Coda to the Apocalypse

all things new

As vital as it is to our basic sanity to honor our senses’ report regarding the centrality of our Earth – both in our daily experience and as concerns our ultimate salvation – it is a necessity of modern sophistication to also acknowledge the one trillion galaxies beyond our own, and the vastness of God’s creation beyond the context which points, quite surprisingly but meaningfully, to us. Indeed, every time we fancy we’ve got our minds wrapped around God’s wisdom, we would do well to loosen the grip, or else await the next painful reality check from the world beyond.

If all that is a synchronic reminder, we can already suspect there will be a diachronic reminder as well. As so there is. Augustine taught us to forego speculation on “what God was doing before creating the world” (see Confessions, bk. XI), since time was created along with the cosmos, and thus there could be no temporal “before” where there was no time. But even if we get the point, our reason may again grow too self-congratulatory. No temporal anteriority, yes – but no “before” at all?

Was nothing else – perhaps non-temporal but still eventful – “going  on” in God anterior to the creation of our universe? If God is infinite and eternal, we have no right to say this, and if our already humiliated reason is still working at all, we have every reason to deny it. But again, this does not remove the meaning from “In the beginning…”, or diminish the drama of our history, any more than studying astronomy need turn a geocentric context into fiction. Holding on to both perspectives will be more necessary than ever as Christian belief moves more deeply into the surreally changing world of the 21st century.

And there is more (as with God there always is): “See I make all things new!” we read at the end of the Bible’s last book. Here too we should keep our imagination in check lest we think we have got this one in cognitive control. As God reigns over abundant reality “spatially” beyond our cozy Earth, and possesses a full and active life “before” our world began, we can be sure there is much to look forward to “after” the last trumpet has sounded.

If God is Newness by Nature, and resolves to make “all things” new, we can expect that the final outcome of the New Testament may be a full immersion of our human and cosmic reality in a permanent surprise: an unending and unspeakably beatifying renewal of our nature in refreshing and ever expansive transcendence, hopeful and non-repetitive mornings of days we never dreamed of, and fulfilments and consummations that will never end, having come full circle and encompassed their very beginnings.

St-John-Revelation

On Binary Boors

C.S. Lewis once commented that a language was losing its heart when more and more adjectives became mere synonyms for “good” and “bad.” It is tiresomely well documented in digital culture in the famous like/dislike option, where nuance is a nuisance.

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Utter the word “progressive,” and watch a subtle sneer spread across the face of the conservative. It also works the other way around, of course, although in that case one might also notice a slight flaring of the nostrils. Since I teach Medieval Philosophy, I have to spend the first class flushing the ears of my students from the knee-jerk words “bad, horrible, retrograde, backwards, etc.,” and teach them instead to hear a benign adjective that simply refers to a period of time. What Lewis feared so long ago is everywhere in contemporary discourse. Sloganeering often displaces conversation, and fine-tuned indignation the habit of simple listening.

Evolution is not easy to observe, but devolution is on daily display. It’s easy to watch our humanity in retreat. Zoologists will tell us that the cognitive and affective reactions in non-human animals tend to reduce themselves to “favorable” and “unfavorable,” or “pleasant” and “dangerous.” Watch a dog that doesn’t know you as it slowly checks you out to see which of the two classes you inhabit.

What distinguishes human beings is the wide palette of distinctions we bring to any experience. We can see good in bad people, and (a somewhat easier exercise) bad in good people. We can distinguish between cognitive differences (true, probable, false, doubtful, implausible, etc.), moral differences (good, bad, neutral, virtuous, sinful, admirable, etc.) and “productive” differences (well-done, poorly-done, skillful, clumsy, etc.). Our world abounds in shades and ambiguities, and not just clarities and convictions. We all bristle when watching courtroom dramas on television and see a witness attempting to illustrate an equivocation or point out an obscurity, and hear the lawyer bark back: “Just answer yes or no!”

Even Christian conservatives who love to demonize “communism” could stand to pause and reflect on the fact that their faith tradition has produced perhaps the only viable communist societies on earth: we call them monasteries. Likewise, despisers of “capitalism” might examine their conscience as to whether they should use any of the capitalist economy’s technical gimmicks, like the internet, to propagate their critiques.

 

 

A prisão mental do conspiracionismo

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Embora que já publiquei um post sobre este assunto (Vórtice), eventos recentes me convidam a desenvolver minhas reflexões mais amplamente.

Em 1975 mudei para Europa para começar meus estudos de pós-graduação. Durante uma estadia em Bruxelas para aprender francês, conheci um homem altamente inteligente que me convidou para sua casa. Ele tinha notado que tenho uma cabeça filosófica–foi para estudar Filosofia que fui para Europa–e, com grande generosidade, quis me iniciar em alguns novos métodos de pesquisa em assuntos históricos e também filosóficos. Aceitei o convite. Após um cafezinho e alguns waffles belgas, me conduziu ao segundo andar do seu château (foi um homem de posses) e dentro de uma imensa sala com paredes revestidas de altas estantes de livros. Com um gesto dramático em direção a esse baluarte de sabedoria, comentou: “Esses são os livros que terá que ler, se quiser entender o mundo de hoje!”61ai7PgD+XL._AC_UX385_

Durante meus meses em Bélgica, depois dos dias úteis aprendendo francês, passei todo fim de semana na biblioteca do meu novo amigo. Ora, não foi uma biblioteca qualquer, mas bem especializada em um tema: teorias de conspiração (de cunho conservador, acrescento). Claro, às mais das vezes ele evitou usar essa expressão, mas repetiu com frequência que este livro aqui, ou aquele ali, vai te explicar o porque de ________  (preenche o espaço como quiser).

Ambiguidades, complexidades, matizes, nuances, análises multi-facetadas—todos jogados pela janela. Esses livros vão escancarar as verdadeiras causas de todos os eventos. O que causou a Primeira Guerra Mundial (ou a Segunda)? Eis a resposta única e unívoca–aqui neste livro. O que foi que motivou Martinho Lutero? Quais as intenções profundas atrás da crítica de Kant? Marx foi satanista mesmo? Qual o plano demoníaco que levou ao Concílio Vaticano II?  e assim por diante, e por diante, e por diante.

