Algo está faltando…

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Em qualquer área de pesquisa, e particularmente naquela que ostenta séculos de avanços e impressionantes conquistas reivindicadas, novas descobertas e até mudanças significativas de paradigmas (para usar o clichê) normalmente implicam reajustes, novas perspectivas, ou novas peças a um quebra-cabeça cada vez mais coerente. A teoria da gravidade de Newton, o desvelar do espectro eletromagnético por Maxwell, e até a relatividade de Einstein e a teoria quântica de Planck, à parte toda a sua dramática novidade, ainda consideravam e interpretavam o cosmos em que vivemos e pareciam torna-lo mais inteligível, mesmo que ainda um pouco mais estranho.

Todavia, algo tornou-se crescentemente evidente na astronomia e na física contemporâneas, que joga todas as celebradas  “revoluções” do passado nas sombras. Eminentes cientistas nos disseram – com testa franzida e nobre esforço para manter o ar de augusta autoridade que nós outrora lhes conferimos – que parece que tudo o que eles tão trabalhosamente nos ensinaram sobre moléculas e átomos e quarks e quasares e galáxias – numa palavra, sobre o universo material – aplica-se apenas a menos de 5% [sic] de toda a realidade física. O resto do real, ou seja, 95% dele, é ominosamente chamado de “escuro” (cerca de 25% sendo “matéria escura” e algo como 70%, “energia escura”). Recentemente, ouvi um eminente físico, perguntado por um leigo sobre o porquê de se chamar escura, responder com uma honestidade refrescante: “Porque não sabemos o que é.”

Dado que minha competência cai nas áreas da filosofia e teologia, normalmente mantenho minha boca fechada sobre as ciências naturais, só comentando acerca do que parece ser consenso em questões científicas. Às vezes, tangenciem meus tópicos de estudo. Entretanto, quando aprendi que a tese dos 95% é de fato, atualmente, um consenso científico, minhas antenas filosóficas e teológicas dispararam a plena carga, como descargas de relâmpagos. Ahn? Em momento algum duvido do que dizem, mas mais do que nunca, achei confirmada minha suspeita de que os cientistas raramente estiveram de todo conscientes das implicações mais longínquas das suas descobertas.

Esta constatação, em particular, tem implicações que devem ter provocado nos supramencionados mestres de outrora não apenas uma reviravolta em seus túmulos, mas também rodopios. Imagine o que aconteceria em qualquer outra área de estudo, se seus especialistas de repente descobrissem, após décadas de pesquisas e celebradas proclamações, que eles tinham de algum modo omitido 95% de seu assunto?

Para ser justo, alguns já estão pressagiando uma grande reformatação da ciência física para o resto do século XXI. Eu lhes desejo sorte. Mas o que lhes desejo mais do que qualquer outra coisa é uma poderosa lição de humildade. Coisa alguma tem sido mais usada como arma contra a religião, metafísica ou qualquer outra fonte de conhecimento não-científico do que uma CIÊNCIA prepotente.

Uma boa e comprovada ciência, em meu entender, jamais foi uma ameaça à boa religião ou à boa metafísica, mas a pretensão do “cientificismo” – quer dizer, a crença de que a única forma de conhecimento humano confiável é aquela fornecida pela ciência moderna – há muito tem merecido um bom chute na bunda. Quão oportuno que foram os próprios instrumentos de precisão que lhes forçaram a reconhecer a natureza fragmentária da maior parte do nosso suposto conhecimento da realidade física! Convidemos o velho Carl Sagan a ligeiramente redigir o seu batido mantra sobre a enormidade do universo: “Existem b-b-b-bilhões de coisas que não sabemos sobre o cosmos!”

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Uma ciência, muitas religiões?

Eu adoro saudar novos desafios às minhas convicções mais profundas. Ontem, encontrei um que ficou girando em minha mente como um abutre a noite toda. Quando ele finalmente desceu para atacar, eu estava pronto. Primeiro, o desafio.

