O momento ‘Balboa’

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No outono de 2013, passei uma noite na Cidade do Panamá, a caminho de Massachusetts, onde ia passar uma licença sabática na Harvard Divinity School. Tais pausas dividem um suplício aéreo de doze horas em dois voos mais suportáveis de seis horas. Apesar de um conhecido de Brasília ter sido recentemente atacado a pauladas nas ruas de Panamá e ter passado meses em um hospital se recuperando, ainda assim decidi pernoitar lá. Na manhã seguinte, ganhei as ruas para esticar as pernas antes de reembarcar no grande pássaro metálico. E, durante minha caminhada, topei com Balboa.

Vasco Núñez de Balboa (para aqueles não atualizados em conquistadorologia) foi um dos mais admiráveis exploradores espanhóis do início do século XVI. Pode-se ler a sua história na Wikipedia, se há dúvida. Ele é famoso nas narrativas eurocêntricas como o primeiro europeu a pôr os olhos no ‘Mar del Sur’ (o mar do sul), como ele batizou a enorme porção de água situada ao sul de seu ponto de observação numa colina panamenha. O fato deste Mar do Sul ter se revelado como, de longe, a maior extensão de água do mundo me deu ocasião para realizar meu próprio batismo, mas não de um mar, e sim de uma ideia.

Nesta época de relativização da Europa, eu sou – como bem sabem os meus alunos – um ‘euro-apologista’. Não peço que meus ouvintes desculpem os múltiplos malfeitos cometidos pelos europeus mundo afora, ou todas as ideias erradas, pois eu prontamente incluo os habitantes daquele pequeno apêndice ocidental da vasta massa eurasiana dentro da pecaminosidade humana. Nos deram Bach, mas depois Hitler; Platão e Aristóteles, mas também Nietzsche e Marx; as vistas de Tomás de Aquino, mas também os abismos de Freud. O melhor pode vir da Europa, mas o pior também. Nenhuma árvore se ergue sob o sol sem fazer sombra. Contudo, a árvore europeia tende a superar sua própria sombra como nenhuma outra.

Mas, voltemos a Balboa. Após admirar a postura algo bombástica da estátua, inclinei-me para ler as inscrições. A data me deu um susto: ele esteve lá no outono de 1513, exatamente 500 anos antes do momento no qual eu me postava diante de sua figura. Pensei comigo: isto é importante, preciso prestar atenção. Ocasionalmente, uma convergência de fatores configura uma metáfora aplicável pelo resto de nossas vidas. Essa era uma delas. Aquele espanhol, exatamente meio milênio antes, abriu seus olhos e viu algo que colocou todos os seus pressupostos sobre a realidade num novo e imensurável contexto. O pobre conquistador seria posteriormente enredado em conflitos coloniais locais e executado, talvez injustamente, sem jamais ter levado a sua visão de volta à Europa. De qualquer modo, os europeus iriam ouvir falar do novo oceano. Mas mesmo assim, duvido que até hoje tenhamos aprendido a lição.

Para mim, viver filosoficamente significa estar sempre a postos para o próximo ‘momento Balboa’. Algo tão grande como o Oceano Pacífico pode estar nos aguardando logo após os últimos retoques à nossa mais recente interpretação da realidade. Tenho pouca simpatia por aqueles cuja visão de mundo, ou religião, já pintou os últimos pormenores e respondeu as últimas questões, impedindo qualquer enriquecimento de sua visão do universo. Aristóteles e Tomás de Aquino – meus heróis – mantiveram seus horizontes abertos ao infinito, dado que se recusaram a impor critérios arbitrários ao que a realidade pode ser ou fazer. Para eles, não é a ‘história’, nem a ‘linguagem’, nem a ‘lógica’, nem mesmo a ‘experiência’ que deve em última instância medir a realidade do real, mas antes o ser. E o ser – implicitamente para Aristóteles e explicitamente para Tomás – é, nos seus supremos patamares, pessoal, e isso porque pessoas são a suprema realização do que pode ser. Elas ficam abertos, por definição, a literalmente tudo. E pessoas manifestam essa abertura porque são tanto intelectuais quanto volitivas, o que significa que são tanto – em última análise – coerentes quanto surpreendentes. E qualquer coisa que seja, ou que possa ser, não será em princípio excluída – ao menos como uma possibilidade remota – num mundo criado por Aquele que é o Ser em si. Comparado às possibilidades d’Ele, o Pacífico é apenas uma poça d’água.

