Imagens e símbolos

inri-crucifix-205Cross-clipart-cross-clip-art-image-7

O crucifixo é uma imagem; a cruz é um símbolo. A distinção não é acadêmica. Quando comparamos o universo imaginativo do Islamismo com o Hinduísmo, por exemplo, encontramos, no primeiro caso, uma tradição que é cautelosa em relação a imagens, e que na maioria das vezes proíbe representações figurativas de criaturas sensoriais em forma alguma; na verdade, quanto mais altas forem elas na hierarquia da vida, menos suas imagens serão toleradas – humanos, muito menos do que os animais brutos, e humanos santos (digamos, Moisés, Jesus ou Maomé) de forma nenhuma. Em contraste, a complexa tradição religiosa da Índia parece gerar uma selva de imagens. Contudo, se quisermos ser exatos (e, no final das contas, um pouco acadêmico) o mundo hindu das estátuas e figuras não são, stricto sensu, imagens; são símbolos. Correndo o risco da super-simplificação, o Islamismo idealmente baniria todas as imagens, permitindo apenas ornamentação vegetal e caligráfica; o Hinduísmo, contudo, aceitaria toda e qualquer imagem, mas só na condição sussurrada (partilhada entre os sábios) que elas sejam na verdade meros símbolos. A imagem (o ‘ícone’) re-apresenta algo ausente por uma semelhança (retrato, foto, etc.) ; o símbolo apenas sugere ou veicula algo, mas algo tão grande, ou complexo, ou misterioso, que semelhança fica impossível (cores litúrgicos, flecha da igreja, bandeira de um país, etc). Existem interseções importantes, mas queremos ficar aqui apenas dentro da problemática da distinção.

iconOra, há razões metafísicas e transparentes para que o Islã seja em princípio ‘anicônico’ (avesso a imagens) e o Hinduísmo, profusamente icônico. O muçulmano devoto, em seu decidido intento de afirmar a unidade e unicidade de Deus, receia que a distância entre a imagem e o ídolo possa se encurtar ao ponto da quase coincidência, quando as criaturas superiores – ou até mesmo o próprio Deus – tornam-se objeto de imitações figurativas. Ele vê aqui, à espreita, duas tentações de cometer um shirk (a atribuição de qualidades divinas a uma criatura): 1) pelo ato mesmo de produzirmain-qimg-e13b7b686869c132b814bc31f3eb023d um simulacro dos animais e do homem, a pessoa pode cair na tentação de se imaginar a si própria como um divino Criador de mundos; e 2) o trabalho artístico assim produzido muito provavelmente desencaminhará pelo menos alguns à adoração, e assim a imagem terá se tornado um ídolo. Contemporâneas e quase contérminas nessa problemática foram as discussões do Cristianismo em torno da questão dos ícones, mas a sua teologia impôs uma solução própria, como veremos.

Os estudiosos do pensamento indiano estão bem atentos à noção que paira sobre quase todo o pensamento do subcontinente: a de maya, uma ideia que caracteriza o mundo material como ser: 1) num sentido sombrio, uma dança de formas que fingem ser o que não são, provocando assim estados de consciência ‘ilusórios’, ou 2) num sentido mais profundo e luminoso, o próprio jogo – tanto -gico quanto ma-terial – da verdadeira realidade (esses dois ‘ma-’ são cognatos indo-europeus daquele presente em ma-ya), sendo portanto capaz de ser veículo para um olho adequadamente purificado. Mas, como quer que se a considere, a visão indiana do mundo o concebe não apenas como contingente, no sentido ocidental (ou seja: algo que é, mas que poderia não ser), mas também como uma aparência mutável e diáfana, em continuidades e descontinuidades incessantes com a realidade absoluta. Os próprios deuses (como as várias formas de Ishvara) emergem e submergem como faces fugidias deste ou daquele aspecto do Brahman. Alguns deles até ‘descem’ como avatares missionários (Rama ou Krishna, por exemplo), penetrando nas regiões mais baixas e densas de maya, para ajudar aqueles que lutam para se libertarem deste fluxo perpétuo e sem destino (samsara). Todavia, para o Hindu, esse fluxo, simbolizado pela Dança de Shiva, tem continuado desde sempre, e jamais chegará a um fim. Afinal, é isso o que o universo é.