Uma razão para considerar a religião como produto de fantasia, satisfação de desejos e pensamento frouxo, e a ciência como a única via confiável para a verdade, poderia ser que a ciência é, fundamentalmente, uma, ao passo que o nome da religião é legião. A ciência tende a mover-se convergentemente rumo a um consenso global e, uma vez que a teoria da gravidade, a tabela periódica dos elementos, um buraco negro descoberto – ou qualquer novidade científica que se queira citar – são suficientemente testados e provados, a unidade da empreitada científica parece mais uma vez confirmada. As religiões, contudo, não apenas se apresentam em campos múltiplos e autocontraditórios, mas estarão para sempre gerando novas seitas e denominações, como uma barulhenta ninhada de coelhos. De que mais provas se precisa de que a religião deriva não do conhecimento de alguma verdade coerente, mas sim de uma multiplicidade de superstições humanas, emoções e viagens imaginativas?

O argumento soa bem, eu admito. Se tivéssemos de parar de pensar por aqui – e muitos param aqui mesmo – ele poderia parecer um gol de placa. Há, contudo, pelos menos dois problemas sérios nessa fórmula simples. O primeiro tem a ver com a suposta unidade das ciências; o segundo, com o verdadeiro significado da multiplicidade das religiões. Consideremos primeiro as ciências.

Em uma postagem anterior (Algo está faltando), destaquei o considerável desafio que as ciências físicas estão encarando atualmente após a descoberta de que quase 95% de seu objeto de estudo tem, até agora, estranhamente, fugido à detecção. Com esse elevado grau de ignorância, é difícil imaginar como qualquer cientista contemporâneo – a despeito de todas as suas inegáveis conquistas – pode reivindicar uma síntese completa e saudável ou uma coerência fácil. E não nos esqueçamos que a sonhada “teoria unificada,” perseguida pelo grande Einstein – esperando colocar a mecânica quântica e a relatividade sob um guarda-chuva matemático (e que, de resto, abarcaria apenas os 5% restantes da realidade material) –, ainda está esperando por suas equações.

Apesar do sonho do velho Descartes de que todas as ciências poderiam de alguma forma desvelar seus mistérios por meio de um e apenas um método universal, elas continuam a ignorá-lo e a florescer robustamente no plural. E elas o fazem precisamente aplicando seus próprios métodos distintos, algumas até mantendo um tipo de autonomia epistemológica. A ciência, com os seus sempre cambiantes paradigmas, pode nervosamente tentar encurralar seus múltiplos dados e teorias num único cercado, mas ainda lhe falta apresentar uma reivindicação fidedigna de de um corpo monolítico de doutrina, nem perto disso. Como falou Niels Bohr, “o oposto de uma verdade profunda pode ser uma outra verdade profunda.”

Contudo, pelo menos podemos afirmar com confiança que as religiões são desesperadamente múltiplas, certo? Múltiplas, talvez; mas desesperadas, dificilmente. Praticamente toda religião se apoia no pressuposto de que há dimensões da realidade transcendentes àquela tocada por nossos sentidos e medida por nossos instrumentos, e que o todo dessa entidade remota não é apenas mais extenso do que o universo físico, mas também mais intenso – variado, heterogêneo e complexo. Como cada tradição religiosa sustenta que nossa conexão com essas regiões elevadas é importante, mas de alguma forma comprometida, a religião propõe caminhos, técnicas, ritos, ou oferece graças por meio das quais a nossa comunhão com aqueles mundos elevados pode ser restaurada.

Uma vez que existe multiplicidade naquelas regiões transcendentes do real, haverá igualmente uma multiplicidade de formas com as quais esta ou aquela religião franqueia o acesso àquelas regiões, e também de qual “parte” daquele mundo seja acessada. De fato, a variedade das religiões coloca desafios às reivindicações de verdade de cada religião, e ninguém dirá que esses desafios já foram respondidos. Porém, a multiplicidade de credos, livros sagrados, cleros, ritos, sacramentos e todas as igrejas, templos, sinagogas, mesquitas, gurdwaras e pagodes do mundo não prova mais a não existência daquela alegada transcendência, do que o fato de que existem milhares de línguas faladas no mundo prova que não há nada a dizer.

One Science, Many Religions?

I love to greet new challenges to my deepest convictions. I ran across one yesterday which kept circling like a vulture in my mind all night. When it finally swooped down for the kill, I was ready. First, the challenge:

One reason to regard religion as a product of fantasy, wish-fulfillment and sloppy thinking, and science as the only trustworthy avenue to truth, would seem to be that science is, fundamentally, one, while religion’s name is legion. Science tends to move convergently toward global consensus, and once a theory of gravity, a periodic table of elements, a discovered black hole – or whatever scientific disclosure one wishes to cite – is sufficiently tested and proven, the unity of the scientific enterprise is once again confirmed. Religions, in contrast, not only present themselves in multiple self-contradicting camps, but are forever proliferating new sects and denominations like a herd of randy rabbits. What more proof is needed that religion derives not from knowledge of some coherent verity, but rather from the multiplication of human superstitions, emotions and imaginings?

