Protologia e escatologia em miniatura

Muitos acham a Bíblia inacreditável, entre outras razões, porque o início é tão “mitológico” e o fim tão bizarro. Em outras palavras, vêem no início de Gênesis (que contém a protologia bíblica, ou seja o relato sobre origens–do universo, do homem, do mal e da salvação) nada mais do que uma de várias versões da mitologia fantástica da antiguidade; e no Apocalipse (que contém–juntamente com os discursos de Jesus sobre o fim do mundo–o relato sobre as “ultimas coisas,” ou seja a escatologia bíblica) nada mais do que uma fantasmagoria incoerente que reflete as trances delirantes de um louco, ou as viagens psicodélicas de um hippie avant la lettre.

Existem, porém, mesmo em nossas modestas vidas individuais, três profundezas que jazem (adaptando uma frase de Tomás de Aquino) procul a cognitione (longe do nosso conhecimento): elas são 1) nossa própria origem individual, 2) as profundezas presentes em nossa alma e 3) o nosso iminente fim vindouro.

Existimos sem lembrança do evento mais originante da nossa própria existência: a nossa concepção; no entanto, foi altamente importante para todo o curso da nossa vida, para dizer o mínimo. Também os nove meses no seio da nossa mãe, e aquele evento traumático que nos expulsou daquele paraíso temporário, nosso nascimento (e também tantos meses após nossa entrada no mundo)–de tudo isso, nossa memória carrega, na melhor hipótese, apenas alguns ecos no inconsciente.

A principal certeza que possuímos sobre esses eventos é a tradição oral provindo dos nossos pais. E mesmo assim, os eventos foram muito misteriosos para serem simplesmente contatos em termos biológicos; ao invés de explicações envolvendo células e sexo, ouvimos estórias sobre cegonhas, ou um Deus presenteando bebês como Papai Noel. Mas foi suficiente. Assim começamos a entender o sentido da nossa origem, sem pormenores biológicos. Mesmo quando, como adultos, aprendemos sim os detalhes sobre os pássaros e as abelhas, o assunto não virou menos mas até mais misterioso!storkÉ assim que a Bíblia também conta sobre a origem de todas as coisas–algo procul a cognitione. Mas o relato em Gênesis 1-3 comunica perfeitamente bem o sentido da criação do mundo, do ser humano e do começo do grande drama que é a nossa história. Agora, neste momento daquela história–quando ouvimos físicos falando sobre o Big Bang e biólogos evolucionistas nos apresentando uma “Eva mitocondrial,” (entre outras novidades sobre cosmogênese e origens humanas)–mal detectamos algo que fala sobre o sentido da nossa vida, seu valor ou seu propósito.

Quanto ao outro extremo–nossa morte e passagem para o além–enfrentamos também uma experiência única e misteriosa (ver meu ensaio, Paisagens e períodos póstumos). Embora que presenciamos mortes de outrem, nunca podemos antecipar plenamente essa transformação como será para nós mesmos. Sendo também procul a cognitione, usamos imagens e símbolos para esboçar, remotamente, um vislumbre daquilo que se aproxima de nós cada dia com passos deliberados. reaper

É desse modo que a Bíblia também trata esses eventos vindouros. Usa símbolos, mas também às vezes eventos históricos próximos que desempenham o papel de símbolos para um análogo evento na escala global. Por exemplo, muitas profecias de Jesus e do Apocalipse dizem respeito, acima de tudo, não ao fim do mundo, mas antes ao fim (à destruição) do Templo em Jerusalém e da pequena nação judia (AD 70 e 135). Isso já equivalia a um “fim do mundo” para muitos judeus. No entanto, também esses fins foram prefigurações pelo fim do universo na sua totalidade.

Há tantos mistérios que nos aguardam no momento–e, segundo as tradições mais sintonizadas com o mysterium mortis: momentos–da nossa “passagem.” As profundezas da morte e os múltiplos pórticos ao além-túmulo, repousando lá num futuro indiscernível–o qual, mesmo se cronologicamente perto, fica experiencialmente longínquo–não são menos profundas do que os mistérios fundantes da nossa existência e do nosso drama no passado. Mas todas essas funduras acham suas últimas raízes em nosso peitos.

A terceira profundeza–aquela que se mergulha no nosso interior também aqui e agora, no presente–é o mundo insondável da nossa alma nas suas dimensões espirituais. Também é pouco conhecido e assim procul a cognitione. Agostinho chegou a ver nas palavras da Sagrada Escritura, mesmo carecendo aquela eloquência que ele amava em Cícero e Virgílio, uma porta inigualável.

Estranhamente teve o lintel baixo (linguagem simples, direta, porém também ressonante em todas as direções), forçando quem quiser passar por ela a curvar-se; porém, uma vez dentro, descobrirá um salão com teto altíssimo. O preço do ingresso?–só humildade e um genuíno amor, pelo menos em germe. É possível superar as hesitações daqueles que acham o início e o fim da Escritura “mitológicos” ou bizarros, porque já descobrimos que nosso próprio início e nosso próprio fim não são menos difíceis de explicar; também são igualmente passíveis de narrativas pujantes e expectativas inéditas. Talvez com nenhuma parte da Bíblia (com excepção dos Evangelhos) podemos sentir as nossas próprias profundezas ressoar tanto quanto nos primeiros capítulos do Gênesis e no texto oracular do Apocalipse.depths soul

Agostinho também começou com um guru, mas progrediu (então há esperança para gente!)

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Durante os quase nove anos em que meu espírito errante deu ouvidos aos maniqueus, esperei ansiosamente a vinda de Fausto. Os demais adeptos, com os quais me encontrava casualmente, embaraçados com as objeções que eu lhes fazia, remetiam-me a ele que, à sua chegada, com uma simples entrevista resolveria facilmente todas aquelas dificuldades, e ainda outras maiores que me ocorressem, de maneira claríssima.

Logo que chegou, pude notar que se tratava de um homem simpático, de fala cativante, e que expunha os temas comuns dos maniqueus, mas com muito mais agrado que eles. Mas, que interessava à minha sede este elegante copeiro de copos preciosos? Eu já tinha os ouvidos fartos daquelas teorias, e nem me pareciam melhores por serem expostas em melhor estilo, nem mais verdadeiras pela elegância de suas formas; nem eu considerava Fausto mais sábio por ter o rosto de mais graça e sua linguagem mais finura. Aqueles que mo haviam recomendado não eram bons juízes: tinham Fausto como homem sábio e prudente somente porque lhes agradava sua facúndia.”  Agostinho, Confissões, V, 6

 

Angels and the City

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According to Scripture, our first explicit encounter with the angels was after the expulsion from Paradise. We faced the Cherubim with their burning swords standing at its gate. We were no longer welcome. Between us and Paradise these august spirits flourished the “word of God … living and active, sharper than any two-edged sword, piercing to the division of soul and spirit, of joints and marrow, and discerning the thoughts and intentions of the heart.” (Hb. 4,12) This should give us pause to reflect upon Paradise and the angels, and our relationship to both.

