Festa da Família Inquieta

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Cada vez que celebramos a Festa da Sagrada Família, lembro-me de minha viagem ao Egito, há tantos anos, e das visitas a alguns dos vários lugares dedicados pelos cristãos coptas àquela Família. A fuga para o Egito (mencionada apenas por São Mateus) recebe alguma atenção da arte cristã, e é até contada como uma das Dores de Maria na tradição católica. Mesmo assim, é bastante negligenciada pela igreja ocidental – ao menos quando se a compara com a importância que, previsivelmente, teve no Egito. Não menos de 14 lugares egípcios comemoram aquela visita com capelas e igrejas. Elas marcam os locais de pouso ou as residências temporárias da Sagrada Família, enquanto seguiu os passos daquele outro José que entrou no Egito (igualmente constrangido, contra sua vontade), mil e quinhentos anos antes. No devido tempo, esta Família seguiria também os passos de Moisés fora do Egito. Porém, neste caso, em vez de buscar a Terra Prometida lá além do Mar Vermelho, ela levaria a promessa consigo, no Menino Jesus.

A doce paz da cena da manjedoura pode nos pôr a dormir num conforto decepcionante. Todos nós amamos estar “em casa no Natal,” mas a ocasião do nosso feriado é a comemoração de um desabrigo dos mais cruéis. O estábulo sujo e os animais fedentes são circundados com luzinhas de Natal em nosso presépios, no que foi apenas um abrigo temporário para esses três fugitivos. É muito fácil esquecermos a agitação que se seguiu à inesperada gravidez de Maria, e o massacre dos inocentes provocado pelos três astrólogos orientais, que apenas perguntavam sobre o paradeiro de Belém. Os anos da Sagrada Família no Egito – os coptas contam sete – assim como os quatro séculos da longa estadia de seus ancestrais, devem ter sido mais formativos do que se imagina.

Jesus teria começado a falar nas terras do Nilo, e algumas das primeiras vistas captadas pelos seus olhos jovens teriam sido pirâmides e templos faraônicos. Quando a segurança permita, os turistas de hoje amam fazer um tour dos monumentos exóticos do Egito e maravilhar sobre essa cultura que gerou toda uma ciência (egiptologia). Contudo, para Maria e José, devia ter sido mais assustador do que fascinante. Quais pensamentos deviam ter passado pela mente do Menino Jesus quando sua memoria inocente ficou armazenada com essas imagens da terra misteriosa dos faraós. Mas de alguma forma faz sentido. Como os judeus se tornaram um povo no Egito, e o Velho Testamento se tornou um livro na Babilônia, aqui também parece que, muitas vezes, Deus faz o seu “melhor trabalho” quando seus escolhidos se acham no exílio.

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Espiritual, mas não religioso? (rev.)

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Um refrão comumente escutado hoje em dia por aqueles que relutam em sucumbir inteiramente ao secularismo, e tentam manter uma porta aberta à transcendência, mas avessos a instituições religiosas corruptas e calcificadas, é: “Eu sou uma pessoa espiritual, mas não religiosa.” Quando questionados sobre o conteúdo dessa espiritualidade – dificilmente se pode afirmar isso sem algumas convicções de fundo –, eles responderão mais ou menos o seguinte: 1) eu acredito em uma ‘força superior’ – chame-a de Deus, se quiser; 2) na última análise, todos nós somos um, e eu gostaria de me sintonizar com essa unidade – chame isso de ‘amor’, se preferir; 3) encontrei vias comprovadas de comunhão com essa força superior – chame isso de oração ou meditação, se gostar; 4) todas as religiões são basicamente iguais, e a espiritualidade que eu encontrei constitui a sua realidade interna; o resto é só ‘decoração de vitrine’. Em suma, esses buscadores espirituais concluem que, se você já descascou a banana, é melhor jogar a casca fora de uma vez. É difícil negar que isso soa, de cara, convincente.