Sounds pretty good, I concede. If one were to stop thinking here – and people usually do – it might seem a slam-dunk. There are, however, at least two serious problems with this simple formula. The first regards the supposed unity of the sciences; the second, the full import of the multiplicity of religions. First, consider the sciences:

I already highlighted in an earlier post (Something’s Missing) the considerable challenge the physical sciences are currently facing after discovering that nearly 95% of their subject matter has hitherto oddly eluded detection. With such a high fever of ignorance, it’s difficult to imagine how any contemporary scientist – despite all their undeniable conquests – can lay claim to full and healthy synthesis or easy coherence. And let us not forget that even the fabled “unified theory” pursued by the great Einstein – hoping to bring quantum mechanics and relativity under one mathematical umbrella (and which involved only the other 5% of material reality anyway) – has yet to find its equations.

Despite the dream of old Descartes that all the sciences could somehow unveil their mysteries through one and only one universal method, they have continued to ignore him and to flourish robustly in the plural. And they do this precisely by applying their own distinct methods, many even maintaining a sort of epistemological autonomy. Science, with its ever-shifting paradigms, may nervously try to corral its multiple data and theories behind a single fence, but it has yet to tender a credible claim to one monolithic body of doctrine. Not even close. Its deepest truths seem, often enough, to shoot in different directions. As Niels Bohr famously quipped: “the opposite of a profound truth may well be another profound truth.”

But still, at least we can confidently affirm that religions are – in terms of some overriding unity – hopeless, and irreducibly multiple, right? Multiple, perhaps, but hopeless, hardly. Virtually all religion is predicated on the assumption that there exist dimensions of reality transcendent to the one our senses touch and our meters measure, and that all of that outlying entity is not only vastly more extensive than the physical universe, but also more intensive –  more various, heterogeneous and complex.

As each religious tradition maintains that our connection with those higher regions is important, but has also been somehow compromised, it advances ways, techniques, rites or proffered graces by which our communion with those higher worlds can be restored. And since there is multiplicity in those transcendent regions of the real, there will be multiplicity in the way in which this or that religion gains access to them, and indeed which “part” of that world it accesses.

The variety of religions poses challenges indeed to the truth-claims of each tradition, and no one will claim those challenges have already been met. But the multiplicity of faiths and scriptures and clergy and rites and sacraments and all the churches, temples, synagogues, mosques, gurdwaras and pagodas of the world no more prove the non-existence of the transcendence they lay claim to, than the fact that there are thousands of spoken languages in the world proves that there is nothing to talk about.

Quatro confusões contemporâneas

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A vida já é bastante confusa; porém, desde o último século mais ou menos, quatro confusões gratuitas têm sido inoculadas na mente cotidiana, e eu tenho grande prazer em apontar o seu blefe. Alguns podem ficar chocados que eu as chame de ‘confusões’, tal a profundidade com que elas entraram em nossos hábitos intelectuais e imaginativos. Mas, dado que elas bagunçam nossos cérebros com respeito a quase tudo o que pensamos, merecem ser expostas naquilo que realmente são. Essas confusões são mais ou menos assim:

Quando nos perguntamos: 1) Qual é a realidade material abaixo e à minha volta – a terra e as rochas e os mares, as cadeiras, as casas e as ruas? O que são essas coisas, realmente? Iluminados e abrilhantados pela ciência moderna, você responderá prontamente: Uai!  São átomos (ou qualquer buquê de partículas subatômicas que a sua mente sofisticada possa supor ter descoberto).

Próxima: 2) O que é essa vasta extensão de estrelas, espetaculares e estacionárias, que se movimenta tão serenamente pelo céu estrelado e que parece respirar o próprio hálito da estabilidade e permanência? Você mal pode esperar para exclamar o seguinte: Uai!  Elas não são estacionárias de jeito nenhum! Aquelas estrelas movem-se pelo espaço a velocidades inimagináveis, afastando-se umas das outras como quem corre da peste; elas apenas aparentam estar paradas. Bem, pelo menos é isso o que os astrônomos nos dizem.

