Porque eu caminho (e muito)

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Ser um peripatético (ou filosoficamente ambulante) é, em minha opinião, uma conditio sine qua non para cortejar a sabedoria. Mover o corpo devidamente é ao mesmo tempo causa e efeito de mover a mente devidamente. Consideremos esta última, em primeiro lugar. Se desejarmos filosofar bem, tentaremos mover nossas mentes de modos apropriados para refletir a realidade à nossa volta, e isso significa, certamente, não pensar muito devagar, mas também – e, talvez, mais importante – não pensar muito rápido. Velocidade e sabedoria não combinam. Suspeito que a maioria dos filósofos que acabam na confusão e no ceticismo sofre de uma das duas seguintes deficiências fatais: 1) falha em crescer moralmente pari passu com o seu aumento do conhecimento, pois o bem e a verdade são radicalmente co-dependentes, de modo que o crescimento de um exige o concomitante crescimento da outra. Mas, no momento, penso mais no outro obstáculo, qual seja: 2) a incapacidade de acolher, nas nossas poderações, o modo contemplativo de pensar, com a consequente hipertrofia do raciocínio e o esmaecimento da intelecção, uma exacerbação da trajetória linear e lógica com pouca ou nenhuma intuição, uma glorificação da inteligência mercurial, enquanto a vista ‘sinótica’, o universal (para falar com Platão) desaparece aos poucos de nosso horizonte cognitivo.

Isso é mais evidente na relação entre o ‘olhar inquisitivo’ e o ver. A razão pela qual inquirimos e buscamos algo con os olhos é para vê-lo. E só quando vemos o que procurávamos, e porque o vemos, é que nos damos conta de que há algo mais para buscar. Mas, é o ver que nos leva primeiro ao buscar; e o ver é o fim em direção ao qual se dá a nossa busca – o ver é assim tanto a origem quanto a finalidade. Bem cedo na história da filosofia moderna, perdemos essa distinção de vista (trocadilho intencional), e começamos apenas a buscar, observar, espiar, analisar, escrutinar – de olhos apertados -, e raramente encontrar um momento, aqui ou acolá, para considerar, especular, contemplar e admirar. Uma maneira de remediar esse estrabismo filosófico é dar uma olhada no corpo no qual ocorre o nosso pensamento. Nosso corpo é a nossa alma manifesta. Tomás de Aquino disse – contrariamente ao  pressuposto comum – que o corpo está na alma mais do que a alma está no corpo. E o que fazemos corporalmente vai impactar grandemente o nosso pensamento.

Portanto, precisamos de um tipo de movimento que leve todo o nosso complexo psicossomático a uma espécie de harmonia, e que sirva para espelhar (e provocar) aquele tipo de pensamento equilibrado que deveríamos valorizar. Talvez o Tai Chi seja o melhor instrumento para isso, mas eu temo que nem todos sejam talhados para ‘sintonia fina’ chinesa. No outro extremo, tampouco recomendo aos aspirantes a filósofos que corram para as academias de ginástica cheias de máquinas e corpos suados, com personal trainers e aparelhos de medição prontos para treinar e medir você. Na verdade, não deveríamos estar correndo tanto. Os computadores correm – esses modelos ideais de velocidade e poder –; então, deixemo-los correr! Atletas (leia-se: jovens) correm –; então, mais poder a eles! Nós outros, contudo, devemos caminhar. Diz-se que os franceses, a despeito de gostarem muito de manteiga e queijo, evitam a obesidade mais eficientemente do que os norte-americanos, simplesmente porque caminham muito, ao invés de permanecerem sentados por horas em automóveis (algo que Chesterton chamou de ‘preguiça em movimento’).

