Cultos de personalidade

É fácil apontar aos cultos de personalidade obviamente fanáticos, como aquele do Mao-tse Tung, Hitler, Stalin, e dos tiranos norte-coreanos; ou, numa chave mais “espiritual”, do Bhagwan Rashneesh (“Osho”), do David Koresh, do Jim Jones, etc., e achar, com grande confiança, que você nunca cairia sob o encanto de um tal charlatão.  Quando, porém, você assiste aos vídeos e documentários sobre esses personagens e seus cultos,  e vê os rostos e ouvir as vozes nas entrevistas de seus seguidores, vai ver e ouvir entre eles algumas pessoas obviamente inteligentes,  presumivelmente equilibradas, até pessoas profissionais (médicos, advogados, professores, etc.)–sem qualquer marca óbvia de fanatismo ou extremismo. Porém, estão cheias de convicção de que seu “guru” é simplesmente maravilhoso, e praticamente isento de falhas sérias.  Chegam até lágrimas nos seus olhos ao falarem dele.

Os católicos têm um exemplo ainda mais preocupante na figura de Marcial Maciel, o célebre fundador dos Legionários de Cristo, uma das congregações masculinas mais bem sucedidas dos fins do século XX, com milhares de membros jovens bem disciplinados e exemplares (e acrescento que estou falando com admiração sincera). Até São João Paulo II achou Maciel um homem exemplar, talvez até um santo. Mas foi revelada aos poucos sua vida secreta e, finalmente, ficou claro que sua pessoa foi equivocada em matéria que qualquer teólogo católico consideraria gravemente pecaminosa (e a justiça civil, criminosa). Mesmo assim e apesar da fiabilidade dessas revelações, ele fez coisas boas–inclusive a própria congregação–e sua comunidade de padres está sobrevivendo apesar das manifestações bem públicas dos seus delitos. Acho isso bom e rico em lições. Sem dúvida, os “sobreviventes” sabem distinguir bem entre os bons frutos e o caráter problemático do fundador, a quem eles, por anos e anos, tinham chamado–com grande afeição de devoção–nuestro padre (“nosso pai”).  O cristão sabe bem que Deus usa instrumentos às vezes altamente imperfeitos para realizar seus planos. Contudo, temos que manter os olhos abertos.

O fato é que mesmo pessoas extremamente dotadas e (especialmente) carismáticas podem sim fazer coisas admiráveis e atrair um séquito significante, mas sem ser realmente admiráveis nos olhos de Deus, ou de qualquer pessoa que tem longa e diferenciada experiência com seres humanos; os seguidores mais comprometidos desses líderes são, amiúde, pessoas jovens–por definição, sem muita experiência de vida. Charme, em si, não é uma virtude. Mesmo um Hitler ou um Stalin podiam ser altamente charmosos em relações sociais.  Para discernir entre os confiáveis e os menos fidedignos precisamos critérios objetivos para identificar os líderes, os mestres  que–mesmo com grandes contribuições à nossa cultura, ou à nossa consciência política–talvez carecem algumas das virtudes mais cruciais para ficarmos minimamente do lado de Deus na grande luta que é a nossa vida.

Estou pensando em vários casos, tanto da esquerda quanto da direita. São líderes na Europa, nos Estados Unidas e na América Latina–tanto líderes políticos como culturais ou até religiosos–que podem atrair milhares de seguidores. Sugiro apenas que as pessoas apliquem esses critérios a qualquer um deles, antes de virar um “seguidor”. Pode até aprender muito com eles, mas para segui-los, busquem no caráter deles, antes de mais nada, três sinais indicadores:

