A prisão mental do conspiracionismo

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Embora que já publiquei um post sobre este assunto (Vórtice), eventos recentes me convidam a desenvolver minhas reflexões mais amplamente.

Em 1975 mudei para Europa para começar meus estudos de pós-graduação. Durante uma estadia em Bruxelas para aprender francês, conheci um homem altamente inteligente que me convidou para sua casa. Ele tinha notado que tenho uma cabeça filosófica–foi para estudar Filosofia que fui para Europa–e, com grande generosidade, quis me iniciar em alguns novos métodos de pesquisa em assuntos históricos e também filosóficos. Aceitei o convite. Após um cafezinho e alguns waffles belgas, me conduziu ao segundo andar do seu château (foi um homem de posses) e dentro de uma imensa sala com paredes revestidas de altas estantes de livros. Com um gesto dramático em direção a esse baluarte de sabedoria, comentou: “Esses são os livros que terá que ler, se quiser entender o mundo de hoje!”61ai7PgD+XL._AC_UX385_

Durante meus meses em Bélgica, depois dos dias úteis aprendendo francês, passei todo fim de semana na biblioteca do meu novo amigo. Ora, não foi uma biblioteca qualquer, mas bem especializada em um tema: teorias de conspiração (de cunho conservador, acrescento). Claro, às mais das vezes ele evitou usar essa expressão, mas repetiu com frequência que este livro aqui, ou aquele ali, vai te explicar o porque de ________  (preenche o espaço como quiser).

Ambiguidades, complexidades, matizes, nuances, análises multi-facetadas—todos jogados pela janela. Esses livros vão escancarar as verdadeiras causas de todos os eventos. O que causou a Primeira Guerra Mundial (ou a Segunda)? Eis a resposta única e unívoca–aqui neste livro. O que foi que motivou Martinho Lutero? Quais as intenções profundas atrás da crítica de Kant? Marx foi satanista mesmo? Qual o plano demoníaco que levou ao Concílio Vaticano II?  e assim por diante, e por diante, e por diante.

Explicações simples e chocantes para tudo. Eu adorei. Tinha 22 anos e pensava que tinha em mãos a chave que abre todas as portas de sabedoria. Li e li e li. Quando arrumei um pouco de dinheiro, comecei a montar minha própria biblioteca (livros que tenho ainda, escondidos em um armário trancado!). Deixei Bruxelas alguns meses depois, mas a infecção do conspiracionismo já foi alojada em meu sangue mental.

Numa visita aos Estados Unidos no mesmo ano encontrei um antigo professor meu e contei sobre minhas novas descobertas. Me ouviu pacientemente, mas depois soltou um suspiro fundo. Aprendi que ele também tinha passado por uma “fase conspiracionista,” e tinha lido esses livros e caído, por um tempo, no vórtice da sua fascinação. Me aconselhou de deixá-los de lado e voltar a estudar Filosofia. É importante ficar alerta sobre as maquinações do mal no mundo, ele continuou, mas o inferno muda suas estratégias muito rápido para que qualquer intelecto humano pudesse acompanhá-las. Além do mais, tais pesquisas normalmente alimentam nossa própria soberba de uma forma altamente perigosa; e se não faz isso, simplesmente nos deixa mentalmente doidos e sabichões.

Quando voltei para Europa tive a graça de ter um diretor espiritual trapista que identificou o quanto meu orgulho sobre esses “conhecimentos” estava solapando meu caráter e minha vida interior. Foi muito duro comigo, mas sou eternamente grato. Descobri que atrás do conspiracionismo jaz, quase sempre, uma preguiça perante autêntico trabalho intelectual. Respostas nítidas e aparentemente (mas só aparentemente) concludentes deludem a mente a achar que já sabe quase tudo, quando de fato possui uma educação extremamente rasa e emocionalmente tóxica. Presenciamos isso todo dia em vídeos online e posts no Facebook.

Para estudar Filosofia–e ainda mais Teologia–você precisa anos de trabalho árduo, e, sobretudo, um equipe de professores competentes que se complementam. Uma única pessoa (mesmo brilhante, como meu amigo belga, com sua mega-biblioteca) nunca é suficiente, nem remotamente. Você vai ficar preso dentro das perspectivas inevitavelmente limitadas e em certos assuntos certamente erradas dessa pessoa.

Sem mérito meu, tive o privilégio depois de estudar essas duas disciplinas com os Dominicanos de Roma. A norma lá são–e via de regra apenas depois da formação humanística universitária–três (3) anos de Filosofia (com uns 12 professores), depois quatro (4) anos de Teologia (com uns 15-20 professores). Depois de tudo isso você tem apenas dois bacharelados. Mestrado e Doutorado exigem ainda mais anos.

Notei que entusiastas por teorias conspiratórias muito raramente têm essa formação. Também notei que muitos deles viajam bem pouco na sua vida. Como meu antigo amigo em Bruxelas, fiquem nas suas bibliotecas (ou hoje em dia, nos bunkers do Youtube ou Facebook). Uma boa formação em uma boa universidade, e viagens pelo menos por alguns países bem diferentes no mundo (melhor seria viver em alguns deles, e por anos) expõem rapidamente as confusões dentro dessas teorias.

(Talvez é em vão escrever um texto desses, porque não vai demorar muito para alguém descobrir que o KGB me pagou para postar o ensaio.)

Protologia e escatologia em miniatura

Muitos acham a Bíblia inacreditável, entre outras razões, porque o início é tão “mitológico” e o fim tão bizarro. Em outras palavras, vêem no início de Gênesis (que contém a protologia bíblica, ou seja o relato sobre origens–do universo, do homem, do mal e da salvação) nada mais do que uma de várias versões da mitologia fantástica da Antiguidade; e no Apocalipse (que contém–juntamente com os discursos de Jesus sobre o fim do mundo–o relato sobre as “ultimas coisas,” ou seja a escatologia bíblica) nada mais do que uma fantasmagoria incoerente que reflete as trances delirantes de um louco, ou as viagens psicodélicas de um hippie avant la lettre.

Existem, porém, mesmo em nossas modestas vidas individuais, três profundezas, não menos inacreditáveis, que jazem (adaptando uma frase de Tomás de Aquino) procul a cognitione (longe do nosso conhecimento): elas são 1) nossa própria origem individual, 2) as profundezas presentes, aqui e agora, em nossa alma, e 3) o nosso iminente fim, que ainda está por vir.

Vivemos neste mundo sem lembrança do evento mais originante da nossa própria existência: a nossa concepção; no entanto, foi altamente importante para todo o curso da nossa vida, para dizer o mínimo. Também os nove meses no seio da nossa mãe, e aquele evento traumático que nos expulsou daquele paraíso temporário, nosso nascimento (e também tantos meses após nossa entrada no mundo)–de tudo isso, nossa memória carrega, na melhor hipótese, apenas alguns ecos no inconsciente.