The Garden of Eden was planted by God “in the east.” (Gn. 2,8) It was to be the place for man to “grow and multiply, and fill the earth, and subdue it.” (1,28) The symbolic “east” suggests that we were created close to our origin, God – theologically put, in the state of grace. Through the ensuing trial of our love, God planned to accept us into the fullness of his glory that we might “dwell with him.” But this abode would have to be freely chosen by submitting to God’s will regarding the mysterious Tree of Knowledge. It would not be forced upon us. We know only too well the outcome of this trial, but let us consider the Garden for a moment. We were driven from it, but – and this is the good part – the rest of sacred history is, to a large extent, the account of how God has managed to reconfigure our relationship to him, and to this his dwelling-place.

The river of grace that flowed “out of Eden to water the Garden” (Gn. 2,10) divided into four rivers. (It bears reminding that here, early in Genesis–as will also be the case late in the New Testament, in the Apocalypse–that we are in the presence of events and realities so primordial, or in the Apocalypse, so eschatological, that only symbolic and “mythical” language can venture near them. But unlike most myths and symbols of the pagan world, what are referenced here are concrete times and places, and truths as solid as those of history. They are just too distant and unfamiliar to be described in literal terms.)

Thus, God’s first home for us was to be a Garden bounded by four symbolic rivers. We still live by preference in four-sided houses and rooms; we still speak of the four directions, the four elements, the four moral virtues, the four temperaments, and so on. God’s grace had originally constituted us in a state of perfect order and harmony, symbolized by this Garden of four rivers, supernaturally surrounding and sustaining our natural, quaternal structure.

After having proven our love and obedience by following the divine ordinance regarding the Tree of Knowledge, we would eventually have been admitted to the inner sanctuary of his glory. We would have joined the highest angels in a life of praise inconceivable to our minds today. But that plan was frustrated, and by the willful interference of our own disobedience. We foolishly chose to “understand” evil by doing it. But doing evil brings darkness, not light. Only a saint can understand sin. As Fulton Sheen once said, there is only one thing on earth you don’t learn more about through experience, and that is sin.

The infinite God, however, is not easily frustrated. After our fall from grace, he immediately opened the stores of a divine “reserve plan.” Thus began the much longer, but to all appearances, much more glorious design of our Redemption and Sanctification. The promise regarding Mary has already been mentioned. We shall now pick up the story where it foreshadows the rebuilding of a created sanctuary where God’s majesty can once again dwell. This would be our only hope to finally get past those sharp, Cherubic swords. The sanctuary will evolve through history in stages of progressive blueprints, from the Ark of Noah to the Ark of the Covenant, from the Tabernacle in the desert to the Temple in the city, from what will come to be known as the Church, and then on to its consummate configuration in the New Jerusalem.

When we fell, and the Cherubim stood suddenly and sternly at the gates of our lost home, that home itself seemed to withdraw into the sky. Some mystics claimed to have sighted it on a high mountain. Dante put it in the Southern Hemisphere, still imagined as a highland of sun and treasure to the medieval mind. It may be more theologically coherent if we simply picture it as withdrawing into the choirs of the angels, out of reach of all our towers of Babel. (Gn. 11) The Earth is too fragile for glory quite yet. After all, we were left “to till the ground from which we were taken” (Gn. 3,23), that is, the state of material nature, and a wounded nature at that.

High in the choirs of angels, the former Garden of Paradise is being refashioned, so to speak, into the future Holy City, the New Jerusalem. One day it will descend upon the earth as the final dwelling place of God with his creation. Much of the language used is of course figurative. The “descent” of the City may simply refer to the progressive sanctification and transformation of the world as we know it. Cosmic annihilation does not figure in God’s plans. The cosmos will be changed, but certainly not destroyed. “For the creation waits with eager longing for the revealing of the sons of God; for the creation was subjected to futility, not of its own will but by the will of him who subjected it in hope; because the creation itself will be set free from its bondage to decay and obtain the glorious liberty of the children of God. We know that the whole creation has been groaning with labor pains together until now.” (Rm. 8, 19-22)

We read about that final consummation at the very end of the last book of the Bible: “Behold, I make all things new.” (Apoc. 21, 5); and “Behold, the dwelling of God is with men.” (23,3) That celestial metropolis, full of angelic occupants, is glimpsed at times by the prophets of the Old Covenant under other figures, such as the “Chariot of God.” (cf. Ezekiel 1) But long before it begins its symbolic descent, “coming down out of heaven from God” (Apoc. 21,2), we, in the meantime, are being primed for our new habitat. By following instructions on building small dwellings on earth – as if in miniature imitation of that celestial abode – we begin to relearn what it means to dwell with God.

With the building of Noah’s ark (Gn. 6), a dimly perceived historical fact rises before our eyes, still nestled in the symbolic ambience of the first eleven chapters of Genesis. Here is the first post-paradisiacal dwelling place for God’s children. But it is still, like the primordial chaos (Gn. 1,1-2), “moving over the face of the waters.” Only with Abraham (Gn. 12ff.) does the promise of solid land give assurance that the divine dwelling will indeed gain new foothold in creation.

Later on, God will say to Moses: “Make me a sanctuary, that I may dwell in your midst.” (Ex. 25,8) And on Mount Sinai, Moses is shown the archetypal dwelling in heaven that is to be the model for the tabernacle on earth. “And you shall erect the tabernacle according to the plan for it which has been shown you on the mountain.” (26,30) Accordingly, instead of the four rivers, we have the four sides of the tabernacle; later with Solomon, the four-sided Temple of Sion will become the great Old Testament mock-up of God’s future dwelling among men. The whole of the Old Testament Covenant revolves around this divine architecture and the exercize of the cult God ordains to be performed within it.

Through its infidelity to the Law and its whoring after false gods, the Chosen People will largely be unable to recognize Christ as Emmanuel, God-with-us. They will collaborate in destroying him and his body as thoroughly as the Roman Emperor was to destroy the actual Temple of Jerusalem in the year 70. But before Our Lord entered the Passion and submitted to this death, he had taken his Apostles into the four-walled room of the Cenacle and instituted the Sacrifice of the New Covenant in his Blood. That first Christian assembly became the model for all the churches to come, and the true successor of the Temple of Jerusalem.

Here, through the Eucharist, God was to be present in an altogether new way. By now entering the temple of the human body–with its four humors, four temperaments, four members and a soul destined to perfection in the four moral virtues–the final preparation for God’s definitive dwelling among men was underway. His mysteriously glorified body was to be made even more mysteriously present in the new “showbread” (Ex. 25,30) of the Christian liturgy.