Surpreendido pelo óbvio

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Estamos acostumados a nos surpreendermos com o que não é óbvio, aquilo que ninguém teria jamais esperado. A boa filosofia, contudo, começa com um espanto que consiste, essencialmente, em ser surpreendido pelo que é (ou deveria ser) extremamente óbvio. Já se disse acerca de Sócrates – o vovô da filosofia ocidental – que, onde quer que estivesse e, a despeito de quantas vezes tivesse estado lá antes, ele sempre dava a impressão de alguém que estava lá pela primeira vez. Como a carta roubada de Edgar Allan Poe, os gatilhos do espanto filosófico escondem-se de nós ficando bem diante de nossos olhos.

Surprised by the Obvious

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We are accustomed to being surprised by the unobvious, that which no one would ever have expected. Good philosophy, however, begins with a wonder that consists, essentially, in being surprised by what is (or should be) extremely obvious. It was said of Socrates – the granddaddy of Western philosophy – that wherever he was, and however many times he had been there before, he always gave the impression of one who was there for the first time. Like Poe’s purloined letter, the triggers of philosophical astonishment hide from us by lying right before our eyes.

O maravilhoso

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Nosso vocábulo ‘maravilhamento’ é uma das traduções possíveis do verbo grego thaumazein (usualmente vertido para o Latim como admirari, apesar da palavra portuguesa ‘admirar’ expressar apenas parte do significado). Tanto Platão (Teeteto, 155d) quanto Aristóteles (Met. I.2, 982b12ss) insistem que a filosofia só tem início quando se experimenta o maravilhoso, o famoso ‘espanto filosófico’. Dado que o meu site leva essa noção em seu nome – e dado que se espera que eu, como professor de Filosofia, semeie o senso do maravilhoso em meus alunos – tentarei deixar claro o que vem a ser esse maravilhoso, assim como alertar sobre os seus impostores.

Para começar, o espanto não é a mera ignorância. Você não pode maravilhar-se com aquilo sobre o que não sabe coisa alguma, muito menos com aquilo que você nem sabe que existe. Também não é conhecimento qua conhecimento: a simples cognição de um objeto; ao contrário, o maravilhamento é um tipo especial, quase subversivo, de conhecimento, que evidencia e referencia o desconhecido; um conhecimento cuja posse aponta para um incognitum na penumbra que nos circonda. É uma parte de conhecimento para muitas partes de ignorância, mas não em uma relação de soma zero. No verdadeiro maravilhoso, quanto mais sabemos genuinamente sobre um objeto, ao mesmo tempo mais adquirimos consciência da extensão de nossa ignorância sobre tudo que ele implica e significa. Aumento em conhecimento não significa redução de desconhecimento, pois ainda que o novo conhecimento possa ser de fato um ganho, esse ganho serve como uma nova plataforma a partir da qual vislumbramos as sombras e as sugestões de uma multidão de verdades ainda não conquistadas.

O maravilhamento tampouco é um estado de perplexidade perante um enigma, na esperança de resolvê-lo; antes, é a condição do ser chamado por dentro de um mistério, e convidado a viver nele. Não pretendo mistificar ou romantizar o assunto. Não se trata aqui de indivíduos andando por aí de bocas abertas e olhos esbugalhados, muito menos dos zumbis chapados da minha geração, quando acabavam os baseados, deitados no chão, com os olhos vidrados no teto, dizendo: “Uau!” Nada disso. O maravilhoso provém de um autêntico aumento no conhecimento, e isso pressupõe um conhecimento adquirido com contexto, perspectiva e foco. Esse tipo de conhecimento foi outrora proporcionado por uma adequada educação liberal, em que tanto as humanidades quanto as ciências abriam as imaginações, mentes e corações aos mundos imensos do real. Tal conhecimento cintila instantaneamente com espelhos de todo o mundo à sua volta (contexto), com todos os valores subordinados e superiores a ele (perspectiva), e é articulado com apenas aquela exatidão apropriada à sua natureza (foco).

O maravilhoso deve ser também distinguida da mera curiosidade. Certamente, o uso comum confunde, inocentemente, as duas coisas, mas perdemos algo importante com isso. A rigor, a curiosidade refere-se a um interesse abelhudo em saber o que normalmente não é da nossa conta, e não ao nosso desejo natural de conhecer, o que, para Aristóteles, é muito da nossa conta. Pois o que acontece quando conhecemos alguma coisa é que nós, num sentido intencional mas efetivo, tornamo-nos um com a coisa que conhecemos; mas a cognição curiosa e desordenada nos fende de modo a dividir-nos e fragmentar-nos interiormente – algo assim como contar às crianças todos os detalhes de nossa sexualidade. O conhecimento ordenado, contudo, abre a alma para uma unidade maior, nidificando suas energias num mistério acolhedor, do qual se pode aproximar para sempre, mas jamais exauri-lo.