Caminhar é um movimento perfeitamente proporcionado. Pode-se pensar, escutar, conversar (se acompanhado), parar e prestar atenção nas coisas, e deixar o céu acima de nós e a terra, abaixo, falarem conosco. Nossa linguagem corrente já compreendeu essa mensagem: ‘você tem uma caminhada de vida’; ‘você caminha com Jesus’; ‘estar no bom caminho’, ‘tomar caminho’, etc. – todos, esforços admiráveis. Contudo, você ‘(in)corre em dívidas e infrações’; ‘(con)corre a um cargo político’ (a mais não-contemplativa das carreiras); você está ‘na corrida’ para fazer algo;  você ‘corre dos perigos’ e ‘corre por causa das emergências’, etc. – bem, acho que já me fiz entender. O caminhar dispõe você a pensar com medida, a contemplar e a encarar o mundo com ócio. Eu caminho uns oito quilômetros quase todo dia. Isso faz com que as horas em que sento à minha escrivaninha – ou fico de pé para falar em conferências ou homilias – têm menos rigidez e mais tranquilidade. E, uma vez que caminhar é realmente aprazível, não procuro por desculpas para deixar de fazê-lo (como certamente seria o caso se fosse uma questão de fazer jogging ou de sair para malhar). Mas, o último segredo é este: caminhar torna você sábio. Quando eu caminho, posso até sentir a sabedoria crescer.

Why I Walk (a lot)

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Being peripatetic (or philosophically ambulatory) is, for my money, a conditio sine qua non for courting wisdom. Moving your body properly is both cause and effect of moving your mind properly. Consider the latter first. If we wish to philosophize well, we will try to move our minds in ways that are appropriate for reflecting the reality around us, and that means, certainly, not to think too slowly, but also – and perhaps even more importantly – not to think too fast. Speed and wisdom do not mix well. I suspect that most philosophers who end up in confusion and skepticism suffer from one of two fatal handicaps: 1) failure to grow morally in lockstep with their growth in knowledge, for goodness and truth are radically co-dependent, and increase in one demands concomitant increase in the other. But here I am thinking more of the other hindrance, namely:  2)  failure to welcome the contemplative mode of thought into one’s ponderings, with a resulting hypertrophy of ratiocination and a fading of intellection, an overdrive of linear and logical trajectory with little or no intuition, a glorying in being mercurially smart, all the while the big picture is vanishing from your cognitive horizon.

This is most evident in the relationship between looking and seeing. The reason we look for something is in order to see it. And when we see it, and because we see it, we become aware of even more to look for. That is what wonder is all about. But it is sight that first sends us looking, and it is sight which is the end towards which we look – it is both origin and aim. Somewhere quite early on in modern philosophy we lost sight of this distinction (pun intended), and started just looking, observing, squinting, peering, analyzing, scrutinizing, and rarely finding a spare moment to consider, speculate, contemplate and gaze. One way to remedy this cross-eyed dilemma is to turn to the body in which we think. Our body is our soul manifest. Aquinas said – contrary to our common assumption – that the body is in the soul more than the soul is in the body.  And what we do corporeally is going to impact our thinking mightily.

Thus we need a mode of movement that brings our whole psychosomatic complex into some sort of harmony, and serves to match (and to provoke) the sort of measured thinking that we ought to value. Tai Chi may be the ultimate tool for this, but I’m afraid not everyone is cut out for Chinese fine-tuning. At the other extreme, neither would I encourage aspiring philosophers to run off to gyms full of machines and sweating bodies, with personal trainers and health meters ready to drill and measure you. In fact, maybe we should not be running much at all. Computers run – those paragons of speed and power – so let them run. Athletes (read: young people) run –  and more power to them. The rest of us, however, should walk. It has been said that the French, despite their love of butter and cheese, avoid obesity more efficiently than Americans simply because they walk a lot, rather than sitting for hours in automobiles (something Chesterton called ‘sloth in motion’).

Walking is perfectly proportioned movement. One can think, listen, converse if accompanied, stop and notice things, and let the sky above and the earth below talk to us. Our language already gets the message: You have a walk of life; you walk with Jesus; ‘let me walk you through that’, you ‘walk the walk‘, etc. – all admirable endeavors. However, you ‘run up’ a debt; ‘it’s running late’; if your digestion is loose, you get the runs; you run for political office (that most uncontemplative of careers); you run from dangers, you run to emergencies; you run a racket – I think I’ve made my point. Walking disposes you to think with measure, to contemplate and to take in the world with leisure. I walk about eight kilometers most days. This makes the hours I sit at my desk – or stand when speaking in lectures or homilies – less statuesque and more relaxed. And since walking is actually enjoyable, I don’t look for excuses not to do it (as I certainly would if it were a matter of jogging or going off to ‘work out’). But the ultimate secret is this:  walking makes you wise. When I walk, I can actually feel the wisdom growing.