The Church and its greatest treasure, the Holy Eucharist, continues and perfects the work of the Tabernacle in the desert and the Temple in Sion. All these were new terrestrial dwelling places for the God who had been banished from his own creation by sin. But the Holy Eucharist, which is Christ himself, is the definitive building block for his final and Apocalyptical dwelling in the coming new creation.

Cherubim stood with their “flaming swords which turned every way” at the gates of Paradise. Cherubim were also carved at the two sides of the Mercy-Seat in the Temple, there where God spoke to man. (Ex. 25, 18-21) The Mass too begins with the sword of the word, in which God speaks to man in the Liturgy of the Word. But now, with Christ we can pass right through the sword’s edge of those words into the intimacy of the sanctuary. We can turn with confidence to the angels in the Preface (“with angels and archangels”)–although, significantly, only lower angels, below the Cherubim, are mentioned–as we pass on to the Consecration.

Likewise, before the Church receives the full perfection of the New Jerusalem, she too will have to turn to the angels in the mysteries of the Apocalypse. And that means experiencing Our Lord’s promise that “he will send out the angels, and gather the elect from the four winds, from the ends of the earth to the ends of heaven.” (Mk. 13,26) And as for the purification, he insists that it is the angels who will perform these last works of his Church’s cleansing and “gather out of his Kingdom all causes of sin and all evildoers.” (Mt. 13,41)

The entire book of the Apocalypse can be seen as a working out of the Paschal Mystery of Christ’s suffering, death, and Resurrection on the global level. The whole Church suffers the full fury of hell, apparently dies, and then, suddenly, rises from the dead just as dramatically as did Jesus on Easter Morning. But this time it is his whole Mystical Body that rises:

“Then I saw a new heaven and a new earth; for the first heaven and the first earth had passed away, and the sea was no more. And I saw the holy city, New Jerusalem, coming down out of heaven from God, prepared as a bride adorned for her husband; and I heard a loud voice from the throne saying, ‘Behold, the dwelling of God is with men’. . . And he who sat upon the throne said, ‘Behold, I make all things new.’” (Apoc. 21, 1-3,5)

We have already seen how angel, man, and material creation each have their part to play in the new order of creation. The very measures of the Heavenly City’s walls are, in the words of Scripture, “a man’s measure, that is, an angel’s.” (Apoc. 21,17) If it’s the same measure, either humans will have become more angelic, or angels more human (or both). At the very least, man and angel will have united in their common praise of Christ, and the voices of the material creation will likewise be ingathered into the fullness of that praise.

From my forthcoming book, The Other World We Live In, Angelico Press, 2021. Printed with permission.

O sábio e o gnóstico (1ª parte)

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Entendemos por sabedoria uma visão verídica e aberta que versa de certa forma sobre a totalidade da realidade, tanto em termos teóricos quanto morais, e que seja, segundo a expressão de Platão, “sinótica,” vendo as coisas nas suas mais íntimas conexões. A tradição cristã ensina que ela existe em três modalidades em ordem ascendente: sabedoria filosófica, sabedoria teológica e sabedoria mística. Sobre elas, falaremos mais na segunda parte deste ensaio. Tentativas de separar as três, ou até de reduzi-las a uma só delas, resultam em toda uma série de confusões conceituais e até (segundo as ortodoxias semíticas) heresias. Eminente entre estas é o gnosticismo.

Embora que suas manifestações sejam proteicas, evidencia-se sempre com algumas características típicas: estas podemos destacar nitidamente, conquanto sumariamente, da sabedoria propriamente falando. É o que proponho fazer aqui. Muitas vezes pessoas bem-intencionadas nem sabem que estão seguindo um mestre ou uma filosofia que se comprometeu – pelo menos no espírito – com teses ou tendências gnósticas. O embuste é que essas teses são muito adeptas de camuflagem. Vivemos em um mundo repleto de ofertas de iniciação gnóstica das mais variadas. Por isso precisamos investir primeiro no trabalho de cortar pelo matagal delas; só depois poderemos enxergar a clareira sapiencial, e identificar seu caráter triádico.

A palavra grega, gnosis, é simplesmente um de um punhado de vocábulos que significam conhecimento (alguns outros seriam theoriaaisthesisepistemedoxa, cada um com um viés especial). A palavra gnosis é o termo de uso geral, como nosso “conhecimento.” Ocorre mais de 25 vezes até no Novo Testamento, e só uma vez em sentido pejorativo (mais sobre isso depois). Português, aliás, também tem outros termos mais específicos para conhecimento, como teoria, percepção, ciência, opinião, intuição, etc.  De fato, cada idioma terá sua coleção de palavras cunhadas para tentar capturar a natureza fugaz dessa realidade que chamamos conhecimento, e de itemizar suas espécies.

O termo grego, no entanto, foi de certo modo “sequestrado” por algumas correntes filosóficas/religiosas dos primeiros séculos cristãos. Mesmo quando se colocaram em contraposição à Igreja Cristã, quase sempre se entenderam como uma radiografia das verdades esotéricas do cristianismo, encobertas pela igreja oficial. Esta gnosis desmascarada foi vista simplesmente como o âmago profundo da mensagem de Cristo, abaixo das aparências dos credos e ritos (o que foi o caso com o famoso Valentino). Os gnósticos tentaram efetivar um isolamento de certo tipo do conhecimento, “destilando” ele das demais fontes de cognição que ficam atreladas tanto aos credos teológicos, quanto às fontes de conhecimento filosófico: os sentidos e o senso comum, como também outras dimensões da experiência humana (em particular, a volitiva e a emocional).

*** Cabe observar, na defesa de pelo menos alguns gnósticos, que embora que o credo e as crenças rudimentares do cristianismo já foram bem articuladas, a teologia cristã não existia em uma forma definida e sistemática no segundo e terceiro séculos. Alguns gnósticos simplesmente tentaram montar uma reflexão racional, ou seja teológica, em cima dos artigos da fé. Não podiam aproveitar dos esclarecimentos dos concílios ecumênicos dos séculos vindouros, nem dos escritos dos capadocianos, do Agostinho, nem falar dos escolásticos posteriores. Então, não é o caso de simplesmente desprezá-los. Todavia, ideias têm consequências. A Igreja achou certas ideias deles necessitadas de correção por terem consequências menos desejáveis para quem quiser abrir-se à verdade. São as ideias gnósticas e não as pessoas que criticamos em seguida. ***

Este conhecimento “espiritual e transformador” foi apresentado como um tesouro esotérico tanto sagrado quanto segredo – mas um tesouro possuído exclusivamente por certos escolhidos e depois transmitidos a outros apenas através de certos cursos de longa duração ou por ritos iniciáticos. Na esperança de incorporar cristianismo nessa doutrina, Cristo foi apresentado sim como alguém enviado pelo Deus supremo, porém não para salvar o homem na sua totalidade alma e corpo, e do mundo em que ele vive, mas antes para resgatar seu espírito interior da matéria e do domínio do “outro deus,” que foi responsável pela produção do mundo físico: o Demiurgo (por vezes identificado como o Yahweh do Antigo Testamento).

