O que a Filosofia não é – e o que ela é

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Nenhuma outra área do conhecimento, além da Filosofia, sofre tanta controvérsia acerca do que é exatamente. As ciências naturais e (mais ainda) as sociais podem abrigar ambiguidades em seus métodos e nos pormenores de sua análise, mas normalmente há poucas disputas sérias acerca do que se estuda nessas ciências. Com a Filosofia não é assim. Pergunte a três filósofos o que eles investigam como filósofos, e você obterá três respostas tão diferentes – de fato, uma delas pode muito bem afirmar que a Filosofia nem existe mais! –, que o leigo poderá questionar-se por que uma universidade financiaria um departamento onde impera tamanha confusão. Um modo de colocarmos nosso pensamento em ordem neste assunto é abordando-o negativamente. Ou seja, o que não é Filosofia?  Talvez aqui achemos algum consenso.

Eu afirmarei com confiança que existem cinco coisas que a Filosofia não é, de acordo com os seguintes critérios: modo de exposição, amplitude da temática, método de discurso, faculdade humana empregada, e propósito. Usando esses critérios, defenderei que a Filosofia não é sabedoria proverbial, não é uma ciência no sentido moderno, não é mitologia, não é uma das belas artes, e não é religião.

  1. As etimologias não regulam inteiramente o significado dos vocábulos, mas, no caso da Filosofia, alguma semelhança com a ‘adorável e amável’ sabedoria [Φιλοσοφία, literalmente “amor pela sabedoria”] deve ser localizada em seus frutos para que a palavra mantenha o mínimo do seu significado original. Provérbios (aforismos, ditados, máximas, etc.) são tipicamente repletos de uma sabedoria que vem como que embalada num pequeno pacote. Pode ser, porém, que é justamente a brevidade que amemos, enquanto a Filosofia é conhecida por tratar os assuntos de maneira extensa e articulada. Em sua maior parte, raramente é proverbial, mas decidamente – por vezes interminavelmente – discursiva.
  1. Notáveis tentativas para reduzir uma ciência moderna a outra (Química à Física, Biologia à Química, por exemplo) têm sido também notáveis fracassos. A maioria das triunfantes ciências de hoje prende-se admiravelmente ao seu chão, mas o faz apenas erigindo barreiras e destacando os limites entre os objetos de cada uma. Em contraste, as filosofias, independentemente da faixa a que pertençam, sempre aspiraram a uma espécie de visão sinótica, seja pela mediação com outras áreas do conhecimento, seja por transcendê-las completamente. Tal generalidade pode ser cognitivamente ambiciosa (Plotino, Hegel), ou bem modesta (Kant, Wittgenstein), mas há sempre uma busca de abrangência nas empreitadas filosóficas. Sem querer saber tudo sobre algo (como nas ciências), o filósofo deseja saber algo (ainda que modesto) sobre tudo. A Filosofia procura ser, em algum sentido robusto, universal.
  1. Contudo, já existe um discurso que com frequência lida com a sabedoria e com questões de abrangência universal, e que tipicamente – seja em termos históricos ou em termos pedagógicos – antecede à Filosofia. Trata-se da mitologia. Apesar de filosofias e mitologias correrem, muitas vezes, paralelamente, podendo até encontrarem-se inseparáveis em muitos discursos humanos, elas são, típica e famosamente, distintas. A distinção está no método discursivo. Mitos são narrados (ou contados); a Filosofia é raciocinada (ou argumentada).
  1. Pode-se suspeitar que a procura da sabedoria e a visão abrangente necessitam mais do que mitos e argumentos, e que por isso é preciso voltar-se aos horizontes abertos das artes. Música, drama, literatura, pintura, arquitetura, dança, e hoje em dia o cinema, parecem prometer mais envergadura temática e mais profundidade metafísica do que os tratados de Aristóteles ou de Heidegger, ou os diálogos de Platão ou de Hume. Mas, também aqui, ainda que muitas vezes inseparável das artes, a Filosofia tem se mantido distinta delas. Isto se dá em virtude daquilo que as artes exercitam em nossa composição humana: acima de tudo, nossos sentidos, emoções e imaginação, e apenas de modo auxiliar o nosso intelecto. A Filosofia é exatamente o contrário. A faculdade humana que está em primeiro plano aqui é a nossa mente ponderante, tanto no modo intuitivo quanto inferencial. A Filosofia não é, em seu sentido primeiro e mais importante, uma atividade sensorial, e sim mental ou, numa terminologia mais tradicional, intelectual.
  1. Mas, para que tudo isso? O fim e o propósito da Filosofia podem parecer bastante exaltados às vezes, e alguns de seus praticantes não escaparam de confundi-la com a religião (os pitagóricos, alguns neoplatônicos, a bizarra religião filosofica de Comte, o DIAMAT soviético, vêm à mente). O Budismo, muitas vezes mencionado como uma religião, é considerado por outros, com boas razões, uma filosofia. Portanto, há ambiguidades aqui. Mas, em geral, a religião coloca o objetivo da transformação pessoal no centro do palco, e sem isso nem existiria. A Filosofia pode de fato fornecer insights que, no final das contas, resultarão numa metamorfose pessoal. Não obstante os recentes apologistas da Filosofia como ‘modo de vida’, ou até de espiritualidade (Hadot e companhia), a maioria dos filósofos identificou o seu objetivo menos como uma transformação existencial, e mais como um tipo de conhecimento, ou como um particular hábito de pensamento. O propósito da Filosofia é considerado, por natureza, cognitivo.