  1. A capacidade de aceitar crítica com graça e humildade. Quem fica tipicamente irritado e resistente a qualquer crítica às suas posições, sua pessoa ou seus atos, e tende a ridicularizar tais críticas e recusar a engajar as pessoas que as falam com tranquilidade e seriedade (ou aceitar debates públicos), não merece discípulos. Platão ficou circundado não apenas por discípulos submissos, mas também por colegas no mesmo nível dele (alguns dos quais discordaram fortemente com teses básicas do platonismo!). Aristóteles deixou um exemplo ainda mais impressionante. Ele ficou 20 anos na Academia de Platão, ouvindo posições das mais díspares, interagindo com elas e depurando suas próprias posições em diálogo com elas. O que hoje em dia chamamos “peer review” (avaliação pelos pares)–mesmo se abusado e exagerado às vezes (como tudo nesta vida)–é uma manifestação sadia e realista daquilo que todo intelectual público precisa na definição e elaboração das suas próprias ideias. Quem trabalha sozinho, ou se gaba em ser “auto-didata,” é especialmente suscetível ao perigo de “endogamia intelectual.”  “He that is taught only by himself has a fool for a master” (Ben Johnson).  Platão teve Sócrates e os desafiantes sofistas;  Aristóteles, Platão e sua turma; Plotino, Amônio Sacco e colegas; Agostinho teve Ambrósio e outros companheiros cultos; Tomás de Aquino, Alberto Magno e os colegas dominicanos, franciscanos e professores do clero secular….e assim por diante.  Tomás, de bom escolástico, aprendeu engajar, ativa e respeitosamente, todas as abordagens plausíveis contra suas posições antes de articulá-las (as famosas objectiones).  Quem não sabe fazer isso, ou algo análogo, não deveria ser seguido.
  2. Uma visão diferenciada (digamos, “colorida”) da realidade, sem a tendência a caracterizar as coisas em termos preto/branco. Especialmente desqualificador é a demonização de alguma corrente de pensamento ou de política e a recusa de identificar os elementos bons e positivos sem os quais, no final das contas,  ninguém poderia aderir a eles to begin with.  A partir do bem nas posições a serem atacadas, o ataque pode prosseguir com acerto e humildade.
  3. Medida e modéstia nas palavras. Alguém que nunca para de falar–que fala e fala e fala (especialmente possível hoje no mundo da média social!), que tem algo a dizer sobre tudo, e que dá a impressão de nutrir um amor exagerado pelo som da sua própria voz, não é um mestre confiável. O Hitler e também os ditadores do comunismo de cunho soviético são famosos pelos seus discursos de horas a fio. Um mestre verdadeiramente sábio será alguém que até prefere o silêncio, e que, pelo menos, costuma calar muito antes de abrir a boca.

Finalmente cabe observar que o apego pessoal a um professor ou mestre, pelo menos nos primeiros meses e anos de aprendizagem, é normal e praticamente inevitável. Começamos nossa vida como crianças com confiança totalmente acrítica em nossos pais, e é bom assim. Mas não é bom uma pessoa de 25 ou 30 anos continuar viver sob a guarda-chuva dos seus pais e recusar a ganhar sua independência tanto econômica quanto intelectual. Igualmente com nossos professores; eles fazem uma contribuição preciosa à nossa formação por um tempo estritamente delimitado, e depois a relação deveria terminar. Teremos que reconhecer que eles são também humanos, que têm fraquezas e que um vínculo permanente de discípulo para com eles só vai prejudicar nosso amadurecimento. Há só uma grande exceção a isso; estou escrevendo este texto na Semana Santa, dedicada aos dias mais silenciosos daquele que é o Verbo em carne.  Sete brevíssimas palavras serão proferidas por ele Sexta Feira Santa à tarde. Ele é a única personalidade que merece um culto.

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Sobre o abusado, o corrompido e o excepcional

Abusus non tollit usum. Corruptio optimi pessima. Exceptio probat regulam.

Esses três adágios latinos têm me ajudado a permanecer sensato, talvez mais do que as milhares de páginas de filosofia que eu li. Em resumo, eles me alertam a não renunciar o uso por causa do abuso; a não negligenciar a excelência por causa da sua frequente corrupção; e a não relativizar as regras, só porque as exceções são tão incômodas. O quão fácil a mente pode escorregar para dentro dessas armadilhas, observa-se com clareza para onde quer que se olhe, particularmente nessa era abusiva, corrupta e excepcional em que vivemos.

