O enigma dos 99%

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Quantas vezes ouvimos que mais de 90% disto, ou 95% daquilo, ou ainda 99% daquilo outro surpreendentemente torna insignificantes os ‘poucos’ por cento restantes, e que nosso mundo e nossas vidas parecem quase sumir na sua aparentemente ínfima parcela da realidade. Estamos realmente vivendo naquela fina fatia azul da torta mostrada na figura acima? Dê uma olhada em algumas estatísticas:

  • 99% do espaço em todo cosmos é vazio;
  • 99% de cada átomo é também vazio;
  • mais de 95% do leito oceânico não está mapeado e as formas de vida que lá habitam são em grande parte desconhecidas;
  • mais de 90% de todas as células vivas em nossos corpos não são humanas (… para não deixar a pergunta no ar: elas são microorganismos);
  • mais de 95% da matéria existente no cosmos até agora escapa à nossa análise (são as chamadas ‘energia e matéria escuras’). Todo o nosso conhecimento alardeado sobre a realidade material é sobre os 5% que sobram;
  • 99,9% da história do universo já havia transcorrido quando nós, seres humanos, entramos em cena;
  • 99,5% de todas as espécies que já existiram na Terra estão extintas;
  • bem mais de 90% de nosso material genético é compartilhado com outros primatas.

(Há algumas outras, mas acho que essas bastam).

Não parece restar muita coisa após esses avassaladores genocídios estatísticos. Entretanto, com frequência cansativa, essas estatísticas têm sido usadas pelos próceres do cientismo para destituir nossa experiência humana do sentido, do valor e do propósito. Nós somos – repetirão como um mantra – apenas uma fatiazinha na imensa vastidão do espaço; apenas mais um animal, mais um mamífero, entre todos os resultados dos jogos de dados aleatórios da evolução, diferindo entre si apenas por fina fibra de informação genética; e nosso ‘mundo’ tão caro é, na verdade, um espaço vazio, padronizado por átomos e galáxias vazias, esporadicamente salpicados por moléculas passageiras e estrelas solitárias; e o fato de nossa ‘forma de vida’ ainda subsistir é no máximo uma questão de sorte, uma vez que quase todas as outras espécies há muito desapareceram, e aquelas que ainda estão conosco poderão não estar por aí por muito tempo. Os entendidos de hoje da supremacia da ciência apreciam nos deixar boquiabertos com suas fanfarronices quantitativas. Mas eles estão, como de costume, enganados.

Vejamos o seguinte: se eu tivesse cem pedrinhas e apenas uma delas fosse um diamante, nem por isso o valor desta ficaria comprometido por ser apenas 1% daquela pilha de seixos. E uma conclusão filosófica segura daquela declaração de que os átomos e o espaço cósmico são esmagadoramente vazios é que nenhum desses fatos possui grande relevância para se viver uma vida humana. Deixemos os macro- e os micro-cosmos vazios para os astrônomos e físicos nucleares, pois nós vivemos no meso-cosmos (ou seja, o entorno espetacular saudado por nossos cinco sentidos), e lá temos um mundo de fato muito cheio – de coisas, pessoas, montanhas, rios, oceanos, continentes, e maravilhas em abundância. Leia os melhores poetas, e aprenderá mais sobre essa visão sã da realidade, e também aprenderá instintivamente que o nosso mundo é verdadeiramente uma cornucópia cheia e transbordante das mais palpáveis maravilhas.

Nós, habitantes dessa humilde Terra, ansiosamente esperamos ver imagens de criaturas ainda não descobertas das profundezas do mar, da mesma forma que saudamos cada nova borboleta ou sapo descoberto na Amazônia. Alegramo-nos com o oceano de micróbios que nossos tecidos humanos abrigam, agradecidos por sua contribuição ao nosso bem-estar e felizes em fazermos parte de uma minoria celular. Que os cientistas ainda chamem os 95% do cosmos de escuro (ou seja, desconhecido), parece-nos uma saudável humilhação em face às suas bombásticas reivindicações no passado. E achamos intrigante que a maioria das espécies da terra já tenham desaparecido, diante da riqueza e variedade das inúmeras ‘poucas’ com que ainda nos deparamos.