in08_020912520_j

Os cristãos compartilham com os judeus e muçulmanos a crença de que o mundo é o resultado de um ato irredutivelmente e metafisicamente pessoal e livre da parte de Deus, e que toda a Criação é, portanto, particular. O Todo-Poderoso poderia ter criado qualquer número de outros mundos muito diferentes daquele em que vivemos e, dessa forma, estamos relacionados a Deus de uma forma altamente particular. Para as fés abraâmicas, o mundo não é um jogo indefinido de formas, mas antes um livro a que somos convidados a ler, uma mensagem que recebemos, um cosmos muito específico (com uma velocidade da luz exata, por exemplo). Para as fés semíticas, não se trata de uma manifestação perpétua e sem fim de todas as possibilidades inerentes à divina infinitude, mas apenas uma possibilidade, mas prenhe de significado.

Os historiadores da ciência frequentemente ficam intrigados com o nascimento exclusivo da moderna ciência no contexto cristão e europeu. Mas é provavelmente essa mesma convicção bíblica sobre a criação que está na raiz da abordagem científica do cosmos (já nascente na Idade Média). Se o mundo não é de forma alguma contíguo a Deus, nem uma parte de Deus, nem Deus ‘de dentro para fora’, tampouco uma emanação igual ao Seu ser, mas existe de forma distinta e particular em relação a seu Criador, então a ciência moderna torna-se possível. A investigação do mundo da massa e da energia e o desvendamento de suas leis físicas não serão mais proscritos como a violação de um santuário, mas apenas vistos como a resposta lógica a um universo cheio de logos, em exibição espetacular perante nossos olhos. Um tal universo é entendido de fato como uma expressão de Deus, ainda que numa linguagem muito ‘local’ de um mundo específico.68b10e7927c2fc7550aed6f240b43778--byzantine-icons-byzantine-art

Toda essa especificidade dá a um cosmos que é definidamente contingente, também uma alta dose de realidade, ainda que dependente do Deus que o criou. O hindu meditativo será levado no final das contas a ver tudo – inclusive a si próprio – como um símbolo fugidio do Absoluto. Ele amiúde verá seu próprio destino como uma dissolução naquela matriz solvente, ao passo que o cristão encontra, na sua pessoalidade e na do Deus que o criou, dois sólidos e duradouros polos entre os quais a vida, o conhecimento e o amor podem fluir, crescendo, mas sem jamais mudar substancialmente. Não obstante, dado que o mundo particular também manifesta necessariamente os mistérios de Deus em cada detalhe, os símbolos desempenharão um importante (ainda que não central) papel na fé cristã, como fazem também no Judaísmo e no Islamismo.

Na tradição cristã em particular, não faltam cruzes como símbolos da Redenção, de Corações Sagrados e Imaculados como símbolos de amor e pureza, braços erguidos em gestos de súplica, cores litúrgicas e vestimentas sugestivas no sempre esplêndido pano de fundo dos mistérios sacramentais. Todos esses símbolos são como um engaste, divinamente fabricado, para as verdadeiras gemas da divina presença; é como um acompanhamento orquestral para um solista tenor. Mas esse tenor canta uma estória. Pairando soberanamente acima e além de todos os símbolos estão as imagens: desde o Presépio e retratos do Cristo em milagres e palavras, às últimas imagens e ícones do Salvador Crucificado e a Tumba Vazia. Esses não são símbolos sugestivos de transcendentes verdades ou valores, mas descrições de fatos históricos que contam uma estória na qual Deus toca o mundo de modo desconhecido nos Vedas e no Gita, nas Sutras de Buda, ou mesmo na Torá ou no Corão. É o que faz do Novo Testamento realmente algo ‘novo’, e planta o ‘sinal de contradição’ (Lc 2,34) no curso da história humana.

A crença cristã na Encarnação – e em sua decorrência: na Ressurreição, nos sacramentos e numa Nova Jerusalém transformada, mas ainda muito material e física – significa que, emergindo, destacadamente, do ambíguo e mutável mundo dos símbolos indiretos, as faces e ações do Mistério Pascal dão um dramático passo adiante, gerando imagens abertamente diretas, e que essas imagens tornar-se-ão a linguagem imaginativa mais característica do Cristianismo. Em 787, o último dos sete primeiros concílios ecumênicos posicionaria o mundo da arte cristã – diretamente ainda que delicadamente – entre a iconoclastia dos muçulmanos e a exuberância simbólica dos hindus. Mas o concílio fê-lo afirmando o livre ato do Deus pessoal que tomou posse de sua criação e se tornou um com ela no ventre da Virgem Maria. Esse ato e os fatos resultantes produziriam um mundo de arquitetura, pintura e estatuária que vai mergulhar livre e criativamente na paleta dos emblemas e símbolos tradicionais, sem dúvida, mas apenas para enquadrar melhor os mistérios do Verbo Encarnado e seu vínculo inquebrantável com o universo criado por Deus e destinado a ser o lugar em que Ele habitará.theotokos

