Is the Universe God’s Selfie?

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The short answer is: no. A somewhat longer response, however, will give a measure of legitimacy to those at first beguiled by the notion. Genesis and the Abrahamic faiths insist that the world and everything in it is most emphatically not divine, and for a creature to think itself divine is in effect the source of all evil. But it is not quite as simple as that. The same Old Testament book will teach with equal authority that we were created “after the image and likeness of God.” So we are already like God in some way, although sternly forbidden to seek divine likeness in another way. Theological consensus suggests the image of God in us is found in our personhood and it spiritual faculties (intellect and will), and the forbidden fruit symbolizes an expropriation of “divine rights” in the determination of what is right and wrong. But let us consider only the more abstract, metaphysical question, namely: How is it possible for the Absolute (God) to coexist with the Relative (creation) to begin with?

A couple of popular solutions to the problem of the One and the Many – of the divine and the created – are pantheism and monism. The first teaches that the universe is divine to begin with, or, in other words, that the only “absolute reality” that exists is the very cosmos in its totality; the other simply proclaims that all that exists is reductively one. Although both get rid of the duality and might seem to be saying the same thing, there is a subtle but all-important difference. In pantheism, the universe gets an upgrade, either by being declared identical to God (in some forms), or a dimension of God (as in Spinoza, for example); instead of resorting to Platonic shades or shifty maya, one simply proclaims total identification. In monism, however, the emphasis is on oneness, and thus the multiplicity in which the universe ostensibly glories is downgraded to a mere gossamer appearance – at best a phantasmagoric carousel of index fingers all pointing to the One and then disappearing; at worse (but more logically coherent), an illusion.

The doctrine of creation will have neither of these simplistic evasions. If God is identical to the universe, he isn’t much of a god anyway, and we would do better to jettison our prayer-books and agree with the materialists that matter is all there is. If we still insist on getting to some great “beyond,” we will find fulfilment through the study of astrophysics rather than pipe-dreams of theology. There are rational means of getting over the world’s optical tricks. Although apparent water on the asphalt may be an illusion indeed, Iguaçu Falls is not (or, for my American readers, Niagara Falls). Once more, our materialists are right again: this world is too real and insistent to be deemed a delusion.

However, there is another way to approach the whole question. As so often, the stars help us best to understand high matters. Stars that have no planets still shine, but those with planets not only shine, but also have their light reflected. Now, the amount of light does not change in this case, but the illumination – and this is the key – does. This has always seemed to me the best analogy for bringing home how the creation can have what Aquinas calls novitas essendi (newness of being), without thereby diminishing the infinity of God’s being.

As with our solar system – where there are more illuminated things, but no more light than in the case of a lonely star of the same size but with no planets – so with creation: there are more beings, but no more being. God is, as Aquinas says, not just one more being among others (not even the “Biggest”), but rather Subsistent Being Itself. He is utterly transcendent to the creation only by being radically immanent to it as its cause. He is in the cosmos as Charles Dickens is in his novels, not as a protagonist or a plot line in the story, but as the very cause of the protagonist, the plot and the story itself – in it by being causally and sovereignly beyond it. What Christ would later enjoin morally upon his followers, to “be in the world but not of it,” God himself realizes metaphysically in his mode of presence in the cosmos.

Sharing being is something like sharing knowledge, or love. Augustine teaches us that to share material things means to get less than you would have if you did not share; but by sharing spiritual things, you get more by sharing. Share a cake or a bag of nuts, and you end up with less cake and fewer nuts; but share your knowledge, or your love, and you end up with more knowledge and more love. If this is true of these spiritual realities, how much more of the root of all knowledge and love, which is Being itself.

Still, we have to turn Augustine somewhat on his head. You may not lose anything when you share spiritual goods, but in the case of the Creator, there is one good, and a good that is beyond the distinction between spiritual and material, the sharing of which – even if it does not subtract from him- also does not bring him any “gain.” That good is being itself. When God gives being, he not only does not lose anything, but in contrast to our experiences of gaining by giving knowledge and love, neither does he add anything to himself. Something is “added,” but not to him. A huge increase in illumination results, but the amount of Light remains the same. In creation, it is the creatures who are the real winners. More beings, but no more Being.

 

O universo é uma selfie de Deus? (rev.)

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A resposta curta é: não. Uma resposta algo mais longa, porém, dará um pouco de legitimidade àqueles, de início, seduzidos pela ideia. O Gênesis e as religiões abraâmicas insistem enfaticamente que o mundo e tudo o que há nele não são divinos, e que o fato de uma criatura pensar-se divina é, com efeito, a fonte de todo o mal. Mas, a coisa não é tão simples assim. O mesmo livro do Antigo Testamento ensinará, com igual autoridade, que fomos criados “à imagem e semelhança de Deus.” Portanto, já somos semelhantes a Deus de certa forma, ainda que também estritamente proibidos de buscar a semelhança com Deus de outro modo. O consenso teológico atribui a imagem de Deus em nós ao nosso ser pessoal e às nossas faculdades espirituais (intelecto e vontade), sendo o fruto proibido uma expropriação dos “direitos divinos” de determinar o que é certo e errado (simbolizado pela árvore do conhecimento do bem e do mal). Mas vamos considerar apenas a questão mais abstrata e metafísica, a saber: Como é possível o Absoluto (Deus) coexistir com o Relativo (a Criação)?

