Artistas antigamente conhecidos como santos

(originalmente postado em janeiro de 2016)

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Assim que a morte de ‘Prince’ foi estampada nas primeiras páginas dos jornais do mundo ocidental, tive de perguntar – mais uma vez – por que tratamos músicos, atores e às vezes até políticos como os equivalentes contemporâneos dos santos tradicionais. Antes do Século XX, nossos artistas eram vistos com afeição, e com certa dose de respeito, mas, fora isso, eram conhecidos como vendedores de diversão e encanto, de renda baixa ou moderada, que tocavam seu comércio e tentavam dar uma vida decente para suas famílias. Mas hoje em dia, quando Deus e seus santos se desvaneceram de nossos horizontes, esses improváveis substitutos foram elevados aos nossos altares e canonizados pelo nosso órfão instinto de adoração. Os pobres artistas só queriam fazer música para nós, ou atuar em um drama, e acabaram ficando irremediavelmente confusos por dentro, ao verem as pessoas se ajoelharem em sua presença e lhes fazerem chover milhões de dólares. Eles são forçados a serem oráculos da verdade última e doadores do júbilo espiritual, mas são muitas vezes obscurecidos pelas mentiras que seu papel lhes impõe, e entristecidos pelo vácuo no coração que se insere em qualquer pseudo-deus. Nem sempre foi assim.

As vidas de Bach e Mozart, ou quaisquer dos grandes pintores da Renascença ao Impressionismo, estavam cheias de trabalho duro e apenas de uma modesta remuneração, comparadas com a fama e riquezas dos artistas, as mais das vezes incomparavelmente inferiores, de hoje. Claro, há notáveis exceções; alguns artistas mantêm seu bom senso e humildade, e até carreiam sua riqueza para fins caritativos, mas estes são uma pequena minoria. A maioria cai, de uma forma ou de outra, no turbilhão do sexo, drogas e rock n’ roll. Eu realmente lamento por eles. Não é fácil manter-se são e santo, quando todo tipo de tentação imaginável está ao alcance de seus dedos. E eles nem são unicamente os culpados por sua desfiguração. Nós somos os idólatras que os transformaram em ícones sobrenaturais.

Construímos o tipo de sociedade que eleva artistas de rua a celebridades ‘badaladas’, com seus fins muitas vezes trágicos divulgados nas manchetes dos jornais, de modo a assombrar nossas emoções e conversações por dias a fio. A morte de Santa (Madre) Teresa de Calcutá mal conseguiu uma manchete quando, dias antes do seu falecimento, uma confusa e desesperada princesa da Inglaterra foi morta num acidente de carro em Paris. Perdemos todo o senso de proporção. Certamente, lágrimas deveriam ser derramadas, uma oração rezada e nossa consciência coletiva examinada ao ponderarmos sobre a morte de um Kurt Cobain, Michael Jackson, Heath Ledger, Phillip Seymour-Hoffman, Amy Winehouse, assim como os anti-heróis caídos de minha geração: Janis Joplin, Jimmi Hendrix, Jim Morrison, e todos os outros (você sabe os nomes de cor); e, claro, também para o bom ‘Prince’. Mas, por favor, removamo-los gentilmente dos pedestais nos quais os pusemos. No lugar destes, que tal colocarmos alguns santos mais robustos do Século XX, como Teresa de Lisieux e Maximiliano Kolbe? Suas orações podem levar até mesmo essas ruínas de seres humanos a uma glória só esporadicamente vislumbrada no miasma drogado da celebridade moderna.

Edith e Elizabeth

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Entre as insinuações que, com frequência, se tem dito contra a Igreja Católica, estão as seguintes: 1) a Igreja reprime mulheres, e 2) o filósofo/teólogo favorito da Igreja, Tomás de Aquino, está irremediavelmente fora de moda. Eu gostaria de convidar duas notáveis senhoras a colocar suas luvas de boxe e de desafiar qualquer pessoa a fazer as mencionadas insinuações diante delas. (A primeira, sendo uma santa e uma mártir, provavelmente declinaria, porém, a outra provavelmente pudesse lutar pelas duas). Em termos gerais, as duas mais influentes e poderosas correntes filosóficas do século XX tiveram, como garotos-propaganda, um alemão e um austríaco: Edmund Husserl, fundador da fenomenologia e, de longe, o mais fértil dos vovôs das filosofias continentais, sendo estas tão variadas como o existencialismo, a fenomenologia e a hermenêutica ; e Ludwig Wittgenstein, que, dentre todos, teve o maior impacto na filosofia anglo-saxã e – em seus dois projetos filosóficos distintos – gerou um prole intelectual comparável, em variedade, àquela de Husserl, porém articulada no vocabulário bem distinto da tradição analítica. O vetor básico seguido por cada uma dessas tradições era tão diferente, que os seus proponentes dificilmente se entenderiam – e tampouco conversariam – por décadas. Recentemente, porém, o embaralhamento demográfico global provocou uma boa medida de miscigenação filosófica, e a tradição pragmática norte-americana (antes menosprezada tanto pelos pensadores continentais quanto pelos analíticos) acabou por fornecer uma inesperada lingua franca àqueles dois rivais.