E, então, voltamo-nos para nós mesmos: 3) O que é o seu corpo – essa maravilha complexa de ossos e músculos, nervos e cérebro, sangue e linfa? Você prontamente franze suas sobrancelhas: a despeito dessa fachada ilusória, nossos corpos nada mais são do que o produto de milhões e milhões de anos de lentos e acumulativos fatores da seleção natural, que calharam de convergir, sem qualquer plano discernível, nessa composição, jogada junto, à qual chamamos de DNA.

E, finalmente, a mais perturbadora das perguntas: 4) O que se passa dentro de mim? Um mundo de pensamentos, esperanças, medos, crenças, desejos, paixões e recordações proliferam e interagem sem cessar entre as minhas duas orelhas. De onde veio tudo isso? Bem, os físicos nos deram a resposta para a primeira questão, os astrônomos para a segunda, e os biólogos darwinianos para a terceira. Freud mal pode esperar para dar a sua contribuição, e aqui está ela: todo aquele material ‘psicológico’ gerado em você é, nos seus vórtices mais determinantes, produto do seu inconsciente. Ele espuma, profusamente, à tona da nossa consciência, expelido a partir dos ingredientes indigestos das experiências da infância, ou de algum outro porão escuro de nossa psique.

De uma forma ou de outra, essas são as respostas quase espontâneas dadas hoje em dia – e assim tem sido desde que a ‘ciência’ tornou-se o nosso único meio respeitável de conhecer a realidade – às questões sobre o que realmente existe: seja abaixo de nós (matéria terrena), acima de nós (o universo estelar), em nossos corpos (nossa biologia) ou em nossas mentes (nossa experiência interior). Mas, por favor, note um curioso traço desses novos e esclarecidos ‘insights’: nenhum deles jamais foi visto (ou sequer imaginado). Qualquer luz que se jogue sobre essas supostas verdades não é do tipo visível, acessível aos nossos olhos físicos, nem mesmo à nossa imaginação. Ninguém pode ver ou imaginar um átomo ou um elétron, como constituintes genuínos que compõem a realidade da cadeira na qual sentamos. Mesmo quando você pacientemente ouve um físico explicar como os átomos e moléculas interagem para constituir o mundo, a cadeira ainda se parece com uma cadeira e ainda oferece ao seu traseiro o apoio que você espera ao se sentar nela. E toda noite, quando você ergue seus olhos novamente para o céu estrelado, as constelações ainda têm a aparência que tinham na noite anterior, e – não obstante o movimento errático dos planetas e dos deslocamentos (ainda mais óbvios) do sol e da lua – nada há em nossa experiência que nos pareça mais fixo do que as estrelas fixas. Estamos mesmo enganados em relação a isso?

O que dizer de nossos corpos? Da Vênus de Milo ao David de Michelangelo, e considerando toda a nossa fascinação (e até vício) pela beleza corporal humana – e, ainda mais cativante, a espiadela mágica que nos olha nos olhos nas faces humanas –, por acaso devo aceitar, passivamente, que tudo isso seja apenas uma intersecção acidental de forças materiais aleatórias e impessoais? A fim de chegar à ‘verdade’ sobre os nossos fantásticos corpos, preciso me engajar num esforço fútil de tentar imaginar os inimagináveis milhões e milhões de anos que se arrastaram lentamente até chegar à matemática genética que fez com que Scarlett Johansson parecesse linda?

E quando nos esforçamos para abrir o pesado portão de nossa vida interior, e encontramos multi-universos de religião, filosofia, literatura, pintura, drama, dança, música (e música, e música de novo…), belezas, terrores, perspectivas, vistas, horizontes (a lista é interminável) – por acaso devo levar a sério qualquer psiquiatra vienense, ou qualquer outro fiscal da mente humana, dizendo que tudo isso não passa de ab-reação, ou de epifenômenos, deste ou daquele processo biológico, deste ou daquele conflito primordial, desta ou daquela coisa qualquer? Posso eu assistir 15 minutos de Shakespeare ou, no caso, até cinco minutos do noticiário vespertino, e engolir esses arremedos superficiais de explicação sem rir à socapa?

