Fatos nus

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A modéstia, tal como a entendo, é uma forma de respeito que mostramos às outras pessoas, ao agirmos e nos vestirmos visando suas faculdades mais elevadas, e não despertando sua carnalidade contra a vontade. Obviamente, o que excita em uma cultura pode não fazê-lo em outra; e, numa cultura, o que excita uma pessoa pode não excitar outra. Mas, há limites em relação a isso, como poderia ser o caso de uma pessoa que, mesmo modestamente vestida, desperte o desejo. Mas, quando se olha para as mulheres estufadas dos tempos vitorianos, e também para os homens todo-abotoados, e vemos fotos deles nadando quase totalmente vestidos, percebe-se que isso não é mais modéstia, mas uma perversa aliança entre o puritanismo e a indústria da moda. E, claro, isso sequer dá resultado! Sigmund Freud arrancou as camadas tanto dos vestidos vitorianos quanto dos ardis inconscientes, ao por a nu os segredos sexuais daquela época.

Lembro-me certa vez de estar em algum lugar do mundo, segurando meu traje de banho, querendo pular na piscina, mas não podendo fazê-lo porque não encontrava um lugar para me trocar. Na Alemanha, e na maioria dos países eslavos, eu teria apenas de dar as costas para a multidão e me trocar, pronto! Vi isso muitas vezes naqueles países, onde muitos mostram seus traseiros nus por um segundo, enquanto mudam de roupa rapidamente, mas sem neurose. Nos EUA, isso poderia dar cadeia! Acho que os alemães são mais naturais quanto a isso, e todos nós faríamos bem em relaxar no tocante a esse assunto. Para o bem ou para o mal, nós somos hoje pesadamente esclarecidos acerca de nossos corpos e do sexo. Teremos que tirar o melhor partido do assunto. Mas há uma outra dimensão nisso tudo.

Certa vez, estava eu viajando no assento da frente de um pequeno ônibus, no caminho entre Damasco e Palmira, na Síria. Cruzei minhas pernas, de modo que a sola de um de meus sapatos estava ligeiramente voltada para o motorista. Um passageiro muçulmano deu um tapinha em meu joelho, apontou com seu dedo primeiro para a sola e depois para meu rosto, não de forma rude, mas com insistência. Meu sapato não era exatamente imodesto, mas estava no mesmo espírito – expondo a alguém as partes ‘menos nobres’ de nosso corpo, neste caso, a sujeira de nossos pés. Isso é particularmente típico do Oriente Médio, como nos lembra bem a prática bíblica de lavar os pés. É estranho dizer, mas eu me sintonizei instantaneamente com essa prática, e desde então tenho evitado voltar a sola de meus pés na direção de uma pessoa.

Essa anedota remete-nos ao outro lado da modéstia: que nós não apenas cobrimos partes de nós que poderiam indevidamente despertar as paixões de outra pessoa, mas também porque são desagradáveis à vista, até mesmo feias. Como regra, a maioria de nós é pouco atraente, até mesmo assustador, quando pelada. Cobrimos nossa nudez na maior parte do tempo não para impedir que o sexo oposto diga “Ooh la la!”, mas para evitar que alguém diga “Eca!”.  É claro que existe aqui também uma questão de higiene e de odor. Os naturistas, é claro, proclamarão que seus corpos descaradamente nus e bem ventilados não têm o problema do mau cheiro advindo das coisas enroladas em camadas e mais camadas de roupas. Pode ser, mas cabe dizer que o ser humano é a única espécie de animal que por natureza se veste; para nós é natural ser vestido. Aliás, a maioria dos climas da Terra não recomenda ostentar nossa pele nua, como se fosse um casaco de pelos ou de penas. E, novamente, assim como a maioria de nós não se deliciaria com a visão do interior de nossas bocas e narizes, nós da mesma forma preferimos que as várias intersecções funcionais de nossos corpos, bem como o seu aparato nutritivo e higiênico, estejam ocultas à vista. Marcel Marceau estava certo: nossas faces e mãos possuem tudo o que é preciso para nos comunicarmos perfeitamente. Elas têm todos os cinco sentidos e o resto do corpo é apenas como um elenco secundário. Este pode passar a maior parte do tempo fora da câmera sem afetar o enredo.