Amor e união – sinônimos?

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Foi há 34 anos que passei duas horas conversando em Kalady, Índia, com esse monge da Missão Ramakrishna. Eu havia estado doente por seis semanas antes desse encontro, de modo que estava mais magro e pálido que o usual. O monge era amável e muito disposto a conversar. Então, durante o chá, discutimos os méritos comparativos das espiritualidades hindu e cristã. Como era de se esperar, eu enfatizei a centralidade do amor na visão cristã de Deus e do homem. Jamais esquecerei o quão energicamente meu anfitrião hindu se animou e, com aquele característico balançar de cabeça e gesto de mão (que só os indianos sabem fazer), retrucou: “…mas o que é amor? Amor é união, é só isso. Amor é união.” Não me lembro como lhe respondi naquela ocasião – meu cérebro ainda estava nadando em antibióticos –, mas as palavras do monge têm ressoado em minha mente quase todos os dias desde aquela tarde quente no sul da Índia. Eu sabia que ele estava errado. Tomás de Aquino ensina – é verdade – que a união de naturezas é uma causa do amor; a união de vontades, de certa forma a essência do amor; e a união no ser, um efeito do amor. Então, a união está, sem dúvida, um ingrediente essencial do amor. Mas aquelas belas distinções pressupõem algo que estava totalmente ausente na análise de meu interlocutor: a noção de pessoa.

O problema não era apenas o fato de a observação dele ter sido muito genérica, como se tivesse dito “diamantes são apenas pedras”, ou “caviar é apenas comida”, despercebendo assim uma especificidade crucial do amor enquanto união. Pois pessoas não são tão-somente espécies de um gênero, ou exemplos de um tipo; elas são únicas e irrepetíveis. A singularidade ‘dura’ evidenciada pela pessoalidade – tornando não apenas cada homem ou cada anjo, mas até mesmo Deus, enquanto seres, inalienavelmente individuais – faz do amor um ato de vontade que une duas subjetividades distintas e ontologicamente densas. E o amor produz, segundo Mestre Eckhardt, uma fusão sim, mas de forma nenhuma uma confusão (fusus non confusus). É comunhão mais que união; abraço e não fundição; ‘eu’ e ‘tu’ como ‘nós’ e não um amorfo ‘Uno’; “O Senhor esteja convosco”…e não a ‘Força’. Aliás, o amor é justamente a afirmação de uma distinção sem separação. Para mim, desejar o seu bem – sendo o “querer o bem ao outro” a própria definição do amor – é querer que você continue a existir, e que seja cada vez mais plenamente quem é, e o quê é. O amor afirma e celebra a existência individual.

Se fôssemos além das visões psicologizantes modernas acerca da personalidade e revisitássemos as análises patrísticas e escolásticas da tradição medieval em toda a sua profundidade metafísica, quem sabe encontraríamos uma linguagem comum entre as visões hindu e cristã do amor na melhor metafísica indiana. Eu, por mim, estou convencido que é possível, mas não por comparações superficiais – e nivelamentos conceituais – entre Oeste e Leste, e sim por penetração no pensamento mais profundo sobre o ser pessoal no Ocidente, e na reflexão mais madura do Oriente sobre o Self.

Outra lista de amores

C.S. Lewis escreveu um instigante livro intitulado The Four Loves (Os Quatro Amores), em que se apresenta uma clara taxonomia do amor, de acordo com suas variedades: a afeição familiar, o amor erótico, a amizade e a caridade (amor a Deus e por Deus). Eu gostaria que todos lessem o livro (apesar de sugerir suplementar a quarta parte deste com o livro On Love, de Joseph Pieper). Contudo, há outra maneira de listar os amores que complementam os de Lewis, sendo isso um bom antídoto à nossa tendência de sentimentalizar o assunto. A outra lista sugere que classifiquemos o amor segundo os seus usos bíblicos e, curiosamente, aqui encontramos de novo, precisamente, quatro amores.