Pouco importa se a maior parte do tempo astronômico e geológico ficou para trás (para onde mais poderia ir?), pois a história de nossa raça continua a ser extraordinária, quer seu tempo sobre a terra tenha durado a metade de um éon eterno ou apenas meia hora. E – pensando novamente no diamante – se tivermos apenas uma pequena porção de material genético exclusivamente humano, esse punhado de genes será tão potente e excepcional quanto aquele diamante entre as pedras, ou quanto um átomo de urânio numa bomba atômica, ou como qualquer Adão solitário contemplando um zoológico sem fim, deslumbrado pela maravilha de uma visão que apenas o Infinito poderia ter formado.

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Imagens e símbolos

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O crucifixo é uma imagem; a cruz é um símbolo. A distinção não é acadêmica. Quando comparamos o universo imaginativo do Islamismo com o Hinduísmo, por exemplo, encontramos, no primeiro caso, uma tradição que é cautelosa em relação a imagens, e que na maioria das vezes proíbe representações figurativas de criaturas sensoriais em forma alguma; na verdade, quanto mais altas forem elas na hierarquia da vida, menos suas imagens serão toleradas – humanos, muito menos do que os animais brutos, e humanos santos (digamos, Moisés, Jesus ou Maomé) de forma nenhuma. Em contraste, a complexa tradição religiosa da Índia parece gerar uma selva de imagens. Contudo, se quisermos ser exatos (e, no final das contas, um pouco acadêmico) o mundo hindu das estátuas e figuras não são, stricto sensu, imagens; são símbolos. Correndo o risco da super-simplificação, o Islamismo idealmente baniria todas as imagens, permitindo apenas ornamentação vegetal e caligráfica; o Hinduísmo, contudo, aceitaria toda e qualquer imagem, mas só na condição sussurrada (partilhada entre os sábios) que elas sejam na verdade meros símbolos. A imagem (o ‘ícone’) re-apresenta algo ausente por uma semelhança (retrato, foto, etc.) ; o símbolo apenas sugere ou veicula algo, mas algo tão grande, ou complexo, ou misterioso, que semelhança fica impossível (cores litúrgicos, flecha da igreja, bandeira de um país, etc). Existem interseções importantes, mas queremos ficar aqui apenas dentro da problemática da distinção.

iconOra, há razões metafísicas e transparentes para que o Islã seja em princípio ‘anicônico’ (avesso a imagens) e o Hinduísmo, profusamente icônico. O muçulmano devoto, em seu decidido intento de afirmar a unidade e unicidade de Deus, receia que a distância entre a imagem e o ídolo possa se encurtar ao ponto da quase coincidência, quando as criaturas superiores – ou até mesmo o próprio Deus – tornam-se objeto de imitações figurativas. Ele vê aqui, à espreita, duas tentações de cometer shirk (a atribuição de qualidades divinas a uma criatura): 1) pelo ato mesmo de produzirmain-qimg-e13b7b686869c132b814bc31f3eb023d um simulacro dos animais e do homem, a pessoa pode cair na tentação de se imaginar a si própria como um divino Criador de mundos; e 2) o trabalho artístico assim produzido muito provavelmente desencaminhará pelo menos alguns à adoração, e assim a imagem terá se tornado um ídolo. Contemporâneas e quase contérminas nessa problemática foram as discussões do Cristianismo em torno da questão dos ícones, mas a sua teologia impôs uma solução própria, como veremos.

Os estudiosos do pensamento indiano estão bem atentos à noção que paira sobre quase todo o pensamento do subcontinente: a de maya, uma ideia que caracteriza o mundo material como ser: 1) num sentido sombrio, uma dança de formas que fingem ser o que não são, provocando assim estados de consciência ‘ilusórios’, ou 2) num sentido mais profundo e luminoso, o próprio jogo – tanto -gico quanto ma-terial – da verdadeira realidade (esses dois ‘ma-’ são cognatos indo-europeus daquele presente em ma-ya), sendo portanto capaz de ser veículo para um olho adequadamente purificado. Mas, como quer que se a considere, a visão indiana do mundo o concebe não apenas como contingente, no sentido ocidental (ou seja: algo que é, mas que poderia não ser), mas também como uma aparência mutável e diáfana, em continuidades e descontinuidades incessantes com a realidade absoluta. Os próprios deuses (como as várias formas de Ishvara) emergem e submergem como faces fugidias deste ou daquele aspecto do Brahman. Alguns deles até ‘descem’ como avatares missionários (Rama ou Krishna, por exemplo), penetrando nas regiões mais baixas e densas de maya, para ajudar aqueles que lutam para se libertarem deste fluxo perpétuo e sem destino (samsara). Todavia, para o Hindu, esse fluxo, simbolizado pela Dança de Shiva, tem continuado desde sempre, e jamais chegará a um fim. Afinal, é isso o que o universo é.

