Et Verbum infans factum est (e o Verbo se fez infante)

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Quando olhamos nos olhos de um infante, vemos alguém que vê coisas que nós não vemos mais. Os globos oculares são límpidos, livre de auto-reflexão, olhando para fora e vendo o mundo como realmente é, sem as nuvens de disfarce e interpretação (mesmo quando olhando para você, algo meio inquietante). Estudos recentes na psicologia infantil tem confirmado aquilo que as grandes tradições do mundo sempre sabiam, a saber, que as crianças sabem de coisas que nós adultos, através dos tumultos da educação e adolescência, temos esquecido .

Quando chegarmos à vida adulta, descartamos aqueles olhares docinhos como sintomas da ingenuidade infantil que, mais cedo ou mais tarde, terá que enfrentar o mundo ‘real’.  Mas somos enganados. É verdade, Cristo não nos admoeste para ficar crianças, mas nos admoeste sim para virar como crianças; e é aquela inocência da criança que ele nos apresenta como meta espiritual. Mesmo assim – e é isso que muitas vezes esquecemos – virar como uma criança significa não apenas reganhar uma certa inocência emocional, mas inclui também o conhecimento de certas coisas que só crianças conhecem.  (Olhem de novo para o rosto da criança em cima.)

A Encarnação de Deus não é a obra de um ou outro dos avatares do hinduísmo. Aquelas ‘manifestações descidas’ fazem, na Índia, o que os anjos e profetas fazem na Bíblia: eles  ‘descem’ (o sentido original da palavra avatara), ensinam por um período, e depois voltam para onde vieram, como os anjos; ou falam as coisas profundas de Deus, como os profetas. Se um anjo assumisse a forma de um ser humano, será apenas o uso de um veículo temporário, a ser descartado em breve, uma vez que a missão for cumprida. Eles não são Deus, e não podem ser homens. Profetas já são homens, mas nunca viram Deus. De fato, a impossibilidade desse último é talvez a injunção profética mais enfática.

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.” Esta é, certamente, a reivindicação mais momentosa jamais feita a respeito do Logos. Para aqueles que acreditam nisso – e nada é mais essencial – é um fato tão objetivo, tão metafísico e severo, vai tornar-se em um enorme escândalo. Trata-se aqui de um Deus que não é – como a maioria dos ateus opinam e, infelizmente, também um grande número de fiéis – só o ‘maior ente’ no universo, mas sim, o Ser Transcendente Mesmo. E quanto ao homem, trata-se de uma natureza que carrega um abismo dentro de si que só um tal Ser pode encher.

Você não pode explicar a beleza da música só pela matemática, nem o olhar dessa criança (dê mais uma olhada) só pela sobrevivência dos mais aptos. O ser humano é um mistério, e sua alma é aberta – tanto intelectual quanto volicionalmente – ao infinito. Dentro daquela abertura parabólica do mistério humano a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade entrou com sua própria natureza, produzindo um evento no tempo que marcou para sempre o ano zero, fazendo do ‘Deus que é o Ser’ um ‘Filho do Homem’. Deus virou homem em uma natureza humana completa, com corpo e alma. E porque aquela natureza não existe – como existe a de Deus – em um único momento omnipresente, sua vida fica espalhada no espaço e desdobrada no tempo. E como todas as coisas no tempo e espaço, começa pequeno, como uma criança.

Nas décadas após a Ascensão de Cristo, os eventos colossais da Semana Santa e da Páscoa perderam um pouco da sua imediatez e do seu destaque. Os primeiros cristãos começaram a colocar o Mistério Pascal em um contexto mais detalhado. Eles começaram a explorar o backstory dos primeiros anos daquele homem que morreu e ressuscitou dos mortos. Maria tinha sido consultada e outras testemunhas do nascimento, infância e juventude de Jesus também deixaram suas recordações. Muito dessa tradição oral foi depositado nos Evangelhos.