***

Consciência (psicológica) e consciência (moral)

hqdefault

Na maioria das línguas românicas, a apropriação da palavra latina conscientia deu-lhe uma dupla incumbência, a de ser uma palavra cujo uso serve tanto para a consciência psicológica quanto para a consciência moral. De certa forma, o italiano contornou essa (con)fusão, usando a palavra consapevolezza para a primeira e coscienza para a outra. O alemão segue o exemplo, com Bewusstsein e Gewissen. O inglês também, com consciousness e conscience. O francês, espanhol e português, contudo, usam o mesmo termo para ambas as formas de ‘percepção’ (conscience, conciencia, e consciência, respectivamente). Essa flexibilidade linguística levou-me a pensar.

Apesar de o alemão rejeitar a mistura siamesa dos dois significados (inaugurando e aprofundando um novo papel para ‘consciência (psicol.)’ – Bewusstsein –, com Hegel), foi com Kant que se chegou a uma insuspeita raiz da consciência teórica e cognitiva numa fonte mais profunda de certeza nos recessos da consciência moral. Por outro lado, simplesmente consultando a experiência no uso de qualquer idioma, não é muito difícil ver como a consciência moral requer uma consciência teórica de fins e valores para que a dimensão ética da nossa consciência seja ativada. Ou então – invertendo mais uma vez a comparação – se alguém não tem uma ativa consciência moral como norteadora a respeito da verdade no lugar da falsidade, da veracidade ao invés da mentira, do ser autêntico em detrimento do simulacro, então a consciência psicológica dessa pessoa cairia logo em uma confusão inescapável.5337confusedman_00000005146Toda essa promiscuidade semântica deve nos levar de volta, finalmente, para a palavra latina de origem. No meio de toda a clareza taxionômica e distinção que a língua de Cicero ganhou ao ser conduzida pelas traduções de Aristóteles, e pelas meticulosas elaborações da Escolástica latina, na Baixa Idade Média, é curioso que esta tenha resistido à cunhagem de duas palavras separadas para as duas citadas dimensões da consciência. O francês, o espanhol e o português podem, portanto, orgulhar-se de seu nobre pedigree latino, justamente no isolamento de um único vocábulo para expressar a consciência mental e a consciência moral, as quais os anglófonos, alemães e italianos distinguem de forma mais enfática.

Um bom metafísico clássico poderia afirmar que a verdade (na ordem teórica), e o bem (na ordem moral), ambos deitam suas raízes no ser (na ordem transcendental). Em outras palavras, a verdade é apenas o ser do ponto de vista do intelecto, assim como o bem é apenas o ser do ponto de vista da vontade. (Se quiséssemos percorrer todas as implicações espirituais disso, deveríamos acrescentar a beleza à discussão, mas, dado que nossos propósitos aqui são mais epistemológicos e morais do que metafísicos, podemos deixa-la de lado – ou melhor, pairando misticamente sobre nós – por enquanto). Portanto, a possibilidade, ou até mesmo a conveniência, da imbricação semântica entre a consciência psicológica e a voz interna da moralidade, expressa pela atmtightly-clasped-hands-in-monochrome-640.jpg__640x360_q85_crop_subsampling-2mesma palavra (‘consciência’), pode estar perfeitamente em linha com a unidade metafísica do ser enquanto ser. Pode ser que é isso que atrae a prole semântica desse conceito a um copulação linguísitica como testemunho de uma interpenetração mais profunda, de caráter ontológico.