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Os cristãos compartilham com os judeus e muçulmanos a crença de que o mundo é o resultado de um ato irredutivelmente e metafisicamente pessoal e livre da parte de Deus, e que toda a Criação é, portanto, particular. O Todo-Poderoso poderia ter criado qualquer número de outros mundos muito diferentes daquele em que vivemos e, dessa forma, estamos relacionados a Deus de uma forma altamente particular. Para as fés abraâmicas, o mundo não é um jogo indefinido de formas, mas antes um livro a que somos convidados a ler, uma mensagem que recebemos, um cosmos muito específico (com uma velocidade da luz exata, por exemplo). Para as fés semíticas, não se trata de uma manifestação perpétua e sem fim de todas as possibilidades inerentes à divina infinitude, mas apenas uma possibilidade, mas prenhe de significado.

Os historiadores da ciência frequentemente ficam intrigados com o nascimento exclusivo da moderna ciência no contexto cristão e europeu. Mas é provavelmente essa mesma convicção bíblica sobre a criação que está na raiz da abordagem científica do cosmos (já nascente na Idade Média). Se o mundo não é de forma alguma contíguo a Deus, nem uma parte de Deus, nem Deus ‘de dentro para fora’, tampouco uma emanação igual ao Seu ser, mas existe de forma distinta e particular em relação a seu Criador, então a ciência moderna torna-se possível. A investigação do mundo da massa e da energia e o desvendamento de suas leis físicas não serão mais proscritos como a violação de um santuário, mas apenas vistos como a resposta lógica a um universo cheio de logos, em exibição espetacular perante nossos olhos. Um tal universo é entendido de fato como uma expressão de Deus, ainda que numa linguagem muito ‘local’ de um mundo específico.68b10e7927c2fc7550aed6f240b43778--byzantine-icons-byzantine-art

Toda essa especificidade dá a um cosmos que é definidamente contingente, também uma alta dose de realidade, ainda que dependente do Deus que o criou. O hindu meditativo será levado no final das contas a ver tudo – inclusive a si próprio – como um símbolo fugidio do Absoluto. Ele amiúde verá seu próprio destino como uma dissolução naquela matriz solvente, ao passo que o cristão encontra, na sua pessoalidade e na do Deus que o criou, dois sólidos e duradouros polos entre os quais a vida, o conhecimento e o amor podem fluir, crescendo, mas sem jamais mudar substancialmente. Não obstante, dado que o mundo particular também manifesta necessariamente os mistérios de Deus em cada detalhe, os símbolos desempenharão um importante (ainda que não central) papel na fé cristã, como fazem também no Judaísmo e no Islamismo.

Na tradição cristã em particular, não faltam cruzes como símbolos da Redenção, de Corações Sagrados e Imaculados como símbolos de amor e pureza, braços erguidos em gestos de súplica, cores litúrgicas e vestimentas sugestivas no sempre esplêndido pano de fundo dos mistérios sacramentais. Todos esses símbolos são como um engaste, divinamente fabricado, para as verdadeiras gemas da divina presença; é como um acompanhamento orquestral para um solista tenor. Mas esse tenor canta uma estória. Pairando soberanamente acima e além de todos os símbolos estão as imagens: desde o Presépio e retratos do Cristo em milagres e palavras, às últimas imagens e ícones do Salvador Crucificado e a Tumba Vazia. Esses não são símbolos sugestivos de transcendentes verdades ou valores, mas descrições de fatos históricos que contam uma estória na qual Deus toca o mundo de modo desconhecido nos Vedas e no Gita, nas Sutras de Buda, ou mesmo na Torá ou no Corão. É o que faz do Novo Testamento realmente algo ‘novo’, e planta o ‘sinal de contradição’ (Lc 2,34) no curso da história humana.

