Sobre o meticuloso ritual do Ano Novo

spiralclock-smaller

Até mesmo no meu amado Brasil, o país que adotei, onde a massiva e endêmica impontualidade grassa por onde quer que se olhe, quase todas as almas estarão acordadas, segundos antes da meia-noite de 31 de dezembro, com os olhos colados num relógio e escrupulosamente fazendo a contagem regressiva para o novo ano civil. O começo de celebrações religiosas, aulas e compromissos de todo tipo são perdidos por margens de até uma hora, mas o começo do novo ano secular é consagrado com uma precisão a toda prova. A diferença entre 23:59 de 31/12 e 00:01 de 01/01 é saudada como uma transfiguração mágica e arrebatadora, mas a diferença entre o Advento e o Natal sumiu totalmente; e a linha divisória entre a Quaresma e a Páscoa também se apagou. A difusão virulenta das festividades do Carnaval aqui no Brasil tem alguma relação com a Quaresma, é verdade, mas a Quarta-Feira de Cinzas com frequência escorrega (assim como o resto do ano litúrgico) dentro da longa sombra da Terça-Feira Gorda.

A razão para isso é simples. Quando a religião declina, a religiosidade permanece – apenas muda de endereço; quando não mais se acredita na transcendência, o mundo imanente torna-se o apoio vacilante do culto e da adoração. Nós esbanjamos o simples momento da mudança quantitativa de um 2016 para um 2017, por exemplo– nem sequer cai num solstício! – com uma espécie de devoção e uma observância estrita da pontualidade. E a intensidade é possível, quase necessária, porque não experimentamos mais o dramático momento de 25 de dezembro, quando o Cristo Menino foi deitado na manjedoura pela primeira vez desde o último janeiro (destacando as festas de Natal do tempo, e atmosfera diferente, do Advento); nem experimentamos mais aquele frio na espinha quando as luzes da igreja se apagam todas e a lumen Christi, em forma de uma única vela, entra no santuário para a explosão de luzes na Páscoa. Quando os dias santos viram apenas ‘feriados’, ‘dias de graça’ se tornam ‘dias de folga’, e nossos instintos religiosos órfãos buscam alhures suas regras e rubricas. Hinos religiosos menos e menos cantados? Que tal um ‘hino’ nacional num evento esportivo, com lágrimas nos olhos? Não se paga mais o dízimo? Ora, paguemos nossos impostos até a data mágica de 30 de abril. Esqueceu-se de como rezar? Tente a blasfêmia (que não passa de uma oração travestida). E fora com os mandamentos religiosos! Mas, sejamos politicamente corretos em tudo que falamos e fazemos! ….acho que você já sabe onde quero chegar. Entenda-me bem, não estou desencorajando as festividades de Ano Novo – pontualidade uma vez por ano é melhor do que nunca, e celebrar o começo do ano solar (ou lunar, para alguns) é uma tradição antiga que merece respeito. Ergamos um brinde a isto, portanto! Mas, ao contarmos os últimos segundos do ano civil, deveríamos nos lembrar, se só por um instante, que um dia estaremos contando os últimos segundos de nossas vidas, e então todos aqueles dias santos, negligenciados durante o ano, farão muito mais falta para essa transição do que o confete e o champanhe de 1º de janeiro.

On the Meticulous Ritual of New Year

spiralclock-smaller

Even in my beloved adopted country of Brazil, where a massively endemic unpunctuality rules the land, nearly every soul will be awake, seconds before midnight on Dec. 31, glaring at a clock and scrupulously chanting the countdown to the new civil year. Beginnings of church, school classes and appointments of all sorts are missed by margins of up to an hour, but the beginning of the new secular year is hit with bull’s-eye precision. The difference between 11:59:59 pm on Dec. 31 and 00:00:01 am on Jan. 1 is greeted as a magical and rapturous transfiguration, but the difference between Advent and Christmas has all but vanished; and the line between Lent and Easter has blurred as well. The amoeba-like spread of Carnival festivities here in Brazil bears some relationship to Lent, it is true, but Ash Wednesday usually slips (along with the rest of the liturgical year) into the long shadow of Fat Tuesday.

The reason for this is simple. When religion declines, religiosity remains – it just shifts its abode; when transcendence is no longer believed in, the immanent world becomes the shaky support for cult and adoration. We lavish the bland moment of the quantitative change of a 2016 to a 2017, for example—it does not even fall on the solstice!—with devotion and obsessively punctual observance. And the intensity is possible, almost necessary, because we no longer experience the dramatic moment of December 25, when the Christ Child is laid in the manger for the first time since last January (and Christmastide is sundered from Advent); or the chill down one’s spine as a church is totally darkened and the lumen Christi, in the form of one sole candle, enters the sanctuary for the explosion of light at Easter. When holy days become holidays, otherwise uplifting days become ‘days off’, and our orphaned religious instincts look elsewhere for their rules and rubrics. Religious hymns no longer sung?  How about a national anthem at a sports match, even with tears in one’s eyes (in Brazil, they are called national ‘hymns’ anyway). Tithes all gone?  Let’s pay our taxes before the magical date of April 30. Forgotten how to pray?  Try blaspheming (which is just prayer in drag). And away with religious commandments! But do be politically correct….   I think you get my drift.  Now I am not discouraging New Year’s festivities—once-a-year punctuality is better than none at all (speaking here to Brazilians), and the solar (or for some, lunar) year’s inauguration is a hoary tradition and deserves respect. Let us lift a glass indeed. But as we countdown the last gasps of our civil years, we should briefly recall that one day we will be countdowning our own last gasps, and all those neglected holy days of the year will be far better help for that transition than the confetti and champagne of January 1.