“Espírito”, na tradição clássica, é o tipo de substância que apresenta duas formas características de atividade vital: intelectual e volitiva. Isso se reflete inclusive nas formas sob-espirituais da vida sensorial (das quais nós também participamos), pois todos nós sabemos a diferença entre simplesmente perceber alguma coisa (digamos, com o olho, com o ouvido ou com a ponta dos dedos) e reagir emocionalmente àquilo que percebemos (nos deliciamos, sentimos horror, prazer ou qualquer outro ‘movimento’ do que chamamos nossos ‘sentimentos’). Este é a manifestação no nível mais sensitivo, mais material, daquilo que notamos no nível espiritual com a intelecção e a volição, mas é a mesma dualidade – cognição/apetição – que está em evidência. Nós conhecemos materialmente pelos sentidos; conhecemos imaterialmente pelo intelecto. Somos movidos materialmente por meio de emoções; mas, somos motivados imaterialmente pela vontade. Contudo, há outro aspecto dessa questão que precisa ser salientado.

Obviamente, não são os sentidos que sentem, nem o intelecto que intui, tampouco é a razão que raciocina (sendo intelecto e raciocínio as duas dimensões de uma única faculdade espiritual do conhecimento). Similarmente, nossas emoções nada sentem, e nossa vontade jamais se motiva, nunca escolhe, nem ama. É tão-somente a pessoa, esse agente indiviso, que sente, intui, raciocina, decide, escolhe, ama, odeia e tudo o mais, e faz isso por meio dessas faculdades e operações. Isso porque apenas a pessoa é uma verdadeira substância (algo que existe em si mesmo); todas as suas faculdades e atos são meros acidentes que inerem à substância, que são nela, por ela e através dela; dificilmente haverá uma preposição que não possa ser gramaticalmente fatorada nessa relação.

AMC_MM_S7B_714_Inside_PersonToPerson

O ser da pessoa, portanto, é o que está no centro do universo, gozando de um grau de realidade, de unidade e de poder que somente ela possui. Quando suas atividades vitais atingem o ápice de seu desenvolvimento, a consciência da realidade, juntamente com e as implicações morais dessa consciência, se incorporam naturalmente à unidade indivisa da pessoa. A verdade e a bondade do ser entram numa perichorese (circumincessio, uma coabitação mútua) que convida uma única palavra soberana a reunir toda sua grandeza dual em um único morfema.

Conscientia, em Latim, não se constrange a desempenhar um duplo papel, não mais do que nossa língua (de carne) é sobrecarregada por ter de falar em um momento, e provar um sabor em outro; ou nossa mão ficar confusa por nós a usarmos primeiro para pegar uma xícara de café, e depois acenar para um amigo. A Verdade e o Bem olham ambas para a sua matriz comum: o Ser. Não há razão que nos obrigue – com licença aos meus leitores falantes do inglês, italiano e alemão – a repartir seu respectivo conteúdo semântico em dois substantivos separados, quando um substantivo – com dois significados tão apaixonadamente abraçados – pode fazer muito bem o seu trabalho.

Uma última observação sobre a importância tanto de se manterem vivas as duas e distintas dimensões de nossas vidas ‘conscientes’ e ‘conscienciosas’, quanto de defender a inviolabilidade do seu ‘lacre’.  Muito da espiritualidade superficial em voga hoje tem a ver com ‘elevar nossa consciência’ ou explorar novos ‘níveis de consciência’. Eu me recordo que, quando o reprocessamento no Ocidente das tradições meditativas orientais foi oferecido pela primeira vez à minha geração nos anos ’60, muitos de nós fomos por elas atraídos – eu também! – (tenhamos nos dado conta disso ou não), precisamente porque elas lidavam com a consciência mental e psicológica, e não com a consciência moral. Ou, em outras palavras, poderíamos praticar a meditação e ‘ser espirituais’, ao mesmo tempo em que éramos sexualmente promíscuos, e escolhendo de um generoso cardápio de drogas psicotrópicas.tumblr_npe4ug2n7j1rlrvyso1_500

A moralidade não era mais vista como parte da espiritualidade. Yuhuuu!! – festejávamos em nossa inocência (e estupidez) adolescente. Entretanto, qualquer olhar sério às Sutras de Yoga de Patajali ou ao ‘Caminho Óctuplo’ de Buda mostrará também que, tanto na teoria quanto na prática orientais, a verdade e o bem (a moralidade) caminham de mãos dadas. A separação das duas não encontra qualquer respaldo em uma autêntica espiritualidade oriental, só nas destorções ocidentais.