Testemunhamos hoje um amplo espectro de variações desse tipo de atitude, desde a opção mais simples e pessoal de se manter distante da religião organizada, em favor da própria espiritualidade privada (com crenças meio flexíveis, e com alguma relutância em discutir os pormenores delas e em prega-las aos sete ventos – afinal, “são privadas”), até crenças universalistas alardeadas publicamente. Encontramos gurus convencidos de ter chegado a uma revelação perene, a uma jardim de verdade escondida. Podem convidar todo mundo, com ou sem convicção religiosa para participarem de retiros de fim de semana e workshops. Assim, ou por livros que divulgam a mensagem, lhes darão acesso às próprias experiências espirituais extrassensoriais ou preternaturais. Tudo isso com frequência é empacotado em técnicas tomadas emprestadas a várias tradições (principalmente orientais), ou feito sob medida por colaborações especiais entre práticas antigas e a moderna neurociência.

O bufê oferecido é bastante extenso, mas a mensagem é, no fundo, a mesma: o isolamento do essencial e a marginalização e relativização do secundário. Os gurus desse evangelho podem até recomendar uma ou outra tradição religiosa externa, mas quase sempre na qualidade de um adjunto cultural (um ‘meio útil’ entre tantos outros, chamado de upaya na Índia); o que importa é que se apreende a essência subjacente e se reconhecem todas as formas e instituições religiosas, em última análise, como secundárias e dispensáveis.

De novo, tudo isso pode soar bastante plausível. Mas há problemas. Em primeiro lugar, eu perguntaria se esse esquema de coisas é operativo em outas áreas importantes da vida e da cultura. Caso negativo, por que na religião deveria ser diferente? Ou seja, essa suposta oposição entre o ‘essencial’ e o ‘adjunto’ funciona em outras dimensões de nossa experiência? Vamos considerar alguns exemplos.

Comecemos primeiro com o corpo. De que eu preciso absolutamente para viver e sobreviver? Na verdade, cabeça e tronco são suficientes em larga medida, e mesmo os olhos e as orelhas não são estritamente obrigatórios para que o organismo funcione. Membros e sentidos superiores podem ser dispensados e mesmo assim o corpo continuará vivo e respirando. E, apesar de esses casos existirem, e nós fazermos o melhor para pessoas assim lidarem com sua deficiência e valorizarem a sua dignidade humana, ninguém há de ser hipócrita a ponto de defender que seja desejável, digamos assim, ‘restringir-se ao essencial’ em termos de nossa existência corporal. Aquilo que não pertence necessariamente à essência do corpo pertence sim à sua integridade. E esta última existe por causa da primeira. Nosso membros e os sentidos mais elevados estão no serviço da sede dos nossos órgãos vitais (tronco e cabeça), os quais, por sua vez, dão a aquelas capacidades ‘secundárias’ a possibilidade de expandir e explorar.  Separação das duas esferas é sempre vivida como violenta.

Em seguida, consideremos nossas necessidades corporais por comida, vestuário, moradia, combustível e transporte. O ‘essencial’ aqui seria que os bens materiais simplesmente circulassem entre nós, fornecendo a cada um o que precisa, no momento certo, e numa medida que permitiria a todos participarem da riqueza de forma equitativa. Sonhos utópicos das mais variadas linhas – fascistas, comunistas, ou até de um capitalismo desregrado – oferecem vislumbres saudosos desse Shangri-La. Contudo, os adultos entre nós suspirarão e admitirão que a história nos tem mostrado, repetidas vezes, que não se pode manter os bens em circulação no longo prazo sem algum tipo de moeda, sistema de mercado, lojas, bancos e até mesmo algum grau de controle governamental.

Na ordem política, igualmente, o ‘essencial’ seria para nós vivermos em harmonia, lado a lado, portas destrancadas, solucionando todas as questões comunitárias por meio de festivos referendos (com aprovação unânime e espontânea); em suma, vivendo numa Pleasantville de sorrisos fáceis, mas superficiais. Novamente, franzimos nossos cenhos e admitimos que, fora muito poucos e curtos experimentos comunitários, apenas chegamos perto da paz e prosperidade por meio da ação de algum tipo de poder soberano, de alguma burocracia, e ainda por cima alguns soldados e policiais. Essas coisas podem não ser necessárias no Paraíso, mas todos os ‘paraísos’, até agora ensaiados nesta terra, têm se transformado rapidamente em infernos. A única estratégia que deu certo é a seguinte: a minimização dos males predizíveis através de ‘checks and balances‘, revisão judicial, subsidiariedade, limites de mandados e outros freios aos nossos apetitos facilmente desviados. Para preservarmos um mínimo de espontaneidade na natureza, só a criação de boas instituições mostrou-se eficaz.