Duas soluções populares ao problema do Uno e do Muito – do divino e do criado – são o panteísmo e o monismo. O primeiro diz que o Universo já é divino, ou seja, que a única “realidade absoluta” é o cosmos mesmo na sua totalidade; o outro simplesmente proclama que tudo é um. Embora ambos descartem a dualidade e pareçam defender a mesma coisa, há entre eles uma diferença sutil, porém importantíssima. No panteísmo, o Universo ganha um upgrade, seja por ser considerado idêntico a Deus (em algumas formas), ou uma dimensão d’Ele (como em Espinoza, por exemplo) – em vez de recorrer às sombras platônicas ou as mayas evanescentes, simplesmente proclamamos uma completa identificação. No monismo, contudo, a ênfase é na unicidade, e a multiplicidade na qual o universo se orgulha é degradada a uma tênue aparência – no máximo, um carrossel fantasmagórico de indicadores, todos apontando para o Uno e em seguida desaparecendo; na pior das hipóteses (mas, mais coerente do ponto de vista lógico), uma ilusão.

A doutrina da criação não sucumbe a qualquer dessas evasivas simplistas. Se Deus é simplesmente o universo, vira um deus menos impressionante, e faríamos melhor em jogar fora nossos livros de orações e concordar com os materialistas que a matéria é tudo o que existe. Se insistirmos em chegar a qualquer “além,” acharemos satisfação no estudo de astrofísica, sem fantasias teológicas. Possuímos meios racionais para desmistificar as ilusões óticas do nosso mundo; porém a realidade do mundo fica soberana. Apesar de a aparência de água sobre o asfalto possa ser uma ilusão mesmo, as cataratas do Iguaçu não o são. De novo, nossos materialistas estão certos de que este mundo é muito real para ser taxado de ilusão.

Entretanto, há uma outra abordagem da questão. Como sempre, as estrelas nos ajudam a entender melhor as coisas elevadas. Estrelas sem planetas ainda assim brilham, mas aquelas com planetas não apenas brilham, mas também têm a sua luz refletida. Ora, a quantidade de luz não muda neste caso, mas sim a iluminação. Esta me parece a melhor analogia para esclarecer como a criação pode ter aquilo que Tomás de Aquino chamou de novitas essendi (novidade do ser), sem, contudo, diminuir a infinidade do ser de Deus.

Como é com nosso sistema solar, onde há mais coisas iluminadas mas nem por isso mais luz do que uma estrela do mesmo tamanho mas sem planetas, assim também é com a criação: há mais seres, mas não mais ser. Deus é, nas palavras de Tomás de Aquino, não mais um ser entre outros (nem o “Máximo”), e sim o “Ser Mesmo Subsistente.”  É totalmente transcendente ao universo só por ser radicalmente imanente a ele como sua causa. Ele está no universo como Machado de Assis está nos seus romances, não como protagonista ou enredo, mas como causa transcendente dos protagonistas, do enredo e do romance todo. Aquilo que Cristo vai exigir dos seus seguidores, de ser “dentro do mundo mas não do mundo,” se aplica metafisicamente à relação entre Deus e o universo.

Ora, compartilhar o ser é, de certa forma, como compartilhar o conhecimento ou o amor. Santo Agostinho ensina-nos que repartir coisas materiais é ter menos do que teríamos se não tivéssemos repartido; mas, ao compartilhar coisas espirituais, obtemos mais delas. Divida um bolo ou um saco de castanhas com alguém, e terminará com menos bolo e menos castanhas; mas divida o seu conhecimento ou o seu amor com alguém, e acabará com mais conhecimento e mais amor. Se isto é verdade acerca dessas realidades espirituais, quanto mais não o seria acerca da raiz de todo conhecimento e todo amor, que é o Ser em Si.

Entretanto, temos de virar Agostinho um pouco de ponta-cabeça. Você pode não perder coisa alguma quando compartilha bens espirituais, mas no caso do Criador, há um bem, e um bem que jaz além da distinção entre espiritual e material, cujo compartilhamento – mesmo se não lhe traz qualquer perda – também não lhe traz qualquer “ganho”: o ser. Quando Deus dá o ser, não apenas não perde nada, mas diferentemente das nossas experiências de compartilhar conhecimento e amor, também não acrescenta nada a si mesmo. Resulta sim um gigantesco aumento em “iluminação,” mas o montante de Luz fica o mesmo. Na criação, são as criaturas que são os grandes ganhadores. Mais seres, mas não mais ser.