Em primeiro lugar, deixe-me traduzir – a necessidade disso é, em si, uma triste característica de uma cultura não mais familiarizada com suas línguas clássicas. ‘O abuso não exclui o uso’; ‘A corrupção do melhor é o pior’; e ‘A exceção prova a regra’.

O primeiro é muito simples. Continuamos a cortar nossa bisnagas com facas, a despeito dos muitos pescoços humanos que têm sido cortados com o mesmo instrumento afiado. O que seria da nossa cultura sem as facas? O princípio do adágio em questão é que apenas coisas intrinsecamente boas podem ser abusadas. Não se pode realmente abusar do lixo, nem destratar refugos. Mas se pode abusar de uma criança, e sabemos instintivamente a razão disso: porque uma criança é a coisa mais preciosa que o nosso triste mundo possui. Esquecemos essa verdade geral, porém, quando é a religião que está sendo abusada, e muitos logo deslizam para o argumento ilógico em favor de sua abolição. Políticos e policiais abusivos são um flagelo, mas um mundo sem política e polícia é um mundo em que não há coisa alguma para ordenar nem para defender. Então, da próxima vez que alguém mostrar indignação sobre o abuso disto ou daquilo, olhe logo para o valor da coisa abusada, e aproveite o ensejo para apreciar ainda mais a coisa cuja excelência faz possível um abuso tão chocante.

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Parcialmente sobreposto ao primeiro princípio, temos o segundo. Como o abuso se aplica apenas a coisas boas, o abuso e a corrupção das melhores coisas produzem as piores, assim como acontece com as crianças – e, repito, com a religião. Não achamos revoltante quando vemos um mosquito esmagado, mas a carcaça de um cachorro já nos faz pular de horror e nojo. Quanto melhor o corpo, mais repelentes os seus restos. A Antiguidade Tardia estragou sua mente coletiva ao assistir a magnífica civilização romana decair lentamente e putrefazer-se, desafiando por séculos a historiadores e filósofos – de Agostinho a Gibbon – a entenderem porque uma das melhores sociedades humanas transformou-se numa das piores. Acredite você em anjos ou não, é significativo o fato de que a angelologia semítica diz que o mais elevado dos anjos caiu par se tornar o mais baixo; o nome inicialmente tão amável ‘Lucifer’ (o ‘portador da luz’) agora soa diabólico. Outro exemplo é o seguinte: os mais próximos e íntimos laços humanos são os de sangue, os sagrados vínculos familiares; contudo, os conflitos humanos mais sangrentos são as guerras civis e fratricidas. Da mesma forma, nenhum inimigo é tão feroz quanto um amigo que virou inimigo. Essa lista dos melhores tornando-se os piores vai longe.

web.op_.ghosh_.lefthanded.KCP_O terceiro adágio é potencialmente o mais controverso, embora, na prática, pareça o mais óbvio. Sem entrar muito em argumentos filosóficos, ou até científicos, em que ele poderia ser questionado, penso estarmos justificados em pensar, pelo menos de saída, como ele funciona em nossos assuntos do dia-a-dia. A maioria das pessoas é destra, e o mundo está cheio de sinais dessa preponderância estatística – desde a produção de automóveis, construção de estradas e carteiras de escola, até a ordem das cordas nos violões e violinos, e – num contexto menos agradável – todas as formas de alusões ‘sinistras’. Ainda assim, damos ‘colheres de chá’ aos canhotos sempre que podemos. Afinal de contas, não são culpados por essa sua tendência. Contudo, estaríamos exagerando se insistíssemos que metade de todas as carteiras escolares fossem para canhotos. Claramente, o ‘mundo canhoto’ é uma exceção ao destro, e isso ressalta – ‘prova’ – a regra. Essa prova, contudo, não nos exige extirpar as exceções, nem a bani-las a um gueto. Diz apenas que o mundo é muito mais interessante e belo, em parte, por não ser imperiosamente simétrico.