A crença cristã na Encarnação – e em sua decorrência: na Ressurreição, nos sacramentos e numa Nova Jerusalém transformada, mas ainda muito material e física – significa que, emergindo, destacadamente, do ambíguo e mutável mundo dos símbolos indiretos, as faces e ações do Mistério Pascal dão um dramático passo adiante, gerando imagens abertamente diretas, e que essas imagens tornar-se-ão a linguagem imaginativa mais característica do Cristianismo. Em 787, o último dos sete primeiros concílios ecumênicos posicionaria o mundo da arte cristã – diretamente ainda que delicadamente – entre a iconoclastia dos muçulmanos e a exuberância simbólica dos hindus. Mas o concílio fê-lo afirmando o livre ato do Deus pessoal que tomou posse de sua criação e se tornou um com ela no ventre da Virgem Maria. Esse ato e os fatos resultantes produziriam um mundo de arquitetura, pintura e estatuária que vai mergulhar livre e criativamente na paleta dos emblemas e símbolos tradicionais, sem dúvida, mas apenas para enquadrar melhor os mistérios do Verbo Encarnado e seu vínculo inquebrantável com o universo criado por Deus e destinado a ser o lugar em que Ele habitará.theotokos

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Consciência (psicológica) e consciência (moral)

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Na maioria das línguas românicas, a apropriação da palavra latina conscientia deu-lhe uma dupla incumbência, a de ser uma palavra cujo uso serve tanto para a consciência psicológica quanto para a consciência moral. De certa forma, o italiano contornou essa (con)fusão, usando a palavra consapevolezza para a primeira e coscienza para a outra. O alemão segue o exemplo, com Bewusstsein e Gewissen. O inglês também, com consciousness e conscience. O francês, espanhol e português, contudo, usam o mesmo termo para ambas as formas de ‘percepção’ (conscience, conciencia, e consciência, respectivamente). Essa flexibilidade linguística levou-me a pensar.

Apesar de o alemão rejeitar a mistura siamesa dos dois significados (inaugurando e aprofundando um novo papel para ‘consciência (psicol.)’ – Bewusstsein –, com Hegel), foi com Kant que se chegou a uma insuspeita raiz da consciência teórica e cognitiva numa fonte mais profunda de certeza nos recessos da consciência moral. Por outro lado, simplesmente consultando a experiência no uso de qualquer idioma, não é muito difícil ver como a consciência moral requer uma consciência teórica de fins e valores para que a dimensão ética da nossa consciência seja ativada. Ou então – invertendo mais uma vez a comparação – se alguém não tem uma ativa consciência moral como norteadora a respeito da verdade no lugar da falsidade, da veracidade ao invés da mentira, do ser autêntico em detrimento do simulacro, então a consciência psicológica dessa pessoa cairia logo em uma confusão inescapável.5337confusedman_00000005146Toda essa promiscuidade semântica deve nos levar de volta, finalmente, para a palavra latina de origem. No meio de toda a clareza taxionômica e distinção que a língua de Cicero ganhou ao ser conduzida pelas traduções de Aristóteles, e pelas meticulosas elaborações da Escolástica latina, na Baixa Idade Média, é curioso que esta tenha resistido à cunhagem de duas palavras separadas para as duas citadas dimensões da consciência. O francês, o espanhol e o português podem, portanto, orgulhar-se de seu nobre pedigree latino, justamente no isolamento de um único vocábulo para expressar a consciência mental e a consciência moral, as quais os anglófonos, alemães e italianos distinguem de forma mais enfática.

Um bom metafísico clássico poderia afirmar que a verdade (na ordem teórica), e o bem (na ordem moral), ambos deitam suas raízes no ser (na ordem transcendental). Em outras palavras, a verdade é apenas o ser do ponto de vista do intelecto, assim como o bem é apenas o ser do ponto de vista da vontade. (Se quiséssemos percorrer todas as implicações espirituais disso, deveríamos acrescentar a beleza à discussão, mas, dado que nossos propósitos aqui são mais epistemológicos e morais do que metafísicos, podemos deixa-la de lado – ou melhor, pairando misticamente sobre nós – por enquanto). Portanto, a possibilidade, ou até mesmo a conveniência, da imbricação semântica entre a consciência psicológica e a voz interna da moralidade, expressa pela atmtightly-clasped-hands-in-monochrome-640.jpg__640x360_q85_crop_subsampling-2mesma palavra (‘consciência’), pode estar perfeitamente em linha com a unidade metafísica do ser enquanto ser. Pode ser que é isso que atrae a prole semântica desse conceito a um copulação linguísitica como testemunho de uma interpenetração mais profunda, de caráter ontológico.