A principal certeza que possuímos sobre esses eventos é a tradição oral provindo dos nossos pais. E mesmo assim, os eventos foram muito misteriosos para serem simplesmente contados em termos biológicos; ao invés de explicações envolvendo células e sexo, ouvimos estórias sobre cegonhas, ou um Deus presenteando bebês como Papai Noel. Mas foi suficiente. Assim começamos a entender o sentido da nossa origem, sem pormenores biológicos. Mesmo quando, como adultos, aprendemos sim os detalhes sobre os pássaros e as abelhas, o assunto não virou menos mas até mais misterioso!storkÉ assim que a Bíblia também conta sobre a origem de todas as coisas–algo procul a cognitione. Mas o relato em Gênesis 1-3 comunica perfeitamente bem o sentido da criação do mundo, do ser humano e do começo do grande drama que é a nossa história. Em contraste, hoje em dia, neste momento daquela história–quando ouvimos físicos falando sobre o Big Bang e biólogos evolucionistas nos apresentando uma “Eva mitocondrial,” (entre outras novidades sobre cosmogênese e origens humanas)–mal detectamos algo que fala sobre o sentido da nossa vida, seu valor ou seu propósito.

Quanto ao outro extremo–nossa morte e passagem para o além–enfrentamos também uma experiência única e misteriosa (ver meu ensaio, Paisagens e períodos póstumos). Embora que presenciamos mortes de outrem, nunca podemos antecipar plenamente essa transformação como será para nós mesmos. Sendo também procul a cognitione, usamos imagens e símbolos para esboçar, remotamente, um vislumbre daquilo que se aproxima de nós cada dia com passos deliberados. reaper

É desse modo que a Bíblia também trata esses eventos vindouros. Usa símbolos, mas também às vezes eventos históricos próximos que desempenham o papel de símbolos para um análogo evento na escala global. Por exemplo, muitas profecias de Jesus e do Apocalipse dizem respeito, acima de tudo, não ao fim do mundo, mas antes ao fim (à destruição) do Templo em Jerusalém e da pequena nação judia (AD 70 e 135). Isso já equivalia a um “fim do mundo” para muitos judeus. No entanto, também esses fins foram prefigurações pelo fim do universo na sua totalidade.

Há tantos mistérios que nos aguardam no momento–e, segundo as tradições mais sintonizadas com o mysterium mortis: momentos–da nossa “passagem.” As profundezas da morte e os múltiplos pórticos ao além-túmulo, repousando lá num futuro indiscernível–o qual, mesmo se cronologicamente perto, fica experiencialmente longínquo–não são menos profundas do que os mistérios fundantes da nossa existência e do nosso drama no passado. Mas ambas dessas funduras–seja do passado longínquo ou do futuro insondável–acham suas últimas raízes e sua profunda raison d’être em nosso peitos, aqui e agora.

A terceira profundeza–aquela que se mergulha no nosso interior neste mesmo instante–é o mundo tanto imanente como transcendente da nossa alma nas suas dimensões espirituais. Também é pouco conhecido, difícil de sondar e até um tanto assustador; assim não é menos procul a cognitione do que nossa concepção e nossa morte. Agostinho chegou a ver nas palavras da Sagrada Escritura, mesmo carecendo aquela eloquência que ele amava em Cícero e Virgílio, uma porta inigualável que nos dá acesso a essae mistérios.

Estranhamente, a porta teve o lintel baixo (linguagem simples, direta, porém ressonante em todas as direções), forçando quem quiser passar por ela a curvar-se; não obstante, uma vez dentro, descobrirá um salão com teto altíssimo. O preço do ingresso?–só humildade e um genuíno amor, pelo menos em germe. É possível superar as hesitações daqueles que acham o início e o fim da Escritura “mitológico” ou bizarro. Já descobrimos que nosso próprio início e nosso próprio fim não são menos difíceis de explicar; são igualmente passíveis de narrativas pujantes e expectativas inéditas. Exceção feita dos Evangelhos, talvez nenhuma outra parte da Bíblia é capaz de deixar nos sentir as nossas próprias profundezas–com tanta imediatez e tanta força–quanto os primeiros capítulos do Gênesis e o texto oracular do Apocalipse.depths soul

O sábio e o gnóstico (1ª parte)

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Entendemos por sabedoria uma visão verídica e aberta que versa de certa forma sobre a totalidade da realidade, tanto em termos teóricos quanto morais, e que seja, segundo a expressão de Platão, “sinótica,” vendo as coisas nas suas mais íntimas conexões. A tradição cristã ensina que ela existe em três modalidades em ordem ascendente: sabedoria filosófica, sabedoria teológica e sabedoria mística. Sobre elas, falaremos mais na segunda parte deste ensaio. Tentativas de separar as três, ou até de reduzi-las a uma só delas, resultam em toda uma série de confusões conceituais e até (segundo as ortodoxias semíticas) heresias. Eminente entre estas é o gnosticismo.

Embora que suas manifestações sejam proteicas, evidencia-se sempre com algumas características típicas: estas podemos destacar nitidamente da sabedoria propriamente falando. É o que proponho fazer aqui. Muitas vezes pessoas bem-intencionadas nem sabem que estão seguindo um mestre ou uma filosofia que se comprometeu – pelo menos no espírito – com teses ou tendências gnósticas. O embuste é que essas teses são muito adeptas de camuflagem. Vivemos em um mundo repleto de ofertas de iniciação gnóstica das mais variadas. Por isso precisamos investir primeiro no trabalho de cortar pelo matagal delas; só depois poderemos enxergar a clareira sapiencial, e identificar seu caráter triádico.

A palavra grega, gnosis, é simplesmente um de um punhado de vocábulos que significam conhecimento (alguns outros seriam theoriaaisthesisepistemedoxa, cada um com um viés especial). A palavra gnosis é o termo de uso geral, como nosso “conhecimento.” Ocorre mais de 25 vezes até no Novo Testamento, e só uma vez em sentido pejorativo (mais sobre isso depois). Português, aliás, também tem outros termos mais específicos para conhecimento, como teoria, percepção, ciência, opinião, intuição, etc.  De fato, cada idioma terá sua coleção de palavras cunhadas para tentar capturar a natureza fugaz dessa realidade que chamamos conhecimento, e de itemizar suas espécies.

O termo grego, no entanto, foi de certo modo “sequestrado” por algumas correntes filosóficas/religiosas dos primeiros séculos cristãos. Mesmo quando se colocaram em contraposição à Igreja Cristã, quase sempre se entenderam como uma radiografia das verdades esotéricas do cristianismo, encobertas pela igreja oficial. Esta gnosis desmascarada foi vista simplesmente como o âmago profundo da mensagem de Cristo, abaixo das aparências dos credos e ritos (o que foi o caso com o famoso Valentino). Os gnósticos tentaram efetivar um isolamento de certo tipo do conhecimento, “destilando” ele das demais fontes de cognição que ficam atreladas tanto aos credos teológicos, quanto às fontes de conhecimento filosófico: os sentidos e o senso comum, como também outras dimensões da experiência humana (em particular, a volitiva e a emocional).