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Os limites negativos que delineei em cima já nos levaram a alguns resultados positivos, na medida em que múltiplos contrastes de algo com aquilo que não é,  já lhe traçam um esboço que sugere conteúdo: assim, vimos que a Filosofia é discursiva, tem aspirações universais, é de alguma forma argumentativa no seu método, é distintamente intelectual em sua operação e se propõe a atingir um tipo de conhecimento. Aqui, eu ousarei pôr o meu dedo em sua essência fugidia. Jamais ouvi falar disso antes – conquanto provavelmente já tenha sido dito –, mas, quando me recordo de minhas décadas filosofando e observando o que os filósofos fizeram de melhor, não posso escapar à conclusão: ‘filosofia’ é alguma coisa nos filósofos, uma qualidade que ganhamos e que nos impele a desempenhar o ato filosófico. E esta coisa é:

o hábito intelectual adquirido de olhar para a realidade, e de ponderar sobre ela, com o intuito tenaz de descobrir seus princípios mais abrangentes e fundantes – na medida em que sejam conhecíveis – a respeito do cosmos, do ser humano e da transcendência. 

A ressalva inserida no parágrafo anterior permite-nos acolher, abaixo do guarda-chuva da definição, até mesmo os minimalistas cognitivos – dos céticos aos kantianos, até aos pós-modernistas –, pois estes também reivindicam um tipo de posicionamento abrangente e fundante em princípios, ao delimitarem e radicalmente relativarizarem as possibilidades de todo conhecimento.

Nós não nascemos filósofos (e, felizmente, poucos se o tornarão), mas a boa Filosofia, em minha visão, constrói-se sobre o conhecimento natural que todos possuímos pelo simples fato de sermos humanos. Esse conhecimento natural carrega, como seu segredo sagrado, a experiência de admiração (espanto, assombro, amaravilhamento, etc.). Nosso conhecimento é sempre circundado por desconhecimento. Como crianças, rapidamente descobrimos que viemos de algo (até de alguém); em outras palavras, descobrimos que somos ‘derivados’. Descobrimos também que estamos sempre a caminho, indo para um ou outro destino, seja ele só a próxima fase do nosso crescimento. Além disso, quando ainda em fraldas, verificamos, competente e convincentemente, que existe um mundo à nossa volta, o qual está muito além de nosso conhecimento e controle. Um pouco depois, mas ainda fazendo parte das nossas conquistas cognitivas juvenis, descobrimos que devemos fazer escolhas e que todo tipo de coisas boas ou más resultarão delas.

Todos nós vamos, em maior ou menor grau, empurrar nossas fronteiras para além desses horizontes imediatos. Por exemplo, além de nossa família nuclear podemos buscar as origens de nossos antepassados e explorar um pouco de genealogia; podemos investigar, além de nossos planos imediatos, sobre os objetivos futuros em relação a onde iremos depois de sair de casa, ou após a faculdade, ou após a aposentadoria (ou após a morte?). Da mesma forma, para além de nossa residência e vizinhança, podemos pensar em escalas mais amplas, localizando nossa cidade no estado, nosso estado em um país, nosso país em um continente, e talvez mesmo imaginar a posição de nosso planeta no sistema solar, e por aí vai. E também, por volta dos 20 anos, devemos ter suficiente comando sobre nossa liberdade para administrar nossas futuras escolhas com responsabilidade e com consciência crescente das consequências. Contudo, a grande maioria de nós vai deixar as pesquisas em escala mais modesta, e seguir em frente com a vida cotidiana, a vocação, o emprego, a família. Os devaneios de domingo à tarde ou os coquetéis que frequentamos podem nos proporcionar ocasiões para ocuparmos com as ‘grandes questões’, mas raramente vamos muito longe com a onerosa tarefa de desvelar os mistérios implicados por elas.