De onde vem esse maravilhamento? A sensação, especialmente a visão, já vem carregada com uma excitação que vemos na face de todas as crianças. Elas veem algo, e por este ato, elas também ‘veem’ que há muito mais para se ver, que ainda não está presente. Suas mentes já estão famintas pela carne da realidade. Essa mistura de conhecimento e ignorância – que é a verdadeira química do maravilhoso – mantém nossos sentidos vivos e alertas mesmo depois que o intelecto embarca em suas buscas paralelas. Uma vez que precisamos de ordem e, por um lado, somos ameaçados pelo simples volume de objetos sensoriais e a ameaça do caos e, por outro, pelas inevitáveis limitações de nossa própria experiência pessoal, a civilização tem tradicionalmente estruturado nosso sensorium e nossas emoções por meio do sistema das belas artes. Estas trazem tanto integração ao mundo frenético da multiplicidade, como uma expansão vicária ao nosso provincialismo nativo.

Como o deleite da sensação, com todos esses indicadores instigantes de que há algo mais além dela, gera as belas artes; e como do intelecto, se maravilhando com os múltiplos sinais de transcendência que invadem a mente quando pensa sobre as coisas, surge a filosofia; assim, o deleite e o maravilhoso são elevados a uma augusta estupefação, um verdadeiro temor de Deus, quando nossos sentidos e nosso intelecto seguem o apetite purificado da vontade pelo infinito. A religião – mais cedo ou mais tarde – ergue-se no horizonte de toda experiência humana, e até as negações da religião assumem, paradoxalmente, seu manto de autoridade. A dança entre o conhecimento e a ignorância é destinada a continuar na religião, e se tornará a fonte mesma de nossa beatitude. Na presença d’Aquele Que É, para sempre se aprende mais sobre Sua infinita beleza, mas nem por isso se deixa de ser abraçado ainda mais calorosamente pelo excesso extático de Sua incalculável abundância. Como dizem os santos, Deus é sempre maior. Você não pode ‘po-lo para baixo’ nem decifrá-lo, tampouco quereria faze-lo.

Isso acontece também com qualquer pessoa amada. Você jamais a domina, e por mais que vocês aprendem e vivem juntos, mais se dá conta daquele belo borrão atrás dos olhos da pessoa amada, prometendo que há sempre algo mais – tocado por seu amor mas não por seu pensamento. É muito mais assim com Deus. Quando as artes despertam em nós a maravilha, e a filosofia é alimentada pelo espanto, a religião nos explica porque. Vere mirabilis Deus.

Wonder

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Our English word ‘wonder’ translates the Greek verb thaumazein (usually rendered in Latin as admirari, although English ‘admiring’ only gets a part of the meaning). Both Plato (Theat. 155d) and Aristotle (Met. I.2, 982b12ff.) insist that philosophy only begins when wonder is experienced. Since my site bears the word in its name – and since I am expected to seed wonder among my students as a teacher of philosophy – I will try to make clear what I understand wonder to be, and also warn about its counterfeits.

To begin with, wonder is not mere ignorance. You cannot wonder about something of which you know absolutely nothing, much less wonder at something you don’t even know exists. Neither is it knowledge qua knowledge: the simple cognition of an object. Instead, it is a special, almost subversive kind of knowledge which bespeaks and references the unknown, a knowledge the very possession of which points to a penumbral incognitum just out of sight.

It is one part knowledge and many parts ignorance, but not in a zero-sum relation. In true wonder, the more one genuinely knows about an object, the more one will simultaneously grow aware of the extent of one’s ignorance of all it implies and signifies. Increase in knowing does not equal decrease in unknowing. Although the new knowledge may be a gain indeed, that gain promptly serves as a new platform from which we glimpse the shadows and outlines of an even vaster throng of yet unconquered truths.

Wonderment is also not a state of being puzzled over an enigma, with the hope of solving it; rather it is the condition of being summoned into a mystery, and invited to live within it. I don’t mean to mystify or romanticize the matter. Envisioned here are not bemused individuals walking about with mouths agape and dazzled eyes, much less the stoned zombies of my generation who concluded their sessions of cannabis consumption, flat on their back, staring at the ceiling, saying: “wow!”