“Espírito”, na tradição clássica, é o tipo de substância que apresenta duas formas características de atividade vital: intelectual e volitiva. Isso se reflete inclusive nas formas sob-espirituais da vida sensorial (das quais nós também participamos), pois todos nós sabemos a diferença entre simplesmente perceber alguma coisa (digamos, com o olho, com o ouvido ou com a ponta dos dedos) e reagir emocionalmente àquilo que percebemos (nos deliciamos, sentimos horror, prazer ou qualquer outro ‘movimento’ do que chamamos nossos ‘sentimentos’). Este é a manifestação no nível mais sensitivo, mais material, daquilo que notamos no nível espiritual com a intelecção e a volição, mas é a mesma dualidade – cognição/apetição – que está em evidência. Nós conhecemos materialmente pelos sentidos; conhecemos imaterialmente pelo intelecto. Somos movidos materialmente por meio de emoções; mas, somos motivados imaterialmente pela vontade. Contudo, há outro aspecto dessa questão que precisa ser salientado.

Obviamente, não são os sentidos que sentem, nem o intelecto que intui, tampouco é a razão que raciocina (sendo intelecto e raciocínio as duas dimensões de uma única faculdade espiritual do conhecimento). Similarmente, nossas emoções nada sentem, e nossa vontade jamais se motiva, nunca escolhe, nem ama. É tão-somente a pessoa, esse agente indiviso, que sente, intui, raciocina, decide, escolhe, ama, odeia e tudo o mais, e faz isso por meio dessas faculdades e operações. Isso porque apenas a pessoa é uma verdadeira substância (algo que existe em si mesmo); todas as suas faculdades e atos são meros acidentes que inerem à substância, que são nela, por ela e através dela; dificilmente haverá uma preposição que não possa ser gramaticalmente fatorada nessa relação.

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O ser da pessoa, portanto, é o que está no centro do universo, gozando de um grau de realidade, de unidade e de poder que somente ela possui. Quando suas atividades vitais atingem o ápice de seu desenvolvimento, a consciência da realidade, juntamente com e as implicações morais dessa consciência, se incorporam naturalmente à unidade indivisa da pessoa. A verdade e a bondade do ser entram numa perichorese (circumincessio, uma coabitação mútua) que convida uma única palavra soberana a reunir toda sua grandeza dual em um único morfema.

Conscientia, em Latim, não se constrange a desempenhar um duplo papel, não mais do que nossa língua (de carne) é sobrecarregada por ter de falar em um momento, e provar um sabor em outro; ou nossa mão ficar confusa por nós a usarmos primeiro para pegar uma xícara de café, e depois acenar para um amigo. A Verdade e o Bem olham ambas para a sua matriz comum: o Ser. Não há razão que nos obrigue – com licença aos meus leitores falantes do inglês, italiano e alemão – a repartir seu respectivo conteúdo semântico em dois substantivos separados, quando um substantivo – com dois significados tão apaixonadamente abraçados – pode fazer muito bem o seu trabalho.

Uma última observação sobre a importância tanto de se manterem vivas as duas e distintas dimensões de nossas vidas ‘conscientes’ e ‘conscienciosas’, quanto de defender a inviolabilidade do seu ‘lacre’.  Muito da espiritualidade superficial em voga hoje tem a ver com ‘elevar nossa consciência’ ou explorar novos ‘níveis de consciência’. Eu me recordo que, quando o reprocessamento no Ocidente das tradições meditativas orientais foi oferecido pela primeira vez à minha geração nos anos ’60, muitos de nós fomos por elas atraídos – eu também! – (tenhamos nos dado conta disso ou não), precisamente porque elas lidavam com a consciência mental e psicológica, e não com a consciência moral. Ou, em outras palavras, poderíamos praticar a meditação e ‘ser espirituais’, ao mesmo tempo em que éramos sexualmente promíscuos, e escolhendo de um generoso cardápio de drogas psicotrópicas.tumblr_npe4ug2n7j1rlrvyso1_500

A moralidade não era mais vista como parte da espiritualidade. Yuhuuu!! – festejávamos em nossa inocência (e estupidez) adolescente. Entretanto, qualquer olhar sério às Sutras de Yoga de Patajali ou ao ‘Caminho Óctuplo’ de Buda mostrará também que, tanto na teoria quanto na prática orientais, a verdade e o bem (a moralidade) caminham de mãos dadas. A separação das duas não encontra qualquer respaldo em uma autêntica espiritualidade oriental, só nas destorções ocidentais.

Estados de consciência estimulados mas não acompanhados e nutridos por traços de bom caráter e de virtudes crescentes causam mais mal do que bem. Como os dois olhos em nossa cabeça, ambos – consapevolezza e coscienza – pertencem uma à outra, tornando-nos ao mesmo tempo conscientes e conscienciosos. Apenas quando trabalhem em conjunto estarão em condições de revelar a plenitude tridimensional da verdade, do bem e – finalmente – de uma beleza deslumbrante.

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