Aos poucos a estória do nascimento de Cristo entrou em foco. Virou claro que a plenitude da divindade já residiu dentro da pequena criança deitada na manjedoura.  Circundado por pastores, supervisionado por anjos, em breve a ser visitado por misteriosos magos do Oriente e perseguido por um monarca assassino, a narrativa do Natal se tornou o amado relato doméstico conhecida por nós todos. Ela inspirou mesmo sua contrapartida secular da festa do solstício invernal do norte cada dezembro, com árvores do Natal e guirlandas de luzinhas natalinas. Mas nada preparou a imaginação religiosa do mundo para este último milagre divino: que ia emergir desta face doce de um pequeno infante o olhar do mesmo Deus que criou o cosmos e lançou o mundo em um novo contexto pela sua morte e ressurreição. Este pequeno rosto ia olhar para nós e para o próprio mundo que criou, perdendo nada do seu poder infinito como Deus e da sua desarmante delicadeza como Criança.

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Et Verbum infans factum est (and the Word was made an infant)

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When you look into the eyes of an infant, you see someone who sees something you are no longer able to see. The orbs are clear, free of self-reflection, looking outward at the world as it really is, unclouded by disguise and interpretation (even when they are looking at you – a slightly unsettling thought). Recent studies in child psychology have confirmed what the world’s traditions have always taught, namely, that children know things that get forgotten in the throes of misguided education and the tumult of adolescence.

By the time we are adults, we dismiss those sweet little gazes as childish naivete that will soon have to measure up to the ‘real’ world. But we are wrong. True, Christ does not admonish us to remain children, but he does insist we become like children; and it is that childlike innocence that is held up as a spiritual goal. Still – and this we too often forget – becoming childlike also means knowing certain things only children know. (Take another look at the baby’s face before continuing to read.)

The Incarnation of God is not the work of one more in a series of avatars. Those ‘descended manifestations’ do, in Hinduism, what angels and prophets do in the Bible: they ‘come down’ (the root meaning of avatar), teach or reveal for a while, and then return to whence they came, like the angels; or they speak forth the deep things of God, like the prophets. If an angel takes on the form of a human being, it is only a temporary vehicle, soon to be cast off once the mission is accomplished. They are not God, and do not become man. Prophets are men already, and never become God. In fact, the impossibility of this last is perhaps their most frequent prophetic injunction.

“And the Word became flesh and dwelt among us.” This is certainly the most momentous claim ever made about the fabled Logos. For those who believe it – and nothing is more germane to bare Christian faith – it is a fact so objective, so metaphysical and so severe, it could only become  a scandal (a tripping stone) on which all the world would lose its footing. It bespeaks a God who is not, as most atheists and too many believers hold, just the biggest being in the universe, but rather Transcendent Being Itself. And it bespeaks a human nature that carries an abyss within itself that only such a Being could fill.

You cannot explain the beauty of music by mathematics alone, nor can you account for the look on that baby’s face (take another look) by survival of the fittest alone. Man is a mystery, and his soul is open – both intellectually and volitionally – to the infinite. Into that parabolic opening of the human mystery the Second Person of the Holy Trinity took its own nature, producing the event in time that marked the year zero, and made the “God Who Is” into the Man of Sorrows.  God became man in a full human nature. And since that nature does not exist, as does God’s, in the ever-present moment, it is spread over time and unfolded in space. And like all things in time and space, it begins small, as a child.

In the decades and centuries following Christ’s Ascension, the colossal events of Holy Week and Easter lost some of the edge of their first shock, and the early Christians began to put that Paschal Mystery into context. They pondered the backstory of the early years of the man who died and rose from the dead. Mary was queried more than anyone, and further witnesses of the birth, infancy and youth of Jesus offered their recollections as well. Much of this found its way into the Gospels.

Slowly the story of Christ’s Nativity came into full focus, as it became clear that the fullness of the Godhead already resided in the tiny child lying in the manger. Surrounded by shepherds, overlooked by angels, soon to be hounded by a murderous monarch and visited by mysterious magi from the East, the story of Christmas became the beloved domestic tale we all know so well. It inspired even its secular counterparts in the yuletide midwinter traditions of the north, with all the magical trees of life and festooned colored lights we see each December. But nothing prepared the world’s religious imagination for this last divine wonder: that out of the sweet face of a tiny infant, the God who created the cosmos and hurled the world into a new context by his death and resurrection, would gaze at us, and love us, and lose nothing either of his infinite power as God or of his disarming delicacy as a Child.

