Perdendo a evidência

É escusado dizer o óbvio. Ademais, a escusa é também um requisito. Quando, no entanto, dizemos o óbvio, este soa-nos tautológico e intrusivo: “o mundo está realmente aí”, “eu existo de fato”, “a parte é menor do que o todo”, “homens e mulheres são deliciosamente diferentes”.  Contudo, se dermos um passo a mais e tentarmos ‘provar’ essas coisas, nossa mente perde as estribeiras. A tentativa mesma de provar o óbvio estonteia a nossa consciência, pois ao elaborarmos argumentos para isso, estaremos como que traindo aquela apreensão confiante e imediata da nossa mente em relação às verdades autoevidentes. Ao usar instrumentos inferenciais, no lugar de aceitar o caráter imediato da intuição, essa mesma intuição começa a decair e a ser assediado por embaraços. É como o processo de respiração, que acontece fácil e automaticamente até o momento que começamos a prestar atenção nele, ao invés de simplesmente desempenhá-lo  – ele se torna dificultoso. Ou como quando você repete uma palavra familiar dezenas de vezes, fora de contexto – ela começa a soar estrangeira. É da mesma forma com os truísmos autoevidentes. A aceitação humilde os enraíza em nossas mentes, ao passo que ‘prová-los’, ao contrário, é atirá-los ao vento.

Apesar disso, às vezes temos de fazer um balanço deles, e ficar alertas contra os malvados intrusos – os quais, na verdade, requerem discussão, mas se pretendem passar por óbvios. Muitas vezes ocorre de duas pessoas que chegam a um impasse argumentativo discordarem mais sobre aquilo que consideram autoevidente – e, portanto, que não é sequer mencionado –, do que sobre o objeto das questões discutidas. Desde que eu comecei a lecionar Filosofia Medieval, tenho de iniciar cada curso demonstrando aos estudantes que não é óbvio, de maneira nenhuma, que ‘medieval’ equivale a ‘retrógrado’ nem a ‘supersticioso’. Trata-se de um falso truísmo. Mas os mesmos estudantes têm de ser dissuadidos do problema reverso: eles adoram duvidar da validade dos primeiros princípios, ou da realidade do cosmos objetivo. Os tempos estão de fato ‘fora dos eixos’, como lamentou Hamlet. Aqueles primeiros princípios – comandados pelo vovô de todos eles, o ‘princípio da não-contradição’ – ostentam o emblema da autenticidade: eles não podem ser negados sem que se os pressuponha. Sustenados por eles, podemos fazer a caminhada da razão em liberdade e na luz; duvidando deles, mesmo a razão se torna um jogo vazio de mundos possíveis e impossíveis, mas nunca do mundo real. Há poucos primeiros princípios, mas eles são fortes e valiosos como diamantes. Perder-lhes a evidência é como perder a cabeça.

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Losing the Evidence

The obvious is that which goes without saying. Indeed, it only really goes when it isn’t said. When we say it anyway, it sounds tautological and intrusive. “The world is really there.”  “I exist indeed.”  “The part is smaller than the whole.” “Men and women are delightfully different.” However, if we take a further step and try to ‘prove’ it, something unhinges in our mind. The very attempt to prove the obvious befuddles our consciousness, for by advancing arguments we are giving the lie to the mind’s confident and immediate grasp of self-evident truths.  By using tools of inference instead of accepting the immediacy of intuition, that very intuition begins to fade and fall under siege. It’s like what happens to the easy and automatic process of breathing if you start focusing on it instead of just doing it—it becomes onerous; or what happens if you repeat a familiar word dozens of times, out of context—it begins to sound foreign.  So it is with self-evident truisms. Humble acceptance roots them in our minds, ‘proving’ them tosses them to the wind.

Nonetheless, at times we have to take stock of them, and be wary of undeserving intruders, which are indeed in need of discussion, but pretend to be obvious. It is often the case that two people locked in an argumentative impasse disagree more on what they each hold to be self-evident, and thus unmentioned, than on the issues discussed. Since I teach medieval philosophy, I have to begin each course demonstrating to the students that it is not obvious at all that ‘medieval’ is equivalent to ‘backwards’ and ‘superstitious’. It is a false truism. But the same students must be disabused of the converse problem: they love to hear doubts about the validity of first principles, or the reality of the objective cosmos. The times are indeed out of joint, as Hamlet lamented. Those first principles—commandeered by the granddaddy of them all, the ‘principle of non-contradiction’—bear the badge of authenticity thus: they cannot be denied without presupposing them. Standing on them, we can walk the walk of reason in freedom and light; doubting them, even reason becomes an empty game of possible and impossible worlds, but never the real one. There are very few of them, but they are both adamantine in strength, and diamond-like in value.  Losing their evidence leads quickly to losing one’s mind.

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