Explicações simples e chocantes para tudo. Eu adorei. Tinha 22 anos e pensava que tinha em mãos a chave que abre todas as portas de sabedoria. Li e li e li. Quando arrumei um pouco de dinheiro, comecei a montar minha própria biblioteca (livros que tenho ainda, escondidos em um armário trancado!). Deixei Bruxelas alguns meses depois, mas a infecção do conspiracionismo já foi alojada em meu sangue mental.

Numa visita aos Estados Unidos no mesmo ano encontrei um antigo professor meu e contei sobre minhas novas descobertas. Me ouviu pacientemente, mas depois soltou um suspiro fundo. Aprendi que ele também tinha passado por uma “fase conspiracionista,” e tinha lido esses livros e caído, por um tempo, no vórtice da sua fascinação. Me aconselhou de deixá-los de lado e voltar a estudar Filosofia. É importante ficar alerta sobre as maquinações do mal no mundo, ele continuou, mas o inferno muda suas estratégias muito rápido para que qualquer intelecto humano pudesse acompanhá-las. Além do mais, tais pesquisas normalmente alimentam nossa própria soberba de uma forma altamente perigosa; e se não faz isso, simplesmente nos deixa mentalmente doidos e sabichões.

Quando voltei para Europa tive a graça de ter um diretor espiritual trapista que identificou o quanto meu orgulho sobre esses “conhecimentos” estava solapando meu caráter e minha vida interior. Foi muito duro comigo, mas sou eternamente grato. Descobri que atrás do conspiracionismo jaz, quase sempre, uma preguiça perante autêntico trabalho intelectual. Respostas nítidas e aparentemente (mas só aparentemente) concludentes deludem a mente a achar que já sabe quase tudo, quando de fato possui uma educação extremamente rasa e emocionalmente tóxica. Presenciamos isso todo dia em vídeos online e posts no Facebook.

Para estudar Filosofia–e ainda mais Teologia–você precisa anos de trabalho árduo, e, sobretudo, um equipe de professores competentes que se complementam. Uma única pessoa (mesmo brilhante, como meu amigo belga, com sua mega-biblioteca) nunca é suficiente, nem remotamente. Você vai ficar preso dentro das perspectivas inevitavelmente limitadas e em certos assuntos certamente erradas dessa pessoa.

Sem mérito meu, tive o privilégio depois de estudar essas duas disciplinas com os Dominicanos de Roma. A norma lá são–e via de regra apenas depois da formação humanística universitária–três (3) anos de Filosofia (com uns 12 professores), depois quatro (4) anos de Teologia (com uns 15-20 professores). Depois de tudo isso você tem apenas dois bacharelados. Mestrado e Doutorado exigem ainda mais anos.

Notei que entusiastas por teorias conspiratórias muito raramente têm essa formação. Também notei que muitos deles viajam bem pouco na sua vida. Como meu antigo amigo em Bruxelas, fiquem nas suas bibliotecas (ou hoje em dia, nos bunkers do Youtube ou Facebook). Uma boa formação em uma boa universidade, e viagens pelo menos por alguns países bem diferentes no mundo (melhor seria viver em alguns deles, e por anos) expõem rapidamente as confusões dentro dessas teorias.

(Talvez é em vão escrever um texto desses, porque não vai demorar muito para alguém descobrir que o KGB me pagou para postar o ensaio.)

Protologia e escatologia em miniatura

Muitos acham a Bíblia inacreditável, entre outras razões, porque o início é tão “mitológico” e o fim tão bizarro. Em outras palavras, vêem no início de Gênesis (que contém a protologia bíblica, ou seja o relato sobre origens–do universo, do homem, do mal e da salvação) nada mais do que uma de várias versões da mitologia fantástica da Antiguidade; e no Apocalipse (que contém–juntamente com os discursos de Jesus sobre o fim do mundo–o relato sobre as “ultimas coisas,” ou seja a escatologia bíblica) nada mais do que uma fantasmagoria incoerente que reflete as trances delirantes de um louco, ou as viagens psicodélicas de um hippie avant la lettre.

Existem, porém, mesmo em nossas modestas vidas individuais, três profundezas, não menos inacreditáveis, que jazem (adaptando uma frase de Tomás de Aquino) procul a cognitione (longe do nosso conhecimento): elas são 1) nossa própria origem individual, 2) as profundezas presentes, aqui e agora, em nossa alma, e 3) o nosso iminente fim, que ainda está por vir.

Vivemos neste mundo sem lembrança do evento mais originante da nossa própria existência: a nossa concepção; no entanto, foi altamente importante para todo o curso da nossa vida, para dizer o mínimo. Também os nove meses no seio da nossa mãe, e aquele evento traumático que nos expulsou daquele paraíso temporário, nosso nascimento (e também tantos meses após nossa entrada no mundo)–de tudo isso, nossa memória carrega, na melhor hipótese, apenas alguns ecos no inconsciente.

A principal certeza que possuímos sobre esses eventos é a tradição oral provindo dos nossos pais. E mesmo assim, os eventos foram muito misteriosos para serem simplesmente contados em termos biológicos; ao invés de explicações envolvendo células e sexo, ouvimos estórias sobre cegonhas, ou um Deus presenteando bebês como Papai Noel. Mas foi suficiente. Assim começamos a entender o sentido da nossa origem, sem pormenores biológicos. Mesmo quando, como adultos, aprendemos sim os detalhes sobre os pássaros e as abelhas, o assunto não virou menos mas até mais misterioso!storkÉ assim que a Bíblia também conta sobre a origem de todas as coisas–algo procul a cognitione. Mas o relato em Gênesis 1-3 comunica perfeitamente bem o sentido da criação do mundo, do ser humano e do começo do grande drama que é a nossa história. Em contraste, hoje em dia, neste momento daquela história–quando ouvimos físicos falando sobre o Big Bang e biólogos evolucionistas nos apresentando uma “Eva mitocondrial,” (entre outras novidades sobre cosmogênese e origens humanas)–mal detectamos algo que fala sobre o sentido da nossa vida, seu valor ou seu propósito.