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The Silent Night of Fecundity

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Easter is dramatic, and the narrative from Palm Sunday to the Ascension is laden with more twists and turns and ups and downs than anything Aeschylus or even Shakespeare could think up. And there is noise—from the cheers of Christ’s entrance into Jerusalem to the jeers of his crucifixion; even the earth quaked at the Resurrection.  On Pentecost, too, “a sound came from heaven,” and soon multiple tongues were filling the air with proclamations of the message that would change the world for ever.  When we come to Christmas, however, there is silence.

Long before the unsettling drama and glory of Easter and the vocal responsibilities of Pentecost, we find a hushed atmosphere around the manger of Bethlehem. And yet something equally moving is before us.  When a child is born, we are urged to be still; the child cannot talk, and adults find themselves to be tongue-tied, or reduced to imitating high-pitch baby blather. And so it is with Christmas. For the mystery of the night Christ was born is a night of the Father, as much as Easter was a morning of the Son and Pentecost a day of the Spirit.

The Father is God in his most recondite and ineffable recesses. He is the mystery before whom we ultimately fall silent. But also in the face of every newborn child we see a mystery that makes us gaze and wonder. At Christmas, God ordained to show his very own power and glory in the face of the Christ-Child. And what is the mystery in this face? What is this secret of the Father?

It is, I submit, fecundity. Whenever we wander close to the matrix of a new human life, we are in the presence of a power far beyond us. Our words falter, and in desperation, even turn vulgar (don’t our worst profanities all have to do with procreation?). This is why we have always instinctively felt that sex ought not to be discussed in the open, not because it is bad, but because it is too good and too near to God’s own trinitarian mystery to be entrusted to our careless words.

The eternal Birth of the Son in the Spirit is the very mystery of the Trinity. The Son’s temporal birth in Bethlehem marks the beginning of the mystery of  Redemption, and that mystery is extended through history only when we allow him to be born also in us. Christmas is all about birth, buds of life and babies. It reminds us that God is alive and that love of life is the beginning of love of God. And only silence has space enough to accommodate the immensity of the miracle.

One day this boy will begin to speak, but the greater part of his time on Earth will be passed in silence, beginning in Nazareth and even during his years of preaching. The sermons of Jesus were not frequent. It’s true that a good number of his words were remembered by the apostles and evangelists and passed on to us in the Gospels; but they were just sparks from the Fire that he was, a divine Fire that only shown for a spell on Earth because it shines forever in eternity. And its supreme mystery is this silent fecundity, like the burning bush in the desert of Sinai, that burned but was never consumed. More important than the words Christ spoke was the Word that he was. Everything worth saying is said in the Being of him who is Truth itself.

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A noite silenciosa da fecundidade

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A Páscoa é dramática, e a narrativa que se estende do Domingo de Ramos à Ascensão é mais carregada de reviravoltas, altos e baixos do que qualquer coisa que Ésquilo ou mesmo Shakespeare poderia ter imaginado. E nela há ruídos, desde a saudação da entrada de Cristo em Jerusalém às zombarias de sua crucificação, até o tremor da terra na Ressurreição. Em Pentecostes, também, ouvimos que “um som veio do céu,” e logo múltiplas línguas enchiam o ar com proclamações da mensagem que mudaria o mundo para sempre. Quando chegamos ao Natal, contudo, há silêncio.

Muito antes do inquietante drama e a glória da Páscoa, e das responsabilidades de pregação de Pentecostes, topamos com uma atmosfera silenciosa ao redor da manjedoura em Belém. E, não obstante, estamos diante de algo igualmente comovente. Quando nasce uma criança, somos instados a ficar quietos; a criança não pode falar, e nos encontramos como que mudos. Assim é com o Natal. Pois o mistério da noite em que Cristo nasceu é uma noite do Pai, tanto quanto a Páscoa foi uma manhã do Filho, e Pentecostes, um dia do Espírito.