*** Cabe observar, na defesa de pelo menos alguns gnósticos, que embora que o credo e as crenças rudimentares do cristianismo já foram bem articuladas, a teologia cristã não existia em uma forma definida e sistemática no segundo e terceiro séculos. Alguns gnósticos simplesmente tentaram montar uma reflexão racional, ou seja teológica, em cima dos artigos da fé. Não podiam aproveitar dos esclarecimentos dos concílios ecumênicos dos séculos vindouros, nem dos escritos dos capadocianos, do Agostinho, nem falar dos escolásticos posteriores. Então, não é o caso de simplesmente desprezá-los. Todavia, ideias têm consequências. A Igreja achou certas ideias deles necessitadas de correção por terem consequências menos desejáveis para quem quiser abrir-se à verdade. São as ideias gnósticas e não as pessoas que criticamos em seguida. ***

Este conhecimento “espiritual e transformador” foi apresentado como um tesouro esotérico tanto sagrado quanto segredo – mas um tesouro possuído exclusivamente por certos escolhidos e depois transmitidos a outros apenas através de certos cursos de longa duração ou por ritos iniciáticos. Na esperança de incorporar cristianismo nessa doutrina, Cristo foi apresentado sim como alguém enviado pelo Deus supremo, porém não para salvar o homem na sua totalidade alma e corpo, e do mundo em que ele vive. Pelo contrário, a missão do Cristo era, segundo eles, a de resgatar seu espírito interior da matéria e do domínio do “outro deus,” aquele que foi responsável pela produção do mundo físico, para começar: o Demiurgo (por vezes identificado como o Yahweh do Antigo Testamento).

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Os estudiosos, em grande parte, rejeitam a ideia de um único movimento, mas vêem o “gnosticismo” – a denominação é moderna – como “termo guarda-chuva” para várias tendências e ideias que circulavam dentro e fora do cristianismo primitivo. Na verdade, constitui um paradigma permanente para a reflexão humana, surgindo repetidamente na história.

Para o gnóstico, o conteúdo da gnosis ensinada de certa forma espelha, objetivamente, uma luzinha espiritual que jaz, subjetivamente, nas profundezas do ser humano. O paradigma do projeto gnóstico manifesta-se em vários tipos de esoterismo (cristão, judeu e islâmico), mas também, mutatis mutandis, no hermetismo, catarismo, platonismos renascentistas, Rosa Cruz, Maçonaria, Teosofia, Antroposofia e perenialismo, para mencionar só os mais conhecidos. Também algumas das religiões organizadas se apresentam, explicitamente, como detentores dessa chave de harmonização de todas as tradições: em certo sentido o próprio Islã, mais evidentemente no Mormonismo e no Bahaísmo. Porém, quer se trate de uma seita esotérica ou de uma religião mais organizada, o que é oferecido é uma única cachaça destilada de uma multidão de bebidas fermentadas, só aparentemente diferentes.

O maniqueísmo, ao qual Sto. Agostinho aderiu por uns nove anos, é uma articulação especialmente bem sucedida, embora que diferente em alguns detalhes. Não obstante, a orientação geral fica gnóstica segundo os parâmetros que esboçaremos aqui. O interesse nessas correntes ganhou um enorme estímulo pela descoberta, em 1945, em Naga Hammadi, no Alto Egito, de manuscritos gnósticos que remontam pelo menos ao séc. 4º d.C. Embora que essa considerável “biblioteca Nag Hammadi” abriu novos caminhos de pesquisa na interpretação dos textos sobreviventes, possibilitando uma descrição mais diferenciada de várias correntes gnósticas, tanto de pensamento quanto da mística, o cerne do gnosticismo estudado ficou inalterado nos seus traços fundamentais.

Semelhante ao caso dos Manuscritos do Mar Morto, descobertos pouco tempo depois, muitos especialistas da época proclamaram que os achados iriam mudar para sempre nosso entendimento, tanto do Antigo Testamento neste caso, quanto do Novo pelas descobertas egípcias. Agora mais de 70 anos depois, o consenso dos eruditos se distancia cada vez mais das declarações precipitadas dos primeiros anos. (ler Philip Jenkins: http://www.asor.org/anetoday/2017/10/revolutionary-biblical-discoveries)

Vamos isolar apenas três aspetos que parecem imprescindíveis para entendermos a natureza dessa ideologia/filosofia/teosofia tão tenaz na história dos últimos dois milênios. Ceteris paribus, achamos essas características in todos os variantes:

1) O aspecto ponerológico/cosmogônico (ou seja, o que diz respeito à natureza do mal, e à origem do cosmos – no gnosticismo, inextricavelmente ligadas):

Uma orientação gnóstica propõe uma resolução do problema do mal através de sua identificação com uma realidade substancial, seguido por uma narrativa sobre o processo cosmogônico que a produziu. O mal não é, como os cristãos iriam dizer, uma privação do ente; tudo ao contrário, é algo. Esta positividade do mal possibilita aquilo que, na tradição cristã sempre foi visto como impossível: um verdadeiro  conhecimento do mal. Na revelação cristã, o mal e o pecado carecem de “razões,” e por não serem entidades criadas por Deus (e só existem entidades criadas por ele!), carecem uma coerência ontológica capaz de ser objeto de autêntico conhecimento. Fulton Sheen amava dizer que o pecado é a única coisa no mundo do qual você não aprende mais por experiência.

Em nosso mundo cognitivo, a única referência indireta ao mal é como negação de algo bom (como doença não faz sentido senão como negação da saúde). Mesmo assim, a força da verdade permitiu que até essa ponerologia acabou evidenciando um certo elemento verídico, porque na visão gnóstica o mundo realmente real é aquele da luz, da plenitude (pleroma), o mundo puramente espiritual; a matéria é vista como carecendo essa realidade. De certa forma, é também uma privação. Mas esse restinho da verdade não goza de um pleno aproveitamento no sistema, uma vez que a matéria é palpavelmente presente como algo positivo na experiência humana, e assim, sem mais delongas, a matéria, em toda a sua realidade óbvia, acaba sendo identificado com o mal. Nas adaptações mais modernas, a mesma identificação aplica-se ao mundo humano, o qual também é visível é palpavelmente real. 

Para o gnóstico, “o conhecimento do bem e do mal,” longe de ser um fruto proibido ou uma maldição, torna-se uma conquista almejável e um norte “esotérico” para nossa conduta. De novo, uma grande parte dos gnósticos antigos viram essa existência má na matéria física mesma, especialmente na carne. Mas um gnosticismo moderno (identificado por vários analistas do mundo contemporâneo, como Balthasar, Voegelin e O’Regan) exibe uma análoga tendência em ideologias que restringem essa identificação a um povo, uma raça, uma filosofia, uma orientação política, etc., como essencialmente e irremediavelmente malvado. Em suma, proponentes de qualquer versão de “demonologia secular” também fazem parte dessa orientação metafísica do gnosticismo. O essencial é poder apontar com seu indicador ao mal para depois atacá-lo com êxito.

Demonizações da direita pela esquerda, ou da esquerda pela direita, por exemplo, caiem nessa confusão. No cristianismo existe essa divisão moral “a preto e branco” apenas no mundo angélico, e até lá, a influência dos anjos caídos entre os homens fica sempre limitada, e mesmo “aproveitada,” pela providência divina. A maldade humana é sempre variável e promíscua, a única linha divisória douradura, segundo a imagem famosa de Soljenitzyn, sendo aquela que passa pelo coração de cada um de nós. Isso nos leva à segunda característica. (Mais sobre o mal em breve.)