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Os estudiosos, em grande parte, rejeitam a ideia de um único movimento, mas vêem o “gnosticismo” – a denominação é moderna – como “termo guarda-chuva” para várias tendências e ideias que circulavam dentro e fora do cristianismo primitivo. Na verdade, constitui um paradigma permanente para a reflexão humana, surgindo repetidamente na história.

Para o gnóstico, o conteúdo da gnosis ensinada de certa forma espelha, objetivamente, uma luzinha espiritual que jaz, subjetivamente, nas profundezas do ser humano. O paradigma do projeto gnóstico manifesta-se em vários tipos de esoterismo (cristão, judeu e islâmico), mas também, mutatis mutandis, no hermetismo, catarismo, platonismos renascentistas, Rosa Cruz, Maçonaria, Teosofia, Antroposofia e perenialismo, para mencionar só os mais conhecidos. Também algumas das religiões organizadas se apresentam, explicitamente, como detentores dessa chave de harmonização de todas as tradições: em certo sentido o próprio Islã, mais evidentemente no Mormonismo e no Bahaísmo. Porém, se seita esotérica ou religião mais organizada, pretendem oferecer uma única cachaça destilada de uma multidão de bebidas fermentadas aparentemente diferentes.

O maniqueísmo, ao qual Sto. Agostinho aderiu por uns nove anos, é uma articulação especialmente bem sucedida, embora que diferente em alguns detalhes. Não obstante, a orientação geral fica gnóstica segundo os parâmetros que esboçaremos aqui. O interesse nessas correntes ganhou um enorme estímulo pela descoberta, em 1945, de manuscritos gnósticos que remontam pelo menos ao séc. 4º d.C., em Nag Hammadi, no Alto Egito. Embora que essa considerável “biblioteca Nag Hammadi” abriu novos caminhos de pesquisa na interpretação dos textos sobreviventes, possibilitando uma descrição mais diferenciada de várias correntes de pensamento e mística, o cerne do gnosticismo estudado ficou inalterado nos seus traços fundamentais.

Semelhante ao caso dos Manuscritos do Mar Morto, descobertos pouco tempo depois, muitos especialistas da época proclamaram que os achados iriam mudar para sempre nosso entendimento, tanto do Antigo Testamento neste caso, quanto do Novo pelas descobertas egípcias. Agora mais de 70 anos depois, o consenso dos eruditos se distancia cada vez mais das declarações precipitadas dos primeiros anos. (ler Philip Jenkins: http://www.asor.org/anetoday/2017/10/revolutionary-biblical-discoveries)

Vamos isolar apenas três aspetos que parecem imprescindíveis para entendermos a natureza dessa ideologia/filosofia/teosofia tão tenaz na história dos últimos dois milênios. Ceteris paribus, achamos essas características in todos os variantes:

1) O aspecto ponerológico/cosmogônico (ou seja, o que diz respeito à natureza do mal, e à origem do cosmos – no gnosticismo, inextricavelmente ligadas):

Uma orientação gnóstica propõe uma resolução do problema do mal através de sua identificação com uma realidade substancial, seguido por uma narrativa sobre o processo cosmogônico que a produziu. O mal não é, como os cristãos iriam dizer, uma privação do ente; tudo ao contrário, é algo. Esta positividade do mal possibilita aquilo que, na tradição cristã sempre foi visto como impossível: um verdadeiro conhecimento do mal. Na revelação cristã, o mal e o pecado carecem de “razões,” e por não serem entidades criadas por Deus (e só existem entidades criadas por ele!), carecem uma coerência ontológica capaz de ser objeto de autêntico conhecimento. Fulton Sheen amava dizer que o pecado é a única coisa no mundo no qual você não aprende mais por experiência.

Em nosso mundo cognitivo, a única referência indireta ao mal é como negação de algo bom (como doença não faz sentido senão como negação da saúde). Mesmo assim, a força da verdade permitiu que até essa ponerologia acabou evidenciando um certo elemento verídico, porque na visão gnóstica o mundo realmente real é aquele da luz, da plenitude (pleroma), o mundo puramente espiritual, e a matéria é vista com carecendo essa realidade. De certa forma, é também uma privação. Mas esse restinho da verdade não goza de um pleno aproveitamento no sistema, uma vez que a matéria é palpavelmente presente como algo positivo e acaba sendo identificado com o mal; ou, em outras formas, o mundo humano visível é também palpavelmente real. 

Para o gnóstico, “o conhecimento do bem e do mal,” longe de ser um fruto proibido ou uma maldição, torna-se uma conquista almejável e um norte “esotérico” para nossa conduta. Uma grande parte dos gnósticos antigos viram essa existência má na matéria física mesma, especialmente na carne. Mas um gnosticismo moderno (identificado por vários analistas do mundo contemporâneo, como Balthasar, Voegelin e O’Regan) exibe uma análoga tendência em ideologias que restringem essa identificação a um povo, uma raça, uma filosofia, uma orientação política, etc., como essencialmente e irremediavelmente malvado. Em suma, proponentes de qualquer versão de “demonologia secular” também fazem parte dessa orientação metafísica do gnosticismo.

Demonizações da direita pela esquerda, ou da esquerda pela direita, por exemplo, caiem nessa confusão. No cristianismo existe essa divisão moral “a preto e branco” apenas no mundo angélico, e até lá, a influência dos anjos caídos entre os homens fica sempre limitada, e mesmo “aproveitada,” pela providência divina. A maldade humana é sempre variável e promíscua, a única linha divisória douradura, segundo a imagem famosa de Soljenitzyn, sendo aquela que passa pelo coração de cada um de nós. Isso nos leva à segunda característica. (Mais sobre o mal em breve.)

2) O aspecto antropológico:

Para o gnóstico, a situação do ser humano é sui generis em relação a esse mal. O homem acha-se circundado, ou até emprisionado nesse ambiente ou elemento mau. Mas porque toda a nossa cultura e pensamento parecem indicar algo mais do que material em nossa constituição, os antigos gnósticos falaram de nosso espírito como uma faísca imaterial que tinha caído da ordem divina e ficou cativada dentro do corpo humano e seu mundo. Há toda uma literatura fantástica para explicar – de formas bem diferentes e às vezes contraditórias – como essa “queda” aconteceu. Naturalmente, o gnóstico vai interpretar o pecado original segundo este esquema.