O Pai é Deus em seus mais recônditos e inefáveis recessos. Ele é o mistério diante do qual, no final das contas, somos reduzidos ao silêncio. Mas, também em face de uma criança recém-nascida, vemos um mistério que nos causa admiração e deslumbramento. No Natal, Deus se dispôs a mostrar Seu próprio poder e glória na face do Cristo-Menino. E qual é o mistério nessa face? Que segredo do Pai é esse?

Eu proponho que seja a fecundidade. Sempre que nos aproximamos da matriz de uma nova vida humana, estamos em presença de uma força incomparavelmente além da nossa. Faltam-nos as palavras que, no desespero por encontra-las, até se tornam vulgares (nossas piores obscenidades fazem referência à procriação). É por isso que sempre achamos que o sexo não deve ser discutido abertamente; não porque seja mau, mas porque é muito bom e próximo demais ao próprio mistério trinitário de Deus para ser confiado às nossas palavras casuais.

O eterno nascimento do Filho no Espírito é o mistério mesmo da Trindade. O nascimento temporal do Filho em Belém marca o começo do mistério da Redenção. Este mistério se desdobra na história tão-somente quando permitimos, também, que ele nasça em nós. O Natal é sobre nascimento, brotos de vida e bebês. Lembra-nos que Deus está vivo e que o amor à vida é o princípio do amor a Deus. E apenas o silêncio tem espaço suficiente para acomodar a imensidão desse milagre.

Um dia esse garoto vai começar a falar, mas a maior parte do seu tempo na Terra será passado em silêncio, começando em Nazaré e até mesmo durante seus anos de pregação. Os sermões de Jesus não foram frequentes. É verdade que uma grande parte das palavas dele foi recordada pelos apóstolos e evangelistas e registrada nos Evangelhos; mas eram só faíscas do Fogo que ele era, um Fogo divino que resplandece na Terra, por um tempo, só porque sempre resplandece na eternidade. E a sua fecundidade é seu mistério supremo, como a sarça ardente no deserto de Sinai, que arde mas nunca é consumida. Mais importantes do que as palavras que ele falava foi a Palavra, o Verbo que ele era. Tudo está dito no Ser d’aquele que é a Verdade.

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Leaving Troy (rev.)

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The northwestern corner of “Asia Minor” (today’s Turkey) represented to the ancient world the westernmost cusp of the huge, heaving landmass of Asia, stretching behind it all the way to Japan in the north and to New Guinea in the south. Mesopotamia, Persia, India and China all lie there, heavy with millennia of history and culture. And on that intruding tip we find the fabled city of Troy, an undisputed fact of history now that archaeology has unearthed multiple layers of a complex metropolis of almost prehistoric antiquity. From that eastern city of Troy, three voyages would be launched. Each would leave its mark on what would later be known as Europe.

Even the name of the continental newcomer would trace its story back to the East, as the Phoenician princess “Europa” was said to have been ravished by the king of the gods and brought to the shores of Greece. That is myth, which is “penultimate truth.” The three voyages, however, were more palpable than myth, and especially the third.

Our Greek cultural forefathers were forever interacting with the East. Their first great historical work (The Persian Wars, by Herodotus), and their first dramatic masterpiece (The Persians, by Aeschylus), both dealt with the inhabitants of what is today Iran. World history would have looked very different if the Greeks had not triumphed against the massively superior Persian Empire. But the Trojan connection goes even deeper than that. To begin with, that war predates the Persian War by centuries. In the latter war, the Greeks won, but they didn’t conquer; it was a conflict of successful self-defense. In the former war, both winners and losers launched myth- and history-making voyages. Troy haunts the Western imagination not as a defeated enemy, but as the stage of an iconic altercation destined to frame the emerging narrative of Europe from both sides of the contest.

On the winning side, Odysseus leaves Troy and undertakes his fabulous and prolonged voyage home to the peninsular country that – courtesy of the blind bard Homer – was soon to sing his story. Greece would begin to speak not only in sublime epic, lyrical and dramatic verse, but also in an idiom unmatched hitherto on Western lips: philosophical prose. A new wave of naturalistic sculpture would also rise out of that culture, fascinated artistically with the natural curves of the body, just as the new philosophy would be captivated by the natural trajectories of logic. And during this philosophical apotheosis, their distant past heroes’ struggle on that Asian coast would serve as their defining epic recollection. Generations of Greek schoolboys would henceforth memorize their Odyssey and Iliad, and learn what example teaches even to theory.

