A escolha que prende

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Na figura, vê-se meu pai, querendo saber o porquê de seu filho mais velho estar tirando uma foto da ala de cereais matinais do supermercado. Já vi alas mais longas do que essa, mas esta serve para documentar um dos casos mais comuns em nossa cultura de exagerada ‘liberdade de escolha’. Eu poderia ter escolhido sabores de refrigerantes, modelos de automóveis, estilos de camisetas, ou até temas de website. Sobre este último: se a WordPress tivesse me permitido escolher entre três ou quatro temas para construir a minha página na Internet, eu teria prontamente escolhido o mais simples para usá-lo em meu blog. Na realidade, tive de navegar por quase 200 temas diferentes, ponderar seus méritos comparativos, e passar quase uma hora afunilando-os até finalmente escolher um deles (mesmo assim, o gostinho da vitória me foi tirado – e continua sendo –, ao pensar que talvez fosse melhor, no final das contas, um tema diferente do que escolhi). Mas pelo menos eu era livre para escolher! Ou será que não?

Muitos terão ouvido da famosa conferência dos anos 1950 do filósofo Isaiah Berlin sobre os ‘dois conceitos de liberdade’, na qual ele enfatiza as duas maneiras de se falar sobre a liberdade, que se tornaram bem conhecidas desde então: uma, a liberdade de; a outra, a liberdade para. Ainda vale a pena lê-la e a distinção é importante. Mas, muito mais importante é outra distinção que logo perdemos de vista quando estamos preocupados em escolher entre Mini-Wheats e Froot-Loops. Trata-se da distinção entre o entendimento clássico e medieval de liberdade – o progressivo desdobrar de nossas faculdades naturais sob a orientação da razão, e a optimização dada pela virtude –, por um lado, e a noção moderna, atualmente vigente, da liberdade como a capacidade de escolher, escolher, e escolher de novo – a ideia de um indivíduo autônomo, indeterminado, monádico, capaz de apreender um espectro potencialmente infinito de opções e selecionar a mais desejada. O ideal tradicional foi mais bem figurado por Dante. Ele o vê como um homem subindo para cima e para longe da falsa ‘liberdade’ representada por Satan no coração comprimido do inferno, imobilizado na frieza de sua escolha de si mesmo ao invés da realidade. A verdadeira liberdade move-se para cima, através das provações da purificação, e se abre como uma flor para um céu sempre crescente de ar e luz. O poder das virtudes abre, expande e flexibiliza as faculdades aperfeiçoadas, impelindo-as a um estado de pleno desdobramento.

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Em contraste, o ícone moderno da liberdade individualista é o maníaco por controle cognitivo: o Fausto, que está dolorosa e obsessivamente focado em escolher o domínio do conhecimento sobre todo o resto. O mantra aqui é o seguinte: conhecimento é poder, poder sobre a natureza, sobre o tempo, e finalmente sobre a própria realidade. Isso ele comprou ao preço da mesma alma que Dante queria levar rumo à beatitude celeste. Ao invés disso, a mente e o coração de Fausto estão espremidos em um solitário e doloroso ponto, ao mirar – com olhar cobiçoso – os segredos esotéricos que prometem luz, mas que somente oferecem o negrume gélido de um vazio.

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A emancipação da versão moderna miniaturizada da liberdade (com seus espasmos infrenes de escolha, em uma convulsão viciante de arbitrariedade), e para a liberdade que provém de uma reconquista da noção incomparavelmente mais profunda e ampla da tradição pré-moderna, trazer-nos-á a liberdade para sermos (em ato) tudo o que somos (em potência). Essa verdadeira liberdade só pode ocorrer quando crescermos nas virtudes da prudência, temperança, fortaleza e justiça (e para os sobrenaturalmente valentes: fé, esperança e caridade) –, ao invés de surfarmos desajeitadamente por menus intermináveis de opções e sub-opções, à procura de um fugidio cereal para o desjejum, ou do último I-Phone, que promete, à maneira de um charlatão, levar-nos à “paz que ultrapassa todo o entendimento”.

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Choice as Bondage

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In the picture you see my father, wondering why his oldest son is taking a snapshot of a supermarket row of breakfast cereals. I’ve seen longer rows than this, but this one serves to document one of contemporary culture’s most familiar cases of overblown ‘freedom of choice’. I might have used flavors of soft drink, models of automobile, styles of T-shirt, or even themes of website to make my point. About this last: if WordPress had offered me a choice of three or four themes to frame my site in, I would have promptly chosen the simplest one and gotten on with my blogging. As it was, I had to surf through nearly 200 different themes, weigh their comparative merits, and spend almost an hour narrowing it down to the one I finally chose (even then, the sap was sucked out of my victory as I continued – and continue – to wonder if I should have chosen another theme that might have been even better). But at least I was free to choose!  Or was I?

Many will have heard of a famous 1950s lecture by the philosopher Isaiah Berlin on ‘two concepts of liberty’ in which he highlights two ways of speaking of freedom which have become well-known ever since: one, freedom from; the other, freedom for. It is still worth reading and the distinction is important. But far more important is another distinction which is promptly lost from view as we fret over choosing between Mini-Wheats and Froot-Loops. It is the distinction between the classical, medieval understanding of freedom as the progressive unfolding of our natural faculties under the guidance of reason and the optimization provided by virtue, and the reigning modern notion of freedom as the ability to choose, and then to choose again, and then again — the idea of an autonomous, undetermined, monadic individual entitled to survey a potentially infinite spectrum of options and select the one most coveted. The traditional ideal is best imaged by Dante. He sees it as a man ascending aloft and away from the thick suffocation of the bogus ‘freedom’ represented as Satan at the compressed heart of hell, immobilized in the ice of his own choice of self over reality. True freedom moves upwards through the ordeals of purification, and opens like a flower to an ever-expanding sky of air and light. The power of the virtues opens, expands and flexes the faculties they perfect, carrying them to a state of full deployment.

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In contrast, the modern icon of individualistic liberty is the cognitive control-freak Faust, focused painfully, and obsessively, on choosing the mastery of knowledge over all else. The mantra here is:  knowledge is power, power over nature, over time, and finally over reality. This he purchased at the price of that very soul which Dante would lead heavenwards to bliss. Faust’s mind and heart instead are squeezed to one lone and painful point as he squints at the esoteric secrets that promised light, but only delivered the cold black of the void.

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Emancipation from this miniaturized modern version of freedom (with its endless spasms of choice in an addictive fit of arbitrariness), and freedom for a reconquest of the incomparably deeper and broader traditional notion, brings freedom to be (in actuality) all that we are (in potency). Such true freedom can only come to pass when we grow in the powerful virtues of prudence, temperance, fortitude and justice (and for the supernaturally valiant: faith, hope and charity). Otherwise, we will continue surfing cumbersomely up and down endless menus of options and sub-options, in pursuit of some elusive breakfast cereal, or the latest I-Phone, that promises – like a con-man – to transport us to the peace which passeth all understanding.

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