Em vez de pertencer à essência humana, o corpo e seu mundo são vistos como prisões ou opressores, e a salvação alcançável unicamente por uma fuga da prisão. A libertação seria viável apenas através de uma penetração no interior, camada por camada, rumo a essa faísca. Passando da nossa corporeidade para nossos níveis “psíquicos” (súteis), e de lá para nosso “espírito,” seguem os passos do nosso progresso iniciático. A linguagem de “camadas,” ou “níveis,” já deixa transparecer o espírito gnóstico. Desde que não é todo mundo que vai conseguir completar essa viagem até sua consumação no coração, existem gradações de gnósticos: aqueles hílicos (“materialistas,” mal transcendendo o corpo); aqueles psíquicos (chegando a algumas intuições); e os poucos pneumáticos (“espirituais,” os realizados).

No cristianismo, o acesso “democrático” à salvação, à graça, e até à sabedoria sempre foi um elemento alheio ao espírito gnóstico. Na visão gnóstica, esta porta aberta a todo mundo podia ser entendida só como um portal para os hílicos. Haveria portas clandestinas para os mais avançados. No cristianismo há estágios de crescimento também, e existe uma peregrinação espiritual para todo mundo (as famosas vias de purgação, iluminação e união), mas tudo isso progrede em continuidade expressa com o credo, o código moral e o culto que aprendemos como crianças. A fé mostra o caminho do amor, e os dons do Espirito Santo elevam as virtudes até a meta: a perfeição no amor. Então, qual é, concretamente, o caminho da salvação para um gnóstico?

3) O aspecto soteriológico:

O gnóstico insiste sobre um certo tipo de conhecimento como unicamente libertador (ou seja, fonte de “salvação”), e certos mestres e métodos unicamente capacitados para dar acesso a ele. A passagem decisiva não é entre pecado e conversão, e sim entre ilusão e iluminação. A exigência cristã sobre o fundamento imprescindível da humildade e a meta suprema do amor, falta, ou fica seriamente re-interpretada em termos cognitivos.

Para o gnóstico, é o conhecimento que ocupa o orgulho do lugar – não a humildade e não o amor. Só pessoas “intelectualmente qualificadas” podem oferecer a iluminação cognitiva que revela a natureza desse mal e, em seguida, métodos apropriados para liberar sua faísca enterrada das garras da materialidade (ou, nas formas modernas, do controle de grupos humanos identificados como malvados). Esses mestres vão fazer o máximo para vincular seus seguidores à sua pessoa, e caracterizar outros possíveis fontes de guia como parte do mundo escuro e confuso. Tais mestres não são identificados pela sua humildade ou seu amor, mas apenas pelo poder do conhecimento (“knowledge is power,” como declarou Francis Bacon).

Típico também é uma tendência de confluir a noção de consciência (psicológica) com a de conhecimento, apresentando “níveis de consciência” mais altas como metas de uma libertação progressiva. Idealmente você chegaria a uma fundição da sua consciência e seu conhecimento em uma gnosis unificadora e soteriológica. Um exemplo de um proponente de uma teoria “integral” para unificar psicologia e espiritualidade (entre outras coisas), é o famoso guru do New Age, Ken Wilbur, que propõe 11 níveis ou camadas de desenvolvimento pessoal. Os seguidores de Wilbur são inúmeros, entre eles muitos profissionais e famosos. (https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_integral_thinkers_and_supporters)

O uso predominante de símbolos e mitos é especialmente marcante em movimentos ou filosofias de inspiração gnóstica (o que David Bentley Hart chama de uma “incontinência mitopoética”). Há uma insistência marcante sobre a importância da simbologia. O cristianismo, em contraste, coloca seu mistério fundamental (a Encarnação) dentro da história e em um lugar particular. A comunicação da verdade no imaginário cristão é tipica e necessariamente a imagem, e não o símbolo. (ver meu post Imagens e símbolos) Não obstante, símbolos desempenham um papel também na fé cristã, como em todo conhecimento humano, mas na teologia e na arte sacra esse papel é rigorosamente subordinado às imagens. Isso porque os mistérios se manifestaram em espaço e tempo reais, concretos e criados. Quem coloque a simbologia cristã acima da iconografia cristã já tem pelo menos um pé no gnosticismo.

A ênfase bíblica e cristã na historicidade dos eventos chega até dentro do seu uso do gênero do mito. A linguagem simbólica e mítica – o mito sendo, em certo sentido, uma narrativa composta de símbolos – é usada para evocar eventos reais no passado remoto (criação do mundo, primeira queda do homem, etc.) ou em um futuro ainda além da descrição histórica (eventos escatológicos e apocalípticos). No entanto, esses dois extremos são entendidos como históricos, embora que além da descrição literal. Eles não são meras metáforas ou vagas sugestões de realidades puramente espirituais, mas indicadores de coisas, pessoas e eventos reais, ainda mais reais do que tudo aquilo que acontece entre o Alpha e o Ômega.

A universalização do simbolismo – a afirmação que tudo é símbolo – já está na beira do panteísmo, ou do monismo. Essas posições ensinam que a realidade criada seja, na verdade, nem criada, e sim emanada, ou pelo menos em uma continuidade com a essência divina. (ver meu post sobre panteísmo: O universo é uma selfie de Deus? ) Por outros termos, tudo que existe de forma contingente e limitado existiria apenas por ser uma manifestação inevitável de Deus (o “outro lado” de Deus, por assim dizer). No caso específico do gnosticismo, haveria, porém, uma dimensão “pródiga” da realidade: o mundo material (produzido por um demiurgo ou talvez uma Sophia que cai em erro), envolve uma ilusão, ou uma queda lamentável. Identificar, cognitivamente, essa ilusão ou esse “erro,” é parte do tesouro do conhecimento gnóstico.

A visão bíblica não nega que a criação “canta as glórias de Deus” (passim nos Salmos), mas essa música tem como Grundmotiv a gratidão pelo livre dom da existência, um dom dado livremente por um Deus de amor, e que inclui, enfaticamente, o cosmos físico. O cosmos não é necessário, e há uma multidão de outros cosmos possíveis, mas Deus criou esse aqui para nós. O tema não é sobretudo manifestação ou reflexão necessárias, mas um magnânimo gesto de amor, uma superabundância gratuita e por isso mesmo um presente que transborda e brilha justamente por não ser preciso.

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Podemos extrair desses três destaques o princípio dominante no gnosticismo em todas as suas manifestações – seja quais forem a sua origem, o seu estilo ou as suas metas secundárias: É o seguinte:

O mundo – o mundo físico ou, nas versões mais modernas, simplesmente o mundo humano – não é como ele aparece. What you see is not what you get (O que você vê não é o que você tem).

O mundo é visto ou como uma ilusão total (em formas radicais, mas também marginais) ou, nas articulações mais costumeiras, como um ambiente dominado por forças clandestinas e malvadas. Se você quer realmente entendê-lo, será apenas por meio de uma gnosis especial providenciada por certos gurus.