2) O aspecto antropológico:

Para o gnóstico, a situação do ser humano é sui generis em relação a esse mal. O homem acha-se circundado, ou até emprisionado nesse ambiente ou elemento mau. Mas porque toda a nossa cultura e pensamento parecem indicar algo mais do que material em nossa constituição, os antigos gnósticos falaram de nosso espírito como uma faísca imaterial que tinha caído da ordem divina e ficou cativada dentro do corpo humano e seu mundo. Há toda uma literatura fantástica para explicar – de formas bem diferentes e às vezes contraditórias – como essa “queda” aconteceu. Naturalmente, o gnóstico vai interpretar o pecado original segundo este esquema.

Em vez de pertencer à essência humana, o corpo e seu mundo são vistos como prisões ou opressores, e a salvação alcançável unicamente por uma fuga da prisão. A libertação seria viável apenas através de uma penetração no interior, camada por camada, rumo a essa faísca. Passando da nossa corporeidade para nossos níveis “psíquicos” (súteis), e de lá para nosso “espírito,” seguem os passos do nosso progresso iniciático. A linguagem de “camadas,” ou “níveis,” já deixa transparecer o espírito gnóstico. Desde que não é todo mundo que vai conseguir completar essa viagem até sua consumação no coração, existem gradações de gnósticos: aqueles hílicos (“materialistas,” mal transcendendo o corpo); aqueles psíquicos (chegando a algumas intuições); e os poucos pneumáticos (“espirituais,” os realizados).

No cristianismo, o acesso “democrático” à salvação, à graça, e até à sabedoria sempre foi um elemento alheio a essa visão. Para o gnóstico, a porta à verdade, a qual seria aberta a todo mundo no cristianismo, fica trancada para todo mundo a não ser para os hílicos. No cristianismo, há estágios de crescimento também, e existe uma peregrinação espiritual para todo mundo (as famosas vias de purgação, iluminação e união), mas tudo isso progrede em continuidade expressa com o credo, o código moral e o culto que aprendemos como crianças. A fé mostra o caminho do amor, e os dons do Espirito Santo elevam as virtudes até a meta: a perfeição no amor. E o amor se aperfeiçoa no encontro com uma Pessoa, aquela que seja o Caminho, a Verdade e a Vida. Então, qual seria, concretamente, o caminho da salvação para um gnóstico?

3) O aspecto soteriológico:

O gnóstico insiste sobre um certo tipo de conhecimento como unicamente libertador (ou seja, fonte de “salvação”), e certos mestres e métodos unicamente capacitados para dar acesso a ele. A passagem decisiva não é entre pecado e conversão, e sim entre ilusão e iluminação. A exigência cristã sobre o fundamento imprescindível da humildade e a meta suprema do amor, falta, ou pelo menos fica seriamente re-interpretada em termos cognitivos.

Para o gnóstico, é o conhecimento que ocupa o orgulho do lugar – não a humildade e não o amor. Só pessoas “intelectualmente qualificadas” podem oferecer a iluminação cognitiva que revela a natureza desse mal e, em seguida, métodos apropriados para liberar sua faísca enterrada das garras da materialidade (ou, nas formas modernas, do controle de grupos humanos identificados como malvados). Esses mestres vão fazer o máximo para vincular seus seguidores à sua pessoa, e caracterizar outros possíveis fontes de guia como parte do mundo escuro e confuso. Tais mestres não são identificados pela sua humildade ou seu amor, mas apenas pelo poder do conhecimento (“knowledge is power,” como declarou Francis Bacon).

Típico também é uma tendência de confluir a noção de consciência (psicológica) com a de conhecimento, apresentando “níveis de consciência” mais altas como metas de uma libertação progressiva. Idealmente você chegaria a uma fundição da sua consciência e seu conhecimento em uma gnosis unificadora e soteriológica. Um exemplo de um proponente de uma teoria “integral” para unificar psicologia e espiritualidade (entre outras coisas), é o famoso guru do New Age, Ken Wilbur, que propõe 11 níveis ou camadas de desenvolvimento pessoal. Os seguidores de Wilbur são inúmeros, entre eles muitos profissionais e famosos. (https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_integral_thinkers_and_supporters)

O uso predominante de símbolos e mitos é especialmente marcante em movimentos ou filosofias de inspiração gnóstica (o que David Bentley Hart chama de uma “incontinência mitopoética”). Há uma insistência marcante sobre a importância da simbologia. O cristianismo, em contraste, coloca seu mistério fundamental (a Encarnação) dentro de uma história concreta e em um lugar particular. A comunicação da verdade no imaginário cristão é tipica e necessariamente a imagem, e não o símbolo. (ver meu post Imagens e símbolos) Não obstante, símbolos desempenham um papel também na fé cristã, como em todo conhecimento humano, mas na teologia e na arte sacra esse papel é rigorosamente subordinado às imagens. Isso porque os mistérios se manifestaram em espaço e tempo reais, em dimensões concretas e criadas. Quem coloque a simbologia cristã acima da iconografia cristã já tem pelo menos um pé no gnosticismo.

A ênfase bíblica e cristã na historicidade dos eventos chega até dentro do seu uso do gênero do mito. A linguagem simbólica e mítica – o mito sendo, em certo sentido, uma narrativa composta de símbolos – é usada para evocar eventos reais no passado remoto (criação do mundo, primeira queda do homem, etc.) ou em um futuro ainda além da descrição histórica (eventos escatológicos e apocalípticos). No entanto, esses dois extremos são entendidos como acontecimentos reais, embora que além da descrição literal. Eles não são meras metáforas ou vagas sugestões de realidades puramente espirituais, mas indicadores de coisas, pessoas e eventos reais, de certa forma ainda mais reais do que tudo aquilo que acontece entre o Alpha e o Ômega.

A universalização do simbolismo – a afirmação que tudo é símbolo – já está na beira do panteísmo, ou do monismo. Essas posições ensinam que a realidade criada seja, na verdade, nem criada, e sim emanada, ou pelo menos em uma continuidade com a essência divina. (ver meu post sobre panteísmo: O universo é uma selfie de Deus? ) Por outros termos, tudo que existe de forma contingente e limitado existiria apenas por ser uma manifestação inevitável de Deus (o “outro lado” de Deus, por assim dizer). No caso específico do gnosticismo, haveria, porém, uma dimensão “pródiga” da realidade: o mundo material (produzido por um demiurgo ou talvez uma Sophia que cai em erro), envolve uma ilusão, ou uma queda lamentável. Identificar, cognitivamente, essa ilusão ou esse “erro,” é parte do tesouro do conhecimento gnóstico.

A visão bíblica não nega que a criação “canta as glórias de Deus” (passim nos Salmos), mas essa música tem como Grundmotiv a gratidão pelo livre dom da existência, um dom dado livremente por um Deus de amor, e que inclui, enfaticamente, o cosmos físico. O cosmos não é necessário, e há uma multidão de outros cosmos possíveis, mas Deus criou esse aqui para nós. O tema não é sobretudo manifestação ou reflexão necessárias, mas um magnânimo gesto de amor, uma superabundância gratuita e por isso mesmo um presente que transborda e brilha – como cada presente – justamente por não ser preciso.