Os quatro são os seguintes: 1) o amor de Deus; 2) o amor de si; 3) o amor ao próximo; e 4) o amor aos inimigos. O segundo é de costume subsumido obliquamente no terceiro (‘ama o teu próximo como a ti mesmo’), mas aquele não é, de modo algum, menos importante do que este, sendo que o desprezo ao amor de si produz uma versão aberrante de altruísmo. Na lista de Lewis, os primeiros três amores são – segundo a visão cristã do mundo – ao final elevados a uma ordem superior pelo quarto amor, o próprio Cristo se tornando nosso irmão, nosso esposo e nosso amigo, infundindo os amores naturais com a graça sobrenatural. A caridade batiza e transfigura os outros amores, mas sem os desnaturar, tampouco sem lhes negar suas dignidades mundanas. Na segunda lista, proporei que uma alquimia análoga está em ação, e que os amores a Deus, a si próprio e ao próximo também são elevados a uma ordem superior de amor, ainda que uma ordem meio improvável: o amor aos inimigos. Funciona mais ou menos assim: ao empreender sua longa jornada ao centro de nosso ser – onde, segundo Thomas Merton, Deus está sempre nos criando (e, com a permissão do ego, nos transformando) –, nosso ego imperioso se acha numa guerra tríplice com: 1) o próprio Deus; 2) com o seu eu superior; e 3) com quem quer que esteja por perto (nossos inevitáveis vizinhos).

As Escrituras nos dizem que o temor de Deus é o princípio da sabedoria. O próprio nome do patriarca fundador do Antigo Testamento, Israel, significa ‘luta com Deus’, e quase toda grande figura bíblica luta com a vontade divina, até resistindo a ela. Mesmo Jesus lutou com a vontade do Pai no Jardim das Oliveiras. E, certa vez, Santa Teresa de Ávila piamente reclamou de Deus, dizendo saber por que Ele tinha tão poucos amigos, já que os tratava do jeito que Ele a tratava.

E quanto a nós, é um lugar-comum que podemos ser nossos piores inimigos. O campo de batalha do coração humano é talvez o cenário das lutas mais brutais dos conflitos humanos. Contudo, é quando estamos com nossos queridos próximos, que se dá o verdadeiro teste do amor, pois, como lemos em Jo. 4, se você não ama o seu vizinho, a quem pode ver, como amará a Deus, a quem não pode ver? Alguns chegaram a sugerir que somos obrigados a amar tanto o próximo quanto o inimigo porque, com muita frequência, eles são a mesma pessoa. Mas, eu creio que a questão é mais profunda do que simplesmente o fato de que o cara que mora ao lado pode às vezes ser um babaca.

A verdade é que estamos constantemente, e providencialmente, cercados de inimigos, até que atinjamos a beatitude. Nossa pequena cintilação tremulante de consciência, em sua longa jornada à scintilla animae (a centelha da alma; anima animae, alma da alma; apex animae, ápice da alma – ou como quer que os místicos apelidem aquele pináculo de nosso ser), estará engajada em três frentes de combates diferentes contra aqueles três adversários um pouco disfarçados: o próprio Deus, que criou a alma e a encarregou de uma dura ascensão vertical, bem além de nossa ‘zona de conforto’; a nobreza soberana daquele cume da alma – olhando para baixo à nossa pequenez, do alto de sua altivez alpina; e finalmente – e mais visivelmente – aquelas pessoas próximas e os inimigos que vêm até nós, sem convite, a partir do mundo à nossa volta. Portanto, o amor aos inimigos não se mostra apenas rezando uma Ave Maria para os matadores em série ou os ateus militantes, mas esse amor é, por sua vez, a dimensão mais profunda e estranhamente desafiadora do amor cristão. Amar ao inimigo é amar o Deus amedrontador, que nos deixa tentar e nos humilha; é amar a voz da consciência do nosso self superior, que nos pressiona, sem parar, a alcançar os píncaros mais elevados da virtude; e, por fim, é amar as pessoas à nossa volta que rotineiramente se recusam a dançar conforme a nossa música. Esses inimigos podem fazer o nosso amor mais ousado e robusto, e, por fim, se mostrarão ser nossos melhores amigos.

Another List of Loves

C.S. Lewis penned an insightful book entitled The Four Loves, offering a clear taxonomy of love according to its varieties as family affection, erotic love, friendship, and charity (love of and for the sake of God). I wish everyone would read the book (although I would suggest supplementing the fourth part with Josef Pieper’s book On Love). However, there is another way of listing loves which complements Lewis’, and is a good antidote to our tendency to sentimentalize the matter. The other list suggests we classify love according to its biblical usages, and, curiously, we will find precisely four loves once again.

The four are as follows: 1) love of God; 2) love of self; 3) love of neighbour; and 4) love of enemy. The second is usually subsumed obliquely under the third (‘love your neighbour as yourself’), but is no less crucial, and leaving it out produces an aberrant version of altruism. In the other list, the first three loves are finally – in the Christian scheme of things – lifted into a higher order by the fourth love, Christ himself becoming our brother, our spouse and our friend, infusing the natural loves with supernatural grace. Charity baptizes and transfigures the other loves, but without denaturing them, or negating their mundane dignities. In the second list, I shall propose that an analogous alchemy is at work, and that love of God, self and neighbour are also lifted into a higher order of love, but an unlikely one: the love of enemy. It works something like this: as our imperious ego undertakes its lifelong pilgrimage to the center of our being, where – as Thomas Merton claimed –  God is forever creating us (and, ego-permitting, transforming us), it finds itself in a triple warfare with 1) God himself, 2) with its own higher self and 3) with whoever happens to be around (our unavoidable neighbours).

