Porque amo Tomás

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Um de meus estudantes perguntou-me uma vez o que eu mais admirava em Santo Tomás de Aquino (a quem eu costumo citar bastante). Eu jamais havia sido perguntado sobre isso, mas a resposta veio rapidamente. Não é que ele esteja sempre certo; ele não está (e quem estaria?). O que eu admiro nele é, sobretudo, sua humildade intelectual e reverência ao real. Isso é especialmente evidenciado no quão meticuloso, justo e deferente ele é quando expõe as ideias das quais discorda. Todos nós sentimos uma tentação quase irresistível de fazer nossos oponentes de ‘espantalhos’, e de caricaturar seus posicionamentos ao invés de descrevê-los. Se você estivesse num debate com Tomás, seria tratado com a cortesia de ter a sua opinião ouvida e apresentada sob a forma mais nobre possível, com todos os pontos fortes ressaltados e as fraquezas – para o momento – quase justificadas. Isso forma as chamadas ‘objeções’ – às vezes superando o número de 20 em seus trabalhos mais detalhados –, as quais vão longe e fundo em busca de qualquer erro em seu próprio pensamento, ouvindo atentamente a lógica de seus oponentes e lhes dando espaço e tempo para concluir seus argumentos. Ele não quer perder a verdade, onde quer que ela esteja se escondendo. Entretanto, uma vez que os defensores tenham terminado sua exposição, o ataque de Tomás será rápido e intrépido. Mas mesmo assim, ele começará normalmente fazendo uma distinção (“Há dois modos de se entender isso…” ou “Há dois tipos daquilo…”), o que dará aos seus interlocutores uma última chance de ‘salvar as aparências’, vendo talvez que seu erro não decorra tanto de uma estupidez gritante quanto de apenas uma falha em perceber uma distinção difícil. Hoje em dia, contudo, vivemos num mundo de palavras que se gloriam nos espantalhos e nas caricaturas. O meio mais seguro de apontar o embotamento de uma mente é pega-la ridicularizando aquilo que não levou tempo a estudar, e fazendo caricaturas exageradas de coisas que ela nem conseguiu enxergar de forma normal. Se esses pequenos palpiteiros ficassem de boca fechada, poderiam pelo menos fingir inteligência e mascarar sua indolência mental num arquear das sobrancelhas. O entendimento verdadeiro, por sua vez, é um longo e penoso trabalho, não apropriado aos medrosos.

Why I like Tom

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One of my students asked me once what it was I most admired in St. Thomas Aquinas (whom I tend to quote a lot). I’d never been asked that before, but the answer came quickly. It’s not that he’s always right; he isn’t (and who is?). What I love about him is his intellectual humility and reverence before the real. This is evidenced especially in how meticulous, fair and deferential he is when expounding ideas he disagrees with. We all feel the almost irresistible temptation to make ‘straw men’ of our opponents, and to caricature their positions rather than describing them. If you were in a debate with Thomas, you would be treated to the courtesy of hearing your own position profiled in the noblest form possible, with all of its strengths highlighted and its weaknesses – for the moment – almost explained away. These form the so-called ‘objections’ – sometimes numbering over 20 in his more detailed works – and they cast wide and deep to find every possible way in which he could be wrong, to give attentive ear to his opponent’s logic and allow them the space and time to conclude their arguments. He doesn’t want to miss the truth, wherever it might be hiding. To be sure, once the defendants have rested their case, his attack will be swift and sharp.  But even so, he will usually begin by making a distinction (“There are two ways to understand this…” or “There are two kinds of that…”), allowing his interlocutors a last-minute chance to save face, presenting their error not so much as blatant stupidity as an understandable failure to catch a difficult distinction. Today, however, we live in a world of words that glory in straw men and caricatures. The surest way to spot the bluntness of someone’s mind is to catch them ridiculing what they have not taken the time to study, and making exaggerated caricatures of things they’ve never pictured in a straightforward way. If such pint-sized pundits would keep their mouths closed, they could at least feign intelligence and mask their mental sloth with a twist of the eyebrows. True understanding, on the other hand, is long, hard work and not for the faint-hearted.