***

Podemos extrair desses três destaques o princípio dominante no gnosticismo em todas as suas manifestações – seja quais forem a sua origem, o seu estilo ou as suas metas secundárias: É o seguinte:

O mundo – o mundo físico ou, nas versões mais modernas, simplesmente o mundo humano – não é como ele aparece. What you see is not what you get (O que você vê não é o que você tem).

O mundo é visto ou como uma ilusão total (em formas radicais, mas também marginais) ou, nas articulações mais costumeiras, como um ambiente dominado por forças clandestinas e malvadas. Se você quer realmente entendê-lo, será apenas por meio de uma gnosis especial providenciada por certos gurus.

O parentesco de uma tal visão do mundo com teorias de conspiração de todo tipo é óbvio: “o que lemos nos jornais é mentira, os políticos agem  por influências de lobistas, as organizações ocultas controlam quase tudo”, e assim por diante. Existe uma vasta literatura que alimenta esses exageros, e quanto mais você lê esses textos, tanto mais você se entrega à ideologia sabichona do gnosticismo.

Como já mencionado, o cristianismo foi também integrado na visão gnóstica na Antiguidade, re-interpretando cada componente da fé cristã como parte da doutrina gnóstica. “O que tornou isso tão insidioso foi o fato de que os Gnósticos com frequência não quiseram deixar a Igreja.” (H.U. von Balthasar, The Scandal of the Incarnation, p. 1)  Mas 1) a doutrina da criação em termos metafísicos, e 2) a doutrina do pecado original  como ferida, tendência e fraqueza, e não corrupção, em termo morais, faz com que o pensamento dos seguidores de Cristo – e especialmente na Igreja Católica, que no segundo ponto fez as definições cruciais – nunca virou um ambiente acolhedor para a cosmovisão gnóstica.

Para o cristão (e para outras religiões abraâmicas) o mundo é bom, a matéria é boa, e a carne (enquanto parte da natureza humana) é boa, como também seus prazeres; uma vez que o ser humano foi colocado no centro dessa criação material, “Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom (Gn. 1,30). Aliás – e é isto que tem que ser destacado contra toda tendência conspiracionista – o mundo humano, a nossa sociedade, apesar de todas as guerras, as corrupções, a crueldade, a injustiça, os acidentes, as epidemias, etc., etc., apesar de tudo isso, a grande maioria dos homens opta por viver, e não quer morrer (por enquanto). Há mais carros que cheguem no seu destino do que aqueles envolvidos em acidentes; há incomparavelmente mais pessoas sem doenças terminais do que com; há muito mais dias sem terremotos, furações, tornados, etc., do que com. E assim por diante. (Escrevi um post sobre o equilíbrio precário entre o bem e o mal: Os 2 antípodas da transcendência)

Isso, contanto, não é motivo para sermos ingênuos. Este mundo, no final das contas, é muito triste mesmo. Mas se for insuperavelmente ruim e triste, a raça humana teria se suicidado em massa já há milênios. O fato que o amor, a generosidade, a beleza e a seda pela justiça sempre se reerguem, e lutam nova e corajosamente contra o ódio, a ganância, a feiura e a injustiça é suficiente para animar nosso desejo de viver e travar nossa guerra.

Mesmo quando o mal goza de alguns triunfos mais espetaculares (o Terceiro Reich, o stalinismo, o maoismo, os genocídios, o tsunami de 2004, etc.), ele finalmente é saudado e vencido por reações ainda maiores de virtude, bondade, sacrifício e heroísmo que transcendem, pelo menos em intensidade, as conquistas anteriores do mal. O bem está à frente da competição, mas o mal continua nos assombrando pela sua persistência (divinamente permitida). Teremos que lutar até nossa morte.

      * * *

Na segunda parte pretendo falar sobre as três sabedorias que se opõem, expressamente, às ideias gnósticas. Como veremos, para o cristão a sabedoria filosófica não é dominada pela sabedoria teológica, mas sim ambientada e lembrada da sua subordinação à Verdade em Pessoa. Essas duas sabedorias, por suas vezes, ficam ambientadas e alimentadas, progressivamente, pela sabedoria mística (aquela que chamamos um dos sete dons do Espírito Santo). Elas se fundam na âncora de uma humildade profunda e se orientam no alto e sempre desafiante ideal do amor, proporcionando suas pequenas doses de conhecimento apenas na ordem certa, e apenas àquele que está crescendo nessas duas virtudes. Todo conhecimento distribuído por pessoas arrogantes e preponentes, incapazes de aceitar crítica, e que atacam seus oponentes com ferocidade, já é poluído, por mais que contenha elementos de verdade.

Como diz Rémi Brague em seu livrinho, Curing Mad Truths, o problema com filosofias e ideologias erradas ou soberbas não é exatamente a falsidade do que ensinam, mas a desordem que colocam entre conceitos verdadeiros. Verdades “orfãs” são incomparavelmente mais danosas do que simples falsidades, porque a falsidade é fraca e se revela rápido. Verdades avulsas exibem resistência e certa durabilidade. São elas que dão ao Novo Testamento a única ocasião de falar de um “mau conhecimento” (“A ciencia [gnosis] incha; é a caridade que edifica.” I Cor. 8,1).

Verdades, mesmo descontextualizadas, continuem gozando do poder ontológico da “inteligibilidade,” que é a fonte metafísica da própria verdade. Santo Agostinho, um dos homens mais inteligentes que já nasceu na Terra, conseguiu livrar-se do mundo gnóstico do maniqueísmo apenas quando aprendeu a humildade – e há só um único método para aprender humildade: a aceitação paciente de humilhações; logo depois, deixou seu coração arder com o calor da Verdade ordenada. Aprendeu o sentido do ditado: Ubi amor, ibi oculus. (Onde há o amor, lá também há o olho.)

Estejamos alertas sobre o perigo de conhecimento desordenado – a essência mesma do gnosticismo – porque, nas palavras de William Blake: “uma verdade dita com má intenção derrota todas as mentiras da nossa invenção.” *

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* “A truth that’s told with bad intent, beats all the lies you can invent.”

A Páscoa empírica

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Uma concepção comum e enganosa sobre o Cristianismo dirá que ele se baseia em crer cegamente em uma série de verdades abstratas com respeito a um Deus que é um e três, uma pessoa que é Deus e homem e um pão que não é algo, e sim alguém. No entanto, o lado mais abstruso desses artigos de fé seria elaborado tão somente nos séculos após as primeiras pregações dos Apóstolos. Implicitamente estavam sempre presentes, sem dúvida. Fazem parte integrante de um todo orgânico. Não obstante, vieram à tona mais tarde no crescimento desse todo, assim como flores e frutos surgem mais tarde na vida de uma árvore recém-germinada. As raízes e o tronco vêm primeiro, ou – para mudar a metáfora – os alicerces vêm antes das paredes e do telhado.