Se você prestar atenção à lógica interna da autêntica ciência (não a ideologia temperamental do ‘cientismo’, mas a genuína, séria e sóbria ciência), descobrirá que tudo o que sabemos sobre os píons e prótons e elétrons e todo o resto é extraordinariamente interessante, mas não muda, sequer por um nanossegundo, a validade e a centralidade de sua experiência cotidiana das coisas. Trata-se de outra perspectiva, e é só isso. Quando você conversa com um amigo, você também pode pesá-lo, medir-lhe a cintura, tomar-lhe a temperatura e checar o seu colesterol, mas provavelmente você preferiria simplesmente ouvir as palavras dele e continuaria a conversa. Você instintivamente sabe a perspectiva que interessa, e desconsidera o resto. E, sobre as estrelas: pode ser que, a partir de uma perspectiva extraterrestre, seus movimentos pareçam muito, digamos, ‘astronômicos’, mas dado que nenhum de nós (eu presumo) seja um extraterrestre, é óbvio que essa perspectiva será enormemente irrelevante para qualquer um que não seja um astrofísico altamente especializado.

E quanto aos milhões de anos de evolução: novamente, desejo um bom trabalho aos nossos biólogos. Mas também desejo que eles desistam da loucura de tentar explicar o milagre óbvio de nosso extraordinário corpo humano por meio tão-somente de um método explicativo de processos fragmentados. Algo ou alguém (estou tentando manter a teologia afastada aqui) está pintando, ou esculpindo ou sonhando com um monumento de grande beleza e significado que nenhum cervo, nenhum urso, e nem mesmo um golfinho se lhe poderá comparar. Há aqui uma arte divina (não posso resistir) ou de alguma forma transcendente, e não ver isso é tanto uma espécie de cegueira quanto nascer sem olhos. Logo, para os nossos biólogos evolucionistas, com todo o respeito por suas contribuições sólidas (embora subordinadas) acerca da natureza humana, eu digo: veja mais e pense menos. Você ficará surpreso com o que vai ver.

E, finalmente, quando contemplarmos os mundos que foram criados a partir da mente humana – na própria ciência, na arte, filosofia e religião – nós apenas nos enganaremos se negarmos que essa misteriosa fecundidade seja testemunha de uma origem que remonta a uma fonte que está acima e para além de nós, e que não possa, por nenhum meio intelectualmente sério, ser explicada por qualquer somatório de fatores inferiores de dentro da matriz naturalista das narrativas reducionistas. Simplesmente, não funciona.

Em conclusão, ofereço minhas próprias teses ‘contra-confusionistas’: 1) o mundo da matéria importa! É sólido, pesado, significante e sacramental. Ele insiste em sua consistência. Preste atenção a ele e tome sua aparência diante de nossos sentidos desassistidos por seu valor de face, pelo menos por um momento. Algo denso e intenso está sendo comunicado aqui, e tudo o mais que se possa analisar e dissecar com respeito a isso só será inteligível se se atentar primeiramente para a ‘saudação’ inicial. 2) A abóbada do céu estrelado é de uma maravilha incrível, esmagadora, irredutível, e profundamente – embora misteriosamente – significativa. Se você não pode ver isso, é porque não olhou por tempo suficiente. Continue olhando. A poesia pode ajuda-lo mais do que a astrofísica, não porque seja menos factual, mas porque é mais. A música também pode ajudar. 3) Passando à nossa terceira contra-tese, tenha cuidado, pois aqui estamos muito perto de casa. O corpo é, finalmente, a mais bela e enigmática das realidades materiais; e, como somos fracos, somos tentados a eleva-la a um pedestal acima de seus méritos. Mas, reconheça, pelo menos, que aquela realidade fala. O corpo expressa o espírito e não é meramente o seu abrigo inerte nem a sua morada temporária; o corpo é a manifestação do espírito. Qualquer que tenha sido sua origem ou desenvolvimento, se você quiser entendê-lo, encare-o agora. É incrível, às vezes engraçado e desajeitado, às vezes até um pouco assustador, mas, na maior parte das vezes, ele fala conosco, sobretudo em sua flor e fruto: a face humana. E agora, finalmente, a respeito do mundo interior: 4) Nossas mentes afirmam o ser, e o ser transcende tudo o que podemos ver e tocar, e se estende por anos-luz além das teorias pretensiosas dos naturalistas. Toda a nossa cultura, filosofia, religião e arte são testemunhas de seu alcance transcendente. Se você quer se livrar de todas essas confusões contemporâneas, simplesmente aprenda a prestar muita atenção ao que é, óbvia e insistentemente. Essa atenção o levará das cadeiras e mesas, céus e estrelas, belos corpos e culturas extravagantes, de volta para o Ser de um Deus que está a nos falar suave, porém eloquentemente, e por meio de todas as coisas que tocamos, vemos, e com as quais nos maravilhamos. E a razão pela qual de fato nos maravilhamos com o mundo – e o céu, nossos corpos e nossas almas – é que o seu significado, gradualmente desdobrado, é um prelúdio ao infinito.