O parentesco de uma tal visão do mundo com teorias de conspiração de todo tipo é óbvio: “o que lemos nos jornais é mentira, os políticos agem  por influências de lobistas, as organizações ocultas controlam quase tudo”, e assim por diante. Existe uma vasta literatura que alimenta esses exageros, e quanto mais você lê esses textos, quanto mais você se entrega à ideologia sabichona do gnosticismo.

Como já mencionado, o cristianismo foi também integrado na visão gnóstica na Antiguidade, re-interpretando cada componente da fé cristã como parte da doutrina gnóstica. “O que tornou isso tão insidioso foi o fato de que os Gnósticos com frequência não quiseram deixar a Igreja.” (H.U. von Balthasar, The Scandal of the Incarnation, p. 1)  Mas 1) a doutrina da criação em termos metafísicos, e 2) a doutrina do pecado original  como ferida, tendência e fraqueza, e não corrupção, em termo morais, faz com que o pensamento dos seguidores de Cristo – e especialmente na Igreja Católica, que no segundo ponto fez as definições cruciais – nunca virou um ambiente acolhedor para a visão gnóstica.

Para o cristão (e para outras religiões abraâmicas) o mundo é bom, a matéria é boa, e a carne (enquanto parte da natureza humana) é boa, como também seus prazeres; uma vez que o ser humano foi colocado no centro dessa criação material, “Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom (Gn. 1,30). Aliás – e é isto que tem que ser destacado contra toda tendência conspiracionista – o mundo humano, a nossa sociedade, apesar de todas as guerras, as corrupções, a crueldade, a injustiça, os acidentes, as epidemias, etc., etc., apesar de tudo isso, a grande maioria dos homens opta por viver, e não quer morrer (por enquanto). Há mais carros que cheguem no seu destino do que aqueles envolvidos em acidentes; há incomparavelmente mais pessoas sem doenças terminais do que com; há muito mais dias sem terremotos, furações, tornados, etc., do que com. E assim por diante. (Escrevi um post sobre o equilíbrio precário entre o bem e o mal: Os 2 antípodas da transcendência)

Isso, contanto, não é motivo para sermos ingênuos. Este mundo, no final das contas, é muito triste mesmo. Mas se for insuperavelmente ruim e triste, a raça humana teria se suicidado em massa já há milênios. O fato que o amor, a generosidade, a beleza e a seda pela justiça sempre se reerguem, e lutam nova e corajosamente contra o ódio, a ganância, a feiura e a injustiça é suficiente para animar nosso desejo de viver e travar nossa guerra.

Mesmo quando o mal goza de alguns triunfos mais espetaculares (o Terceiro Reich, o stalinismo, o maoismo, os genocídios, o tsunami de 2004, etc.), ele finalmente é saudado e vencido por reações ainda maiores de virtude, bondade, sacrifício e heroísmo que transcendem, pelo menos em intensidade, as conquistas anteriores do mal. O bem está à frente da competição, mas o mal continua nos assombrando pela sua persistência (divinamente permitida). Teremos que lutar até nossa morte.

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Na segunda parte pretendo falar sobre as três sabedorias que se opõem, expressamente, às ideias gnósticas. Como veremos, para o cristão a sabedoria filosófica não é dominada pela sabedoria teológica, mas sim ambientada e lembrada da sua subordinação à Verdade em Pessoa. Essas duas sabedorias, por suas vezes, ficam ambientadas e alimentadas, cada vez mais, pela sabedoria mística (aquela que chamamos um dos sete dons do Espírito Santo). Elas se fundam na âncora de uma humildade profunda e se orientam no alto e sempre desafiante ideal do amor, proporcionando suas pequenas doses de conhecimento apenas na ordem certa, e apenas àquele que está crescendo nessas duas virtudes. Todo conhecimento distribuído por pessoas arrogantes e preponentes, incapazes de aceitar crítica, e que atacam seus oponentes com ferocidade, já é poluído, por mais que contenha elementos de verdade.

Como diz Rémi Brague em seu livrinho, Curing Mad Truths, o problema com filosofias e ideologias erradas ou soberbas não é exatamente a falsidade do que ensinam, mas a desordem que colocam entre conceitos verdadeiros. Verdades “orfãs” são incomparavelmente mais danosas do que simples falsidades, porque a falsidade é fraca e se revela rápido. Verdades avulsas exibem resistência e certa durabilidade. São elas que dão ao Novo Testamento a única ocasião de falar de um “mau conhecimento” (“A ciencia [gnosis] incha; é a caridade que edifica.” I Cor. 8,1).

Verdades, mesmo descontextualizadas, continuem gozando do poder ontológico da “inteligibilidade,” que é a fonte metafísica da própria verdade. Santo Agostinho, um dos homens mais inteligentes que já nasceu na Terra, conseguiu livrar-se do mundo gnóstico do maniqueísmo apenas quando aprendeu a humildade – e há só um único método para aprender humildade: a aceitação paciente de humilhações; logo depois, deixou seu coração arder com o calor da Verdade ordenada. Aprendeu o sentido do ditado: Ubi amor, ibi oculus. (Onde há o amor, lá também há o olho.) Estejamos alertas sobre o perigo de conhecimento desordenado – a essência mesma do gnosticismo – porque, nas palavras de William Blake: “uma verdade dita com má intenção derrota todas as mentiras da nossa invenção.” *

St-Augustine-of-Hippo

 

* “A truth that’s told with bad intent, beats all the lies you can invent.”

A Páscoa empírica

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Uma concepção comum e enganosa sobre o Cristianismo dirá que ele se baseia em crer cegamente em uma série de verdades abstratas com respeito a um Deus que é um e três, uma pessoa que é Deus e homem e um pão que não é algo mas alguém. No entanto, o lado mais abstruso desses artigos de fé seria elaborado tão somente nos séculos após as primeiras pregações dos Apóstolos. Implicitamente estavam sempre presentes, sem dúvida. Fazem parte integrante de um todo orgânico. Não obstante, vieram mais tarde no crescimento desse todo, assim como flores e frutos surgem depois na vida de uma árvore recém-germinada. As raízes e o tronco vêm primeiro, ou, para mudar a metáfora, os alicerces vêm antes das paredes e do telhado.

A fundação, nesse caso, foi entendida pelos primeiros seguidores de Cristo não como um ensinamento rarefeito, mas como um fato. O Cristianismo se sustenta, ou desmorona, sobre a verdade de um fato empírico. Todas as elaborações da teologia e do magistério dos concílios e dos papas surgiram subsequentemente a esse fato, cresceram em cima desse fato e apontaram insistentemente para esse fato. Sem ele, os ensinamentos teriam se tornado meros diáfanos sopros de ar. “Se Cristo não ressuscitou,” afirmou São Paulo sem rodeios, “logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.”  Mas, o que isso quer dizer?