Quanto ao outro extremo–nossa morte e passagem para o além–enfrentamos também uma experiência única e misteriosa (ver meu ensaio, Paisagens e períodos póstumos). Embora que presenciamos mortes de outrem, nunca podemos antecipar plenamente essa transformação como será para nós mesmos. Sendo também procul a cognitione, usamos imagens e símbolos para esboçar, remotamente, um vislumbre daquilo que se aproxima de nós cada dia com passos deliberados. reaper

É desse modo que a Bíblia também trata esses eventos vindouros. Usa símbolos, mas também às vezes eventos históricos próximos que desempenham o papel de símbolos para um análogo evento na escala global. Por exemplo, muitas profecias de Jesus e do Apocalipse dizem respeito, acima de tudo, não ao fim do mundo, mas antes ao fim (à destruição) do Templo em Jerusalém e da pequena nação judia (AD 70 e 135). Isso já equivalia a um “fim do mundo” para muitos judeus. No entanto, também esses fins foram prefigurações pelo fim do universo na sua totalidade.

Há tantos mistérios que nos aguardam no momento–e, segundo as tradições mais sintonizadas com o mysterium mortis: momentos–da nossa “passagem.” As profundezas da morte e os múltiplos pórticos ao além-túmulo, repousando lá num futuro indiscernível–o qual, mesmo se cronologicamente perto, fica experiencialmente longínquo–não são menos profundas do que os mistérios fundantes da nossa existência e do nosso drama no passado. Mas ambas dessas funduras–seja do passado longínquo ou do futuro insondável–acham suas últimas raízes e sua profunda raison d’être em nosso peitos, aqui e agora.

A terceira profundeza–aquela que se mergulha no nosso interior neste mesmo instante–é o mundo tanto imanente como transcendente da nossa alma nas suas dimensões espirituais. Também é pouco conhecido, difícil de sondar e até um tanto assustador; assim não é menos procul a cognitione do que nossa concepção e nossa morte. Agostinho chegou a ver nas palavras da Sagrada Escritura, mesmo carecendo aquela eloquência que ele amava em Cícero e Virgílio, uma porta inigualável que nos dá acesso a essae mistérios.

Estranhamente, a porta teve o lintel baixo (linguagem simples, direta, porém ressonante em todas as direções), forçando quem quiser passar por ela a curvar-se; não obstante, uma vez dentro, descobrirá um salão com teto altíssimo. O preço do ingresso?–só humildade e um genuíno amor, pelo menos em germe. É possível superar as hesitações daqueles que acham o início e o fim da Escritura “mitológico” ou bizarro. Já descobrimos que nosso próprio início e nosso próprio fim não são menos difíceis de explicar; são igualmente passíveis de narrativas pujantes e expectativas inéditas. Exceção feita dos Evangelhos, talvez nenhuma outra parte da Bíblia é capaz de deixar nos sentir as nossas próprias profundezas–com tanta imediatez e tanta força–quanto os primeiros capítulos do Gênesis e o texto oracular do Apocalipse.depths soul

Agostinho também começou com um guru, mas progrediu (então há esperança para gente!)

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Durante os quase nove anos em que meu espírito errante deu ouvidos aos maniqueus, esperei ansiosamente a vinda de Fausto. Os demais adeptos, com os quais me encontrava casualmente, embaraçados com as objeções que eu lhes fazia, remetiam-me a ele que, à sua chegada, com uma simples entrevista resolveria facilmente todas aquelas dificuldades, e ainda outras maiores que me ocorressem, de maneira claríssima.

Logo que chegou, pude notar que se tratava de um homem simpático, de fala cativante, e que expunha os temas comuns dos maniqueus, mas com muito mais agrado que eles. Mas, que interessava à minha sede este elegante copeiro de copos preciosos? Eu já tinha os ouvidos fartos daquelas teorias, e nem me pareciam melhores por serem expostas em melhor estilo, nem mais verdadeiras pela elegância de suas formas; nem eu considerava Fausto mais sábio por ter o rosto de mais graça e sua linguagem mais finura. Aqueles que mo haviam recomendado não eram bons juízes: tinham Fausto como homem sábio e prudente somente porque lhes agradava sua facúndia.”  Agostinho, Confissões, V, 6

 

Angels and the City

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According to Scripture, our first explicit encounter with the angels was after the expulsion from Paradise. We faced the Cherubim with their burning swords standing at its gate. We were no longer welcome. Between us and Paradise these august spirits flourished the “word of God … living and active, sharper than any two-edged sword, piercing to the division of soul and spirit, of joints and marrow, and discerning the thoughts and intentions of the heart.” (Hb. 4,12) This should give us pause to reflect upon Paradise and the angels, and our relationship to both.

The Garden of Eden was planted by God “in the east.” (Gn. 2,8) It was to be the place for man to “grow and multiply, and fill the earth, and subdue it.” (1,28) The symbolic “east” suggests that we were created close to our origin, God–theologically put, in the state of grace. Through the ensuing trial of our love, God planned to accept us into the fullness of his glory that we might “dwell with him.” But this abode would have to be freely chosen by submitting to God’s will regarding the mysterious Tree of Knowledge. It would not be forced upon us. We know only too well the outcome of this trial, but let us consider the Garden for a moment. We were driven from it, but–and this is the good part–the rest of sacred history is, to a large extent, the account of how God has managed to reconfigure our relationship to him, and to this his dwelling-place.

The river of grace that flowed “out of Eden to water the Garden” (Gn. 2,10) divided into four rivers. (It bears reminding that here, early in Genesis–as will also be the case late in the New Testament, in the Apocalypse–that we are in the presence of events and realities so primordial, or in the Apocalypse, so eschatological, that only symbolic and “mythical” language can venture near them. But unlike most myths and symbols of the pagan world, what are referenced here are concrete times and places, and truths as solid as those of history. They are just too distant and unfamiliar to be described in literal terms.)

Thus, God’s first home for us was to be a Garden bounded by four symbolic rivers. We still live by preference in four-sided houses and rooms; we still speak of the four directions, the four elements, the four moral virtues, the four temperaments, and so on. God’s grace had originally constituted us in a state of perfect order and harmony, symbolized by this Garden of four rivers, supernaturally surrounding and sustaining our natural, quaternal structure.

After having proven our love and obedience by following the divine ordinance regarding the Tree of Knowledge, we would eventually have been admitted to the inner sanctuary of his glory. We would have joined the highest angels in a life of praise inconceivable to our minds today. But that plan was frustrated, and by the willful interference of our own disobedience. We foolishly chose to “understand” evil by doing it. But doing evil brings darkness, not light. Only a saint can understand sin. As Fulton Sheen once said, there is only one thing on earth you don’t learn more about through experience, and that is sin.