Four Contemporary Confusions

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Life is confusing enough, but for the past century or so, four gratuitous confusions have been inoculated into the everyday mind, and I take great joy in calling their bluff. Some may be taken aback that I call them confusions, so deeply have they entered into our intellectual and imaginative habits. But since they scramble our brains regarding nearly everything we think we know, they deserve to be exposed for what they are. It goes something like this:

When we ask ourselves:  1) What is the material reality below and around me – the earth and the rocks and the seas, the chairs and the houses and the streets? What are they really? Enlightened and brightened by modern science, you will promptly reply:  why, they are atoms (or whatever bouquet of subatomic particles your sophisticated mind may suppose it has spotted)!  Next:  2) What is that expanse of spectacular, stationary stars that moves so serenely across the night sky and seems to breathe the very breath of stability and permanence? You can hardly wait to pronounce on this one: why, they aren’t stationary at all!  Those stars are propelling through space at unimaginable velocities, running from each other as from the plague; they only seem to be standing still. Well, that’s what the astronomers tell us anyway. And now we turn to ourselves:  3) What is your body – that complex marvel of bone and muscle, nerve and brain, blood and lymph? You promptly furrow your brow: despite its deceptive façade, our body is nothing more than the product of millions and millions of years of slow, accumulative factors of natural selection, that happen to have converged, without discernible plan, into this rather rag-tag composition we call our DNA. And finally, and most disturbingly: 4) What is going on inside me? A world of thoughts, hopes, fears, beliefs, desires, passions and memories proliferate and interact without cease between my two ears. Where did all this come from? Well, the physicists gave us the answer to the first question, the astronomers to the second, and the Darwinian biologists to the third. Freud could hardly wait to put in his two cents, and here it is:  all that ‘psychological’ stuff going on inside of you is the product of your unconscious. It foams up abundantly from the undigested ingredients of your childhood experience, or some other darkened basement of our psyche.

In one variation or the other, these are the almost spontaneous replies we give today – and have done so ever since ‘science’ became our only respectable way of knowing reality – to questions about what really exists: whether below us (earthly matter), above us (the stellar universe), in our bodies (our biology) or in our minds (our inner experience). But, please take note of a curious trait of all these new, enlightened ‘insights’: none of them are ever seen (or even imagined) at all! Whatever light is being shed on these supposed verities is not the sort that is visible to our physical eyes, or even to our imaginations. No one can see or imagine an atom or an electron as genuine constituents which make up the reality of the chair one sits on. Even when you patiently listen to a physicist explaining how atoms and molecules interact to make up the world, the chair still looks like a chair and still provides your buttocks with the support you expected when you sat upon it. And every night, when you look up again at the starry sky, the constellations still look like they did the night before, and – despite the erratic movement of the planets and the even more obvious displacements of sun and moon – there is nothing else in our experience that seems more fixed than the fixed stars. Are we really wrong about that?

And what shall I say about our bodies? From the Venus de Milo to the David of Michelangelo, and on to all our fascination over and indeed addiction to human bodily beauty – and to the even more captivating magic peering eerily through human faces – am I to accept, lying down, that all this is just an accidental intersection of impersonal and random material forces? In order to get to the ‘truth’ about our fantastical bodies, do I need to engage in the futile effort of trying to imagine millions upon millions of finally unimaginable years that slowly lumbered toward the genetic math that made Scarlett Johansson look beautiful? Give me a break.

And when we push open the heavy gate to our inner life, and find multi-universes of religion, philosophy, literature, painting, drama, dance, music (and music, and music again), beauties, terrors, prospects, vistas, horizons (the list is interminable) – am I expected to take seriously any Viennese psychiatrist, or any other surveyor of the human mind, who says that all this is just the abreaction, or the epiphenomena, of this or that biological process, or this or that primordial conflict, or this or that anything? Can I watch even 15 minutes of Shakespeare, or for that matter five minutes of the evening news, and swallow these millimeter-deep attempts at explanation without derision?