Vejamos: imagine uma pessoa que você conhecia e amava, mas que, como todos nós mais cedo ou tarde, morreu. Primeiro: imagine-a quando viva e vibrante, com sangue nas bochechas e um brilho nos olhos. Agora, imagine a mesma pessoa imóvel e pálida em seu caixão. Ora, imagine-a, poucos dias depois do funeral e no meio do seu luto ainda pesado, entrando pela porta da frente, se aproximando de você e dando um beijo no rosto. Tão logo você tivesse superado a dúvida inicial – talvez andando em volta dela algumas vezes, beliscando seu corpo e checando a sua respiração – dificilmente você estaria inclinado a proferir abstrações ou ruminar sobre princípios metafísicos. Ao contrário, você sentiria que algo havia acabado de mudar para sempre em sua vida. E você começaria a contar a todo mundo sobre isso. O bicho-papão mais temido de todos – a morte – teria acabado de sofrer um dramático revés, e todo um universo de significados, outrora fixos e fadados, teria sido virado de ponta-cabeça.

Essa foi a primeira experiência do conteúdo do testemunho cristão – um testemunho da morte e ressurreição de um homem conhecido e amado por um grande número de pessoas comuns. Essa morte ignominiosa e inegável – um óbito tão definitivo quanto o de uma mosca esmagada sob a sola do seu sapato – fora testemunhada e lamentada por uma turba de espectadores, apenas para ser revertida e transcendida diante dos mesmos olhos humanos e no mesmo estranho mundo em que vivemos.

Se a palavra mártir significa testemunha, o que foi testemunhado aqui foi a intrusão de uma Vida pujante e transbordante neste mundo de morte inevitável. E a novidade (a mesma que deu seu nome ao Novo Testamento) foi no fato que isso não se apresentou apenas como uma renovação “espiritual,” mas além disto, uma reinicialização corporal: moléculas e células sendo postas numa nova ordem do ser. Nada parecido com isso tinha ocorrido desde o primeiro Fiat lux de Gênesis.

Milhões preferiram a tortura e até a própria morte a negar esse testemunho. O brilhante e cerebral Saulo de Tarso era talvez o maior intelectual da sua época; em termos atuais, ele teria o equivalente a doutorados em Filosofia e Teologia. Mas ele virou São Paulo de Tarso apenas quando algo lhe aconteceu que nenhuma escola de filosofia podia prever, nem nenhuma lei de Moisés antecipar. O fato da Ressurreição o levou de roldão, e nunca mais o superou. A raiz da fé cristã, bem como a fonte de toda a sua mais sublime teologia e a chave para o desdobramento de todos os mistérios a serem definidos e admirados em séculos vindouros, é isso: jamais superar o fato empírico da Páscoa.

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Cultos de personalidade

É fácil apontar aos cultos de personalidade obviamente fanáticos, como aquele do Mao-tse Tung, Hitler, Stalin, e dos tiranos norte-coreanos; ou, numa chave mais “espiritual,” do Bhagwan Rashneesh (“Osho”), do David Koresh, do Jim Jones, etc., e achar, com grande confiança, que você nunca cairia sob o encanto de um tal charlatão.  Quando, porém, você assiste aos vídeos e documentários sobre esses personagens e seus cultos,  e vê os rostos e ouvir as vozes nas entrevistas de seus seguidores, vai ver e ouvir entre eles algumas pessoas obviamente inteligentes, presumivelmente equilibradas, até pessoas profissionais (médicos, advogados, professores, etc.) – sem qualquer marca óbvia de fanatismo ou extremismo. Porém, estão cheias de convicção de que seu “guru” é simplesmente maravilhoso, e praticamente isento de falhas sérias. Chegam até lágrimas nos seus olhos ao falarem dele.

Os católicos têm um exemplo ainda mais preocupante na figura de Marcial Maciel, o célebre fundador dos Legionários de Cristo, uma das congregações masculinas mais bem sucedidas dos fins do século XX. Com milhares de membros jovens bem disciplinados e exemplares (e acrescento que estou falando com admiração sincera), é uma marca na história católica do século passado. Até São João Paulo II achou Maciel um homem exemplar, talvez até um santo.

Mas foi revelada aos poucos sua vida secreta e, finalmente, ficou claro que sua pessoa foi equivocada em matéria que qualquer teólogo católico consideraria gravemente pecaminosa (e a justiça civil, criminosa). Mesmo assim e apesar da fiabilidade dessas revelações, ele fez coisas boas – inclusive a própria congregação – e sua comunidade de padres está sobrevivendo apesar das manifestações bem públicas dos seus delitos.

Acho isso bom e rico em lições. Sem dúvida, os “sobreviventes” sabem distinguir bem entre os bons frutos e o caráter problemático do fundador, a quem eles, por anos e anos, tinham chamado – com grande afeição de devoção – nuestro padre (“nosso pai”).  O cristão sabe bem que Deus usa instrumentos às vezes altamente imperfeitos para realizar seus planos. Contudo, temos que manter os olhos abertos.

O fato é que mesmo pessoas extremamente dotadas e (especialmente) carismáticas podem sim fazer coisas admiráveis e atrair um séquito significante, mas sem ser realmente admiráveis nos olhos de Deus, ou de qualquer pessoa que tem longa e diferenciada experiência com seres humanos. Os seguidores mais comprometidos desses líderes são, amiúde, pessoas jovens – por definição, sem muita experiência de vida. Charme, em si, não é uma virtude.

Mesmo um Hitler ou um Stalin podiam ser altamente charmosos em relações sociais. Para discernir entre os confiáveis e os menos fidedignos precisamos critérios objetivos para identificar os líderes, os mestres  que – mesmo com grandes contribuições à nossa cultura, ou à nossa consciência política – talvez carecem algumas das virtudes mais cruciais para ficarmos minimamente do lado de Deus na grande luta que é a nossa vida.

Estou pensando em vários casos, tanto da esquerda quanto da direita. São líderes na Europa, nos Estados Unidas e na América Latina – tanto líderes políticos como culturais ou até religiosos – que podem atrair milhares de seguidores. Sugiro apenas que as pessoas apliquem esses critérios a qualquer um deles, antes de virar um “seguidor.” Pode até aprender muito com eles, mas para segui-los, busquem no caráter deles (ou seja, na personalidade moral), antes de mais nada, três sinais indicadores:

—A capacidade de aceitar crítica com graça e humildade. Quem fica tipicamente irritado e resistente a qualquer crítica às suas posições, sua pessoa ou seus atos, e tende a ridicularizar tais críticas e recusar a engajar as pessoas que as falam com tranquilidade e seriedade (ou aceitar debates públicos), não merece discípulos. Platão ficou circundado não apenas por discípulos submissos, mas também por colegas no mesmo nível dele (alguns dos quais discordaram fortemente com teses básicas do platonismo!). Aristóteles deixou um exemplo ainda mais impressionante. Ele ficou 20 anos na Academia de Platão, ouvindo posições das mais díspares, interagindo com elas e depurando suas próprias posições em diálogo com elas.