Entretanto, a sabedoria dos milénios costuma esperar nos bastidores e, após a passagem da fanfarra dos novatos, marchará confiantemente pelo palco para julgará os conflitos e lançará sua antiga luz sobre as novas sombras. Tomás de Aquino é um desses sábios pacientes. Mas, eu gostaria de chamar a atenção aqui para o fato de duas brilhantes filósofas do século XX estarem muito ligadas – pessoal e profissionalmente – aos dois mestres supracitados. Contudo, elas foram levadas precisamente pelos métodos e inovações desenvolvidos por seus mestres de volta à  contribuição (sempre-presente) de Tomás de Aquino. Edith Stein foi assistente pessoal de Husserl por alguns anos e dedicou-se a redigir um espesso volume sobre a metafísica tomista, e tudo isso em profundo diálogo com os insights mais duráveis de Husserl. Ela também migrou do Judaísmo para o Catolicismo, movida pela mesma convicção e amor pela verdade que a tinha levado a Husserl; e a partir daí, assim como Sócrates e Boécio, consumou o seu amor à sabedoria com a sua morte: no caso de Edith, foi o martírio em Auschwitz. Elisabeth Anscombe foi uma das primeiras fãs de Wittgenstein, e acabou estudando com ele e virando uma tão grande amiga, ele a escolheu para traduzir seu último trabalho filosófico (mesmo antes de ela ter aprendido o alemão!); também virou um dos seus testamenteiros literários. Ela, como ninguém mais, trouxe Wittgenstein à atenção do mundo erudito após a morte prematura do filósofo. Mas, o amor dela pela análise da linguagem ensinada por Wittgenstein foi equiparado ao seu amor pela Igreja Católica, para a qual ela entrou ainda adolescente, enquanto se preparava para uma das carreiras filosóficas mais destacadas do século XX.

Duas mulheres, ambas católicas convertidas, ambas nos mananciais dos dois maiores rios da filosofia do século XX, e ambas ajudicando sabiamente as aventuras do pensamento moderno, a partir dos píncaros de um teólogo do século XIII. Edith Stein foi uma santa, e Elisabeth Anscombe, segundo todos os relatos – além de ser uma filósofa brilhante e prolífera –, foi uma ‘força da natureza’. Santa Edith, por ser judia e freira, caminhou nua pela câmara de gás, rumo à sua morte. Santa Edith, rogar por nós! Elisabeth pode não ter evidenciado os sinais típicos de uma santa, mas ela foi, à sua maneira, tão radical quanto Santa Edith. Ao entrar num restaurante em Boston no começo dos anos 1960, usando um terninho antigo – época em que as mulheres usavam apenas vestidos –, disseram-lhe à porta que não era permitido que mulheres trajando calças jantassem ali. Ela imediatamente tirou as calças.

Edith and Elizabeth

 

Among the common slurs one often hears against the Catholic Church are that 1) it represses women, and 2) the Church’s favorite philosopher/theologian, Thomas Aquinas, is hopelessly out of fashion. I should like to invite a couple of remarkable ladies to put on their boxing gloves and challenge anyone to speak those claims to their faces. (The first one, being a saint and martyr, will likely decline, but the other can probably fight for the two of them.) Roughly speaking, the two most influential and potent currents of 20th century philosophy were those whose poster-boys were a German and an Austrian: Edmund Husserl, founder of phenomenology and by far the most fertile of granddaddies for continental philosophies as various as existentialism, phenomenology and hermeneutics; and Ludwig Wittgenstein, who had the greatest impact of anyone on Anglo-Saxon philosophy and – in his two distinct philosophical projects – sired an intellectual progeny comparable in its variety to that of Husserl, but articulated in the quite different vocabulary of the analytic tradition. The basic vector followed by each of these legacies was so different, their proponents were hardly on speaking terms for decades. Lately, the global shuffling of demographics has brought a good measure of philosophic miscegenation, and the American pragmatic tradition (once belittled by both continental and analytic thinkers) has turned out to provide an unanticipated lingua franca for these old rivals.

Still, the wisdom of the ages is usually waiting in the wings, and after the parade of new-comers has run its course, will stride confidently onstage to referee the conflict and bring old light to new shadows. Aquinas is one of those patient sages. But what I would like to draw attention to here is that two brilliant women philosophers of the last century were very close – both personally and professionally – to the two masters cited above. However, they found themselves drawn by the very methods and innovations championed by their teachers back to the ever-present contribution of Thomas Aquinas. Edith Stein was Husserl’s personal assistant for some years and went on to pen a thick tome on Thomistic metaphysics, all in dialogue with Husserl’s more enduring insights. She also journeyed from Judaism to Catholicism in the same sweep of conviction and love of truth that had brought her to Husserl; and from there, like Socrates and Boethius, consummated her love of Wisdom with her death: this time, martyrdom in Auschwitz. Elizabeth Anscombe was an early fan of Wittgenstein and ended up studying with him and becoming such a close friend, the man chose her to translate his later philosophical work (before she had even learned German!) and to be one of his literary executors. She, as no one else, brought Wittgenstein to the attention of the learned world after his premature death. But her love for the language analysis taught by Wittgenstein was matched by her love for the Catholic Church, which she entered as a teenager, all the while preparing for one of the most remarkable philosophical careers of the 20th century.

Two women, both Catholic converts, both at the fountainheads of the two major rivers of 20th century philosophy, and both looking wisely at modern explorations in thought from the mountain-top of a 13th century theologian. Edith Stein was a saint, and Elizabeth Anscombe was, by all accounts – besides being a brilliant and prolific philosopher – a force of nature. St. Edith, for being a Jewess and a nun, walked naked into the gas chamber to her death. Pray for us, St. Edith. Elizabeth may not have exhibited typical saintly traits, but she was just as radical as St. Edith in her own way. When entering a Boston restaurant in the early 60s when women only wore dresses, she – in an early pant suit – was told at the door that women in trousers were not allowed to dine there. She promptly removed her trousers.