Enquanto houver temor de que a constatação de exceções constitua uma ameaça às regras, as leis da vida e do seu desenvolvimento, bem como as tendências naturais, continuarão a ser encaradas como leis draconianas, com nossas mentes buscando regras que não sofrem exceções, vendo isso como a única forma de honrar a natureza. Mas, até a ciência moderna – outrora orgulhosa de suas ‘leis da natureza’ de validade necessária e universal – está hoje em dia acostumada a admitir lidar com probabilidades estatísticas na maioria das vezes, e com tendências e aproximações que, na realidade, ganham mais destaque justamente por meio das exceções que lhes negam a universalidade.

Eu tenho que desviar para a faixa errada, a fim de evitar atropelar um pedestre, e esse momento de comportamento excepcional simplesmente ressalta, com um toque dramático, o quão importante é – em 99% das vezes – permanecer na faixa correta (e, para os pedestres, manterem-se fora da rua). Gostaria de escoltar este princípio a alguns tópicos mais controversos, mas deixarei isso para outro dia.

 

Luz recebida (atualizada)

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Alguns amigos e alunos pediram-me para indicar os autores que exerceram a maior influência sobre minha vida e meu pensamento nos últimos quarenta anos. Se alguma vez minhas palavras comunicaram luz e tocaram vidas, o crédito deve-se em grande parte aos professores maravilhosos que eu tive e aos livros de alguns autores que li. Uma vez que os professores todos já bateram as botas, contento-me em indicar os autores. Restrinjo a lista a autores de tempos recentes; Platão, Aristóteles, Agostinho e Tomás de Aquino ocupam obviamente o topo da lista de influências filosóficas de qualquer pessoa inteligente, assim como os demais autores das assim chamadas Grandes Obras – no drama, história, epopeia e poesia – estarão também pressupostos.

Nos últimos anos (desde que esbocei o parágrafo acima), alguns autores novos entraram na lista. Três deles, em particular, mostraram ser capazes de trazer tal inovação a partir da preservação do antigo – como ensinou Confúcio –, e de tal modo que conectaram múltiplos pontos em minha educação, e por perspectivas tão variadas e abrangentes, que precisei de alguns meses para engolir, ruminar, e engolir novamente, e então (finalmente) para digerir e conduzir seus ensinamentos a uma visão mais ampla e luminosa.

Comprei o Curso de Filosofia de João de São Tomás em Roma em fins dos anos 1970, em uma linda edição latina. Estudei sua lógica e teoria dos signos com grande atenção na época. Continuei a ponderar sobre a questão dos ‘signos’ até finalmente publicar minha própria síntese modesta sobre a matéria na virada do novo século (disponível em ‘My Writings’, como The Seven Signa). Minha preocupação naquele tempo era mais sobre a noção de ‘símbolo’ (dado que eu ansiava por entender a obra dos perenialistas), mas como eu viria a saber, há muito mais no pacote do que isso. Quando, em meados da segunda década do novo século, topei com o trabalho de Charles Peirce, 1860-1914 (sou bastante lento em acompanhar o pensamento contemporâneo) e do semiótico Thomas Sebeok, recentemente falecido, verifiquei que todo esse assunto tomou novos – e, não obstante, antigos – caminhos. Conhecer os trabalhos de meu conterrâneo, John Deely, tornou-se a peça final do quebra-cabeça para me tornar um verdadeiro crente. Seus escritos balançaram meu mundo (como se diz) mais do que os de qualquer outra pessoa desde de G.K. Chesterton, cerca de 40 anos atrás.

