosmos, out there than your eyes can even approximately capture–immeasurably more. This is true whether we limit ourselves to the expanse of the Earth or include the more than one trillion galaxies currently spotted in our universe. That vast context, though unseen, both contains and conditions what you do see and experience. And these veiled immensities you accept without ever viewing them, and you are right in doing so.

2) chronologically: there are thousands of years of past time–and if we think geologically, millions–which you cannot now experience, or even remember, and yet which have profoundly influenced your world, and all that is in it. Beyond this, of course, lies our unpredictable future, even more out of view. All this you also accept as real (or soon to be so), although it’s never been a part of your sensory experience.

3) scientifically: we accept as a matter of fact that there are quadrillions of atoms buzzing within us and around us, but we can’t see a single one of them. Even light we actually never see in its own right; we see things in light, but the light itself (along with all other forms of electromagnetic radiation) never slips as such into our field of vision. We also promptly answer our cell phones, firmly convinced of the existence of highways of invisible radiation passing between them and our interlocutors.

But nothing drives this home more dramatically than the fact that for decades astrophysicists have been cautioning us that the vaunted conquests of modern science have only shown us about 5% of all the material reality that exists; the other 95%–so-called “dark matter and energy”–still remains largely unidentified. Nonetheless, this invisible world has an enormous impact–as to gravity and acceleration, I am told–on the modest 5% that we do (more or less) understand.

Thus, on a material basis alone, any scientifically enlightened view of reality must concede that beyond the tiny slice of cosmos we are able to perceive, there is incalculably more that is unseen. And despite its invisibility–whether intrinsic or due to circumstance–we tranquilly and confidently affirm its existence.

Now add to all this a fourth, and even more emphatically undisputed fact:

4) Virtually all of known historical cultures and religions have accepted the existence of one sort or another of subtle material or completely immaterial beings, usually of a personal nature. Among countless others, we read of hierarchies of Greco-Roman, Egyptian, Celtic, Nordic, Indian, Chinese, Andean or Meso-American gods, along with sprites, genies, fairies, elemental spirits, kamis and an almost limitless variety of minor deities. Only a small number of traditional skeptics of the past, and (of course) a large number of today’s confessional materialists have ever disputed this. These latter have become quite vocal in the last couple of centuries.

The irony is that contemporary nay-sayers inevitably call on modern science to underwrite this twilight of the gods. But despite their appeals, recent physics is often more skeptical about the solidity of the matter these doubters confide in, than about the reality of the spirits they impugn. And even more telling is the fact that science and faith, contrary to expectations, find themselves joining hands and agreeing on one incontrovertible fact: the totality of all that exists contains far more than what we can see and touch with our senses, explain with our reason, or even detect with our most sophisticated instruments. Far from coddling us in our doubts about spirits, today’s science gives us even less warrant than in centuries past for excluding the angels from our conspectus of reality.

From my forthcoming book, The Other World We Live In, Angelico Press, 2021. Printed with permission.

Melchizedek and the Magi

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Two seemingly peripheral figures in the pages of Scripture look somewhat enigmatic when viewed alone. But they begin to glow with meaning when considered together. In contrast to the two towering protagonists – Abraham and Christ – who stand at the center of the main Old and New Testament stories, these two ostensibly minor figures are totally subsidiary; members, one might say, of the supporting cast. Still, for a few moments, their episodes in the overall narrative almost steal the show.

No one is more decisive for the whole Old Testament story than the patriarch of patriarchs, Abraham. Three world religions are often termed “Abrahamic” because of the founding importance they give to this man and his deeds. Genesis 12-25 tells of grand occurrences in his life, such as his journey to Canaan from Ur of the Chaldees, his battles with formidable foes, the great Promise he receives, the miraculous pregnancy of his aged wife and the mysterious Sacrifice he was summoned to make but prevented from performing – all of these stand in high profile as we meditate upon the man Christians have come to call the “Father of our Faith.”

From Abraham’s loins will come the Chosen People, and for Christians finally the Church. Understanding him to be the great father, the point of departure of the story of salvation, would seem to be compromised by placing anyone else over and above him. However, this does seem to happen in a couple of verses (18-20) in chapter 14:

“And Melchizedek king of Salem brought out bread and wine; he was priest of God Most High. And he blessed [Abraham] and said: ‘Blessed be Abram by God most High, maker of heaven and earth; and blessed be God Most High, who has delivered your enemies into your hand!’ And Abram gave him a tenth of everything.”