Acho que o leitor pode ver onde quero chegar. Como nossos membros e sentidos superiores emergem de nosso organismo embrionário, servem-no e o protegem, e o levam às suas mais promissoras aventuras; e como nossas instituições econômicas emergem de nossa necessidade por bens e dessa forma servem a seu conseguimento; e assim como nossas instituições políticas emergem de nossa necessidade de paz e ordem e, por sua vez, atendem a essa necessidade; por que a relação entre espiritualidade e religião seria diferente?

Tanto as instituições econômicas quanto as políticas, sendo realidades vivas, crescem; e tudo o que cresce, tende, com o passar do tempo, a crescer demais, de modo que serão necessárias podas e reformas periódicas. Só assim as coisas conseguem ficar colimadas aos seus propósitos originais. As grandes religiões começam com uma grande espiritualidade, com um encontro especial de alguém com uma realidade transcendente (deixo para uma outra postagem falar das diversas possíveis partes da realidade espiritual e das implicações disso para a diferenciação entre as religiões – ver Filosofia da Religião), e isso engendrou uma interação humana complexa com essa realidade, sob a forma de tradições sapienciais e sistemas de crenças para a mente; guias morais para a vontade; e rituais e liturgias para nossos corpos. As instituições geradas por uma espiritualidade original crescerão, e às vezes crescerão excessivamente, e – assim como em suas congêneres econômicas e políticas – também precisarão de podas e reformas.

Em resumo, longe de ser alheia ou oposta à espiritualidade, é na geração e preservação dela que consiste a raison d’être da religião; a religião é, no seu melhor, o rebento natural e o prolongamento da espiritualidade testada. Durante milênios, nada além dela conseguiu protegê-la e guiá-la. As suas instituições podem ser tão enfadonhas e entediantes como as transações financeiras na vida econômica, ou as discussões parlamentares na vida política; contudo, sem tudo isso, os bens param de circular, a ordem pública entra em colapso, e a chama da espiritualidade se apaga. A espiritualidade sem a religião pode até funcionar para uns poucos, mas não para todos; e mesmo para aqueles poucos, funcionará apenas por algum tempo, e mais cedo que mais tarde vai perder a sua forma e achatar-se em suspiros vazios. Enfim, espiritualidade sem religião nunca erguerá uma civilização. A religião, não obstante todos os seus excessos e corrupções, não apenas tem sido um essencial pré-requisito para civilização – tem sido, comprovadamente, a sua única causa documentável.

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Et Verbum infans factum est (e o Verbo se fez infante)

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Quando olhamos nos olhos de um infante, vemos alguém que vê coisas que nós não vemos mais. Os globos oculares são límpidos, livre de auto-reflexão, olhando para fora e vendo o mundo como realmente é, sem as nuvens de disfarce e interpretação (mesmo quando olhando para você, algo meio inquietante). Estudos recentes na psicologia infantil tem confirmado aquilo que as grandes tradições do mundo sempre sabiam, a saber, que as crianças sabem de coisas que nós adultos, através dos tumultos da educação e adolescência, temos esquecido .

Quando chegarmos à vida adulta, descartamos aqueles olhares docinhos como sintomas da ingenuidade infantil que, mais cedo ou mais tarde, terá que enfrentar o mundo ‘real’.  Mas somos enganados. É verdade, Cristo não nos admoeste para ficar crianças, mas nos admoeste sim para virar como crianças; e é aquela inocência da criança que ele nos apresenta como meta espiritual. Mesmo assim – e é isso que muitas vezes esquecemos – virar como uma criança significa não apenas reganhar uma certa inocência emocional, mas inclui também o conhecimento de certas coisas que só crianças conhecem.  (Olhem de novo para o rosto da criança em cima.)

A Encarnação de Deus não é a obra de um ou outro dos avatares do hinduísmo. Aquelas ‘manifestações descidas’ fazem, na Índia, o que os anjos e profetas fazem na Bíblia: eles  ‘descem’ (o sentido original da palavra avatara), ensinam por um período, e depois voltam para onde vieram, como os anjos; ou falam as coisas profundas de Deus, como os profetas. Se um anjo assumisse a forma de um ser humano, será apenas o uso de um veículo temporário, a ser descartado em breve, uma vez que a missão for cumprida. Eles não são Deus, e não podem ser homens. Profetas já são homens, mas nunca viram Deus. De fato, a impossibilidade desse último é talvez a injunção profética mais enfática.