Wonder comes from authentic growth in knowledge, and that means a knowledge that is acquired in context, perspective and focus. That kind of knowledge was once provided by a proper liberal education, where both humanities and sciences opened imaginations, minds and hearts to the boundless worlds of the real. Such knowledge instantly sparkles with reflections of all the world around it (context), all the values subordinate and superior to it (perspective), and is articulated at just the right degree of exactitude proper to its nature (focus).

Wonder should also be distinguished from mere curiosity. Certainly common usage will often innocently confuse the two, but we are much the poorer for it. Strictly speaking, curiosity refers to a prying interest in knowing what is usually “none of our business,” and not our natural desire to know (which for Aristotle is very much our business). For what happens when we know something is that we in some very real way become one with the thing we know. Disordered and curious cognitions, on the other hand, cleave to us in a way that divides and fragments our interior, like telling children all the details of our sexuality. Properly ordered knowledge opens the soul to greater oneness through a nesting of its energies in a welcoming mystery that it can forever approach but never exhaust.

Where does this wonder come from? Sensation, and especially vision, are already charged with an excitement which we see in the face of every infant. They see something, and by that act, they also ‘see’ that there is so much more to see, which is not yet present. Their mind is already hungry for the meat of reality. This mixture of knowledge and ignorance, which is the very chemistry of wonder, keeps our senses alive and alert even after the intellect has embarked on its parallel quests. Since we need order and are threatened on the one hand by the sheer volume of sensory objects and the menace of chaos, and on the other by the inevitable limitations of our own personal experience, civilization has traditionally structured our sensorium and emotions through the system of the arts. These bring both integration into the crazy world of multiplicity, and vicarious expansion into our native provincialism.

As delight in sensation, with all its teasing tokens of something greater beyond it, gives birth to the arts; and as the intellect’s wonder at the multiple signs of transcendence that invade the mind when it thinks about the being of things, sires philosophy; so delight and wonder are lifted into an august awe, into the very fear of God, as our senses and our intellect follow the purified will’s appetite for infinity. Religion – sooner or later – rises over the horizon of all human experience, with even its negations assuming its mantle of authority.

The dance between knowledge and ignorance is destined to continue in religion, and will become the very source of our beatitude in eternity. In the presence of Him Who Is, one forever learns more of his infinite beauty, but is thereby embraced even more warmly by the ecstatic excess of his permanently unmappable abundance. As the saints say, God is always greater. You never figure him out or reduce him to a formula or definition, nor would you want to.

But this is not so foreign to us as we might suppose. What happens with any person you love? You never master them, and as much as you learn and live together, there forever remains that beautiful blur behind their eyes that tells you there is always more – and your love touches the mystery even if your thought cannot. So much more so with God. As the arts prime us in wonder, and philosophy is fueled by that wonder, religion tells us why.  Vere mirabilis Deus.

 

The Balboa Moment

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In the autumn of 2013, I spent a night in Panama City on my way from Brazil to a sabbatical at Harvard Divinity School. Such pauses turn an otherwise burdensome 12 hour ordeal into two more endurable six hour flights. Although an acquaintance from Brasilia had recently been bludgeoned on the streets of Panama and spent months in a hospital recuperating, I still decided to go. Early the next morning, I took to the streets to stretch my legs before re-boarding the big metal bird. And on my walk, I ran into Balboa.

Vasco Núñez de Balboa (for those not up on their conquistadorology) was one of the more admirable of the Spanish explorers of the early 16th century. You can read his story on wikipedia if you’re in doubt. He is famous in eurocentric narratives for being the first European to lay his eyes on the ‘Mar del Sur’ (the ‘southern sea’), as he christened the huge body of water which lay to the south of his perch on a Panamanian hill. That this southern sea turned out to be easily the biggest body of water on earth explains why I performed my own christening – albeit not of a sea, but of an idea.

In this era of Europe-bashing, I am (as my students know only too well) a ‘Euro-apologist’. I don’t require my listeners to excuse the multiple misdeeds committed by Europeans throughout the world, or all of its bad ideas, for I readily include the inhabitants of that small westernmost appendage of the vast Eurasian landmass within the vortex of our fallible human nature. We got Bach, but then we got Hitler; Aristotle, but also Marx; the vistas of Aquinas, but then the abysses of Freud. The best may come from Europe, but so does the worst. No tree stands in the sun without casting a shadow. Still, Europe’s tree, I would venture to guess, tends to to outgrow its shadow as no other.