If you listen closely to the inner logic of genuine science (not the temperamental ideology of ‘scientism’, but honest-to-goodness serious and sober science), you will discover that everything we know about pions and protons and electrons and all the rest is extraordinarily interesting, but doesn’t change, even for a nanosecond, the validity and centrality of your everyday experience of things. It’s another perspective, and only that. When you are chatting with a friend, you could also weigh them, measure their waist, take their temperature and check their cholesterol, but probably you would just as soon listen to their words and carry on the conversation. You instinctively know the perspective that is pertinent, and disregard the rest. And about the stars: it may be that from an extra-terrestrial perspective, their motions turn out to be quite, shall we say, ‘astronomical’, but since none of us (I presume)  are  extra-terrestrial, that perspective is obviously going to be hugely irrelevant to anyone but a highly specialized astrophysicist.

And as for millions of years of evolution: again, more power to our biologists and keep up the good work. But please give up the bad work of trying to explain the obvious miracle of our extraordinary human body through the exclusive explanatory method of piecemeal process. Something or somebody (I’m trying to shy away from theology here) is painting, or sculpting, or dreaming up a monument of beauty and meaning no deer or bear or even porpoise gets close to. There is (I can’t resist) a divine, or somehow transcendent, art at work here, and not to see that is as much a variety of blindness as being born without eyes. So to our evolutionary biologists, with due respect for their solid (but subordinate) contributions to understanding human nature, I say: look more and think less. You will be surprised what you see.

And finally, when we contemplate what worlds have been created from within the human mind – in science itself, and in art, philosophy and religion – we are only fooling ourselves if we deny that its mysterious fecundity bears witness to an origin from a source above and beyond it. In no intellectually serious way can we account for this through a mere summing up of inferior factors from the naturalistic matrix of reductionist narratives. It just doesn’t work.

In conclusion, I offer my own counter-confusional theses: 1) The world of matter we meet with our five senses matters! It is solid, heavy, significant and sacramental. It insists on its consistency. Pay attention to it and take its appearance before our unaided senses at face value, at least as a matter of principle. Something of density and intensity is being conveyed to us as persons, and everything else you can analyze and dissect in its regard will only be intelligible if you attend first to this initial ‘greeting’. 2) The vault of the starry sky is stunningly, overwhelmingly and irreducibly marvelous, and deeply, though mysteriously, meaningful. If you cannot see that, you haven’t looked long enough. Keep looking. Poetry will help you more than astrophysics, but not because it is less factual, but because it is more. Music will help too. 3) As we move to our third counter-thesis, be careful, as here we are very close to home. The body is, finally, the most beautiful and mystifying of material realities, and we are weak and can be tempted to lift it to a pedestal beyond its merits. But recognize, at least, that it speaks. The body expresses the spirit and is not merely its inert shelter or its temporary hotel room; it is its manifestation. Whatever may have been its origin or development, if you want to understand it, look at it now. It is incredible, at times funny and clumsy, at times a bit scary, but most of all it speaks to us, and above all in its flower and fruit: the human face. And now, finally, about that inner world: 4) Our minds affirm being, and being transcends everything we can see and touch, and travels light-years beyond the pretentious theories of naturalists. All of our culture, philosophy, religion and art are witness to its transcendent reach.  If you want to get un-confused from all these contemporary confusions, simply learn to pay close attention to what obviously and insistently is. That attention will take you from chairs and tables, skies and stars, beautiful bodies and extravagant culture, all the way back to the Being of a God who is speaking softly, but eloquently, through all the things we touch, see and wonder about. And the reason we wonder at all about the world – and about the sky, our bodies and our souls – is because their gradually unfolded meaning is an overture to infinity.

 

 

 

 

Stupiditas invicta – por que devemos amar a ignorância e detestar a estupidez

Hipernovas Imagens que valem mais que mil palavras (10)

Conta-se que Einstein disse que existem apenas duas coisas infinitas: o universo e a estupidez humana; depois, expressou suas dúvidas sobre a primeira. Como professor, sou um grande fã da ignorância, e exijo de mim e dos meus alunos franco reconhecimento da nossa parcela de desconhecimento.  Sem a consciência disso, nada do que se aprenda pode ser visto sob um foco adequado, em contexto e em perspectiva. E fica até pior.  No famoso dito de Richard Whately, “aqueles que não se apercebem de sua ignorância só serão desviados por seu conhecimento”. Até mesmo a verdade é perigosa sem o contexto da ignorância. Mas ainda há mais. Ponha a vontade na mistura, e as coisas ficarão abismais. “Uma verdade dita com má intenção / bate qualquer mentira de nossa invenção” (G. Herbert).