Scripture tells us the fear of God is the beginning of wisdom. The very name of the founding patriarch of the Old Testament, Israel, means ‘struggle with God’, and nearly every great Biblical figure contends with the divine will, even resisting it. Jesus himself wrestled with the Father’s will in the Garden. And St Therese of Avila once piously complained that she knows why God has so few friends if he treats them the way he treats her.

And as for ourselves, it is a commonplace that we can be our own worst enemies. The battlefield of the human heart is perhaps the scene of the most brutal exchanges known to human conflict. Still, it is when we come to our beloved neighbors that the true test of love arises, for, as we read in John 4, if you cannot love your neighbor whom you can see, how can you love God whom you cannot see? Some have even suggested that perhaps we are commanded to love both neighbor and enemy because, often enough, they are the same person. But I think the matter lies deeper than just the fact that the guy next door can occasionally be a jerk.

The truth is that we are constantly, and providentially, surrounded by enemies until we attain beatitude. Our inconstant little flicker of consciousness, in its lifelong journey to the scintilla animae (the spark of the soul; anima animae, soul of the soul; apex animae, summit of the soul – or however the mystics may name that pinnacle of our being), will be embattled on three different fronts by those three somewhat disguised adversaries: by God himself, who created the soul and commissioned it with a severe vertical climb, quite outside our created comfort zone; by the very sovereign nobility of that summit of our soul – glaring at our pettiness from its alpine heights; and finally – and most visibly – by those neighbors and enemies who come at us, unbidden, from the world around us. Thus, love of enemy shows itself not only in saying a Hail Mary for serial killers or the village atheist, but is rather the deeper, and weirdly challenging dimension of all Christian love. Love of enemy is to love the fearsome God who tries us and humiliates us; to love the pestering voice of our higher self’s conscience, as it relentlessly presses us on to more trying reaches of virtue; and to love the people around us who routinely refuse to dance to our music. These enemies can make our love adventurous and robust, and will prove at last to be the best of friends.

Love and Union – synonyms?

Kalady1983 002

It was 34 years ago that I spent two hours conversing in Kalady, India, with this monk of the Ramakrishna Mission. I had been terribly sick for six weeks before this meeting, so I was a bit thinner and paler than usual. The monk was gracious and eager to chat, so over tea we discussed the comparative merits of Hindu and Christian spirituality. Predictably, I pointed out the centrality of love in the Christian view of God and man. I will never forget how briskly my Hindu host perked up and, with that characteristic bobble of the head and gesture of the hand that only Indians seem to manage, retorted: “…but what is love?  Love is union, that is all. Love is union.” I can’t recall now how I responded then – my brain was still swimming in antibiotics – but that retort has resounded in my mind almost daily since that hot afternoon in southern India. I knew he was wrong. Aquinas taught – it is true – that union in nature is a cause of love, union of wills of the essence of love and union in being an effect of love. Union is definitely in the picture. But those nice distinctions presuppose something which was missing in my interlocutor’s analysis: the notion of person.
The problem wasn’t only that he was being too generic, as if he had said “diamonds are just rocks” or “caviar is just food”, and missed an all-important difference in the kind of union love is. For persons are not just species of a genus, or examples of a type; they are unique and unrepeatable. The ‘hard’ singularity that personhood bespeaks – making not only each man and each angel, but even God, utterly individual – makes love an act of will uniting two very distinct and ontologically dense subjectivities. And love produces indeed a fusion, according to Meister Eckhardt, but not a confusion (fusus non confusus). Communion more than union, an embrace and not a dissolution, an ‘I’ and ‘thou’ as ‘we’ and not a great amorphous ‘One’, a “the Lord be with you”, and not the Force. Moreover, love is an affirmation precisely of that individual distinction without separation. For me to will your good – willing the good of the other being the very definition of love – is to want you to continue to exist and to be ever more fully who and what you are. If we can get beyond modern psychological views of personality and recapture the profundity of patristic and scholastic analyses, perhaps  common ground can be found in the best of Indian metaphysics. I, for one, am convinced that it is possible, but not through superficial comparisons – and attempted equivalences – between East and West, but through accessing the West’s deepest thought on personhood and the East’s most mature reflection on Selfhood.