The infinite God, however, is not easily frustrated. After our fall from grace, he immediately opened the stores of a divine “reserve plan.” Thus began the much longer, but to all appearances, much more glorious design of our Redemption and Sanctification. The promise regarding Mary has already been mentioned. We shall now pick up the story where it foreshadows the rebuilding of a created sanctuary where God’s majesty can once again dwell. This would be our only hope to finally get past those sharp, Cherubic swords. The sanctuary will evolve through history in stages of progressive blueprints, from the Ark of Noah to the Ark of the Covenant, from the Tabernacle in the desert to the Temple in the city, from what will come to be known as the Church, and then on to its consummate configuration in the New Jerusalem.

When we fell, and the Cherubim stood suddenly and sternly at the gates of our lost home, that home itself seemed to withdraw into the sky. Some mystics claimed to have sighted it on a high mountain. Dante put it in the Southern Hemisphere, still imagined as a highland of sun and treasure to the medieval mind. It may be more theologically coherent if we simply picture it as withdrawing into the choirs of the angels, out of reach of all our towers of Babel. (Gn. 11) The Earth is too fragile for glory quite yet. After all, we were left “to till the ground from which we were taken” (Gn. 3,23), that is, the state of material nature, and a wounded nature at that.

High in the choirs of angels, the former Garden of Paradise is being refashioned, so to speak, into the future Holy City, the New Jerusalem. One day it will descend upon the earth as the final dwelling place of God with his creation. Much of the language used is of course figurative. The “descent” of the City may simply refer to the progressive sanctification and transformation of the world as we know it. Cosmic annihilation does not figure in God’s plans. The cosmos will be changed, but certainly not destroyed.

“For the creation waits with eager longing for the revealing of the sons of God; for the creation was subjected to futility, not of its own will but by the will of him who subjected it in hope; because the creation itself will be set free from its bondage to decay and obtain the glorious liberty of the children of God. We know that the whole creation has been groaning with labor pains together until now.” (Rm. 8, 19-22)

We read about that final consummation at the very end of the last book of the Bible: “Behold, I make all things new.” (Apoc. 21, 5); and “Behold, the dwelling of God is with men.” (23,3) That celestial metropolis, full of angelic occupants, is glimpsed at times by the prophets of the Old Covenant under other figures, such as the “Chariot of God.” (cf. Ezekiel 1) But long before it begins its symbolic descent, “coming down out of heaven from God” (Apoc. 21,2), we, in the meantime, are being primed for our new habitat. By following instructions on building small dwellings on earth–as if in miniature imitation of that celestial abode–we begin to relearn what it means to dwell with God.

With the building of Noah’s ark (Gn. 6), a dimly perceived historical fact rises before our eyes, still nestled in the symbolic ambience of the first eleven chapters of Genesis. Here is the first post-paradisiacal dwelling place for God’s children. But it is still, like the primordial chaos (Gn. 1,1-2), “moving over the face of the waters.” Only with Abraham (Gn. 12ff.) does the promise of solid land give assurance that the divine dwelling will indeed gain new foothold in creation.

Later on, God will say to Moses: “Make me a sanctuary, that I may dwell in your midst.” (Ex. 25,8) And on Mount Sinai, Moses is shown the archetypal dwelling in heaven that is to be the model for the tabernacle on earth. “And you shall erect the tabernacle according to the plan for it which has been shown you on the mountain.” (26,30) Accordingly, instead of the four rivers, we have the four sides of the tabernacle; later with Solomon, the four-sided Temple of Sion will become the great Old Testament mock-up of God’s future dwelling among men. The whole of the Old Testament Covenant revolves around this divine architecture and the exercize of the cult God ordains to be performed within it.

Through its infidelity to the Law and its whoring after false gods, the Chosen People will largely be unable to recognize Christ as Emmanuel, God-with-us. They will collaborate in destroying him and his body as thoroughly as the Roman Emperor was to destroy the actual Temple of Jerusalem in the year 70. But before Our Lord entered the Passion and submitted to this death, he had taken his Apostles into the four-walled room of the Cenacle and instituted the Sacrifice of the New Covenant in his Blood. That first Christian assembly became the model for all the churches to come, and the true successor of the Temple of Jerusalem.

Here, through the Eucharist, God was to be present in an altogether new way. By now entering the temple of the human body–with its four humors, four temperaments, four members and a soul destined to initial perfection in the four moral virtues–the final preparation for God’s definitive dwelling among men was underway. His mysteriously glorified body was to be made even more mysteriously present in the new “showbread” (Ex. 25,30) of the Christian liturgy.

The Church and its greatest treasure, the Holy Eucharist, continues and perfects the work of the Tabernacle in the desert and the Temple in Sion. All these were new terrestrial dwelling places for the God who had been banished from his own creation by sin. But the Holy Eucharist, which is Christ himself, is the definitive building block for his final and Apocalyptical dwelling in the coming new creation.

Cherubim stood with their “flaming swords which turned every way” at the gates of Paradise. Cherubim were also carved at the two sides of the Mercy-Seat in the Temple, there where God spoke to man. (Ex. 25, 18-21) The Mass too begins with the sword of the word, in which God speaks to man in the Liturgy of the Word. But now, buffered, as it were, with the humanity of Christ, we pass unharmed through the sword’s edge of those words into the intimacy of the sanctuary. And in the Preface, we turn with confidence to the angels (“with angels and archangels”)–although, significantly, only lower angels, below the Cherubim, are mentioned–as we proceed to the Consecration.