A fundação, nesse caso, foi entendida pelos primeiros seguidores de Cristo não como um ensinamento rarefeito, mas como um fato. O Cristianismo se sustenta, ou desmorona, sobre a verdade de um fato empírico. Todas as elaborações da teologia e do magistério dos concílios e dos papas surgiram subsequentemente a esse fato, cresceram em cima desse fato e apontaram insistentemente para esse fato. Sem ele, os ensinamentos teriam se tornado diáfanos sopros de ar. “Se Cristo não ressuscitou,” afirmou São Paulo sem rodeios, “logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.”  Mas, o que isso quer dizer?

Vejamos: imagine uma pessoa que você conhecia e amava, mas que, como todos nós mais cedo ou tarde, morreu. Primeiro: imagine-a quando viva e vibrante, com sangue nas bochechas e um brilho nos olhos. Agora, imagine a mesma pessoa imóvel e pálida em seu caixão. Ora, imagine ela, poucos dias depois do funeral e no meio do luto ainda pesado, entrando pela porta da frente, se aproximando de você e dando um beijo no rosto.

Tão logo você tivesse superado a dúvida inicial – talvez andando em volta dela algumas vezes, beliscando seu corpo e checando a sua respiração – dificilmente você estaria inclinado a proferir abstrações ou ruminar sobre princípios metafísicos. Ao contrário, você sentiria que algo havia acabado de mudar para sempre em sua vida. E você começaria a contar a todo mundo sobre isso. O bicho-papão mais temido de todos – a morte – teria acabado de sofrer um dramático revés, e todo um universo de significados, outrora fixos e fadados, teria sido virado de ponta-cabeça.

Essa foi a primeira experiência do conteúdo do testemunho cristão – um testemunho da morte e ressurreição de um homem conhecido e amado por um grande número de pessoas comuns. Essa morte ignominiosa e inegável – um óbito tão definitivo quanto o de uma mosca esmagada sob a sola do seu sapato – fora testemunhada e lamentada por uma turba de espectadores, apenas para ser revertida e transcendida diante dos mesmos olhos humanos e no mesmo estranho mundo em que vivemos.

Se a palavra mártir significa testemunha, o que foi testemunhado aqui foi a intrusão de uma Vida pujante e transbordante neste mundo de morte inevitável. E a novidade (a mesma que deu seu nome ao Novo Testamento) foi no fato de que isso não se apresentou apenas como uma renovação “espiritual,” mas além disto, uma “reinicialização” corporal: moléculas e células sendo postas numa nova ordem do ser. Nada parecido com isso tinha ocorrido desde o primeiro Fiat lux de Gênesis.

Milhões preferiram a tortura e até a própria morte a negar esse testemunho. O brilhante e cerebral Saulo de Tarso era talvez o maior intelectual da sua época; em termos atuais, ele teria o equivalente a doutorados em Filosofia e Teologia. Mas o Saulo virou São Paulo de Tarso apenas quando algo lhe aconteceu que nenhuma escola de filosofia podia prever, nem nenhuma lei de Moisés antecipar. O fato da Ressurreição o levou de roldão, e nunca mais o superou. A raiz da fé cristã, bem como a fonte de toda a sua mais sublime teologia reside nisto. A chave para o desdobramento de todos os mistérios a serem definidos e admirados em séculos vindouros, é: jamais superar o fato empírico da Páscoa.

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Cultos de personalidade

É fácil apontar aos cultos de personalidade obviamente fanáticos, como aquele do Mao-tse Tung, Hitler, Stalin, e dos tiranos norte-coreanos; ou, numa chave mais “espiritual,” do Bhagwan Rashneesh (“Osho”), do David Koresh, do Jim Jones, etc., e achar, com grande confiança, que você nunca cairia sob o encanto de um tal charlatão.  Quando, porém, você assiste aos vídeos e documentários sobre esses personagens e seus cultos,  e vê os rostos e ouvir as vozes nas entrevistas de seus seguidores, vai ver e ouvir entre eles algumas pessoas obviamente inteligentes, presumivelmente equilibradas, até pessoas profissionais (médicos, advogados, professores, etc.) – sem qualquer marca óbvia de fanatismo ou extremismo. Porém, estão cheias de convicção de que seu “guru” é simplesmente maravilhoso, e praticamente isento de falhas sérias. Chegam até lágrimas nos seus olhos ao falarem dele.

Os católicos têm um exemplo ainda mais preocupante na figura de Marcial Maciel, o célebre fundador dos Legionários de Cristo, uma das congregações masculinas mais bem sucedidas dos fins do século XX. Com milhares de membros jovens bem disciplinados e exemplares (e acrescento que estou falando com admiração sincera), é uma marca na história católica do século passado. Até São João Paulo II achou Maciel um homem exemplar, talvez até um santo.

Mas foi revelada aos poucos sua vida secreta e, finalmente, ficou claro que sua pessoa foi equivocada em matéria que qualquer teólogo católico consideraria gravemente pecaminosa (e a justiça civil, criminosa). Mesmo assim e apesar da fiabilidade dessas revelações, ele fez coisas boas – inclusive a própria congregação – e sua comunidade de padres está sobrevivendo apesar das manifestações bem públicas dos seus delitos.

Acho isso bom e rico em lições. Sem dúvida, os “sobreviventes” sabem distinguir bem entre os bons frutos e o caráter problemático do fundador, a quem eles, por anos e anos, tinham chamado – com grande afeição de devoção – nuestro padre (“nosso pai”).  O cristão sabe bem que Deus usa instrumentos às vezes altamente imperfeitos para realizar seus planos. Contudo, temos que manter os olhos abertos.

O fato é que mesmo pessoas extremamente dotadas e (especialmente) carismáticas podem sim fazer coisas admiráveis e atrair um séquito significante, mas sem ser realmente admiráveis nos olhos de Deus, ou de qualquer pessoa que tem longa e diferenciada experiência com seres humanos. Os seguidores mais comprometidos desses líderes são, amiúde, pessoas jovens – por definição, sem muita experiência de vida. Charme, em si, não é uma virtude.

Mesmo um Hitler ou um Stalin podiam ser altamente charmosos em relações sociais. Para discernir entre os confiáveis e os menos fidedignos precisamos critérios objetivos para identificar os líderes, os mestres  que – mesmo com grandes contribuições à nossa cultura, ou à nossa consciência política – talvez carecem algumas das virtudes mais cruciais para ficarmos minimamente do lado de Deus na grande luta que é a nossa vida.

Estou pensando em vários casos, tanto da esquerda quanto da direita. São líderes na Europa, nos Estados Unidas e na América Latina – tanto líderes políticos como culturais ou até religiosos – que podem atrair milhares de seguidores. Sugiro apenas que as pessoas apliquem esses critérios a qualquer um deles, antes de virar um “seguidor.” Pode até aprender muito com eles, mas para segui-los, busquem no caráter deles (ou seja, na personalidade moral), antes de mais nada, três sinais indicadores:

—A capacidade de aceitar crítica com graça e humildade. Quem fica tipicamente irritado e resistente a qualquer crítica às suas posições, sua pessoa ou seus atos, e tende a ridicularizar tais críticas e recusar a engajar as pessoas que as falam com tranquilidade e seriedade (ou aceitar debates públicos), não merece discípulos. Platão ficou circundado não apenas por discípulos submissos, mas também por colegas no mesmo nível dele (alguns dos quais discordaram fortemente com teses básicas do platonismo!). Aristóteles deixou um exemplo ainda mais impressionante. Ele ficou 20 anos na Academia de Platão, ouvindo posições das mais díspares, interagindo com elas e depurando suas próprias posições em diálogo com elas.