Estados de consciência estimulados mas não acompanhados e nutridos por traços de bom caráter e de virtudes crescentes causam mais mal do que bem. Como os dois olhos em nossa cabeça, ambos – consapevolezza e coscienza – pertencem uma à outra, tornando-nos ao mesmo tempo conscientes e conscienciosos. Apenas quando trabalhem em conjunto estarão em condições de revelar a plenitude tridimensional da verdade, do bem e – finalmente – de uma beleza deslumbrante.

trojice-perichoresis

 

A diferença entre diferença e ‘diversidade’

Alguém disse ‘paradoxo’? E que tal isso: para ser diferente de algum modo, é preciso primeiro ser o mesmo. Mas outro paradoxo é mais estranho ainda: aqueles que hoje em dia pregam interminavelmente a importância de ser ‘diverso’, com mais frequência do que se pensa, acabam por produzir mais e mais do mesmo. Sei que isso soa estranho, mas pense um pouco. Aqueles verdadeiramente interessados em serem diferentes começam necessariamente com um ‘mesmo’, com uma identidade tradicional estabelecida, para depois abrirem toda uma cauda de pavão de diferenças, sem, sequer por um momento, desprezar a estabilidade com que começou; não é um jogo de soma zero. Os apologistas da diversidade, ao contrário, começam com as diferenças para, em nome do pluralismo e da igualdade, eliminá-las progressivamente, produzindo homogeneidade. O fato que aqui passa despercebido é que o diferente verdadeiramente pressupõe uma identidade ou uma semelhança, sobre a qual se ergue a diferença dentro de uma estrutura pré-existente, e sem a qual a diferença mesma (trocadilho interessante!) se desvaneceria, sumindo num fundo cinza.

Os proponentes da atual moda da ‘diversidade’ (seja de gênero, cultura, expressão ou qualquer outra coisa) ironicamente desencadeiam forças e movimentos que muitas vezes apagam ou borram as diferenças naturais e tradicionais, gerando uma uniformidade obrigatória, usualmente sob o título de ‘políticamente correto’. E isso ocorre mesmo quando camuflado em pantomimas de fingida originalidade e exibido em melodramáticas poses de ousadia. Não posso dizê-lo mais claramente, mas posso oferecer alguma explicação.

[Estou deixando de lado reflexões mais sutis sobre as relações entre a diferença e o significado na linguagem – em de Saussure, por exemplo –, e sobre o interessante, mas estranho, neologismo francês différance [sic], vou defirir (como se deve) para Derrida. No lugar disso, meu foco aqui é no modo como pessoas normais e não acadêmicas usam as palavras. Porém, farei um ou outro aceno à filosofia clássica, que é, de certa forma, saudavelmente não-acadêmica].

Se pararmos e pensarmos por um momento, perceberemos que não usamos a palavra ‘diferente’ sobre coisas ou atos que são, por assim dizer, mundos à parte. Coisas que diferem entre si devem ser comparáveis. Ninguém comentará o quanto um cão labrador é diferente do buraco negro Cygnus X-1, ou sobre a impressionante diferença que existe entre assoar seu nariz e planejar uma viagem para a Europa. Na classificação tradicional das coisas (mesmo na tarefa cotidiana de colocar as coisas em ordem), nós normalmente precisamos, em primeiro lugar, do que se costuma chamar de ‘gênero próximo’, antes de podermos invocar uma ‘diferença específica’; esses dois permitirão à mente isolar uma ‘espécie’ mais definida (não num sentido biológico, mas lógico; podemos também usar aquela palavra que se tornou uma palavra ‘sórdida’ na filosofia contemporânea: ‘essência’).

Um labrador pode apenas diferir de um collie porque ambos são cães; e um cão pode diferir de um gato porque ambos são mamíferos quadrúpedes; e um quadrado de um triângulo porque ambos são figuras. E (é hora de polêmica), um homem de uma mulher porque ambos são seres humanos. Não se pode apenas ser ‘animal’, é preciso ser algum tipo de animal. Não há algo como uma figura pura: tem de ser uma oval, um quadrado ou um triângulo etc. para ser uma figura. Você não pode ser um humano híbrido; tem de ser um homem ou uma mulher para ser minimamente humano (as raras exceções serão vistas em seguida).0_CATERS_HALF_MAN_HALF_WOMAN_MAKE_UP_01-800x498

As diferenças, numa palavra, estão enraizadas na natureza, ou numa ordem natural das coisas. Descobrimo-las com nossas faculdades cognitivas (nossos sentidos e nossa razão), e apesar de podermos, no curso normal das coisas, reagir a elas com nossas funções apetitivas (emoções e vontade), estas não constituem as diferenças, e nem poderiam. De fato, o lado apetetivo nosso nem podería reagir às diferenças se as constituissem.