O que torna os filósofos diferentes (diferentes, não melhores) é que, em suas vidas, eles não podem deixar de prolongar seus questionamentos sobre origens, destinos, universos e liberdade, bem como são incuravelmente desafiados pelo verdadeiro, pelo bom e pelo belo. Essas questões amadurecerão na metafísica, cosmologia, antropologia filosófica, ética, filosofia política e estética, entre outras disciplinas (tudo isso monitorado pela lógica – aquela grande serviçal, mas mestre temível). Seus praticantes não descansarão enquanto não conseguirem pelo menos alguns novos raios de luz sobre causas mais primordiais, fins mais derradeiros, e ‘mundos’ mais transcendentes à nossa volta, e, finalmente, as fontes da liberdade que tanto nos assombram quanto nos provocam. Causas, consequências, contextos e consciência (no sentido moral e psicológico) não são apenas parâmetros de vida pragmática para os filósofos; são chamamentos para aventura intelectual. A verdade busca suas fundações; o bem, sua expansão; a beleza, sua perfeição. Meu filósofo ideal ouve a chamada, e se junta a essa busca.

What other philosophers say…

Here are about 20 minutes of a variety of English-speaking philosophers answering (or dodging) the question:  “What is philosophy?”  (courtesy of the website philosophybites.com). Most are surprised by the question, some refuse to reply, not a few just laugh, and others offer thoughtful, if controversial, attempts.  Of course, I like my answer better than most of these, but judge for yourselves:

 

What Philosophy is not – and what it is

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No other area of knowledge suffers so much controversy over what exactly it is as does philosophy. The natural and (even more) the social sciences may harbor ambiguities in their methods and details of analysis, but there tends to be little serious dispute as to what they are studying. Not so with philosophy.  Ask three philosophers what it is they look into as philosophers, and you may get three answers so diverse – in fact, one of them may very well affirm that philosophy no longer exists! – that the layperson may ask why any university would finance a department dedicated to such confusion. One way to clear our heads about this may be to approach the matter negatively. That is, what isn’t philosophy? Here perhaps we will find more consensus.

I will confidently claim that there are five things that philosophy is not, according to the following criteria: mode of exposition, range of subject matter, method of discourse, human faculty employed, and purpose. Using these criteria, I will maintain that philosophy is not proverbial wisdom, is not a modern science, is not mythology, is not one of the arts, and is not religion.

  1. Etymologies do not hold sway entirely over meaning, but in the case of philosophy, some semblance of lovable wisdom should be spotted in its fruits if the word is to hold its own. Proverbs are typically brimming with wisdom, and come packaged in bite-size phrases. It might, however, be the brevity that we love, whereas philosophy is known for treating matters at length.  In the main, philosophy is hardly proverbial, but quite (and ofttimes maddeningly) discursive.
  2. Notable attempts to reduce one modern science to another (chemistry to physics, biology to chemistry, for example), have usually been notable failures. Most of the triumphant sciences of today hold their ground admirably, but do so only by fencing it off and insisting on the limits of their objects. In contrast, philosophies, of whatever stripe, have always aspired to some kind of overarching vision, either by mediating between other areas of knowledge, or by transcending them altogether. Such generality may be cognitively ambitious (Plotinus, Hegel), or distinctly modest (Kant, Wittgenstein), but there is something all-embracing at work in its ambitions. Not aiming at knowing everything about something (as in the sciences), the philosopher wishes to know something (however modest) about everything. Philosophy wishes to be, in some robust sense, universal.
  3. Now there already exists a discourse that often deals with wisdom and issues of universal import, and it predates philosophy. It is called mythology. Although philosophies and mythologies often run parallel, and may even find themselves inseparable in many a human discourse, they are also typically – and famously – distinct. The distinction lies in the method of their discourse. Myths are narrated (or told); philosophy is reasoned (or argued).
  4. Some may suspect that pursuits of wisdom and overarching inquiry need more than myth and argument, and may turn for this to the open horizons of the arts.  Music, drama, literature, painting, architecture, dance, and today cinema, may appear to promise more topical expanse and metaphysical depth than treatises of Aristotle and Heidegger, or dialogues of Plato and Hume. But here again, although often inseparable from the arts, philosophy has typically remained distinct. This is because of what the arts exercise in our human makeup: our senses, emotions and imagination, and only in ancillary mode our thought. Philosophy is just the opposite. The human faculty in the foreground is our pondering mind, in both intuitive and inferential modes. Philosophy is not first and foremost a sensorial activity, but one that is mental, or, in more traditional terminology: intellectual.
  5. But what is it all for?  Philosophy’s end and purpose may seem quite exalted at times, and a few of its practitioners have not shied away from conflating it with religion (the Pythagoreans, some Neo-Platonists, the bizarre religio-philosophy of Comte come to mind). Buddhism, often called a religion, is considered by some a philosophy. So there are ambiguities here. But by and large, religions place the goal of personal transformation in the foreground, and without it would have no reason to be. Philosophy may indeed provide insights which ultimately consummate in such a metamorphosis, but often enough it will do so by dispatching its ‘graduates’ to a religion, and will see that new home as something quite distinct from rational cogitations. Despite recent apologists for philosophy as a ‘way of life’, or even a spirituality (Hadot and company), the majority of philosophers have identified their goal less as an existential transformation, and more as a kind of knowledge, or a distinctive habit of thought.  Its aim is seen to be, by its very nature, cognitive.