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.” Esta é, certamente, a reivindicação mais momentosa jamais feita a respeito do Logos. Para aqueles que acreditam nisso – e nada é mais essencial – é um fato tão objetivo, tão metafísico e severo, vai tornar-se em um enorme escândalo. Trata-se aqui de um Deus que não é – como a maioria dos ateus opinam e, infelizmente, também um grande número de fiéis – só o ‘maior ente’ no universo, mas sim, o Ser Transcendente Mesmo. E quanto ao homem, trata-se de uma natureza que carrega um abismo dentro de si que só um tal Ser pode encher.

Você não pode explicar a beleza da música só pela matemática, nem o olhar dessa criança (dê mais uma olhada) só pela sobrevivência dos mais aptos. O ser humano é um mistério, e sua alma é aberta – tanto intelectual quanto volicionalmente – ao infinito. Dentro daquela abertura parabólica do mistério humano a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade entrou com sua própria natureza, produzindo um evento no tempo que marcou para sempre o ano zero, fazendo do ‘Deus que é o Ser’ um ‘Filho do Homem’. Deus virou homem em uma natureza humana completa, com corpo e alma. E porque aquela natureza não existe – como existe a de Deus – em um único momento omnipresente, sua vida fica espalhada no espaço e desdobrada no tempo. E como todas as coisas no tempo e espaço, começa pequeno, como uma criança.

Nas décadas após a Ascensão de Cristo, os eventos colossais da Semana Santa e da Páscoa perderam um pouco da sua imediatez e do seu destaque. Os primeiros cristãos começaram a colocar o Mistério Pascal em um contexto mais detalhado. Eles começaram a explorar o backstory dos primeiros anos daquele homem que morreu e ressuscitou dos mortos. Maria tinha sido consultada e outras testemunhas do nascimento, infância e juventude de Jesus também deixaram suas recordações. Muito dessa tradição oral foi depositado nos Evangelhos.

Aos poucos a estória do nascimento de Cristo entrou em foco. Virou claro que a plenitude da divindade já residiu dentro da pequena criança deitada na manjedoura.  Circundado por pastores, supervisionado por anjos, em breve a ser visitado por misteriosos magos do Oriente e perseguido por um monarca assassino, a narrativa do Natal se tornou o amado relato doméstico conhecida por nós todos. Ela inspirou mesmo sua contrapartida secular da festa do solstício invernal do norte cada dezembro, com árvores do Natal e guirlandas de luzinhas natalinas. Mas nada preparou a imaginação religiosa do mundo para este último milagre divino: que ia emergir desta face doce de um pequeno infante o olhar do mesmo Deus que criou o cosmos e lançou o mundo em um novo contexto pela sua morte e ressurreição. Este pequeno rosto ia olhar para nós e para o próprio mundo que criou, perdendo nada do seu poder infinito como Deus e da sua desarmante delicadeza como Criança.

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A noite silenciosa da fecundidade

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A Páscoa é dramática, e a narrativa que se estende do Domingo de Ramos à Ascensão é mais carregada de reviravoltas, altos e baixos do que qualquer coisa que Ésquilo ou mesmo Shakespeare poderia ter imaginado. E nela há ruídos, desde a saudação da entrada de Cristo em Jerusalém às zombarias de sua crucificação, até o tremor da terra na Ressurreição. Em Pentecostes, também, ouvimos que “um som veio do céu,” e logo múltiplas línguas enchiam o ar com proclamações da mensagem que mudaria o mundo para sempre. Quando chegamos ao Natal, contudo, há silêncio.

Muito antes do inquietante drama e a glória da Páscoa, e das responsabilidades de pregação de Pentecostes, topamos com uma atmosfera silenciosa ao redor da manjedoura em Belém. E, não obstante, estamos diante de algo igualmente comovente. Quando nasce uma criança, somos instados a ficar quietos; a criança não pode falar, e nos encontramos como que mudos. Assim é com o Natal. Pois o mistério da noite em que Cristo nasceu é uma noite do Pai, tanto quanto a Páscoa foi uma manhã do Filho, e Pentecostes, um dia do Espírito.

