Leste e Oeste de Canaan

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Abraão não cresceu como um broto na Terra Santa – ele foi chamado para lá a partir do leste, de Ur dos caldeus, no atual sul do Iraque. Ele deu início ao espetáculo mais contraintuitivo na história dos assentamentos humanos: a população da terra dos judeus. O segundo megastar na história bíblica é Moisés, sendo ele tampouco nascido em Canaan, mas desta vez no oeste, nas terras do Nilo. Quando o Povo Escolhido finalmente prevalece e se fixa na região que lhe fora destinada, isto não ocorre muito antes que a maioria de seus membros fosse exilada para a Babilônia. E, mesmo depois disso, eles serão expulsos de casa por ondas de perseguição, ou por seus próprios equívocos. A palavra que seria tida por sinônimo de suas andanças posteriores, a ‘diáspora’, diz tudo. Para lá e para cá, leste e oeste, e agora por todo o mundo, o povo do Antigo Testamento realmente vive na terra designada por Deus por um relativamente curto período de sua história. Até hoje, menos da metade dos judeus vive em Israel, e a maioria deles é de judeus culturais, não religiosos.

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Pois bem, o Nascimento de Cristo, da mesma forma, vem acompanhado por movimentos a leste e oeste. Ele mal havia deixado o útero, quando sua família teve de fugir para oeste, para o Egito, mas o perigo foi trazido por alguém vindo do leste. Três misteriosos magos fazem uma rápida aparição na estória da Natividade, ocasião do Massacre dos Inocentes, e se retiram, mas só após deixarem uma marca tão profunda e um mistério tão persistente na estória como os do velho Melquisedeque; como este, não sabemos ao certo de onde os magos vieram, o que significam para a estória, e para onde eles foram após a sua breve aparição. Mas, como Melquisedeque, um aparente ‘outsider’, que abençoa o grande fundador Abraão,img_0518

e como o libertador Moisés que absorve a sabedoria do Egito, os Sábios visitarão e tocarão o mistério da Encarnação muito antes dos irmãos judeus de Cristo. A história de Cristo exige que se preste muita atenção aos mundos do oeste e do leste de sua conturbada terra natal – especificamente, o Egito e a Mesopotâmia, e para além desta, a Pérsia, a Índia e a China. É fácil esquecer o quão profundamente o Cristianismo expandiu-se para o leste, falando Siríaco, Persa, línguas da Índia e até da China, muito antes de se estabelecer com fé na Europa. Essa mesma Europa em que hoje em dia o Cristianismo parece estar morrendo. Na África e nas Américas, está avançando. Mas a necessidade atual de entender as tradições orientais, aquelas da Índia, China e Oriente Médio, não vem apenas de um modismo universalista em nosso mundo globalizado; essa necessidade emerge insistentemente da geografia das narrativas da Escritura.

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East and West of Canaan

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Abraham did not grow like a seedling in the Holy Land–he was called there from the east, from Ur of the Chaldees, in today’s southern Iraq. He inaugurated that most counter-intuitive spectacle in homesteading history: the population of the Jewish homeland. The second megastar in the Biblical story is Moses, but he too was not born in pyramids-egypt-2134Canaan, but this time in the west, in the land of the Nile. When the Chosen People finally prevail and settle in their destined real estate, it’s not long before most of them are hauled off to Babylon. And later on, they will be driven from home by waves of persecution, or their own misjudgments.

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The byword for their later wanderings, the ‘diaspora’, says it all. Back and forth, east and west, and now all over the world, the Old Testament people actually live in their divinely appointed home for a mere fraction of their history. Even today, less than half the world’s Jews live in Israel, and most of them are only cultural, not religious Jews.

Now the Birth of Christ is likewise flanked by movements east and west. He has hardly left the womb when his family has to flee west to Egypt, but the danger is brought on by someone from the east. Three mysterious magi make a quick cameo in the Nativity story, occasion the bloodbath of the Holy Innocents, retreat, but only after leaving as deep a mark and as abiding a mystery in the story as had old Melchisedek; like him, we are not totally certain where they came from, what they mean for the story, or whither they disappear after their brief appearance. But as Melchisedek, an apparent ‘outsider’, blesses the great founder Abraham,img_0518

and the liberator Moses absorbs the wisdom of Egypt, the Wise Men will visit and touch the mystery of the Incarnation long before Christ’s Jewish brethren. The story of Christ demands that one pay close attention to the worlds west and east of his troubled homeland—specifically, Egypt and Mesopotamia, and beyond this last, Persia, India and China. It is easy to forget how deeply Christianity first penetrated eastward, speaking Syriac, Persian and tongues of India and even China, long before it became the established faith of Europe. That Europe is now in retreat from Christianity. Africa and the Americas are advancing. But the call today to understand the Eastern traditions, those of India and China as well as the Middle East, is not a mere universalist fancy of our globalized world; it emerges insistently from the geography of the Scriptural narrative.

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