Likewise, before the Church inherits the full perfection of the New Jerusalem, she too will have to turn to the angels in the mysteries of the Apocalypse. And that means experiencing the fulfilment of Our Lord’s promise that “he will send out the angels, and gather the elect from the four winds, from the ends of the earth to the ends of heaven.” (Mk. 13,26) And as for the purification, he insists that it is the angels who will perform these last works of his Church’s cleansing; it is they who will “gather out of his Kingdom all causes of sin and all evildoers.” (Mt. 13,41)

The entire book of the Apocalypse can be seen as a working out of the Paschal Mystery of Christ’s suffering, death, and resurrection on the global level. In its history, the whole Church will suffer the fury of hell, apparently die, and then, suddenly, rise from the dead just as dramatically as did Jesus on Easter Morning. But this time it is his whole Mystical Body that rises:

“Then I saw a new heaven and a new earth; for the first heaven and the first earth had passed away, and the sea was no more. And I saw the holy city, New Jerusalem, coming down out of heaven from God, prepared as a bride adorned for her husband; and I heard a loud voice from the throne saying, ‘Behold, the dwelling of God is with men’. . . And he who sat upon the throne said, ‘Behold, I make all things new.’” (Apoc. 21, 1-3,5)

We have already seen how angel, man, and the material cosmos each have their part to play in the new order of creation. Significantly, we are told in the Apocalypse that the very measures of the Heavenly City’s walls are “a man’s measure, that is, an angel’s.” (21,17) But if the measure is the same, either humans will have become more angelic, or angels more human (or both). At the very least, man and angel will have realized the full measure of their common praise of Christ, and the voices of the material creation will likewise be ingathered into the fullness of that threefold worship of the Triune God.

From my forthcoming book, The Other World We Live In, Angelico Press, 2021. Printed with permission.

O sábio e o gnóstico (1ª parte)

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Entendemos por sabedoria uma visão verídica e aberta que versa de certa forma sobre a totalidade da realidade, tanto em termos teóricos quanto morais, e que seja, segundo a expressão de Platão, “sinótica,” vendo as coisas nas suas mais íntimas conexões. A tradição cristã ensina que ela existe em três modalidades em ordem ascendente: sabedoria filosófica, sabedoria teológica e sabedoria mística. Sobre elas, falaremos mais na segunda parte deste ensaio. Tentativas de separar as três, ou até de reduzi-las a uma só delas, resultam em toda uma série de confusões conceituais e até (segundo as ortodoxias semíticas) heresias. Eminente entre estas é o gnosticismo.

Embora que suas manifestações sejam proteicas, evidencia-se sempre com algumas características típicas: estas podemos destacar nitidamente da sabedoria propriamente falando. É o que proponho fazer aqui. Muitas vezes pessoas bem-intencionadas nem sabem que estão seguindo um mestre ou uma filosofia que se comprometeu – pelo menos no espírito – com teses ou tendências gnósticas. O embuste é que essas teses são muito adeptas de camuflagem. Vivemos em um mundo repleto de ofertas de iniciação gnóstica das mais variadas. Por isso precisamos investir primeiro no trabalho de cortar pelo matagal delas; só depois poderemos enxergar a clareira sapiencial, e identificar seu caráter triádico.

A palavra grega, gnosis, é simplesmente um de um punhado de vocábulos que significam conhecimento (alguns outros seriam theoriaaisthesisepistemedoxa, cada um com um viés especial). A palavra gnosis é o termo de uso geral, como nosso “conhecimento.” Ocorre mais de 25 vezes até no Novo Testamento, e só uma vez em sentido pejorativo (mais sobre isso depois). Português, aliás, também tem outros termos mais específicos para conhecimento, como teoria, percepção, ciência, opinião, intuição, etc.  De fato, cada idioma terá sua coleção de palavras cunhadas para tentar capturar a natureza fugaz dessa realidade que chamamos conhecimento, e de itemizar suas espécies.

O termo grego, no entanto, foi de certo modo “sequestrado” por algumas correntes filosóficas/religiosas dos primeiros séculos cristãos. Mesmo quando se colocaram em contraposição à Igreja Cristã, quase sempre se entenderam como uma radiografia das verdades esotéricas do cristianismo, encobertas pela igreja oficial. Esta gnosis desmascarada foi vista simplesmente como o âmago profundo da mensagem de Cristo, abaixo das aparências dos credos e ritos (o que foi o caso com o famoso Valentino). Os gnósticos tentaram efetivar um isolamento de certo tipo do conhecimento, “destilando” ele das demais fontes de cognição que ficam atreladas tanto aos credos teológicos, quanto às fontes de conhecimento filosófico: os sentidos e o senso comum, como também outras dimensões da experiência humana (em particular, a volitiva e a emocional).

*** Cabe observar, na defesa de pelo menos alguns gnósticos, que embora que o credo e as crenças rudimentares do cristianismo já foram bem articuladas, a teologia cristã não existia em uma forma definida e sistemática no segundo e terceiro séculos. Alguns gnósticos simplesmente tentaram montar uma reflexão racional, ou seja teológica, em cima dos artigos da fé. Não podiam aproveitar dos esclarecimentos dos concílios ecumênicos dos séculos vindouros, nem dos escritos dos capadocianos, do Agostinho, nem falar dos escolásticos posteriores. Então, não é o caso de simplesmente desprezá-los. Todavia, ideias têm consequências. A Igreja achou certas ideias deles necessitadas de correção por terem consequências menos desejáveis para quem quiser abrir-se à verdade. São as ideias gnósticas e não as pessoas que criticamos em seguida. ***

Este conhecimento “espiritual e transformador” foi apresentado como um tesouro esotérico tanto sagrado quanto segredo – mas um tesouro possuído exclusivamente por certos escolhidos e depois transmitidos a outros apenas através de certos cursos de longa duração ou por ritos iniciáticos. Na esperança de incorporar cristianismo nessa doutrina, Cristo foi apresentado sim como alguém enviado pelo Deus supremo, porém não para salvar o homem na sua totalidade alma e corpo, e do mundo em que ele vive. Pelo contrário, a missão do Cristo era, segundo eles, a de resgatar seu espírito interior da matéria e do domínio do “outro deus,” aquele que foi responsável pela produção do mundo físico, para começar: o Demiurgo (por vezes identificado como o Yahweh do Antigo Testamento).

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Os estudiosos, em grande parte, rejeitam a ideia de um único movimento, mas vêem o “gnosticismo” – a denominação é moderna – como “termo guarda-chuva” para várias tendências e ideias que circulavam dentro e fora do cristianismo primitivo. Na verdade, constitui um paradigma permanente para a reflexão humana, surgindo repetidamente na história.