O Pai é Deus em seus mais recônditos e inefáveis recessos. Ele é o mistério diante do qual, no final das contas, somos reduzidos ao silêncio. Mas, também em face de uma criança recém-nascida, vemos um mistério que nos causa admiração e deslumbramento. No Natal, Deus se dispôs a mostrar Seu próprio poder e glória na face do Cristo-Menino. E qual é o mistério nessa face? Que segredo do Pai é esse?

Eu proponho que seja a fecundidade. Sempre que nos aproximamos da matriz de uma nova vida humana, estamos em presença de uma força incomparavelmente além da nossa. Faltam-nos as palavras que, no desespero por encontra-las, até se tornam vulgares (nossas piores obscenidades fazem referência à procriação). É por isso que sempre achamos que o sexo não deve ser discutido abertamente; não porque seja mau, mas porque é muito bom e próximo demais ao próprio mistério trinitário de Deus para ser confiado às nossas palavras casuais.

O eterno nascimento do Filho no Espírito é o mistério mesmo da Trindade. O nascimento temporal do Filho em Belém marca o começo do mistério da Redenção. Este mistério se desdobra na história tão-somente quando permitimos, também, que ele nasça em nós. O Natal é sobre nascimento, brotos de vida e bebês. Lembra-nos que Deus está vivo e que o amor à vida é o princípio do amor a Deus. E apenas o silêncio tem espaço suficiente para acomodar a imensidão desse milagre.

Um dia esse garoto vai começar a falar, mas a maior parte do seu tempo na Terra será passado em silêncio, começando em Nazaré e até mesmo durante seus anos de pregação. Os sermões de Jesus não foram frequentes. É verdade que uma grande parte das palavas dele foi recordada pelos apóstolos e evangelistas e registrada nos Evangelhos; mas eram só faíscas do Fogo que ele era, um Fogo divino que resplandece na Terra, por um tempo, só porque sempre resplandece na eternidade. E a sua fecundidade é seu mistério supremo, como a sarça ardente no deserto de Sinai, que arde mas nunca é consumida. Mais importantes do que as palavras que ele falava foi a Palavra, o Verbo que ele era. Tudo está dito no Ser d’aquele que é a Verdade.

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Bruckner! – em port. (rev.)

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Ouvi Bruckner pela primeira vez em meados dos anos 1970, inspirado por um amigo vienense, na Áustria. Surpreso pela minha ignorância acerca daquele compositor austríaco reconhecidamente esquisito, mas formidável, o amigo olhou-me nos olhos com aquele zelo que só se revela quando se está a ponto de divulgar um segredo esotérico e explosivo: a música de Bruckner é – proclamou ele em alemão – wunderschön! (ele fez uma pausa para secar as lágrimas, e repetiu:) wunderschön! Em alemão, isso não significa apenas belo, mas suntuosa e comoventemente deslumbrante. Eu fiquei emocionado com sua insistência e paixão, apesar de um pouco desconfiado que tudo não passasse de ufanismo nativista de um austríaco. No final das contas, sofri uma humilhação ao ter minha ignorância exposta. Assim que eu pude, botei minhas mãos numa fita cassete de Bruckner e a fiz tocar no meu Walkman.

Acadêmico consumado que eu era (aos 22, gabava-me de saber não tudo, mas quase tudo), decidi que seria bom, em primeiro lugar, familiarizar-me com a biografia desse prodígio musical, que havia habilmente voado abaixo do meu radar durante tanto tempo. Corri para uma enciclopédia, e logo me deparei com a foto que se vê acima. Hmm, pensei, um visual não tão clássico quanto um Bach ou um Mozart, nem tão intimidador quanto um Beethoven ou um Wagner, tampouco tão belo quanto um Mahler; ainda assim, vai servir. Admiti-o para uma audição no meu clube de compositores favoritos. Contudo, ao aprender mais sobre ele, fiquei desconcertado. Quase cancelei a audição.