Algo análogo aconteceu ao mesmo tempo, ainda que mais para o lado menos teórico das coisas – isto é, mais prático (moral, apetitivo etc.) –, quando eu finalmente cedi aos rumores que me assaltavam há anos e comecei a ler os trabalhos de René Girard. Seus livros são ademais profundamente enraizados na tradição, mas também – e isto é crucial – extremamente antenados ao que ocorre na cultura contemporânea, produzindo assim novos, surpreendentes e chocantes insights. Girard requer muita reflexão, e seu retorno à Igreja de sua infância, como era de se esperar, tornou-o menos palatável à ciência social ‘da moda’. Pessoas mais sábias do que eu, contudo, haviam apontado a importância fundamental desse francês expatriado. Uma das bênçãos de nossa era digital é que você pode assistir a Girard no Youtube, dando uma olhada nesse homem em ação (Deely parece ter sido mais tímido para aparecer em vídeos).

Acrescento um terceiro pensador a minha nova família de influências (outra vez, um francês, o que em si é uma prova de que eu vou mais pelo conteúdo do que por afeições paroquiais – sou tudo menos um francófilo). A trilogia de Louis Dupré (um livro sobre o começo da modernidade, um segundo sobre o Iluminismo, e um terceiro sobre o Romantismo) não recebeu a atenção merecida. Assim como ocorreu quando li Deely ou Girard, algo similar ocorre quando tenho diante de mim uma página de Dupré. Eu tenho a mesma experiência: múltiplos pontos de luz de meus cerca de 50 anos de estudos e reflexões são subitamente conectados e dotados de nova intensidade.

Logo, eu adiciono esses três novatos a minha lista.

  1. G.K. Chesterton, e em particular, a sua não-ficção. Ortodoxia  e  O homem eterno foram lidos por mim várias vezes e em cada uma delas senti-me totalmente tomado. Seu efeito sobre a mente é nada menos do que tonificante.
  2. Beato John Henry Newman, cujas obras Gramática do assentimentoEnsaio sobre o desenvolvimento da doutrina cristã, e Ideia de uma universidade – com suas visões novas, mas enraizadas, sobre a fé, a história e a educação, respectivamente – marcam ele como um moderno Padre da Igreja.
  3. Hans Urs von Balthasar – suplementado por Agostinho e Tomás de Aquino –, em minha opinião, o maior teólogo dos tempos modernos (glosado e contextualizado por Cyril O’Regan e Aidan Nichols, e, em certos assuntos, saudavelmente ‘chacoalhado’ pelos retoques corretivos do brilhante teólogo ortodoxo, David Bentley Hart).
  4. C.S. Lewis, provavelmente o mais sofisticado apologista cristão do século XX, assim como um guia esplêndido para a literatura pré-moderna. Dois sucessores dignos de Lewis seriam o americano Peter Kreeft e o inglês (recentemente falecido), Stratford Caldecott.
  5. Max Picard: O Mundo do silêncio, O homem e a linguagem, e qualquer outra coisa que se possa encontrar traduzido (ele escreveu em alemão). Um gênio contemplativo pouco celebrado, particularmente fascinado pelos universos infinitos da face humana.
  6. Cornelio Fabro, o único tomista que conheci que conseguiu penetrar verdadeiramente no íntimo da mente de Tomás de Aquino, e depois prosseguir com o mesmo pensamento através dos séculos subsequentes. Não é para os fracos… (Suas obras principais estão sendo finalmente traduzidas para o inglês).
  7. Os frades dominicanos de meados do século XX na Inglaterra, e os seus correlatos tomistas nos Estados Unidos: Thomas Gilby, Victor White (Reino Unido), Vincent Smith, James Collins (EUA); e também os contemporâneos E.L. Mascall, E.I. Watkin, Henry Babcock Veatch. Essas caras jamais nos decepcionarão.
  8. R.C. Zaehner, o melhor estudioso de religiões mundiais que eu conheço, que – porquanto seja um convicto católico convertido– recusa-se a “levantar falso testemunho” com respeito a outras abordagens da transcendência. Sua profunda fé gera um pensamento robusto e aventureiro. Devo incluir também Raimon Panikkar, Wilhelm Halbfass e Huston Smith.
  9. Historiadores: Friedrich Heer, Eric Voegelin, Christopher Dawson: todos estes perceberam que – goste-se ou não – a afirmação ou a rejeição da transcendência prepara o palco para a história, que é feita de escolhas humanas. Tudo o mais é secundário e terciário.
  10. A.K. Coomaraswamy: do meu ponto de vista, o representante mais consistentemente cultivado e penetrante da tradição indiana de língua inglesa, com conhecimento enclopédico e uma potente intuição com respeito à arte, filosofia e religião em todas as suas formas. Pesado na erudição, e talvez com notas de roda pé excessivas, suas intuições são profundas, estimulantes e infindáveis.
  11. Joseph Pieper: o melhor e mais acessível intérprete popular da sabedoria ocidental, na tradição platônica-aristotélica-tomista, especialmente em questões morais.
  12. Norris Clarke and Richard de Smet: dois entre muitos que estão atualmente se especializando na noção ocidental e semítica de pessoa, como o elo final de articulação não só das tradições sapienciais ocidentais, mas também orientais – e mesmo das tradições ágrafas. Essa noção detém a chave às dimensões mais profundas da filosofia perennis – tanto metafisicamente, quanto moralmente e musicalmente.
  13. John Deely: ele faleceu no começo de 2017, mas nos deixou uma quantidade enorme de textos. Comece com o seu Basics of Semiotics, ou melhor: Semiotic Animal. Os tomistas deveriam ler primeiro o seu Intentionality and Semiotics. (Há mais, muito mais). De Girard,  comece com seus trabalhos mais recentes, pós-1977, começando com Things Hidden Since the Foundation of the World. Os mais importantes livros de Dupré são provavelmente os três livros mencionados acima.