But that’s only half the story. On the losing side, another tale was told, with a plot just as momentous as that of the victors. Aeneas also left Troy, but he wasn’t going home to a Penelope; he was fleeing a home which was burning to the ground. Odysseus met obstacles when he got home, but he did get home. Aeneas began with obstacles, and they continued as he searched for a new domicile. At long last, he found his new home on the Western shore of Italy: Rome. Thus, Western civilization’s two European fountainheads – Greece with its philosophy and art, and Rome with its law and architecture – both look to a founding saga based on an ancient war on an Asian shore. And since Rome was fated to ultimately conquer Greece militarily (and in some way settle accounts after their forefathers’ defeat at Troy), it would no less decisively be conquered by Greece culturally, blown away by the latter’s love for beauty and wisdom.

Virgil’s Latin Aeneid is already worlds apart from Homer’s two epics in style and tone, although alike in scope and ambition. But the text that will recount the third voyage from Troy is so different from all three epics (and indeed from all earlier literature of any genre), it stands alone in the world of the written word. I refer of course to the New Testament, and to the episode in St. Paul’s missionary travels that brought him to that very tip of Asia that bore the ruins of Troy. It also saw a new literary genre arise without warning, and without precedent. We call it the Gospel.

At that western limit of Asia, St. Paul famously dreams of a Macedonian from across the Aegean Sea, pleading with him to come to the other shore (Acts 16,9). So often in religious history, the “other shore” has symbolized a decisive moment in one’s spiritual life – in Hinduism and Buddhism as a symbol of mosksha or nirvana, in Jainism the transcendent conquest heralded by the tirthankaras (the “ford-makers”). In Paul’s case, he himself is the one who is bringing liberation and enlightenment to that other shore. It is he who is fording the body of water that separates Asia from the Europe-to-be. And to the Hellenic fervor for aesthetics and dialectic, and to sober Roman jurisprudence and stately architecture, a new ingredient was injected. Adding to this civilizational recipe, Paul of Tarsus decided to act on a dream.

Centuries hence, the Celtic, Germanic and Slavic peoples of the north would inherit the fruits of this promiscuous Mediterranean mix, and the Europe we have known since the Middle Ages would begin to rise like a Gothic cathedral. But as the three major components – hailing from Jerusalem, Athens and Rome – begin to interact alchemically, something new in history was afoot. The world was never to look the same. Odysseus’s and Aeneas’s sea crossings were long and sinuous, but Paul’s was swift and direct. Still, all three voyages began in Troy, and all three voyages led – directly or indirectly – to wherever you are sitting right now.

 

Bruckner! – em port. (rev.)

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Ouvi Bruckner pela primeira vez em meados dos anos 1970, inspirado por um amigo vienense, na Áustria. Surpreso pela minha ignorância acerca daquele compositor austríaco reconhecidamente esquisito, mas formidável, o amigo olhou-me nos olhos com aquele zelo que só se revela quando se está a ponto de divulgar um segredo esotérico e explosivo: a música de Bruckner é – proclamou ele em alemão – wunderschön! (ele fez uma pausa para secar as lágrimas, e repetiu:) wunderschön! Em alemão, isso não significa apenas belo, mas suntuosa e comoventemente deslumbrante. Eu fiquei emocionado com sua insistência e paixão, apesar de um pouco desconfiado que tudo não passasse de ufanismo nativista de um austríaco. No final das contas, sofri uma humilhação ao ter minha ignorância exposta. Assim que eu pude, botei minhas mãos numa fita cassete de Bruckner e a fiz tocar no meu Walkman.

Acadêmico consumado que eu era (aos 22, gabava-me de saber não tudo, mas quase tudo), decidi que seria bom, em primeiro lugar, familiarizar-me com a biografia desse prodígio musical, que havia habilmente voado abaixo do meu radar durante tanto tempo. Corri para uma enciclopédia, e logo me deparei com a foto que se vê acima. Hmm, pensei, um visual não tão clássico quanto um Bach ou um Mozart, nem tão intimidador quanto um Beethoven ou um Wagner, tampouco tão belo quanto um Mahler; ainda assim, vai servir. Admiti-o para uma audição no meu clube de compositores favoritos. Contudo, ao aprender mais sobre ele, fiquei desconcertado. Quase cancelei a audição.