O que hoje em dia chamamos “peer review” (avaliação pelos pares) – mesmo se abusado e exagerado às vezes (como tudo nesta vida) – é uma manifestação sadia e realista daquilo que todo intelectual público precisa na definição e elaboração das suas próprias ideias. Quem trabalha sozinho, ou se gaba em ser “auto-didata,” é especialmente suscetível ao perigo de “endogamia intelectual.”  “He that is taught only by himself has a fool for a master” (Ben Johnson). 

Platão teve Sócrates e os desafiantes sofistas; Aristóteles teve Platão e sua turma; Plotino, Amônio Sacco e colegas; Agostinho teve Ambrósio e outros companheiros cultos; Tomás de Aquino, Alberto Magno e os colegas dominicanos, franciscanos e professores do clero secular….e assim por diante. Tomás, de bom escolástico, aprendeu engajar, ativa e respeitosamente, todas as abordagens plausíveis contra suas posições antes de articulá-las (as famosas objectiones). Quem não sabe fazer isso, ou algo análogo, não deveria ser seguido.

–Uma visão diferenciada (digamos, “colorida”) da realidade, sem a tendência a caracterizar as coisas em termos preto/branco. Especialmente desqualificador é a demonização de alguma corrente de pensamento ou de política e a recusa de identificar os elementos bons e positivos sem os quais, no final das contas, ninguém poderia aderir a eles absolutamente. No final das contas, é apenas a partir do bem nas posições a serem atacadas, que o ataque pode prosseguir com acerto e humildade.

–Medida e modéstia nas palavras. Alguém que nunca para de falar – que fala e fala e fala (especialmente possível hoje no mundo da mídia social!), que tem algo a dizer sobre tudo (mesmo coisas sobre as quais sabe pouqíssimo), e que dá a impressão de nutrir um amor exagerado pelo som da sua própria voz, não é um mestre confiável. O Hitler e também os ditadores do comunismo de cunho soviético são famosos pelos seus discursos de horas a fio. Um mestre verdadeiramente sábio será alguém que até prefere o silêncio, e que, pelo menos, costuma calar muito antes de abrir a boca.

Finalmente cabe observar que o apego pessoal a um professor ou mestre, pelo menos nos primeiros meses e anos de aprendizagem, é normal e praticamente inevitável. Começamos nossa vida como crianças com confiança totalmente acrítica em nossos pais, e é bom assim. Mas não é bom uma pessoa que chega na casa de 30 anos continuar viver sob a guarda-chuva dos seus pais e recusar a ganhar sua independência tanto econômica quanto intelectual.

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É a mesma coisa com nossos professores; eles fazem uma contribuição preciosa à nossa formação por um tempo estritamente delimitado, e depois a relação deveria terminar. Teremos que reconhecer que eles são também humanos, que têm fraquezas e que um vínculo permanente de discípulo para com eles só vai prejudicar nosso amadurecimento. Há só uma grande exceção a isso; estou escrevendo este texto na Semana Santa, dedicada aos dias mais silenciosos daquele que é o Verbo em carne. Apenas sete brevíssimas palavras serão proferidas por ele Sexta Feira Santa à tarde. Enfim, Ele é a única personalidade que merece um culto.

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Festa da Família Inquieta

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Cada vez que celebramos a Festa da Sagrada Família, lembro-me de minha viagem ao Egito, há tantos anos, e das visitas a alguns dos vários lugares dedicados pelos cristãos coptas àquela Família. A fuga para o Egito (mencionada apenas por São Mateus) recebe alguma atenção da arte cristã, e é até contada como uma das Dores de Maria na tradição católica. Mesmo assim, é bastante negligenciada pela igreja ocidental – ao menos quando se a compara com a importância que, previsivelmente, teve no Egito. Não menos de 14 lugares egípcios comemoram aquela visita com capelas e igrejas. Elas marcam os locais de pouso ou as residências temporárias da Sagrada Família, enquanto seguiu os passos daquele outro José que entrou no Egito (igualmente constrangido, contra sua vontade), mil e quinhentos anos antes. No devido tempo, esta Família seguiria também os passos de Moisés fora do Egito. Porém, neste caso, em vez de buscar a Terra Prometida lá além do Mar Vermelho, ela levaria a promessa consigo, no Menino Jesus.

A doce paz da cena da manjedoura pode nos pôr a dormir num conforto decepcionante. Todos nós amamos estar “em casa no Natal,” mas a ocasião do nosso feriado é a comemoração de um desabrigo dos mais cruéis. O estábulo sujo e os animais fedentes são circundados com luzinhas de Natal em nosso presépios, no que foi apenas um abrigo temporário para esses três fugitivos. É muito fácil esquecermos a agitação que se seguiu à inesperada gravidez de Maria, e o massacre dos inocentes provocado pelos três astrólogos orientais, que apenas perguntavam sobre o paradeiro de Belém. Os anos da Sagrada Família no Egito – os coptas contam sete – assim como os quatro séculos da longa estadia de seus ancestrais, devem ter sido mais formativos do que se imagina.

Jesus teria começado a falar nas terras do Nilo, e algumas das primeiras vistas captadas pelos seus olhos jovens teriam sido pirâmides e templos faraônicos. Quando a segurança permita, os turistas de hoje amam fazer um tour dos monumentos exóticos do Egito e maravilhar sobre essa cultura que gerou toda uma ciência (egiptologia). Contudo, para Maria e José, devia ter sido mais assustador do que fascinante. Quais pensamentos deviam ter passado pela mente do Menino Jesus quando sua memoria inocente ficou armazenada com essas imagens da terra misteriosa dos faraós. Mas de alguma forma faz sentido. Como os judeus se tornaram um povo no Egito, e o Velho Testamento se tornou um livro na Babilônia, aqui também parece que, muitas vezes, Deus faz o seu “melhor trabalho” quando seus escolhidos se acham no exílio.

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Espiritual, mas não religioso? (rev.)

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Um refrão comumente escutado hoje em dia por aqueles que relutam em sucumbir inteiramente ao secularismo, e tentam manter uma porta aberta à transcendência, mas avessos a instituições religiosas corruptas e calcificadas, é: “Eu sou uma pessoa espiritual, mas não religiosa.” Quando questionados sobre o conteúdo dessa espiritualidade – dificilmente se pode afirmar isso sem algumas convicções de fundo –, eles responderão mais ou menos o seguinte: 1) eu acredito em uma ‘força superior’ – chame-a de Deus, se quiser; 2) na última análise, todos nós somos um, e eu gostaria de me sintonizar com essa unidade – chame isso de ‘amor’, se preferir; 3) encontrei vias comprovadas de comunhão com essa força superior – chame isso de oração ou meditação, se gostar; 4) todas as religiões são basicamente iguais, e a espiritualidade que eu encontrei constitui a sua realidade interna; o resto é só ‘decoração de vitrine’. Em suma, esses buscadores espirituais concluem que, se você já descascou a banana, é melhor jogar a casca fora de uma vez. É difícil negar que isso soa, de cara, convincente.

