Corruptio optimi pessima (versão portuguesa)

Em Filosofia, os romanos nunca foram páreos para os gregos, mas, com o seu instinto prático e amor à economia linguística, eles nos legaram uma nutritiva colheita de aforismos latinos. Este é um deles: ‘a corrupção do melhor é o pior’. Os gregos e os alemães amam debater, por páginas e mais páginas, sobre o que ditos como esse significam, e quando assim procedem, fazem aquilo que chamamos de Filosofia. Porém, os homens mais sábios do passado, como Heráclito, estavam provavelmente mais perto da fonte disso tudo, ao conseguirem resumir resmas de sabedoria em umas poucas palavras. Essa sabedoria é transparente, de modo que até um analfabeto pode ouvi-la e mergulhar em suas profundezas. Então, que tal darmos um mergulho nesse aforismo?

Pise numa formiga, e você acaba de criar um corpo fórmico inofensivo; mate um humano, e você produzirá o cadáver mais repelente às nossas narinas. “Se há feitos que os mais doces mais azedem, os lírios podres mais que as ervas fedem.” (Shakespeare, soneto XCIV, trad. de Vasco Graça Moura). Nossos corpos são os compostos mais complexos de matéria e os objetos físicos mais nobres que conhecemos (especialmente os nossos cérebros). E formigas, apesar de toda a sua elegância segmentada, são comparativamente bastante simples. A propósito, é por isso [isso vai para todos os que assistiram ao filme Segredos Revelados (Spotlight)] que o mundo está certo em sentir-se tão ultrajado pelo triste espetáculo dos padres que abusaram de menores de idade. É porque quem procura ser o melhor, quando cai, fá-lo em profundidades abissais. (Não obstante, o abuso sexual de crianças difundido entre aqueles que não são padres ou religiosos católicos estourarão finalmente nas manchetes de jornal; infelizmente, o problema é endêmico à nossa sociedade sexualmente ‘liberada’, e de forma alguma restrita ao clero de qualquer igreja). Mas, voltemos à ideia da corrupção.

Não se pode abusar do lixo. Não se pode torturar a sujeira. A natureza mesma desses atos reserva-se a vítimas que possuem algum valor intrínseco. Quanto maior o valor, e quanto mais algo se aproxima da perfeição, mais baixa será a sua perversão. E aqui sobrevém o exemplo que ocasionou essas reflexões. O escândalo de corrupção no Brasil não me preocupa tanto quanto o dos EUA. Eu sou cidadão de ambos os países, desse modo tenho um direito especial de expressar minhas impressões amadores. Assistindo aos políticos brasileiros debatendo e brigando nas últimas semanas, eles me lembram mais uma turma de garotos desordeiros, que gritam e cuspem uns nos outros, do que um grupo de adultos discutindo política. A democracia do país ainda é muito jovem e os seus instintos ainda um pouco ingênuos. Eles parecem às vezes estar ‘brincando’ de democracia, assim como as crianças brincam de casinha. Mesmo correndo o risco de ofender meus leitores brasileiros, digo que a corrupção aqui, conquanto mais visível e mais melodramática, é ‘de baixa qualidade’; por outras palavras, não é ainda a corrupção do melhor. Os Estados Unidos, onde fui criado, tiveram os seus períodos de grandeza, de enorme produtividade, generosidade e promessa. Porém, tiveram mais de dois séculos para ensaiar aquilo que chamamos hoje de ‘democracia’ (um conceito acometido de ambiguidade, devido à sua confusão costumeira com ‘república’… mas, deixemos isso para outra vez). Apesar de terem se elevado a grandes alturas, desceram recentemente às profundezas conhecidas somente pelos grandes caídos. A corrupção por lá é mais sutil, mais sofisticada, mais requintadamente camuflada (e até mais perfidamente financiada). Sua arte é sussurrada e, exatamente por isso, muito mais sinistra. A corrupção norte-americana é como um ballet profissional – parece sem esforço; a corrupção brasileira, por sua vez, parece uma break-dancing de adolescentes – só de ver, cansa-nos.

Portanto, os brasileiros podem se sentir curiosamente confortados pelo fato de que, a despeito das aparências, as coisas não estão tão mal quanto poderiam, porque o país ainda não está tão bem quanto poderia. Apenas quando o Brasil, como se espera, se transforme num grande sucesso como país, é que ele poderá se aventurar em perversidades mais mefistofélicas.

Corruptio optimi pessima

The Romans never became the philosophical equals of the Greeks, but, with their instinct for the practical and love of linguistic economy, they gave us a nourishing harvest of Latin aphorisms. This is one of them: ‘the corruption of the best is the worst’. The Greeks and the Germans love to expostulate for pages on what sayings like that mean, and when they do so, we call it philosophy. But the wisest men of old, like Heraclitus, were probably closer to the source of it all when they managed to pack reams of sapience into a handful of words. The wisdom is transparent, and even the illiterate can listen and fathom its depths. So let’s take a dive into this one.

Step on an ant and you create an inoffensive formic corpse; kill a human, and you have produced the most repellent cadaver known to our nostrils. “For sweetest things turn sourest by their deeds / lilies that fester smell far worse than weeds.” (Shakespeare, sonnet XCIV)  Our bodies are the most complex compounds of matter and the noblest physical objects we know of (especially our brains). And ants, for all their segmented elegance, are by comparison rather simple. This is why, by the way (for all you viewers of ‘Spotlight’), that the world is right in being especially outraged by the spectacle of Catholic priests abusing the young. It is because they aspire to be the best that when they fall, the plummet is abysmal. (Nonetheless, the extensive sexual abuse of the young among those who are not Catholic priests or brothers will eventually hit the headlines as well; sadly, the problem is endemic to our sexually ‘liberated’ society, and in no way peculiar to the clergy of any church.) But back to the very idea of corruption:

You can’t abuse trash. You can’t torture filth. The very nature of those acts is reserved for victims possessed of intrinsic value. The higher the value and the closer something is to perfection, the more wicked will be its perversion. And here comes the example that occasioned these reflections. The corruption scandal in Brazil does not concern me nearly as much as the one in the USA. I am citizen of both countries, so I  have a special right to express my amateur impressions. Watching Brazilian politicians debating and quarreling these past weeks reminds me more of a bunch of rowdy boys yelling and spitting at each other than a group of adults discussing policy. The country’s democracy is still so very young and its instincts still jejune. They seem at times to be ‘playing’ democracy, as children play house. At the risk of offending my Brazilian readers, the corruption here, though more manifest and melodramatic, is lower-grade; it is not yet of the very best. The United States I grew up in has had its periods of greatness, of enormous productivity, generosity and promise. But then, it’s had over two centuries of rehearsing what we today call ‘democracy’ (a concept afflicted with ambiguity due to its customary confusion with ‘republic’…but let’s leave that for another time). Although it has risen to great heights, it has recently plunged to depths known only to the fallen best. The corruption there is more subtle, more accomplished, more exquisitely camouflaged (and even more perfidiously financed). Its art is understated, but all the more sinister for that very reason. North American corruption is like professional ballet, and seems effortless; Brazilian corruption is like sweaty, adolescent break-dancing.

So Brazilians can be oddly comforted by the fact that, despite appearances, things are not as bad as they can get, since the country has not yet been as good as it can get. Only when Brazil has hopefully one day become a great success of a country can it try its hand at more Mephistophelian depravity.