Não demorou muito para eu deparar com a opinião predominante sobre Bruckner – algo que os especialistas esnobes de música clássica proclamaram por um século. Segundo eles, não deveríamos perder tempo com aquele peão boiadeiro. E eles tinham razão em relação a uma coisa: Bruckner foi sem dúvida um dos homens mais incultos a terem andado pelos Alpes austríacos. Nascido numa pequena vila montanhosa, ele falava um dialeto alpino, vestia-se pobremente (com calças de bainha alta, pois tocava órgão e – dizia ele – por isso precisava dos pés livres para os pedais). Apresentava-se com uma falta de jeito e com um desleixo como um morador de rua. Sabia quase nada sobre história, filosofia, poesia, drama, dança, ciência, etc. Como disse: inculto. Mas, quando ele subiu no assento do órgão de sua igreja local (e muitas outras ao longo de sua vida), metamorfoseava-se, como um Hulk, num gigante musical. A improvisação – provavelmente o maior teste de alto talento musical – fluía por seus dedos com uma facilidade impressionante. É lamentável, considerando sua obra, que tenha composto tão pouco para órgão, mas podemos dizer que ele compensou essa lacuna de maneira grandiosa.black-and-white-buttefly-music-notes-facebook-cover-black-and-830x307

Quando eu finalmente ouvi sua nona sinfonia inacabada (por que não começar pelo topo?), senti como se tivesse entrado na Catedral de Notre Dame, ficando arrebatado (como ainda estou). Depois, ouvi a sua quarta sinfonia (uma audição mais fácil), bem como a sétima, mais acessível e popular. Mas eu ainda não havia me deparado com a espantosa, surpreendente e ousada quinta sinfonia (pertenço à minoria dos amantes dessa sinfonia imperfeita), para não falar do primeiro contato dos meus ouvidos virgens com a mais grandiosa, exigente e transformadora de todas as sinfonias, a oitava.

Nessa época, tornei-me um apologista de Bruckner dos mais insuportáveis, mas percebi – para minha surpresa e incredulidade – que esse músico baixinho era visto, quase universalmente, como bombástico, desarticulado, confuso e, acima de tudo, incapaz de economia (suas sinfonias são qualquer coisa, menos sucintas). Ele é visto por muitos como um tipo de Wagner absurdamente “batizado.” Idolatrava o gênio megalomaníaco alemão; e o fato de ser, com Wagner, um dos favoritos de Hitler, com certeza não lhe angariava muitos admiradores. Adicione-se a isso o fato de que, ao contrário de qualquer outra celebridade musical do século XIX de estatura comparável, Bruckner era um católico devoto, e frequentador diário às Missas. Portanto – falava a voz dos sabichões da música erudita –, se o que você busca é um romantismo tardio, então vá para Mahler, e deixe de lado esse patético capiau em seu auto-indulgente pântano musical, cheio de piedade e presunção.

No entanto, a música de Bruckner é, simplesmente, demasiado interessante para ser ignorada. Os famosos crescendos orquestrais são de tal grandeza transcendente, que somente lágrimas vão revelar se você escutou mesmo. Assim, a Europa não conseguia bani-lo de sua imaginação musical, e ele foi tocado com certa regularidade, a despeito dos opositores. Mas, sua música quase não cruza o Atlântico. Por isso, deliciei-me quando ouvi recentemente que o regente e pianista argentino/israelense, Daniel Barenboim – fã de Bruckner de longa data – homenageou o compositor no Carnegie Hall de Nova Iorque, com o ciclo completo de suas sinfonias.

Anton_brucknerBarenboim admite que há compositores mais melódicos, mais “arquitetônicos,” melhores orquestradores e, com certeza, aqueles mais concisos e econômicos na expressão. Mas, ele nos diz também que não é a melodia, a arquitetura, a orquestração ou a brevidade que nos arrastam para Bruckner. É-se arrastado para Bruckner por meio da mesma força que o arrastou, ele mesmo, para a música: a sua fé. Ninguém mais no século XIX compôs mais religiosamente, mais espiritualmente, do que Bruckner. Com ele, não tem programa musical, nenhuma poesia, nenhuma estória; apenas uma escavação arqueológica em busca de Deus e do sobrenatural, sedutoramente escondidos no mundo do som, como veios de ouro na terra. Na verdade, o seu Te Deum e as Missas são também trabalhos geniais, mas é em suas sinfonias que algo de outro mundo vem majestosamente à tona.