Não demorou muito para eu deparar com a opinião predominante sobre Bruckner – algo que os especialistas esnobes de música clássica proclamaram por um século. Segundo eles, não deveríamos perder tempo com aquele peão boiadeiro. E eles tinham razão em relação a uma coisa: Bruckner foi sem dúvida um dos homens mais incultos a terem andado pelos Alpes austríacos. Nascido numa pequena vila montanhosa, ele falava um dialeto alpino, vestia-se pobremente (com calças de bainha alta, pois tocava órgão e – dizia ele – por isso precisava dos pés livres para os pedais). Apresentava-se com uma falta de jeito e com um desleixo como um morador de rua. Sabia quase nada sobre história, filosofia, poesia, drama, dança, ciência, etc. Como disse: inculto. Mas, quando ele subiu no assento do órgão de sua igreja local (e muitas outras ao longo de sua vida), metamorfoseava-se, como um Hulk, num gigante musical. A improvisação – provavelmente o maior teste de alto talento musical – fluía por seus dedos com uma facilidade impressionante. É lamentável, considerando sua obra, que tenha composto tão pouco para órgão, mas podemos dizer que ele compensou essa lacuna de maneira grandiosa.black-and-white-buttefly-music-notes-facebook-cover-black-and-830x307

Quando eu finalmente ouvi sua nona sinfonia inacabada (por que não começar pelo topo?), senti como se tivesse entrado na Catedral de Notre Dame, ficando arrebatado (como ainda estou). Depois, ouvi a sua quarta sinfonia (uma audição mais fácil), bem como a sétima, mais acessível e popular. Mas eu ainda não havia me deparado com a espantosa, surpreendente e ousada quinta sinfonia (pertenço à minoria dos amantes dessa sinfonia imperfeita), para não falar do primeiro contato dos meus ouvidos virgens com a mais grandiosa, exigente e transformadora de todas as sinfonias, a oitava.

Nessa época, tornei-me um apologista de Bruckner dos mais insuportáveis, mas percebi – para minha surpresa e incredulidade – que esse músico baixinho era visto, quase universalmente, como bombástico, desarticulado, confuso e, acima de tudo, incapaz de economia (suas sinfonias são qualquer coisa, menos sucintas). Ele é visto por muitos como um tipo de Wagner absurdamente “batizado.” Idolatrava o gênio megalomaníaco alemão; e o fato de ser, com Wagner, um dos favoritos de Hitler, com certeza não lhe angariava muitos admiradores. Adicione-se a isso o fato de que, ao contrário de qualquer outra celebridade musical do século XIX de estatura comparável, Bruckner era um católico devoto, e frequentador diário às Missas. Portanto – falava a voz dos sabichões da música erudita –, se o que você busca é um romantismo tardio, então vá para Mahler, e deixe de lado esse patético capiau em seu auto-indulgente pântano musical, cheio de piedade e presunção.

No entanto, a música de Bruckner é, simplesmente, demasiado interessante para ser ignorada. Os famosos crescendos orquestrais são de tal grandeza transcendente, que somente lágrimas vão revelar se você escutou mesmo. Assim, a Europa não conseguia bani-lo de sua imaginação musical, e ele foi tocado com certa regularidade, a despeito dos opositores. Mas, sua música quase não cruza o Atlântico. Por isso, deliciei-me quando ouvi recentemente que o regente e pianista argentino/israelense, Daniel Barenboim – fã de Bruckner de longa data – homenageou o compositor no Carnegie Hall de Nova Iorque, com o ciclo completo de suas sinfonias.