A ignorância deveria ser nossa amiga. Ela se transforma em nossa inimiga em apenas duas situações: quando não temos consciência dela, e quando ela é proposital. Existe até uma categoria extrema, ainda que benigna: a assim-chamada “ignorância invencível,” que é a falta de um conhecimento importante a qual, sem culpa, deixamos de superar. Saber disso nos ajuda a sermos mais pacientes com aqueles que ainda estão a caminho de descobrir algo que nos parece evidente. É uma noção espinhosa, mas uma realidade crucial em um mundo complicado e confuso de buscadores da verdade. Mas em si, a ignorância e a estupidez são criaturas muito diferentes. Registrei várias vitórias memoráveis sobre a ignorância em minhas décadas de magistério; porém, duvido seriamente ter tido alguma vez sucesso numa credível ofensiva didática contra a estupidez. Provavelmente, é o tipo de coisa que não se pode fazer na sala de aula.

A ignorância é como a escuridão, e nesta, a luz é bem-vinda. A estupidez é como a areia movediça, e quanto mais você volta sua mente contra aquela, mais o seu pensamento é tragado por uma asfixia intelectual. O ignorante é capaz de aprender, desde que reconheça o seu desconhecimento e tenha uma vontade dócil. Mas, aí é que está o problema. Docilidade, em Latim (docilitas), significa simplesmente a qualidade de quem é ensinável. Exige que potenciais aprendizes sejam: 1) ignorantes; 2) conscientes de sua ignorância; 3) desejosos de aprender. Ao estúpido, faltam (2) e, especialmente, (3). Se lhe falta apenas (2), há esperança. Ser ignorante e pensar que sabe (erroneamente) é uma condição passível de tratamento. Afinal, foi isso que motivou a maiêutica socrática: fazer-nos saber que nós não sabemos, e então, paradoxalmente, empurrar-nos para a luz.

Aqueles que erradamente pensam que sabem, mas ainda estão abertos a aprender, podem ser ensinados. Não quer dizer que seja fácil, pois ignorância e conhecimento contrafeito podem se embolar num complexo de nós, que apenas um longo diálogo e instrução (e um pouco de oração) podem resolver. Mas, é exatamente isso o que fazem os professores, e uma vez que os nós se afrouxam e os fios do pensamento se esticam, o rosto luminoso do aluno que vê a verdade pela primeira vez é uma grande recompensa para qualquer tutor.

Contudo, se falta a você a terceira qualidade, que é uma questão de vontade, uma longa discussão e um exército perfeitamente enfileirado de palavras jamais prevalecerá contra esse amálgama de emoção, determinação e significados abusados. Pois a estupidez é precisamente isto: um coito perverso entre a ignorância e a vontade endurecida contra a admissão de qualquer coisa que possa ameaçar uma ideologia escolhida. Apesar das aparências, a ignorância proposital não é da mesma laia que a ignorância invencível, pois, nesta última, o que está doente é a cognição, a qual pode ser cognitivamente curada.

Diante de um estúpido, os contra-argumentos podem no máximo balançar suavemente as muralhas defensivas ou motivar uma mudança de estratégia, mas jamais trarão luz àqueles que desejam as trevas. O que temos aqui não é apenas uma ignorância que deve ser vencida pelo conhecimento, mas uma treva que já frustrou qualquer ministração possível da parte do intelecto. O que manda é um imperioso comando da vontade. É uma estupidez invicta, imune à penetração do mundo do ser que lhe é externo (pois é disso, afinal, que se trata o verdadeiro conhecimento).

Estupidez é democrática. Não é só para os incultos e ignorantes. É especialmente cortada sob medida para os cultos e altamente “inteligentes,” mesmo com altíssimo QI. Busque só algumas declarações obviamente erradas – incrivelmente erradas – da boca de alguém que se acha “sabio,” e vai ver uma exibição bastante divertida da estupidez “esperta.”