O traço curioso dos sermões seculares recentes em louvor à ‘diversidade’ é que eles tipicamente apagam impunemente as mais conspícuas e manifestas diferenças, cobrindo elas com chavões que apelam aos apetites de muitos, mas à inteligência de ninguém. Não acho que isso seja sempre tão inocente. Nas campanhas sociais mais ferventes, há razões ocultas por trás dos slogans simplistas e das gesticulações frenéticas. Os filósofos podem meditar no topo de suas montanhas, mas as correntes de seus pensamentos mais cedo ou mais tarde fluem para baixo, para nós no vale do cotidiano.

Duas correntes filosóficas de grande ímpeto nasceram no afligido século XIV. Foi uma época rica em mística, poesia, alguns avanços na lógica e na filosofia da linguagem, e notáveis projetos pioneiros no moderno método científico, mas pobre em projetos abrangentes de filosofia e teologia. O cenário estava maduro para o surgimento de um par de ideologias, que se tornariam favoritas da modernidade. Essas duas correntes com frequência andam juntas, como faz a maioria das ideias ou sistemas que pretendem dar conta tanto das dimensões cognitivas quanto das apetitivas da existência humana. Afinal de contas, se elas quiserem tratar da realidade humana em termos integrais, terão de ter algo a dizer sobre a teoria e a prática, sobre o conhecimento e a ação, a verdade e o amor.

allObjects(Para entender o que segue, dê uma olhada a qualquer conjunto aleatório de coisas ao seu redor.) A primeira dessas correntes é usualmente chamada de nominalismo. Foi a vencedora de um longo debate medieval sobre a natureza da universalidade no modo como usamos os conceitos e as palavras. O mundo medieval viu longos esforços de intuição e raciocínio, cultivados nos prolíficos séculos dos estudos gregos, árabes e latinos sobre o conhecimento humano. Infelizmente, os debates multiplicaram-se – especialmente após o fim do século XIII – muito além de um florescimento saudável. Boa parte do escolasticismo subsequente cresceu menos como uma árvore saudável no sol, e mais como uma planta esquecida no porão, grotescamente ramificada e com uma palidez pastosa. Depois de Alberto, Tomás e Boaventura terem erguido a Escolástica latina às suas maiores visões sinópticas (múltiplas, mas não incompatíveis), o século seguinte olhou para outros lados. Mas, também, a lentidão na absorção da profunda metafísica de Tomás de Aquino deixou o mundo erudito mergulhado em assuntos mais mundanos e práticos (afinal, aquele foi o século da Peste Negra e de grandes deslocamentos demográficos). Entre esses assuntos: as vantagens advindas do descarte das aspirações ‘essencialistas’ e de encarar as coisas como objetos basicamente diversos e heterogêneos, querendo apenas serem usados. Isso logo se transformaria numa nova abordagem do entendimento do mundo à nossa volta, e uma forma de pegar nele e usá-lo.

Coisas com as suas naturezas passaram a ser vistas não mais como realidades sustentadas por estruturas internas que participam – imperfeita, mas robustamente – nas Ideias arquetípicas na mente de Deus, mas, ao contrário, como objetos individuais, brutos e irredutíveis, necessitando da atividade criativa de nosso intelecto para tangê-los aos ‘pombais’ construídos por nossa própria mente, para fazermos deles o que quisermos. A diversidade individual jogou fora as essências universais, mas ao mesmo tempo seduziu-nos a manuseios práticos e cada vez mais técnicos e intervencionistas. As diferenças entre as coisas individuais foram destacadas, cada vez mais, de seus alicerces essenciais, os quais até então haviam mostrado seus traços comuns e sua integração com o resto do cosmos. Esses objetos órfãos vagaram, por assim dizer, em busca de significado, tentando mostrar sua aptidão para novas ocupações (como mercenários tentando ser recrutados). Os nominalistas sugeriram que faríamos melhor em apenas encontrar nomes úteis para esses objetos, e então nos ocuparmos com o assunto mais sério de encontrar o melhor meio de usá-los.