But back to Balboa. After admiring the somewhat bombastic posture of the statue, I bent over to read the inscription. The date gave me a start: he was there in the autumn of 1513, exactly 500 years before the moment in which I was standing before his icon. I thought to myself: this is important, and I had better pay attention. Occasionally in life a convergence of factors configures into a metaphor of lifelong application, and this was one of them. Our Spaniard, exactly half a millennium before, had opened his eyes and seen something that cast all of his previous assumptions about reality into a new and immeasurably larger context. The poor man was later embroiled in local colonial conflicts and executed, probably unjustly, without ever personally carrying his new vision back to Europe. Folks learned about the new ocean anyway, but I doubt that even today we have entirely gotten the message.

For me, to live philosophically means being always poised for the next ‘Balboa moment’. Something as huge as the Pacific Ocean may be just around the corner from your recently concluded interpretation of reality. For those whose world-view, or religion, has already painted the final details and answered the last questions about the universe, I have little sympathy. Aristotle and Aquinas – my heroes – kept their horizons open-ended, and refused to impose arbitrary criteria on what reality can be or do. For them it is not ‘history’ or ‘language’ or ‘logic’ or even ‘experience’ that must ultimately measure the realness of the real, but being. And being – implicitly for Aristotle, and explicitly for Aquinas – is ultimately personal in its highest reaches, since persons are the fullest realizations of what can be. They are, by definition, open to literally everything. And persons manifest this openness because they are both intellectual and volitional, meaning both coherent and surprising. And anything that is, or can be, will not be excluded in principle – at least as a remote possibility – in a world created by One who is Being Itself. Compared to His possibilities, the Pacific is just a puddle.

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The bud of wonder — O broto do deslumbramento

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The bud of wonder, the flower of the arts, the fruit of philosophy and (as ultimate reboot:) the seed of religion

From the first moment in which a child’s sensorium is awakened to wonder–the great source of all the arts of beauty, philosophies of truth, and quests of the ultimate good–it remains rooted forever in the human heart. But like all roots, it can be forgotten. Song and story should flourish (from fable and nursery rhyme to the music of Bach), rational reflection later ripen like a fruit (from the rampant ‘why’s’ of a child to the meditations of a Chinese lohan), and finally, from this fruit should emerge the seed of religious quest, where wonder turns slowly into awe (as Saul became Paul). The call of wonder from within each of these domains can easily fade if not disciplined according to the contours of its own energies; art can degrade into rootless technologies (in which means replace ends), philosophy into isolated ‘sciences’ (in which wisdom drowns in information) and religion into ‘spiritualities’ (in which sanctity cedes to ‘states of consciousness’). The three homes of wonder are best preserved by staying in communion one with the other. This is what I understand to be disciplined wonder. As ever-new technologies, individual sciences and multiple spiritualities fill the world, true wonder is threatened by titillations and curiosities, and the pseudo-wonder of mere bigness and pure power. The arts, philosophy and religion were the unwilling progenitors of these modern obsessions, and only they can corral their dissipated productions back into the context of the true, the good and the beautiful.

O broto do deslumbramento, a flor das artes, o fruto da filosofia e (como o último relançamento) a semente da religião

A partir do primeiro momento em que o aparelho sensorial da criança é despertado para o deslumbramento – a grande fonte de todas as artes da beleza, as filosofias da verdade e buscas do bem supremo –, este permanece para sempre enraizado no coração humano. Mas, como todas as raízes, pode ser esquecido. Canções e estórias podem florescer (desde as fábulas e cantigas infantis até a música de Bach), a reflexão racional pode amadurecer como uma fruta (desde os frenéticos “porquês” de uma criança até as meditações de um Iohan chinês) e, finalmente, desta fruta pode emergir a semente da busca religiosa, em que o deslumbramento transforma-se lentamente em adoração (como Saulo se transforma em Paulo). O chamado do deslumbramento em cada um desses domínios pode facilmente morrer se não for disciplinado segundo os contornos de suas próprias energias; a arte pode degradar-se em tecnologias superficiais (nas quais os meios substituem os fins), a filosofia em ‘ciências’ isoladas (nas quais a sabedoria afoga-se na informação), e a religião em ‘espiritualidades’ (nas quais a santidade cede lugar aos ‘estados de consciência’). Os três lares do deslumbramento são mais bem preservados pela comunhão contínua um com o outro. Isto é o que eu entendo por deslumbramento disciplinado. Assim como as sempre novas tecnologias, ciências individuais e múltiplas espiritualidades enchem o mundo, o verdadeiro deslumbramento é ameaçado por flertes e curiosidades, e pelo pseudo-deslumbramento da mera grandeza e do puro poder. As artes, a filosofia e a religião foram os progenitores indesejados dessas obsessões modernas, e apenas elas podem encurralar suas crias dispersas de volta ao contexto do verdadeiro, do bom e do belo.