Testemunhamos hoje um amplo espectro de variações desse tipo de atitude, desde a opção mais simples e pessoal de se manter distante da religião organizada, em favor da própria espiritualidade privada (com crenças meio flexíveis, e com alguma relutância em discutir os pormenores delas e em prega-las aos sete ventos – afinal, “são privadas”), até crenças universalistas alardeadas publicamente. Encontramos gurus convencidos de ter chegado a uma revelação perene, a uma jardim de verdade escondida. Podem convidar todo mundo, com ou sem convicção religiosa para participarem de retiros de fim de semana e workshops. Assim, ou por livros que divulgam a mensagem, lhes darão acesso às próprias experiências espirituais extrassensoriais ou preternaturais. Tudo isso com frequência é empacotado em técnicas tomadas emprestadas a várias tradições (principalmente orientais), ou feito sob medida por colaborações especiais entre práticas antigas e a moderna neurociência.

O bufê oferecido é bastante extenso, mas a mensagem é, no fundo, a mesma: o isolamento do essencial e a marginalização e relativização do secundário. Os gurus desse evangelho podem até recomendar uma ou outra tradição religiosa externa, mas quase sempre na qualidade de um adjunto cultural (um ‘meio útil’ entre tantos outros, chamado de upaya na Índia); o que importa é que se apreende a essência subjacente e se reconhecem todas as formas e instituições religiosas, em última análise, como secundárias e dispensáveis.

De novo, tudo isso pode soar bastante plausível. Mas há problemas. Em primeiro lugar, eu perguntaria se esse esquema de coisas é operativo em outas áreas importantes da vida e da cultura. Caso negativo, por que na religião deveria ser diferente? Ou seja, essa suposta oposição entre o ‘essencial’ e o ‘adjunto’ funciona em outras dimensões de nossa experiência? Vamos considerar alguns exemplos.

Comecemos primeiro com o corpo. De que eu preciso absolutamente para viver e sobreviver? Na verdade, cabeça e tronco são suficientes em larga medida, e mesmo os olhos e as orelhas não são estritamente obrigatórios para que o organismo funcione. Membros e sentidos superiores podem ser dispensados e mesmo assim o corpo continuará vivo e respirando. E, apesar de esses casos existirem, e nós fazermos o melhor para pessoas assim lidarem com sua deficiência e valorizarem a sua dignidade humana, ninguém há de ser hipócrita a ponto de defender que seja desejável, digamos assim, ‘restringir-se ao essencial’ em termos de nossa existência corporal. Aquilo que não pertence necessariamente à essência do corpo pertence sim à sua integridade. E esta última existe por causa da primeira. Nosso membros e os sentidos mais elevados estão no serviço da sede dos nossos órgãos vitais (tronco e cabeça), os quais, por sua vez, dão a aquelas capacidades ‘secundárias’ a possibilidade de expandir e explorar.  Separação das duas esferas é sempre vivida como violenta.

Em seguida, consideremos nossas necessidades corporais por comida, vestuário, moradia, combustível e transporte. O ‘essencial’ aqui seria que os bens materiais simplesmente circulassem entre nós, fornecendo a cada um o que precisa, no momento certo, e numa medida que permitiria a todos participarem da riqueza de forma equitativa. Sonhos utópicos das mais variadas linhas – fascistas, comunistas, ou até de um capitalismo desregrado – oferecem vislumbres saudosos desse Shangri-La. Contudo, os adultos entre nós suspirarão e admitirão que a história nos tem mostrado, repetidas vezes, que não se pode manter os bens em circulação no longo prazo sem algum tipo de moeda, sistema de mercado, lojas, bancos e até mesmo algum grau de controle governamental.

Na ordem política, igualmente, o ‘essencial’ seria para nós vivermos em harmonia, lado a lado, portas destrancadas, solucionando todas as questões comunitárias por meio de festivos referendos (com aprovação unânime e espontânea); em suma, vivendo numa Pleasantville de sorrisos fáceis, mas superficiais. Novamente, franzimos nossos cenhos e admitimos que, fora muito poucos e curtos experimentos comunitários, apenas chegamos perto da paz e prosperidade por meio da ação de algum tipo de poder soberano, de alguma burocracia, e ainda por cima alguns soldados e policiais. Essas coisas podem não ser necessárias no Paraíso, mas todos os ‘paraísos’, até agora ensaiados nesta terra, têm se transformado rapidamente em infernos. A única estratégia que deu certo é a seguinte: a minimização dos males predizíveis através de ‘checks and balances‘, revisão judicial, subsidiariedade, limites de mandados e outros freios aos nossos apetitos facilmente desviados. Para preservarmos um mínimo de espontaneidade na natureza, só a criação de boas instituições mostrou-se eficaz.

Acho que o leitor pode ver onde quero chegar. Como nossos membros e sentidos superiores emergem de nosso organismo embrionário, servem-no e o protegem, e o levam às suas mais promissoras aventuras; e como nossas instituições econômicas emergem de nossa necessidade por bens e dessa forma servem a seu conseguimento; e assim como nossas instituições políticas emergem de nossa necessidade de paz e ordem e, por sua vez, atendem a essa necessidade; por que a relação entre espiritualidade e religião seria diferente?

Tanto as instituições econômicas quanto as políticas, sendo realidades vivas, crescem; e tudo o que cresce, tende, com o passar do tempo, a crescer demais, de modo que serão necessárias podas e reformas periódicas. Só assim as coisas conseguem ficar colimadas aos seus propósitos originais. As grandes religiões começam com uma grande espiritualidade, com um encontro especial de alguém com uma realidade transcendente (deixo para uma outra postagem falar das diversas possíveis partes da realidade espiritual e das implicações disso para a diferenciação entre as religiões – ver Filosofia da Religião), e isso engendrou uma interação humana complexa com essa realidade, sob a forma de tradições sapienciais e sistemas de crenças para a mente; guias morais para a vontade; e rituais e liturgias para nossos corpos. As instituições geradas por uma espiritualidade original crescerão, e às vezes crescerão excessivamente, e – assim como em suas congêneres econômicas e políticas – também precisarão de podas e reformas.

Em resumo, longe de ser alheia ou oposta à espiritualidade, é na geração e preservação dela que consiste a raison d’être da religião; a religião é, no seu melhor, o rebento natural e o prolongamento da espiritualidade testada. Durante milênios, nada além dela conseguiu protegê-la e guiá-la. As suas instituições podem ser tão enfadonhas e entediantes como as transações financeiras na vida econômica, ou as discussões parlamentares na vida política; contudo, sem tudo isso, os bens param de circular, a ordem pública entra em colapso, e a chama da espiritualidade se apaga. A espiritualidade sem a religião pode até funcionar para uns poucos, mas não para todos; e mesmo para aqueles poucos, funcionará apenas por algum tempo, e mais cedo que mais tarde vai perder a sua forma e achatar-se em suspiros vazios. Enfim, espiritualidade sem religião nunca erguerá uma civilização. A religião, não obstante todos os seus excessos e corrupções, não apenas tem sido um essencial pré-requisito para civilização – tem sido, comprovadamente, a sua única causa documentável.

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