No more mention is made of this mysterious figure in the Old Testament. Or almost none. There is an exception in one striking poetic reference in Psalm 110. It is brief, but it blows open the implications of this king/priest who intrudes almost illogically into the Abrahamic narrative:

“…From the womb of the morning like dew your youth will come to you. The Lord has sworn and will not change his mind, ‘You are a priest forever after the order of Melchizedek.'”

Christian theologians have struggled to understand this “order,” this sacerdotal lineage, prior to and thus superior to the Levitical line which still lay in the loins of Abraham. What seemed most logical was to identify Melchizedek as a figure of Christ. That might have been enough. However, the Letter to the Hebrews only adds to the mystery in its chapters 5-7. Anyone who takes the New Testament seriously has to give due attention to what is written there. For example:

“…He [Melchisedek] is without father or mother or genealogy, and has neither beginning of days,  nor end of life, but resembling the Son of God he continues a priest for ever. See how great he is!…” (Hb. 7, 3-4)

Some Hebrew traditions identified him with Shem, son of Noah, whose descendents would indeed include Christ himself. Sounds promising, but unfortunately we know Shem’s geneology all too well, whereas Melchizedek is supposedly without one. Again, some early Christian theologians assumed he was a pre-Incarnational epiphany of Christ himself. But if there is a “pre-Incarnational” Christ at work in the ancient world, this will inevitably open up a number of questions regarding non-Christian religions, most notably the most developed and primordial religions of the East.

From other quarters, esoteric speculations have identified Melchizedek with everyone from Hermes Trismegistus to Enoch and even Zoroaster. Documents are too scarce to confirm or give the lie to any of these identifications. But their variety does give witness to what everyone senses: whoever Melchizedek was, he was extraordinarily important.

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The Biblical dramas – from both Old and New Testaments – do not unfold in Europe. From the beginning to the end they occur in the East, or in what is certainly to the east of the region that will one day be known as Europe. Even Eden was “in the east” (Gn. 2,8), and after the Fall, the cherubim were placed “at the east of the garden of Eden…to guard the way to the tree of life.” (3,24) Of course, St. Paul will venture across the Aegean and finally to Rome, but by then the Gospel drama will have achieved its climax.  Paul was just a courrier of the resultant message. Otherwise, the furthest westward reaches take us only to Egypt – both with the Hebrews themselves before the Occupation and the Holy Family before Nazareth. But few will call ancient Egypt a part of the “West,” however defined.

When surveying the great surges of philosophy and religion that emerged from Greece and Palestine, we don’t always take into consideration the degree of commerce and contact between the eastern Mediterranean and the Persian, Indian and even Chinese worlds beyond. The singularity – indeed, the “exceptionalism” – of both Greek science and art, on the one hand, and Jewish and Christian religion and morals, on the other, can still maintain their profile within the context of a robust east-west cultural osmosis. But the significance of the East has recently moved into new prominence due to modern contact with India and China, and with still evolving research into the common legacies and interactive influences between them and the West.

We are told that Melchizedek was the “king of Salem,” that is “king of peace,” which could mean a particular place or quite possibly a supernatural function. Whether or not Melchisedek actually hailed from east of Canaan, he certainly comes from the fountainhead of all religion, “without father or mother or genealogy,” and in that sense from a symbolic East. When we turn, however, to the Magi in St. Matthew’s Gospel, we stand clearly before representatives of the geographical Orient.

Countries as diverse as Yemen, Saudi Arabia, Iran and even India have claimed them as their own. As always happens with world-changing but mysterious events, traditions and legends have grown apace, with the number of the Magi varying from three to a dozen or more; some will locate the current resting place of their relics near Tehran, others in Cologne. They’ve been given names and grown into integral figures of the Christmas manger scene. Consensus tends to identify them as Zoroastrians from Persia and students of the stars, back in an era in which astronomy and astrology were so interlocked that any separation of the movements and the meaning of the stars was unthinkable. The movements of some of those stars indicated to them that a king was to be born in the west.