 

Isso é tudo (por enquanto…).

First Review of Kelly Anthology (link e tradução portuguesa)

tradução portuguesa (resenha em inglês publicado no The National Catholic Register, 12 de maio de 2018):

Bernard Kelly e o vigor do pensamento leigo

Gerald J. Russello

A CATHOLIC MIND AWAKE – The Writings of Bernard Kelly. Edited by Scott Randall Paine. Angelico Press, 2017.  (UMA MENTE CATÓLICA DESPERTA – Os escritos de Bernard Kelly) – ainda sem tradução para o Português.

Este livro é um bem-vindo e importante ato de recuperação. Bernard Kelly (1907-1958) foi um católico comum, que viveu em Windsor com uma grande família e trabalhou como bancário. Mas, Kelly tinha outra vida.

 Por quase três décadas, Kelly forneceu ensaios filosóficos sofisticados e resenhas, em primeiro lugar para o Blackfriars, o prestigioso periódico dos Dominicanos. Nessa coletânea, os escritos de Kelly são vistos pela primeira vez desde sua publicação original.

Não é claro, a partir da excelente introdução de Scott Randall Paine, um professor de filosofia da Universidade de Brasília, o que levou Kelly à sua estranha vida dupla. Entre as demandas de seu trabalho e de seus seis filhos – sem falar da tuberculose que o abateu por dois anos nos anos 1940 –, claramente alguma força motora o compeliu a escrever de modo a entender os desafios filosóficos e religiosos de seu tempo.

Kelly escrevia na esteira de uma grande série de convertidos católicos, desde John Henry Newman a Christopher Dawson, passando por G. K. Chesterton e Eric Gill, cuja apologética e outros trabalhos definiram o catolicismo inglês por um século. Kelly foi herdeiro e defensor dessa tradição.