Anton_brucknerBarenboim admite que há compositores mais melódicos, mais “arquitetônicos,” melhores orquestradores e, com certeza, aqueles mais concisos e econômicos na expressão. Mas, ele nos diz também que não é a melodia, a arquitetura, a orquestração ou a brevidade que nos arrastam para Bruckner. É-se arrastado para Bruckner por meio da mesma força que o arrastou, ele mesmo, para a música: a sua fé. Ninguém mais no século XIX compôs mais religiosamente, mais espiritualmente, do que Bruckner. Com ele, não tem programa musical, nenhuma poesia, nenhuma estória; apenas uma escavação arqueológica em busca de Deus e do sobrenatural, sedutoramente escondidos no mundo do som, como veios de ouro na terra. Na verdade, o seu Te Deum e as Missas são também trabalhos geniais, mas é em suas sinfonias que algo de outro mundo vem majestosamente à tona.

Ele cava, cava mais, explora e peneira – retornando a um local anterior só para cavar um pouco mais – e então, muitas vezes num crescendo expectante, outras vezes numa súbita tempestade fônica, dá-se uma epifania igual a nada que se encontre na literatura sinfônica. Não há algo que se pode igualar àqueles momentos. Quando se conhece bem a música dele, meditativamente se espera por esses momentos – assim como cada um de nós espera por Deus – e ficamos até impacientes com Bruckner, enquanto ele busca em seu coração e na orquestra aquela convergência de sons que levará à última revelação. Finalmente, Bach é mais consistentemente brilhante; Mozart mais divertido e variado; Beethoven, mais sintético e impactante; Brahms, mais assertivo e Mahler mais expansivo. Mas, só em Bruckner achamos aquela passagem entre a Terra e o Céu que nos assegura que a beleza do além é por demais assoberbante. Para aqueles preparados a prossegui-la, terá valido a espera.

[Para os iniciantes em Bruckner, provavelmente suas 4ª e 7ª sinfonias deveriam ser ouvidas primeiro. Se você tem menos paciência e quer provar um pouco do melhor, ouça o Adagio da 8ª. (ou da 4ª, 5ª, 7ª ou 9ª… mas eu recomendo o da 8ª). Entre muitas versões excelentes, gosto do andamento de Herbert von Karajan: https://www.youtube.com/watch?v=asJf3KmAg08; se quiser ir direto para o Adagio, pule para 32:15. Há versões com melhor som, mas o buscador encontrará aquela sonoridade que semeará a glória em seu coração)].

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death mask of Anton Bruckner

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Bruckner! (rev.)

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I first listened to Anton Bruckner in the mid-70s, inspired by a Viennese friend of mine in Austria. Amazed at my ignorance of the admittedly odd but formidable Austrian composer, he looked me in the eye with the kind of earnestness one only shows when about to divulge an esoteric and explosive secret. Bruckner’s music is (he proclaimed in German): wunderschön!  He then paused a moment to hold back the tears, and repeated: wunderschön!  In German, that means not just beautiful, but seriously and world-shakingly, tear-jerkingly lovely. I was moved by his insistence and passion, and, although slightly wary of possible Austrian self-promotion, finally overcame the humiliation at having my ignorance exposed. As soon as I could, I got my hands on a cassette tape of Bruckner and slipped it into my Walkman.

Consummate scholar that I was (at 22, I fancied I knew not everything, but almost everything), I decided I must first familiarize myself with the biography of this musical prodigy who had deftly flown beneath my radar for so long.  I ran to whatever encyclopedia or short bio I could find, and quickly came upon the photo you see above. Hmm, I thought, not as classical a look as Bach or Mozart, and not as intimidating as Beethoven or Wagner, nor as handsome as Mahler, and yet he will do. I admitted him to audition for my favorite composers club. But then I learned a bit more about this man, and was taken aback. It almost made me cancel the audition.

I had come upon what seemed to be the consensual low-down on Bruckner – something all the snooty classical music mavens have proclaimed for a century. In effect, they have told us not to waste their time with this cowboy. And they were right about one thing : Bruckner was clearly one of the most uncultured men who ever walked the Austrian Alps. Born in a small mountain village, he spoke an Alpine dialect (when he spoke coherently at all), dressed Salvation Army (with pants cut high, since he played the organ and, he claimed, needed unhindered feet for the pedals). He behaved with a clumsiness and self-effacement that would rival the most abject among our homeless today. He knew next to nothing about history, philosophy, poetry, drama, dance, science, etc. As I said: uncultured. But then he climbed onto the seat at his local church’s organ (and many others thereafter) and promptly morphed, Hulk-like, into a musical giant. Improvisation – arguably the supreme test of high musical endowment – rolled off his fingers with astonishing ease. It is regrettable, in retrospect, that he composed so little for the organ, but I think we can say he made up for it in a big way.black-and-white-buttefly-music-notes-facebook-cover-black-and-830x307