Ele cava, cava mais, explora e peneira – retornando a um local anterior só para cavar um pouco mais – e então, muitas vezes num crescendo expectante, outras vezes numa súbita tempestade fônica, dá-se uma epifania igual a nada que se encontre na literatura sinfônica. Não há algo que se pode igualar àqueles momentos. Quando se conhece bem a música dele, meditativamente se espera por esses momentos – assim como cada um de nós espera por Deus – e ficamos até impacientes com Bruckner, enquanto ele busca em seu coração e na orquestra aquela convergência de sons que levará à última revelação. Finalmente, Bach é mais consistentemente brilhante; Mozart mais divertido e variado; Beethoven, mais sintético e impactante; Brahms, mais assertivo e Mahler mais expansivo. Mas, só em Bruckner achamos aquela passagem entre a Terra e o Céu que nos assegura que a beleza do além é por demais assoberbante. Para aqueles preparados a prossegui-la, terá valido a espera.

[Para os iniciantes em Bruckner, provavelmente suas 4ª e 7ª sinfonias deveriam ser ouvidas primeiro. Se você tem menos paciência e quer provar um pouco do melhor, ouça o Adagio da 8ª. (ou da 4ª, 5ª, 7ª ou 9ª… mas eu recomendo o da 8ª). Entre muitas versões excelentes, gosto do andamento de Herbert von Karajan: https://www.youtube.com/watch?v=asJf3KmAg08; se quiser ir direto para o Adagio, pule para 32:15. Há versões com melhor som, mas o buscador encontrará aquela sonoridade que semeará a glória em seu coração)].

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Inteligência e o mal

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Você pode ser muito inteligente e muito mau, mas não pode ser sábio sem ser bom. Ser inteligente, ou esperto, significa que você tem uma mente mercurial – talvez até um QI muito alto – podendo manipular silogismos e dissecar argumentos com uma rapidez invejável. Você pode resolver somas e dançar um ballet discursivo nas tabuadas sem derramar uma gota de suor. Mas, nada disso exige bom caráter. Em resumo, você pode ser um mestre em lógica, cálculo e até retórica, mas ser um demônio por dentro.

Astúcia e esperteza são apenas habilidades, e alguns nasceram com mais aptidão para elas do que outros. Podem até ser afiadas à perfeição por meio da prática e do estudo, mas não deixam de ser dons neutros, podendo ser usados, como uma faca bem afiada, para cortar um pão para os seus filhos, ou para cortar gargantas para o Estado Islâmico. De fato, você não coisa alguma só por ser esperto ou “altamente inteligente”; você apenas possui um talento inato para derivar, cotejar, concluir, inferir (e manipular!), uma vez que os princípios e premissas já lhe foram fornecidos de maneira pré-lógica, para o bem ou para o mal (dependendo da fonte das intuições).

Eis a questão. O que pressupomos, aquilo que sabemos antes de raciocinar – o que sabemos mesmo antes de usar a linguagem –, esses itens do conhecimento pertencem a uma ordem de verdades situadas na nascente do rio da lógica, não em sua foz. A lógica, assim como as operações matemáticas, pode correr como um carro acelerado a máximo, mas com as engrenagens soltas; desse jeito, vai a algum lugar só quando as intuições originais e pré-discursivas tiverem sido ativadas. Tais intuições são nutridas da sua vida moral, da sua humildade e honestidade – sua abertura à verdade e também à correção.

A lógica simbólica, a matemática e também a habilidade retórica podem florescer, indiferentemente, em um santo e em um monstro. Soltas de qualquer amarração a princípios tanto metafísicos quanto morais, encontram a sua encarnação desengajada e desenraizada no moderno computador – sabidamente desapegado a emoções, significados e valores. Na esfera econômica, isso tem o seu correlato na supremacia do dólar, aquela medida friamente calculável de quantidade pura, para a qual a produção da riqueza genuína ocupa um lugar secundário ao aumento de lucro em termos numéricos. É cruelmente significativo que a medida do ganho monetário é indicado pela multiplicação do símbolo do zero, “0” – a cifra primordial para significar nada.