Not being any of these five things may mean, for some, that philosophy is nothing but vacuous speculation. In another post I will outline what I think it is, and why I think it is definitely still full of life and relevance, and in no danger of extinction.

* * *

The negative constraints outlined above have already led to some positive results, inasmuch as multiple contrasts of something with what it is not, already traces an outline suggesting content. Thus, now affirmatively stated: philosophy is discursive, favors universal aspirations, is in some way argumentative in method, distinctly intellectual in operation and aims at securing a kind of knowledge. Here I will dare to put my finger on its elusive essence. I’ve never heard this said before – although it probably has been  – but as I look back at my own decades of philosophizing, and observe what the best of philosophers seem to be doing, I cannot escape a conclusion:  ‘philosophy’ is something in philosophers, a quality we gain which impels us to perform the philosophical act.  And that something is:

the acquired intellectual habit of looking at and pondering reality with the tenacious inent of uncovering its most embracing and founding principles – to the extent that they are knowable – regarding the cosmos, human beings and transcendence. 

The qualifying clause I have inserted allows us to welcome beneath the definition’s umbrella even the cognitive minimalists – from Skeptics to Kantians to Post-Modernists – for they too lay claim to a kind of embracing and founding principial stance when they radically delimit and relativize the possibilities of all knowledge.

We are not born philosophers (and mercifully, few will ever become one), but good philosophy, in my view, nonetheless builds upon the natural knowledge we all possess simply by being human. That natural knowledge bears within itself, as its sacred secret, the experience of wonder. Our knowledge is always surrounded by unknowing. We quickly discover as children that we come from somewhere (and indeed someone) – in other words, that we are derivative; we also discover that we are always underway, going to some goal or other, be that nothing more than the next phase of our growth. Also, while still in diapers, we ascertain capably and convincingly that there is a world around us that is far beyond our ken and control. A bit later, but still very much a part of our childhood cognitive conquests, we find out that we have to make choices and that all sorts of good and bad things will result from them.

All of us will, to one extent or another, push these boundaries beyond their immediate horizons. For example, beyond our nuclear family we may pursue origins regarding our ancestors, and explore a bit of genealogy; we may wonder beyond our immediate plans about further goals as to where we will go after leaving home, or after college, or after retirement (or after death?). Likewise, beyond our residence and neighborhood we may establish wider context by localizing our city in a state, our state in a country, our country on a continent, and maybe even imagine our earth’s position in a solar system, and so on. And also, by 20 or so, we should attain sufficient command of our freedom to administer our future choices with accountability and growing awareness of consequences. However, the vast majority of us will leave it at that, and get on with our education, our vocation, our jobs and our families. Sunday afternoon reveries, or cocktail parties, may allow us to entertain some more ‘ultimate’ questions, but we rarely get very far with the long-winded business of unraveling the mysteries they imply.

What makes philosophers different (different, not better) is that, for the life of them, they cannot stop prolonging those queries about origins, destinies, universes and freedom and are teased incurably by the true, the good and the beautiful. These questions will mature into metaphysics, cosmology, philosophical anthropology, ethics, political philosophy and aesthetics, among other disciplines (all monitored by logic – that great servant but fearful master). Their practitioners find no rest until they have won at least a few more rays of light about yet more primordial causes, more ultimate ends, more transcendent ‘worlds’ around us and, finally, the source of that freedom that both haunts and taunts us. Causes, consequences, contexts and conscience are not just parameters of pragmatic living for the philosophers, they are summons to intellectual adventures. Truth seeks its foundation; goodness its expansion; beauty its perfection. My ideal philosopher is convinced of this, and joins in the quest.