These Oriental outsiders were allowed to see and venerate the Messiah before a single Pharisee, Sadducee, Scribe or Priest of the Chosen People could even get close.  And the visit of these men from the East would unwittingly cause the Holy Family to move to the west, to Egypt (thanks to Herod). Decades later, St. Paul would also go west, but the Apostle St. Thomas would go east, all the way to India. With him, followed by subsequent waves of Syrian missionaries, Christianity would bring its graces and grow in Asia long before ever becoming a “European” religion.

Later Portuguese missionaries would change that, of course, and the crucial contributions of St. Paul and then of Greek philosophy and Roman law would enter instrumentally into the formulations and organization of Christian faith throughout the world. But in the East this would only come after more than a millenium of Asian Christianity had told its story to eternity. The now often forgotten Christianity of the East and its legacy is at least as important as the one we Westerners identify as our own. Both Melchizedek and the Magi may have a lot to teach us if we have the good fortune of meeting them in the afterlife. *

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The Lost History of Christianity: The Thousand-Year Golden Age, by Philip Jenkins (HarperOne, 2008) is a good guide to what we have forgotten.

Sobre o meticuloso ritual do Ano Novo

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Até mesmo no Brasil, meu país adotado, onde uma massiva e endêmica impontualidade grassa por onde quer que se olhe, quase todas as almas estarão acordadas, segundos antes da meia-noite de 31 de dezembro, com os olhos colados num relógio. Escrupulosamente farão a contagem regressiva para o novo ano civil. O começo de celebrações religiosas, aulas de escola e compromissos de todo tipo são perdidos por margens de até uma hora (ou mais), mas o começo do novo ano secular é consagrado com uma precisão a toda prova. A diferença entre 23:59 de 31/12 e 00:01 de 01/01 é saudada como uma transfiguração mágica e arrebatadora, enquanto a diferença entre o Advento e o Natal sumiu quase totalmente; e a linha divisória entre a Quaresma e a Páscoa também praticamente desbatou. A difusão virulenta das festividades do Carnaval tem alguma relação com a Quaresma, é verdade, mas a Quarta-Feira de Cinzas com frequência escorrega (assim como o resto do ano litúrgico) dentro da longa sombra da Terça-Feira Gorda.

A razão para isso é simples. Quando a religião declina, a religiosidade permanece – apenas muda de endereço; quando não mais se acredita na transcendência, o mundo imanente torna-se o apoio vacilante do culto e da adoração. Nós esbanjamos com devoção fanática e pontualidade escrupulosa o simples e enfadonho instante da mudança de um 2019 para um 2020. Nem sequer cai no solstício (uma boa semana antes)!

E almejamos o ritual com tanta intensidade, quase como um vício, porque nos falta aquele marcador do tempo no dia 25 de dezembro, quando o Cristo Menino foi deitado na manjedoura pela primeira vez desde o Natal do ano passado (em vez de ter sido visto já com frequência, em cada shopping, desde outubro); nos falta o divisor de águas entre as músicas de esperança do Advento e as músicas de alegria do Natal. E três meses depois, para maioria das pessoas, vai faltar também aquele frio na espinha quando as luzes da igreja se apagam todas e a lumen Christi, em forma de uma única vela, seguida por uma multidão de chamas, entra no santuário para a explosão de luzes na Páscoa. Hoje faltam aqueles momentos transformadores que alimentam a alma, e assim cobiçamos os substitutos seculares.

Quando os dias santos viram apenas dias de folga, nossos instintos religiosos órfãos buscam alhures suas regras e rubricas. Hinos religiosos menos cantados? Que tal um “hino” nacional num evento esportivo, com lágrimas nos olhos? Não se paga mais o dízimo? Ora, declaramos nosso impostos de renda, pontualmente, até a data mágica de 30 de abril. Esqueceu-se de como rezar? Tente alguns chavões do politicamente correto, e observe as cabeças inclinadas em reverência. Ou tente até a blasfêmia (que não passa de uma oração travestida—“Ô meu Deus!” “Pelo amor de Deus!”).