Para o gnóstico, o conteúdo da gnosis ensinada de certa forma espelha, objetivamente, uma luzinha espiritual que jaz, subjetivamente, nas profundezas do ser humano. O paradigma do projeto gnóstico manifesta-se em vários tipos de esoterismo (cristão, judeu e islâmico), mas também, mutatis mutandis, no hermetismo, catarismo, platonismos renascentistas, Rosa Cruz, Maçonaria, Teosofia, Antroposofia e perenialismo, para mencionar só os mais conhecidos. Também algumas das religiões organizadas se apresentam, explicitamente, como detentores dessa chave de harmonização de todas as tradições: em certo sentido o próprio Islã, mais evidentemente no Mormonismo e no Bahaísmo. Porém, quer se trate de uma seita esotérica ou de uma religião mais organizada, o que é oferecido é uma única cachaça destilada de uma multidão de bebidas fermentadas, só aparentemente diferentes.

O maniqueísmo, ao qual Sto. Agostinho aderiu por uns nove anos, é uma articulação especialmente bem sucedida, embora que diferente em alguns detalhes. Não obstante, a orientação geral fica gnóstica segundo os parâmetros que esboçaremos aqui. O interesse nessas correntes ganhou um enorme estímulo pela descoberta, em 1945, em Naga Hammadi, no Alto Egito, de manuscritos gnósticos que remontam pelo menos ao séc. 4º d.C. Embora que essa considerável “biblioteca Nag Hammadi” abriu novos caminhos de pesquisa na interpretação dos textos sobreviventes, possibilitando uma descrição mais diferenciada de várias correntes gnósticas, tanto de pensamento quanto da mística, o cerne do gnosticismo estudado ficou inalterado nos seus traços fundamentais.

Semelhante ao caso dos Manuscritos do Mar Morto, descobertos pouco tempo depois, muitos especialistas da época proclamaram que os achados iriam mudar para sempre nosso entendimento, tanto do Antigo Testamento neste caso, quanto do Novo pelas descobertas egípcias. Agora mais de 70 anos depois, o consenso dos eruditos se distancia cada vez mais das declarações precipitadas dos primeiros anos. (ler Philip Jenkins: http://www.asor.org/anetoday/2017/10/revolutionary-biblical-discoveries)

Vamos isolar apenas três aspetos que parecem imprescindíveis para entendermos a natureza dessa ideologia/filosofia/teosofia tão tenaz na história dos últimos dois milênios. Ceteris paribus, achamos essas características in todos os variantes:

1) O aspecto ponerológico/cosmogônico (ou seja, o que diz respeito à natureza do mal, e à origem do cosmos – no gnosticismo, inextricavelmente ligadas):

Uma orientação gnóstica propõe uma resolução do problema do mal através de sua identificação com uma realidade substancial, seguido por uma narrativa sobre o processo cosmogônico que a produziu. O mal não é, como os cristãos iriam dizer, uma privação do ente; tudo ao contrário, é algo. Esta positividade do mal possibilita aquilo que, na tradição cristã sempre foi visto como impossível: um verdadeiro  conhecimento do mal. Na revelação cristã, o mal e o pecado carecem de “razões,” e por não serem entidades criadas por Deus (e só existem entidades criadas por ele!), carecem uma coerência ontológica capaz de ser objeto de autêntico conhecimento. Fulton Sheen amava dizer que o pecado é a única coisa no mundo do qual você não aprende mais por experiência.

Em nosso mundo cognitivo, a única referência indireta ao mal é como negação de algo bom (como doença não faz sentido senão como negação da saúde). Mesmo assim, a força da verdade permitiu que até essa ponerologia acabou evidenciando um certo elemento verídico, porque na visão gnóstica o mundo realmente real é aquele da luz, da plenitude (pleroma), o mundo puramente espiritual; a matéria é vista como carecendo essa realidade. De certa forma, é também uma privação. Mas esse restinho da verdade não goza de um pleno aproveitamento no sistema, uma vez que a matéria é palpavelmente presente como algo positivo na experiência humana, e assim, sem mais delongas, a matéria, em toda a sua realidade óbvia, acaba sendo identificado com o mal. Nas adaptações mais modernas, a mesma identificação aplica-se ao mundo humano, o qual também é visível é palpavelmente real. 

Para o gnóstico, “o conhecimento do bem e do mal,” longe de ser um fruto proibido ou uma maldição, torna-se uma conquista almejável e um norte “esotérico” para nossa conduta. De novo, uma grande parte dos gnósticos antigos viram essa existência má na matéria física mesma, especialmente na carne. Mas um gnosticismo moderno (identificado por vários analistas do mundo contemporâneo, como Balthasar, Voegelin e O’Regan) exibe uma análoga tendência em ideologias que restringem essa identificação a um povo, uma raça, uma filosofia, uma orientação política, etc., como essencialmente e irremediavelmente malvado. Em suma, proponentes de qualquer versão de “demonologia secular” também fazem parte dessa orientação metafísica do gnosticismo. O essencial é poder apontar com seu indicador ao mal para depois atacá-lo com êxito.

Demonizações da direita pela esquerda, ou da esquerda pela direita, por exemplo, caiem nessa confusão. No cristianismo existe essa divisão moral “a preto e branco” apenas no mundo angélico, e até lá, a influência dos anjos caídos entre os homens fica sempre limitada, e mesmo “aproveitada,” pela providência divina. A maldade humana é sempre variável e promíscua, a única linha divisória douradura, segundo a imagem famosa de Soljenitzyn, sendo aquela que passa pelo coração de cada um de nós. Isso nos leva à segunda característica. (Mais sobre o mal em breve.)

2) O aspecto antropológico:

Para o gnóstico, a situação do ser humano é sui generis em relação a esse mal. O homem acha-se circundado, ou até emprisionado nesse ambiente ou elemento mau. Mas porque toda a nossa cultura e pensamento parecem indicar algo mais do que material em nossa constituição, os antigos gnósticos falaram de nosso espírito como uma faísca imaterial que tinha caído da ordem divina e ficou cativada dentro do corpo humano e seu mundo. Há toda uma literatura fantástica para explicar – de formas bem diferentes e às vezes contraditórias – como essa “queda” aconteceu. Naturalmente, o gnóstico vai interpretar o pecado original segundo este esquema.