When I finally heard his unfinished 9th (why not start at the top?), I felt like I had just walked into Notre Dame cathedral, and I was enraptured (still am). Later came his 4th (an easier listen), and his accessible and popular 7th. But I hadn’t yet confronted the astounding, surprising, adventuresome 5th – I am in a small minority in my love of this imperfect symphony – let alone submitted my virgin sensorium to arguably the grandest, most demanding and most transformative of all his symphonies, the 8th. By this time, I had become an insufferable Bruckner apologist.

However, as I turned again to those mavens, I noticed – to my shock and disbelief – that this dwarfish musician was regarded, almost universally, as bombastic, disjointed, confused and, above all, incapable of economy (his symphonies are anything but succinct). He is seen by many as a kind of absurdly baptized Wagner; he idolized the German megalomaniacal genius, and the fact that he was, along with Wagner, one of Hitler’s favorites, certainly won him no converts. Add to this that unlike any other 19th century musical celebrity of comparable stature, Bruckner was a devout Catholic, and daily Mass attendant. So – we were soberly told – if it’s  late romanticism that you covet, go to Mahler, and leave this pathetic bumpkin to his self-indulgent musical swamps of piety and pretension.

Despite all this, Bruckner’s music is just too interesting to roundly ignore. The famous orchestral swells are of such transcendent grandeur and sublimity, tears and tears alone will reveal you were really listening. Europe was unable to banish him from its musical repertoire, and he was performed with some regularity, despite the nay-sayers. But he hardly ever crossed the Atlantic. Thus, I was delighted when I recently heard that the Argentine/Israeli pianist and conductor, Daniel Barenboim – a longtime fan of Bruckner – was honoring the composer in New York City’s Carnegie Hall with a full cycle of his symphonies.  That was earlier this year.

Anton_bruckner

Barenboim concedes that there are more melodic composers, more architectonic, better orchestrators and, certainly, those more concise and economic in expression. But he tells us also that it is not melody or architecture or orchestration or brevity that draw us to Bruckner. One is drawn to Bruckner by that which drew him to music: his faith. No one else in the 19th century composed more religiously, more spiritually, than Bruckner. No program music here, no poetry, no story, just an archaeological dig for God and the supernatural, as multiply hidden in the world of sound – like veins of gold in the earth. To be sure, his Te Deum and Masses are also works of genius, but it is in his symphonies where something otherworldly is on unmistakable display.

He digs, and digs again, explores and sifts – returning to an earlier spot to dig just a bit more – and then, often in an expectant crescendo, other times in a sudden cloudburst, there is an epiphany unlike anything else in symphonic literature. Nothing can equal those moments. When you know the music, you meditatively wait for them – like all of us wait for God – and grow impatient with Bruckner as the composer searches his heart and the orchestra for just the right convergence of sound and revelation. Bruckner’s organ playing is more visible in the shape of his symphonies than any reliance on Beethoven or even Wagner. In this way he stands alone. Finally, Bach is more consistently superb, Mozart more playful and varied, Beethoven more synthetic and rousing, Brahms more assertive and Mahler more expansive; but Bruckner alone creates a passageway between earth and heaven that reminds us that the beauty beyond is utterly overwhelming, and, for those willing to pursue it, well worth the wait.

(For those new to Bruckner, probably his 4th and 7th ought to be heard first. If you have less patience and want a bit of the best, take in the Adagio of the 8th (or of the 4th, the 5th, the 7th or the 9th….but I recommend the 8th). Of many fine versions, I like the tempo of Herbert von Karajan here: https://www.youtube.com/watch?v=asJf3KmAg08 ; if you want to go straight to the Adagio, jump to 32:15.  There are versions with better sound, but he who seeks will find the one that seeds the glory in his heart.)

death mask Bruckner
death mask of Anton Bruckner