Entenda-me bem, não estou desencorajando as festividades de Ano Novo – pontualidade uma vez por ano é melhor do que nunca, e celebrar o começo do ano solar (ou lunar) é uma tradição antiga que merece respeito. Portanto, ergamos um brinde mesmo. E que tal uma resolução de Ano Novo de remarcar aquelas datas no calendário que vão marcar nossa passagem para eternidade muito mais do que o primeiro dia de janeiro? Ao contarmos os últimos segundos do ano civil, deveríamos nos lembrar – se só por um instante – que um dia estaremos contando nossos últimos segundos na Terra. O fim da nossa brevíssima estadia no mundo vai chegar com uma pontualidade mortal.

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On the Meticulous Ritual of New Year

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Even in my adopted country of Brazil, where a massively endemic unpunctuality rules the land, nearly every soul will be awake, seconds before midnight on Dec. 31, glaring at a clock and scrupulously chanting the countdown to the new civil year. Beginnings of church services, school classes and appointments of all sorts are missed by margins of an hour or more, but the beginning of the new secular year is hit with bull’s-eye precision. The difference between 11:59:59 p.m. on Dec. 31 and 00:00:01 a.m. on Jan. 1 is greeted as a magical and rapturous transfiguration, whereas the difference between Advent and Christmas has all but vanished; and the line between Lent and Easter has faded away as well. The amoeba-like spread of Carnival festivities bears some relationship to Lent, it is true, but Ash Wednesday usually slips (along with the rest of the liturgical year) into the long shadow of Fat Tuesday.

The reason for this is simple. When religion declines, religiosity remains – it just shifts its abode; when transcendence is no longer believed in, the immanent world becomes the shaky support for cult and adoration. Thus we lavish with worshipful devotion and obsessively punctual observance the bland instant in which a 2019 becomes a 2020. It doesn’t even fall on the solstice!

And the ritual is coveted, almost addictively, because we are missing a defining time-marker still inherent in our culture: the cut-off nature of the date of December 25, when the Christ Child is laid in the manger for the first time since last year’s Christmas (instead of being seen in the shopping centers since October), with a neat and dramatic sundering of Christmastide from Advent, and cheerful Christmas songs replacing the longing, wistful Advent tunes sung before the Coming; or, three months later, the chill down one’s spine as a church is totally darkened and the lumen Christi, in the form of one sole candle, enters the sanctuary, followed by dozens of flames in its train. That explosion of light, like a sudden sunrise, begins the Easter vigil. All these soul-filling moments are gone, and accordingly, we lust after secular surrogates.

When holy days become holidays, otherwise uplifting days become “days off,” and our orphaned religious instincts look elsewhere for their rules and rubrics. Religious hymns no longer sung?  How about a national anthem at a sports match, with hands on heart and tears in the eyes (in Brazil, they are actually called national hymns). Tithes all gone?  Let’s declare our income tax before the mystical date of April 30. Forgotten how to pray?  Try intoning one of the politically correct buzzwords of our day and watch the heads bow in reverence. Or maybe blaspheme a bit (after all, it’s just prayer in drag; how many times do you hear “Oh my God!” during the week?).

Now I am not discouraging New Year’s festivities – once-a-year punctuality is better than never (speaking here especially to Brazilians), and the solar (or lunar) year’s inauguration is a hoary tradition that deserves respect. So let us lift a glass indeed. But as we countdown the last gasps of our civil year, let us briefly recall that one day – soon – we will be countdowning our own last gasps, and all those neglected holy days of the year will prove to have been far better training for that final transition than the confetti and champagne of January 1. This New Year could possibly be our Last Year, and our connection with lasting things be far more vital than our distracting innovations. Even though we propose to hail the new and to salute the promises of the future, we are still haunted by the perennial and ancient. “Auld Lang Syne,” after all, simply means “long, long ago.”

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Festa da Família Inquieta

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Cada vez que celebramos a Festa da Sagrada Família, lembro-me de minha viagem ao Egito, há tantos anos, e das visitas a alguns dos vários lugares dedicados pelos cristãos coptas àquela Família. A fuga para o Egito (mencionada apenas por São Mateus) recebe alguma atenção da arte cristã, e é até contada como uma das Dores de Maria na tradição católica. Mesmo assim, é bastante negligenciada pela igreja ocidental – ao menos quando se a compara com a importância que, previsivelmente, teve no Egito. Não menos de 14 lugares egípcios comemoram aquela visita com capelas e igrejas. Elas marcam os locais de pouso ou as residências temporárias da Sagrada Família, enquanto seguiu os passos daquele outro José que entrou no Egito (igualmente constrangido, contra sua vontade), mil e quinhentos anos antes. No devido tempo, esta Família seguiria também os passos de Moisés fora do Egito. Porém, neste caso, em vez de buscar a Terra Prometida lá além do Mar Vermelho, ela levaria a promessa consigo, no Menino Jesus.

