Primeiro ou único? (a batalha entre o ordinal e o cardinal na Reforma)

First_Place_Blue_Ribbon   OU  only-clipart-3

Na comemoração dos 500 anos do começo simbólico da Reforma Protestante – uma tradição na qual eu pessoalmente fui criado – e ao reler os documentos do Concílio de Trento da Igreja Católica (sua resposta tardia, trabalhosa – e, para os que amam a inclusão  – ternurenta a Martinho Lutero), fico impactado por um aspecto raramente comentado daquela barulhenta altercação do século XVI. Refiro-me à diferença entre números ordinais e cardinais, e mais especificamente com respeito ao primeiro dígito de todos: ‘1’. Não me interessa aqui o fato igualmente fascinante de que ‘um’, de rigueur, não é um número de verdade, mas o princípio de número (qualquer número de verdade, para ser o que é, tem de ser um tal número; o ‘2’, por exemplo, não seria 2 se não fosse um 2, e não dois ou três 2s, que somariam 4 ou 6). O que me parece mais relevante neste contexto, porém, é a diferença entre o 1 cardinal e o 1 ordinal.

Veja, o bom Lutero havia aprendido em seus tempos de teólogo católico que: 1) as Escrituras, 2) a fé, e 3) a graça são primordiais como fontes de salvação – nenhum teólogo católico que se preze discordará disso –, e tivesse ele apenas sublinhado isso com algumas expressões latinas precisas e memoráveis, tais como prima scriptura, prima fide e  prima gratia, a Igreja teria apenas lhe agradecido por ter colocado essa primazia sob um foco mais preciso. Contudo, algumas circunstâncias (temperamento, tentações retóricas etc.) levaram-no a enfatizar aquela primazia de modo mais dramático, transformando-a em um atributo solo, único e exclusivo. Ele transformou o ordinal num cardinal. O Cardeal Caetano e Erasmo tentaram amenizar a intensidade da retórica do alemão, introduzindo distinções cruciais de que qualquer grande doutrina precisa para evitar aquele desvio da verdade chamado de ‘heresia’. Mas, não era para ser desse jeito. Uma conspiração de eventos e circunstâncias deu asas aos inegáveis dotes poéticos e retóricos de Lutero e, com a nova mídia social dos panfletos impressos, quem estivesse à frente dos meios de propaganda poderia facilmente silenciar as cuidadosas discussões doutrinais da tradição. Acrescente a isso os visíveis absurdos das vendas de indulgências pela Igreja na Alemanha – quase como se fossem bilhetes de loteria –, e a instituição milenar aparecia como muito carente de uma simplificação doutrinária, a fim de varrer esse escândalo do mapa. Ênfase sobre só Escritura,  fé e  graça parecia feita sob medida para a ocasião. E assim surgiram os mantras protestantes tão familiares (nós ocidentais precisamos também de mantras!): sola scriptura, sola fide, e sola gratia.

A Igreja Católica finalmente tiraria proveito – com um atraso lamentável – desses exageros e produziria suas próprias fórmulas cuidadosamente balanceadas, tais como: Escritura e Tradição / fé e obras / graça e natureza (outras harmonias análogas viriam nos debates dos séculos posteriores, como fé e razão, religião e ciência). Esses são os pares de ‘gêmeos não idênticos’, conceptuais e inclusivos, que o Catolicismo prepararia daí por diante – de forma precária, mas tonificante –, para colocar sobre as escalas da verdade cristã. Foram formulados em Trento, mas já vigoravam antes como parâmetros vivos de um milênio de fecundidade medieval. Universos de teologia e filosofia Patrística e Escolástica já tinham extendido suas asas sobre o terreno marcado por aqueles polos complementares; da mesma forma, milhares de igrejas, basílicas, monastérios e santuários bizantinos, românicos, góticos e renascentistas – cheios de afrescos, mosáicos e estatuária –  já haviam se erguido gloriosamente sobre o mesmo terreno. O princípio do ‘tanto/quanto’, em vez do ‘um ou outro’, prevaleceria no Catolicismo, embora este também levasse aqui ou acolá a certos exageros transeuntes. Entretanto, no geral, o Catolicismo manteria aquele nobre equilíbrio do cocheiro que se inclina ora para a direita ora para a esquerda, na medida em que seus cavalos correm resolutamente para frente, rumo a uma Verdade cada vez maior, mais abrangente – e mais imprevisível! – do que nossas mentes poderiam imaginar.