Em vez de pertencer à essência humana, o corpo e seu mundo são vistos como prisões ou opressores, e a salvação alcançável unicamente por uma fuga da prisão. A libertação seria viável apenas através de uma penetração no interior, camada por camada, rumo a essa faísca. Passando da nossa corporeidade para nossos níveis “psíquicos” (súteis), e de lá para nosso “espírito,” seguem os passos do nosso progresso iniciático. A linguagem de “camadas,” ou “níveis,” já deixa transparecer o espírito gnóstico. Desde que não é todo mundo que vai conseguir completar essa viagem até sua consumação no coração, existem gradações de gnósticos: aqueles hílicos (“materialistas,” mal transcendendo o corpo); aqueles psíquicos (chegando a algumas intuições); e os poucos pneumáticos (“espirituais,” os realizados).

No cristianismo, o acesso “democrático” à salvação, à graça, e até à sabedoria sempre foi um elemento alheio a essa visão. Para o gnóstico, a porta à verdade, a qual seria aberta a todo mundo no cristianismo, fica trancada para todo mundo a não ser para os hílicos. No cristianismo, há estágios de crescimento também, e existe uma peregrinação espiritual para todo mundo (as famosas vias de purgação, iluminação e união), mas tudo isso progrede em continuidade expressa com o credo, o código moral e o culto que aprendemos como crianças. A fé mostra o caminho do amor, e os dons do Espirito Santo elevam as virtudes até a meta: a perfeição no amor. E o amor se aperfeiçoa no encontro com uma Pessoa, aquela que seja o Caminho, a Verdade e a Vida. Então, qual seria, concretamente, o caminho da salvação para um gnóstico?

3) O aspecto soteriológico:

O gnóstico insiste sobre um certo tipo de conhecimento como unicamente libertador (ou seja, fonte de “salvação”), e certos mestres e métodos unicamente capacitados para dar acesso a ele. A passagem decisiva não é entre pecado e conversão, e sim entre ilusão e iluminação. A exigência cristã sobre o fundamento imprescindível da humildade e a meta suprema do amor, falta, ou pelo menos fica seriamente re-interpretada em termos cognitivos.

Para o gnóstico, é o conhecimento que ocupa o orgulho do lugar – não a humildade e não o amor. Só pessoas “intelectualmente qualificadas” podem oferecer a iluminação cognitiva que revela a natureza desse mal e, em seguida, métodos apropriados para liberar sua faísca enterrada das garras da materialidade (ou, nas formas modernas, do controle de grupos humanos identificados como malvados). Esses mestres vão fazer o máximo para vincular seus seguidores à sua pessoa, e caracterizar outras possíveis fontes de guia como parte do mundo escuro e confuso. Tais mestres não são identificados pela sua humildade ou seu amor, mas apenas pelo poder do conhecimento (“knowledge is power,” como declarou Francis Bacon).

Típico também é uma tendência de confluir a noção de consciência (psicológica) com a de conhecimento, apresentando “níveis de consciência” mais altas como metas de uma libertação progressiva. Idealmente você chegaria a uma fundição da sua consciência e seu conhecimento em uma gnosis unificadora e soteriológica. Um exemplo de um proponente de uma teoria “integral” para unificar psicologia e espiritualidade (entre outras coisas), é o famoso guru do New Age, Ken Wilbur, que propõe 11 níveis ou camadas de desenvolvimento pessoal. Os seguidores de Wilbur são inúmeros, entre eles muitos profissionais e famosos. (https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_integral_thinkers_and_supporters)

O uso predominante de símbolos e mitos é especialmente marcante em movimentos ou filosofias de inspiração gnóstica (o que David Bentley Hart chama de uma “incontinência mitopoética”). Há uma insistência marcante sobre a importância da simbologia. O cristianismo, em contraste, coloca seu mistério fundamental (a Encarnação) dentro de uma história concreta e em um lugar particular. A comunicação da verdade no imaginário cristão é tipica e necessariamente a imagem, e não o símbolo. (ver meu post Imagens e símbolos) Não obstante, símbolos desempenham um papel também na fé cristã, como em todo conhecimento humano, mas na teologia e na arte sacra esse papel é rigorosamente subordinado às imagens. Isso porque os mistérios se manifestaram em espaço e tempo reais, em dimensões concretas e criadas. Quem coloque a simbologia cristã acima da iconografia cristã já tem pelo menos um pé no gnosticismo.

A ênfase bíblica e cristã na historicidade dos eventos chega até dentro do seu uso do gênero do mito. A linguagem simbólica e mítica – o mito sendo, em certo sentido, uma narrativa composta de símbolos – é usada para evocar eventos reais no passado remoto (criação do mundo, primeira queda do homem, etc.) ou em um futuro ainda além da descrição histórica (eventos escatológicos e apocalípticos). No entanto, esses dois extremos são entendidos como acontecimentos reais, embora que além da descrição literal. Eles não são meras metáforas ou vagas sugestões de realidades puramente espirituais, mas indicadores de coisas, pessoas e eventos reais, de certa forma ainda mais reais do que tudo aquilo que acontece entre o Alpha e o Ômega.

A universalização do simbolismo – a afirmação que tudo é símbolo – já está na beira do panteísmo, ou do monismo. Essas posições ensinam que a realidade criada seja, na verdade, nem criada, e sim emanada, ou pelo menos em uma continuidade com a essência divina. (ver meu post sobre panteísmo: O universo é uma selfie de Deus? ) Por outros termos, tudo que existe de forma contingente e limitado existiria apenas por ser uma manifestação inevitável de Deus (o “outro lado” de Deus, por assim dizer). No caso específico do gnosticismo, haveria, porém, uma dimensão “pródiga” da realidade: o mundo material (produzido por um demiurgo ou talvez uma Sophia que cai em erro), envolve uma ilusão, ou uma queda lamentável. Identificar, cognitivamente, essa ilusão ou esse “erro,” é parte do tesouro do conhecimento gnóstico.

A visão bíblica não nega que a criação “canta as glórias de Deus” (passim nos Salmos), mas essa música tem como Grundmotiv a gratidão pelo livre dom da existência, um dom dado livremente por um Deus de amor, e que inclui, enfaticamente, o cosmos físico. O cosmos não é necessário, e há uma multidão de outros cosmos possíveis, mas Deus criou esse aqui para nós. O tema não é sobretudo manifestação ou reflexão necessárias, mas um magnânimo gesto de amor, uma superabundância gratuita e por isso mesmo um presente que transborda e brilha – como cada presente – justamente por não ser preciso.