O que hoje em dia chamamos “peer review” (avaliação pelos pares) – mesmo se abusado e exagerado às vezes (como tudo nesta vida) – é uma manifestação sadia e realista daquilo que todo intelectual público precisa na definição e elaboração das suas próprias ideias. Quem trabalha sozinho, ou se gaba em ser “auto-didata,” é especialmente suscetível ao perigo de “endogamia intelectual.”  “He that is taught only by himself has a fool for a master” (Ben Johnson). 

Platão teve Sócrates e os desafiantes sofistas; Aristóteles teve Platão e sua turma; Plotino, Amônio Sacco e colegas; Agostinho teve Ambrósio e outros companheiros cultos; Tomás de Aquino, Alberto Magno e os colegas dominicanos, franciscanos e professores do clero secular….e assim por diante. Tomás, de bom escolástico, aprendeu engajar, ativa e respeitosamente, todas as abordagens plausíveis contra suas posições antes de articulá-las (as famosas objectiones). Quem não sabe fazer isso, ou algo análogo, não deveria ser seguido.

–Uma visão diferenciada (digamos, “colorida”) da realidade, sem a tendência a caracterizar as coisas em termos preto/branco. Especialmente desqualificador é a demonização de alguma corrente de pensamento ou de política e a recusa de identificar os elementos bons e positivos sem os quais, no final das contas, ninguém poderia aderir a eles absolutamente. No final das contas, é apenas a partir do bem nas posições a serem atacadas, que o ataque pode prosseguir com acerto e humildade.

–Medida e modéstia nas palavras. Alguém que nunca para de falar – que fala e fala e fala (especialmente possível hoje no mundo da mídia social!), que tem algo a dizer sobre tudo (mesmo coisas sobre as quais sabe pouqíssimo), e que dá a impressão de nutrir um amor exagerado pelo som da sua própria voz, não é um mestre confiável. O Hitler e também os ditadores do comunismo de cunho soviético são famosos pelos seus discursos de horas a fio. Um mestre verdadeiramente sábio será alguém que até prefere o silêncio, e que, pelo menos, costuma calar muito antes de abrir a boca.

Finalmente cabe observar que o apego pessoal a um professor ou mestre, pelo menos nos primeiros meses e anos de aprendizagem, é normal e praticamente inevitável. Começamos nossa vida como crianças com confiança totalmente acrítica em nossos pais, e é bom assim. Mas não é bom uma pessoa que chega na casa de 30 anos continuar viver sob a guarda-chuva dos seus pais e recusar a ganhar sua independência tanto econômica quanto intelectual.

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É a mesma coisa com nossos professores; eles fazem uma contribuição preciosa à nossa formação por um tempo estritamente delimitado, e depois a relação deveria terminar. Teremos que reconhecer que eles são também humanos, que têm fraquezas e que um vínculo permanente de discípulo para com eles só vai prejudicar nosso amadurecimento. Há só uma grande exceção a isso; estou escrevendo este texto na Semana Santa, dedicada aos dias mais silenciosos daquele que é o Verbo em carne. Apenas sete brevíssimas palavras serão proferidas por ele Sexta Feira Santa à tarde. Enfim, Ele é a única personalidade que merece um culto.

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So Much We Don’t See

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Before talking about angels, we should be reminded that a consideration of invisible realities need hardly be arcane, or the subject-matter as “supernatural” as one might suspect. Reflect, for a moment, on a few dimensions of the world we take to be quite real, but cannot pick up with our senses:

1) spatially: there is far more world, more cosmos, out there than your eyes can even approximately capture–immeasurably more. This is true whether we limit ourselves to the expanse of the Earth or include the more than one trillion galaxies currently spotted in our universe. That vast context, though unseen, both contains and conditions what you do see and experience. And these veiled immensities you accept without ever viewing them, and you are right in doing so.

2) chronologically: there are thousands of years of past time–and if we think geologically, millions–which you cannot now experience, or even remember, and yet which have profoundly influenced your world, and all that is in it. Beyond this, of course, lies our unpredictable future, even more out of view. All this you also accept as real (or soon to be so), although it’s never been a part of your sensory experience.

3) scientifically: we accept as a matter of fact that there are quadrillions of atoms buzzing within us and around us, but we can’t see a single one of them. Even light we actually never see in its own right; we see things in light, but the light itself (along with all other forms of electromagnetic radiation) never slips as such into our field of vision. We also promptly answer our cell phones, firmly convinced of the existence of highways of invisible radiation passing between them and our interlocutors.

But nothing drives this home more dramatically than the fact that for decades astrophysicists have been cautioning us that the vaunted conquests of modern science have only shown us about 5% of all the material reality that exists; the other 95%–so-called “dark matter and energy”–still remains largely unidentified. Nonetheless, this invisible world has an enormous impact–as to gravity and acceleration, I am told–on the modest 5% that we do (more or less) understand.

Thus, on a material basis alone, any scientifically enlightened view of reality must concede that beyond the tiny slice of cosmos we are able to perceive, there is incalculably more that is unseen. And despite its invisibility–whether intrinsic or due to circumstance–we tranquilly and confidently affirm its existence.

Now add to all this a fourth, and even more emphatically undisputed fact:

4) Virtually all of known historical cultures and religions have accepted the existence of one sort or another of subtle material or completely immaterial beings, usually of a personal nature. Among countless others, we read of hierarchies of Greco-Roman, Egyptian, Celtic, Nordic, Indian, Chinese, Andean or Meso-American gods, along with sprites, genies, fairies, elemental spirits, kamis and an almost limitless variety of minor deities. Only a small number of traditional skeptics of the past, and (of course) a large number of today’s confessional materialists have ever disputed this. These latter have become quite vocal in the last couple of centuries.

The irony is that contemporary nay-sayers inevitably call on modern science to underwrite this twilight of the gods. But despite their appeals, recent physics is often more skeptical about the solidity of the matter these doubters confide in, than about the reality of the spirits they impugn. And even more telling is the fact that science and faith, contrary to expectations, find themselves joining hands and agreeing on one incontrovertible fact: the totality of all that exists contains far more than what we can see and touch with our senses, explain with our reason, or even detect with our most sophisticated instruments. Far from coddling us in our doubts about spirits, today’s science gives us even less warrant than in centuries past for excluding the angels from our conspectus of reality.

From my forthcoming book, The Other World We Live In, Angelico Press, 2021. Printed with permission.