A doce paz da cena da manjedoura pode nos pôr a dormir num conforto decepcionante. Todos nós amamos estar “em casa no Natal,” mas a ocasião do nosso feriado é a comemoração de um desabrigo dos mais cruéis. O estábulo sujo e os animais fedentes são circundados com luzinhas de Natal em nosso presépios, no que foi apenas um abrigo temporário para esses três fugitivos. É muito fácil esquecermos a agitação que se seguiu à inesperada gravidez de Maria, e o massacre dos inocentes provocado pelos três astrólogos orientais, que apenas perguntavam sobre o paradeiro de Belém. Os anos da Sagrada Família no Egito – os coptas contam sete – assim como os quatro séculos da longa estadia de seus ancestrais, devem ter sido mais formativos do que se imagina.

Jesus teria começado a falar nas terras do Nilo, e algumas das primeiras vistas captadas pelos seus olhos jovens teriam sido pirâmides e templos faraônicos. Quando a segurança permita, os turistas de hoje amam fazer um tour dos monumentos exóticos do Egito e maravilhar sobre essa cultura que gerou toda uma ciência (egiptologia). Contudo, para Maria e José, devia ter sido mais assustador do que fascinante. Quais pensamentos deviam ter passado pela mente do Menino Jesus quando sua memoria inocente ficou armazenada com essas imagens da terra misteriosa dos faraós. Mas de alguma forma faz sentido. Como os judeus se tornaram um povo no Egito, e o Velho Testamento se tornou um livro na Babilônia, aqui também parece que, muitas vezes, Deus faz o seu “melhor trabalho” quando seus escolhidos se acham no exílio.

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Feast of the Restless Family

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Each time we celebrate the Feast of the Holy Family, I am reminded of my trip to Egypt, several years ago, and the visits I paid to a few of the multiple Coptic Christian sites dedicated to that Family. The Flight to Egypt (only mentioned by St. Matthew) does receive abundant attention from Christian art, and counts as one of Mary’s Sorrows in the Catholic tradition. It is otherwise somewhat overlooked in the Western church – at least if one is to judge from the prominence it predictably achieved in Egypt. No less than 14 Egyptian sites commemorate that momentous visit with chapels or churches. These mark the resting spots or temporary abodes of the Holy Family as they followed that other Joseph who had also entered Egypt against his will, one and a half millennia before. In due course, they would also follow Moses out of it, although this time they would be carrying the Holy Land with them, in the Child Jesus, rather than looking for it on the other side of the Sea of Reeds.

The sweet peace of the manger scene can lull us into a deceptive comfort. We all love to “be home for Christmas,” but the occasion of our holiday is the commemoration of a homelessness of the most cruel variety. The dirty stall and smelly animals we festoon with colored lights in our domestic manger scenes served as a brief and temporary shelter for these three fugitives. We easily forget the turmoil that followed upon the unexpected pregnancy, and the massacre of innocents brought on by three Eastern star-gazers only asking directions to Bethlehem. The Family’s years in Egypt – the Copts count seven – like the four centuries of the long sojourn of their ancestors, must have been more formative than we tend to imagine.

Jesus would have started to talk in the land of the Nile, and some of the first sights caught by his boyish eyes would be pyramids and pharaonic temples. When safety permits, today’s tourists love to tour Egypt’s exotic monuments and marvel at this culture that has sired a whole science (egyptology). But for Mary and Joseph it must have been more foreboding than fascinating. What thoughts must have gone through the mind of the boy Jesus as his young memory was stocked with these images of the mysterious land of the pharoahs. But somehow it all makes sense. As the Jews became a people in Egypt, and the Old Testament became a book in Babylonia, here too it seems that God often does his “best work'” when his chosen ones are in exile.

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