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Podemos extrair desses três destaques o princípio dominante no gnosticismo em todas as suas manifestações – seja quais forem a sua origem, o seu estilo ou as suas metas secundárias: É o seguinte:

O mundo – o mundo físico ou, nas versões mais modernas, simplesmente o mundo humano – não é como ele aparece. What you see is not what you get (O que você vê não é o que você tem).

O mundo é visto ou como uma ilusão total (em formas radicais, mas também marginais) ou, nas articulações mais costumeiras, como um ambiente dominado por forças clandestinas e malvadas. Se você quer realmente entendê-lo, será apenas por meio de uma gnosis especial providenciada por certos gurus.

O parentesco de uma tal visão do mundo com teorias de conspiração de todo tipo é óbvio: “o que lemos nos jornais é mentira, os políticos agem  por influências de lobistas, as organizações ocultas controlam quase tudo”, e assim por diante. Existe uma vasta literatura que alimenta esses exageros, e quanto mais você lê esses textos, tanto mais você se entrega à ideologia sabichona do gnosticismo.

Como já mencionado, o cristianismo foi também integrado na visão gnóstica na Antiguidade, re-interpretando cada componente da fé cristã como parte da doutrina gnóstica. “O que tornou isso tão insidioso foi o fato de que os Gnósticos com frequência não quiseram deixar a Igreja.” (H.U. von Balthasar, The Scandal of the Incarnation, p. 1)  Mas 1) a doutrina da criação em termos metafísicos, e 2) a doutrina do pecado original como ferida, tendência e fraqueza, e não corrupção, em termo morais, faz com que o pensamento dos seguidores de Cristo – e especialmente na Igreja Católica, que no segundo ponto fez as definições cruciais – nunca virou um ambiente acolhedor para a cosmovisão gnóstica.

Para o cristão (e para outras religiões abraâmicas) o mundo é bom, a matéria é boa, e a carne (enquanto parte da natureza humana) é boa, como também seus prazeres; uma vez que o ser humano foi colocado no centro dessa criação material, “Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom” (Gn. 1,30). Aliás – e é isto que tem que ser destacado contra toda tendência conspiracionista – o mundo humano, a nossa sociedade, apesar de todas as guerras, as corrupções, a crueldade, a injustiça, os acidentes, as epidemias, etc., etc., apesar de tudo isso, a grande maioria dos homens opta por viver, e não quer morrer (por enquanto). Há mais carros que cheguem no seu destino do que aqueles envolvidos em acidentes; há incomparavelmente mais pessoas sem doenças terminais do que com; há muito mais dias sem terremotos, furações, tornados, etc., do que com. E assim por diante. (Escrevi um post sobre o equilíbrio precário entre o bem e o mal: Os 2 antípodas da transcendência)

Isso, contanto, não é motivo para sermos ingênuos. Este mundo, no final das contas, é muito triste mesmo. Mas se for insuperavelmente ruim e triste, a raça humana teria se suicidado em massa já há milênios. O fato que o amor, a generosidade, a beleza e a seda pela justiça sempre se reerguem, e lutam nova e corajosamente contra o ódio, a ganância, a feiura e a injustiça é suficiente para animar nosso desejo de viver e travar nossa guerra.

Mesmo quando o mal goza de alguns triunfos mais espetaculares (o Terceiro Reich, o stalinismo, o maoismo, os genocídios, o tsunami de 2004, etc.), ele finalmente é saudado e vencido por reações ainda maiores de virtude, bondade, sacrifício e heroísmo que transcendem, pelo menos em intensidade, as conquistas anteriores do mal. O bem está à frente da competição, mas o mal continua nos assombrando pela sua persistência (divinamente permitida). Teremos que lutar até nossa morte.

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Na segunda parte pretendo falar sobre as três sabedorias que se opõem, expressamente, às ideias gnósticas. Como veremos, para o cristão a sabedoria filosófica não é dominada pela sabedoria teológica, mas sim ambientada e lembrada da sua subordinação à Verdade em Pessoa. Essas duas sabedorias, por suas vezes, ficam ambientadas e alimentadas, progressivamente, pela sabedoria mística (aquela que chamamos um dos sete dons do Espírito Santo). Elas se fundam na âncora de uma humildade profunda e se orientam no alto e sempre desafiante ideal do amor, proporcionando suas pequenas doses de conhecimento apenas na ordem certa, e apenas àquele que está crescendo nessas duas virtudes. Todo conhecimento distribuído por pessoas arrogantes e preponentes, incapazes de aceitar crítica, e que atacam seus oponentes com ferocidade, já é poluído, por mais que contenha elementos de verdade.

Como diz Rémi Brague em seu livrinho, Curing Mad Truths, o problema com filosofias e ideologias erradas ou soberbas não é exatamente a falsidade do que ensinam, mas a desordem que colocam entre conceitos verdadeiros. Verdades “orfãs” são incomparavelmente mais danosas do que simples falsidades, porque a falsidade é fraca e se revela rápido. Verdades avulsas exibem resistência e certa durabilidade. São elas que dão ao Novo Testamento a única ocasião de falar de um “mau conhecimento” (“A ciencia [gnosis] incha; é a caridade que edifica.” I Cor. 8,1).

Verdades, mesmo descontextualizadas, continuem gozando do poder ontológico da “inteligibilidade,” que é a fonte metafísica da própria verdade. Santo Agostinho, um dos homens mais inteligentes que já nasceu na Terra, conseguiu livrar-se do mundo gnóstico do maniqueísmo apenas quando aprendeu a humildade – e há só um único método para aprender humildade: a aceitação paciente de humilhações; logo depois, deixou seu coração arder com o calor da Verdade ordenada. Aprendeu o sentido do ditado: Ubi amor, ibi oculus. (Onde há o amor, lá também há o olho.)

Estejamos alertas sobre o perigo de conhecimento desordenado – a essência mesma do gnosticismo – porque, nas palavras de William Blake: “uma verdade dita com má intenção derrota todas as mentiras da nossa invenção.” *

St-Augustine-of-Hippo

 

* “A truth that’s told with bad intent, beats all the lies you can invent.”