chariot_1

First or Only? (the battle between the ordinal and the cardinal in the Reformation)

First_Place_Blue_Ribbon          OR        only-clipart-3

As we commemorate 500 years since the symbolic beginning of the Protestant Reformation – a tradition within which I myself grew up – and I reread the documents of the Catholic Church’s Council of Trent (its belated but belabored – and for those that love inclusiveness, beloved – answer to Martin Luther), I am struck by a seldom-commented feature of that vociferous altercation of the 16th century. I mean the difference between ordinal and cardinal numbers, and more specifically as regards the first digit of them all: ‘1’.  I am not interested here in the equally fascinating fact that one’, de rigueur, is not a number at all, but the principle of number (any true number, to be what it is, must be one such number; a ‘2’, for instance, would not be a 2 if it were not one 2, and not two or three 2’s, which would make it 4 or 6). What seems more apropos of reflections on Reformation history, however, is the difference between the cardinal 1 and the ordinal 1 – that is, between the ‘one and only one’ and the ‘first’ (even the primus inter pares), presumably followed by comparably important ‘seconds’ or even ‘thirds’, etc.

You see, good Luther had learned from his years of Catholic theology that 1) Scripture, 2) faith and 3) grace are first as sources of salvation – no Catholic theologian worth his salt will object to this – , and had he only underlined this with some accurate, memorable Latin phrases, like prima scriptura, prima fide, and prima gratia, the Church would have only thanked him for bringing this ‘primacy’ into sharper focus. However, circumstances (temperament, rhetorical strategies, etc.) tempted him to emphasize the primacy even more dramatically by morphing it into unicity, or uniqueness, or only-ness. He turned the ordinal into a cardinal (no pun intended). Cardinal Cajetan and Erasmus tried to finesse the German’s rhetorical intensity into the crucial distinctions any great doctrine needs if it is to avoid that skewing of truth known as heresy. But it was not to be. A conspiracy of events and circumstances turned Luther’s undeniable poetical and rhetorical gifts loose and, with the new social media of the printed pamphlet, whoever had the edge on propaganda ‘reading-bytes’ could easily silence the careful, doctrinal disquisitions of the centuries. Add to this the visible absurdity of indulgences being sold by the Church in Germany like lottery tickets, the hoary institution seemed in need of some doctrinal simplifications to sweep this scandal off the map. Emphasis on only Scripture, only faith, and only grace seemed made to order. And thus emerge the Protestant mantras we know so well (we Westerners need our mantras too, don’t we?): sola scriptura, sola fide, and sola gratia.

The Catholic Church will finally – though with regretful tardiness – profit from these overstatements and churn out her own carefully-balanced formulae, namely: Scripture and Tradition / faith and works / grace and nature (further harmonies will come in the debates of later centuries, like faith and reason, as also religion and science). These are the inclusive conceptual non-identical twins Catholicism has henceforth poised precariously but invigoratingly on the scales of Christian truth. They are formulated at Trent, but were there in full force before as the living parameters of a millennium of medieval fecundity. Worlds of Patristic and Scholastic theology and philosophy had already spread their wings over the landscape marked off by those complementary poles; likewise, thousands of Byzantine, Romanesque, Gothic and Renaissance churches, basilicas, monasteries and sanctuaries –  full of frescos, mosaics and statuary – had risen gloriously over that same landscape. The ‘both/and’ principle will prevail in Catholicism, although it too will sway into temporary exaggerations of one sort or the other. Still, on the whole it will maintain that noble balance of the horseman who leans now left and then right, as his steeds charge forward towards a Truth forever larger, forever wider – and wilder! – than our minds could ever imagine.

chariot_1