No século XIV, já estava nascendo uma visão subjetivista e construtivista acerca das cogitações mentais, e a maioria dos filósofos subsequentes e antecipadores da modernidade seria também nominalistas (usassem ou não este termo). Contudo, a mente sempre se move pari passu à vontade. Concomitantemente ao nominalismo, aparece uma ideologia que, como era de se esperar, lhe serve logicamente muito bem WILL-POWER-Custom-Custom1como companheira. Se as coisas não têm essências as quais a mente possa apreender universalmente em seus exemplos individuais (ambas – essências e mentes – enraizadas, em última instância, no Logos divino, arquetípico e exemplar), nem há qualquer ‘âncora’ realista da entidade com as quais os conceitos, juízos e raciocínios mentais possam ser medidos; e se Deus é visto como sendo, na verdade, mais e mais como um artesão caprichoso cuja Vontade onipotente é a fonte não apenas da existência das coisas, mas também das suas essências (na visão tradicional, era o Inteleto Divino que ‘causou’ as essências); então, a vontade humana acaba por interpretar tudo isso como uma nova permissão para atacar e manipular esse mundo constituído em última instância por coisas diversas e isoladas, segundo os mandatos da própria vontade humana. Essa prioridade da vontade sobre a mente, do poder sobre a razão, do capricho sobre a Providência, é tradicionalmente chamada de voluntarismo.

Muita tinta já correu sobre esse tópico e não tenho a intenção de ‘chover no molhado’ aqui. Apenas sugerirei que a linha que conecta essas duas convicções ideológicas – nominalismo e voluntarismo – com a maioria das criações distópicas do mundo moderno é mais grossa do que se pensa: na ordem econômica e política, com o Socialismo Nacional (os nazistas) e o Socialismo Internacional (soviético ou maoísta), no qual os indivíduos tornam-se joguetes dispensáveis num idealizado programa de aperfeiçoamento); na cultura, com o consumismo que esmaga todos os critérios de beleza e até de utilidade (imagine os consumidores pensando avidamente sobre qual marca escolher, dentre uma seleção virtualmente infinita de cereais matinais); nas ordens científica e tecnológica – o casamento desses dois adjetivos foi em si mesmo uma consequência das forças aqui em pauta – nas milhares de ogivas nucleares precariamente posicionadas, que o nosso mundo moderno produziu, mas não tem a menor ideia como controlar; e tristemente, em nossos belos oceanos, cada vez mais atulhados de garrafas e sacos plásticos.

Um desenvolvimento mais modesto e comedido da ciência e da tecnologia, mantendo a maioria de seus inegáveis benefícios, tornou-se impossível, com esses dois motores filosóficos roncando ao fundo. Eles não permitiram quaisquer pesos e contrapesos sobre o desejo voluntarista do homem de manipular indiscriminadamente o mundo material – um mundo não mais amparado pelo respeito perante a irradiação das suas essências. Não poderíamos mais ler a eloquente linguagem simbólica com que o universo falava em tempos mais sãos, mas, ao invés disso, este passou a ser visto como se apresentando ‘de bom grado’ – diríamos até ‘promiscuamente’ –, tal como uma massinha de modelar nas mãos caprichosas dos modernos tecnocratas.

Um fruto mais recente do nominalismo e do voluntarismo, mas ainda logicamente atrelado a eles, é a confusão entre diferença e ‘diversidade’, com a qual comecei. Embora esse turbilhão conceitual passe por múltiplas dimensões do pensamento contemporâneo, ele é mais palpável e destruidor ao depreciar e erodir a evidência científica em todos os níveis: genético, hormonal, cromossômico, cerebral e psicológico – sem falar do testemunho avassalador do corpo humano – qual seja, a de que o homem e a mulher são muito diferentes, e de que essa diferença é dada, não produzida. E, além do mais, essa diferença é profundamente enraizada na única natureza compartilhada por eles.

Man-Woman-Control-Panel

Como todas as coisas evidentes, quando se começa a discutir sobre elas, o discurso torna-se obscuro e você acaba perplexo – não porque a matéria seja em si obscura, mas porque, quando o raciocínio se intromete naquilo que é intelectualmente intuitivo, usa-se o instrumento errado; a luz natural gradualmente se enfraquece na presença de um agente estranho (algo como o abater das luzes de um cinema, quando o filme vai começar). A razão nada tem de bom a fazer onde a intuição intelectual atua plenamente. Não se precisa provar aquilo que já se sabe, nem buscar ou procurar minuciosamente por aquilo que já se vê. É a ferramenta errada. É como fazer uma pintura com um violino, ou dirigir um carro colocando uma bicicleta no assento do motorista. Não é apenas um abuso do instrumento, é ineficaz para se atingir o objetivo em pauta.