Dado o período em que ele escreveu, seus escritos aparentemente mostram a confiança filosófica do tomismo de meados do século, antes das convulsões dos anos 1960 e 1970. Contudo, nesses escritos, veem-se mais do que exposições secas: Kelly tem lampejos intuitivos derivados de sua vivência nas finanças e como homem de família que conecta suas preocupações filosóficas com o mundo como um todo. Há muito mais aqui do que se pode suspeitar à primeira vista.

 O livro é dividido em quatro seções principais, cobrindo tópicos que vão desde Gerard Manley Hopkins (de quem Kelly foi um crítico astuto e sensível), à justiça econômica e àquilo que hoje seria chamado de religião comparada.

 Num ensaio de 1935, “The Bourgeois Position” [algo como ‘a atitude burguesa’], Kelly liga as falhas dessa atitude ao pecado da preguiça, que é como uma lassidão espiritual. Kelly não fala da perspectiva de um monastério ou reitoria, mas desde o mundo dos negócios. Ele sabe o valor do livre mercado e o que é preciso para cuidar da família, mas também conhece a tentação de pensar que o sucesso econômico é tudo o que importa. Mas, a despeito de tudo, ele conclui que um católico não pode ser inteiramente ‘do’ mercado. Desta crença “deriva o modo de sua espiritualidade burlesca… Deixa-o à vontade para ir à igreja. Buscador de conforto em tudo, ele impôs à religião… os limites de seus sentimentos relaxantes, preenchendo o corpo de sua fé com um caloroso brilho sentimental”.

 Kelly escreveu durante as perturbações econômicas dos anos 1930 e rejeitou a solução comunista em virtude do ateísmo e da natureza essencialmente desumanizante dessa solução; ao invés disso, “o impulso da ética cristã não pode bloquear a melhoria da natureza das atividades industriais e dos produtos industriais.”

 Atuando no pensamento distributivista, Kelly defendeu que o trabalho deveria ser belo e humanamente proporcionado; com isso, ele não era um nostálgico, mas procurou explicar os princípios sociais católicos no mundo real.

 O outro assunto que distingue Kelly é sua interação leiga com as religiões não cristãs.

 Kelly, por exemplo, correspondeu-se por anos com o importante filósofo indiano e historiador Ananda Coomaraswamy, que se tornou um interlocutor para Kelly entre as tradições filosóficas ocidental e oriental. Essa coletânea contém os resultados dessa conversação que perdurou por toda a vida de Kelly.

 Essa pode ser uma estrada perigosa; outros católicos que buscaram uma filosofia ‘perene’ sob as especificidades das diferentes tradições, por fim, perderam a sua fé. Mas, a interação com essas tradições não pode ser evitada no mundo moderno.

 Kelly se nos apresenta como um modelo de católico não temeroso de mergulhar profundamente em textos hindus (aprendendo Sânscrito para isso), a fim de entender os conceitos não cristãos acerca do divino, mas tampouco esquecendo-se de levar o Evangelho consigo. O seu discurso de 1956 à Sociedade São Tomás de Aquino de Cambridge, publicado como “A Thomistic Approach to the Vedanta” (Uma abordagem tomista do Vedanta) faz exatamente isso discutindo a metafísica tomista no contexto das escrituras hindus.

 Todo o conhecimento nos é dado para nos ajudar a chegar à verdade, acreditava Kelly, e outras tradições podem nos auxiliar a vermos Deus de nossa perspectiva. Que ele mantivesse sua fé, e até mesmo a fortalecesse, isto é óbvio, tal como se reflete numa profunda meditação sobre a Via Sacra em 1956.

 Como nota Paine, Kelly morreu antes que o Papa Joao XXIII anunciasse sua intenção de chamar o Concílio Vaticano Segundo. Não sabemos como Kelly teria reagido a esse evento marcante, apesar de que ele certamente teria recebido bem a ênfase renovada do laicato no desenvolvimento do pensamento da Igreja.

 Esse volume lembra-nos do vigor do pensamento laico quando aberto tanto às questões contemporâneas quanto ao pensamento da Igreja.