O conhecimento tem sido tão completamente instrumentalizado em nosso mundo moderno, escravizado à tecnologia e privado de qualquer objeto de valor intrínseco, que sua manifestação principal tornou-se a de um produto destinado a ser consumido ou utilizado. A universidade onde trabalho proclama, descaradamente, que a sua finalidade é a “produção do conhecimento” – a ser um tipo de fábrica cognitiva. Nenhuma menção à verdade, à formação do caráter, à comunicação dos valores duradouros ou à apropriação de uma tradição sólida. Numa palavra, “sabedoria” não consta mais no currículo, nem mesmo como um objetivo distante. Ela sumiu de vista na fumaça da fábrica, e no negócio de produzir uma série sem fim de mercadorias para consumidores que nem sabem que precisam delas. E, claro, não precisam. O que eles realmente necessitam – uma verdadeira sabedoria – terá de ser buscada em outro lugar. E, dado que o bem moral caminha de mãos dadas com a sabedoria, talvez devêssemos buscar nossos mestres e professores, primeiramente, entre os santos.

O vórtice do pensamento conspiratório (update)

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Para todo filho de Abraão, a ideia de que o inferno conspira contra o Paraíso é um lugar-comum. Está na categoria do “e daí?” Contudo, a privação do ser, que caracteriza o mal, não apenas garante a derrota final deste, mas também acarreta a futilidade de se estudar seriamente as intrigas do mal. Obedecer à prescrição evangélica de ser “tão esperto quanto as serpentes” é perigoso, exceto se acompanhada pelo mandamento gêmeo de ser “tão simples como as pombas.” Eu suspeito até que é a simplicidade que seja a chave da espertez. Obviamente, devemos estar alertas sobre o mal, e jamais ser ingênuos acerca de quão ruins as coisas são, ou do quão piores elas podem se tornar. Esperar uma utopia é tolice, e tentar realizá-la é sempre destrutivo. Mas, além de ser atento e realista – e dado que você não seja um exorcista, nem um agente da lei nem das forças armadas –, quanto menos tempo você perder “estudando o inimigo,” melhor.

Pessoas que conheci bem nos últimos 45 anos e que mergulharam nesta ou naquela forma de teoria da conspiração, acabaram com suas mentes (sobretudo no caso dos inteligentes!) sendo sugadas pelo vórtice de um hipnotizante fascínio pela revelação das maquinações do mal. Ora, isso atordoa e desorienta. Aquelas pessoas inevitavelmente terminaram atribuindo mais coordenação e eficiência à maldade e seus ardis – em termos puramente ontológicos – do que o mal é capaz de fazer. Más companhias – uma categoria à qual todos nós pertencemos às vezes! – estarão sempre muito mais preocupadas em brigar entre si do que em montar boas estratégias contra o bem. O mal inevitavelmente ganhará algumas batalhas – conduzidas por um Judas, um Stalin, um Hitler, um Al Baghdadi –, porém, jamais será capaz sequer de entender o que significaria uma vitória final, pois seus olhos são avessos à luz. Contudo, as pessoas que buscam firmemente o bem e o sagrado, radicados no Ser em toda a sua densidade e intensidade, erguerão as muralhas mais sólidas possíveis contra o mal. As palhaçadas desenraizadas da iniquidade finalmente sumirão dentro do nada com que elas flertam.

Porém, mesmo pessoas com ótimas intenções podem ficar transfixadas pela leitura de livros, ou a assistência a vídeos de pessoas que falam, interminavelmente, sobre os perigos ameaçando um país, uma igreja ou um grupo qualquer.  Se seu estudo debruça-se, predominantemente, sobre essa espécie de “demonologia secular,” em vez de dedicar a parte de leão de suas leituras e reflexões sobre fontes saudáveis, você também flerta com esse nada.  No caso do católico, o programa normal não pode ser de outra forma do que o estudo dos documentos oficiais–e recentes!–da Igreja, incluindo sim todos os 21 concílios, mas em particular o último, e as encíclicas papais. Quem nunca, ou raramente, abre esses textos (e até os demoniza, graças à última teoria de conspiração dentro da própria Igreja), e fica mergulhado em livros e vídeos marginais, produzidos pelos autoproclamados “estudiosos do inimigo,” já se entregou à mais perigosa cilada do adversário. Já virou um cúmplice da pior conspiração que existe–aquela que teria até abandonado Jesus, porque ele não quis seguir nossa sugestão que ele expulsasse Judas Iscariotes do colégio dos Apóstolos.

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