Além do mais, ao misturarem-se faculdades heterogêneas, cria-se uma desnecessária ansiedade. Há uma experiência análoga, que todos experimentamos ao respirar. Em princípio, precisamos respirar automaticamente, sem que nossa consciência racional se dê conta de cada inalação e exalação; quando, porém, direcionamos nossa atenção para a respiração em si (a menos que se tenha uma boa razão, por exemplo, no consultório médico ou numa meditação controlada), ela subitamente se torna difícil e podemos até mesmo experimentar certo pânico. Assim acontece com as questões evidentes. Nós apreendemos natural e instintivamente – mesmo quando somos crianças pequenas – que há uma vasta e maravilhosa diferença entre o homem e a mulher, entre sua mãe e seu pai; e simultaneamente nos damos conta de que essa mesma distinção se delineia a partir de uma apreensão, igualmente intuitiva, acerca da natureza idêntica dos dois. Eles podem ser diferentes (em sexo ou gênero), porque são o mesmo (em natureza). Esse insight infantil faz jorrar um monte de implicações filosóficas.

A ciência dá sua chancela ao instinto infantil. Ela é unânime em medir e descrever essa diferença como irredutível (não que os propaladores da diversidade se preocupem com isso!). Quando ocorrem casos excepcionais – por exemplo, em casos relativamente raros de inter-sexualidade ou disforia de gênero – estes são vistos, em termos médicos, precisamente como exceções, e os que têm tais condições devem ser tratados como o mesmo respeito com que se trata qualquer pessoa excepcional. São ‘exceções que confirmam as regras’, como se diz por aí – elas não constituem a regra, nem criam uma nova regra. Casos limítrofes e ambiguidade sexual chamam bastante a atenção para o fato de que nossa natureza humana comum, em última análise, realmente transcende as diferenças sexuais, e que esses indivíduos excepcionais são como lembretes da natureza de que há mais em nosso destino do que simplesmente ser macho ou fêmea. Os cristãos veem seu destino último, no final das contas, como um estado em que o casamento, e por implicação a identidade sexual, não mais desempenharão o papel que desempenham aqui em baixo (Mt. 22,30). Logo, não é o caso de insistirmos, desmedidamente, sobre a diferença entre os sexos.

Mas, cristãos ou não, ainda estamos vivendo cá embaixo. E para além de todas as dimensões variáveis da nossa personalidade, nosso estilo, sentido de moda, habilidades adquiridas, condicionamento físico ou treinamento nisto ou naquilo – em resumo, em todas as coisas que se colocam em alto grau sob a soberania de nossas vontades –, há outras dimensões que recebemos da natureza, e do Deus da natureza, as quais se situam além do alcance mesmo de uma vontade das mais decididas. Salvo naqueles casos raros e claramente excepcionais de ambiguidade sexual, não pode estar sob o domínio da sua vontade determinar – para sempre, nem por uma temporada – que você seja um homem, tendo nascido mulher, ou vice-versa. Dizer o contrário disso é negar as distinções da natureza e produzir uma identidade confeccionada pela arte: a arte da diversidade. Dado que a ciência não ajudará os prosélitos da diversidade, eles previsivelmente apelam para a arte. Faça-se você mesmo!

Note que as palavras ‘diversidade’ e ‘diversão’ são – não sem sérias implicações – relacionadas. Qualquer diversidade imperial e voluntarista (que dê à nossa vontade a última palavra sobre quem ou o quê nós somos) é mera diversão, um tipo de encenação adolescente: uma espécie de farsa teatral promovida por uma vontade que deseja reinar sobre a natureza. Tudo o que conseguimos com isso é a pretensa esperança de viver uma existência absolutamente singular, irredutivelmente concreta, totalmente original: ser uma pessoa auto-construída não pertencente a qualquer espécie, não sujeita a qualquer lei natural e que decide não apenas o que deve fazer ou qual papel desempenhar na sociedade, mas o que é ontologicamente. Isso traz ao mundo não um homen ou uma mulher de nobreza e maturidade, atento à realidade e humilde diante das verdades autoevidentes, mas tão-somente um Frankenstein auto-construído: na pior das hipóteses, um monstro; na melhor, um palhaço. Talvez ambos.

herman4